O BCE não quer repetir o erro de 2022, quando chamou à inflação "transitória" e depois teve de subir os juros a toda a velocidade. Desta vez, o banco central promete agir mais depressa.
Havia uma sensação de tranquilidade instalada em Frankfurt. Christine Lagarde repetiu por diversas vezes que a inflação estava “num bom lugar”, o Banco Central Europeu (BCE) tinha cortado as taxas de juro em 200 pontos base por oito vezes consecutivas até junho do ano passado, e a política monetária da Zona Euro parecia ter finalmente encontrado o seu ponto de equilíbrio.
Depois vieram os bombardeamentos dos EUA e de Israel ao Irão a 28 de fevereiro e com eles o escalar do conflito no Médio Oriente, transformando esse “bom lugar” numa sala de pânico. É neste cenário que o Conselho de Governadores do BCE, do qual faz parte Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, esteve reunido desde quarta-feira, em Frankfurt, para decidir o rumo das taxas de juro da Zona Euro.
A decisão será anunciada ao início desta tarde e deverá confirmar uma nova pausa das taxas de juro, mantendo assim a taxa de facilidade permanente de depósito nos 2%, a taxa das operações principais de refinanciamento nos 2,15% e a taxa da facilidade permanente de cedência de liquidez nos 2,4% – os mesmos níveis que vigoram desde 11 de junho do ano passado, quando terminou o ciclo de oito descidas consecutivas que reduziu o custo do dinheiro de 4% para o atual mínimo.
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O que era uma reunião de rotina tornou-se, nas últimas semanas, num dos momentos mais complexos da política monetária europeia desde 2022. Tudo começou no final de fevereiro, quando os ataques israelitas e norte-americanos ao Irão sacudiram os mercados energéticos globais. A cotação do Brent disparou cerca de 55% e o preço europeu do gás natural (TTF) subiu aproximadamente 71% desde o início das hostilidades.
Esta quarta-feira, um novo choque: o Irão confirmou que o seu gigantesco campo de gás South Pars foi atingido pelos bombardeamentos, e Teerão ameaçou retaliar contra infraestruturas energéticas no Qatar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.
A Europa, grande importadora de energia, está particularmente exposta a estas disrupções. O euro, que chegou a negociar acima dos 1,2 dólares no final de janeiro, caiu para cerca de 1,14 dólares, encarecendo ainda mais as importações, incluindo energia. Mas a mais surpreendente consequência desta escalada foi a viragem radical das expectativas dos mercados financeiros.
Se, há apenas algumas semanas, os investidores esperavam novos cortes de juros por parte do BCE, hoje o cenário inverteu-se por completo: os swaps de taxas de juro passaram a incorporar 50 pontos base de aperto monetário até ao final de 2026, o equivalente a dois aumentos de 25 pontos base. Ainda assim, os economistas mais cautelosos avisam que os mercados podem estar a exagerar.
Entre os analistas e economistas, a conclusão é amplamente partilhada de que o BCE não vai mover as taxas esta quinta-feira, mas vai mudar o tom.
Grant Slade, economista internacional da Morningstar, considera que “os mercados financeiros reagiram de forma excessiva” e que, assumindo que o conflito no Médio Oriente seja relativamente curto, “um novo corte de juros no final de 2026 ainda é possível à medida que o impacto inflacionista da guerra se dissipe ao longo dos próximos dois a três trimestres”.
“É tempo de instalar uma sala de pânico no ‘bom lugar’ do BCE”, escreveu Carsten Brzeski, economista-chefe do banco holandês ING e um dos analistas mais acompanhados na Europa.
Na sua análise de pré-reunião, Carsten Brzeski recorda que a guerra no Médio Oriente e a subida dos preços do petróleo evocam as memórias mais traumáticas do BCE nos últimos anos: o choque energético de 2022, quando o banco central demorou demasiado a agir, chamou à inflação um fenómeno “transitório” e depois foi forçado a subir as taxas de forma agressiva e acelerada.
“O erro de 2022 ficou gravado na memória institucional do BCE”, sublinha economista-chefe do ING, notando que, desta vez, o banco central não se pode dar ao luxo de repetir a mesma avaliação. Se o Estreito de Ormuz ficar bloqueado durante vários meses e o petróleo atingir os 110 a 120 dólares por barril, “consigo imaginar o BCE a aumentar as taxas de juro uma ou duas vezes este ano”, admite.
Pressão sobre os preços e sobre o crescimento económico
A análise de Michael Krautzberger, diretor de investimento global da Allianz Global Investors, é igualmente reveladora. Numa nota enviada aos seus clientes esta quarta-feira, o gestor alerta que a subida acentuada dos preços do petróleo e do gás cria “um desafio clássico de choque na oferta: preços mais elevados e crescimento mais fraco”.
Os modelos da Allianz GI preveem que a inflação, que se fixou em 1,9% em fevereiro, suba para 2,4% em março e atinja cerca de 3% em maio, mantendo-se acima do objetivo de 2% do BCE até 2027.
As novas projeções macroeconómicas da equipa técnica do BCE, que serão também divulgadas esta quinta-feira, ficarão desatualizadas logo à nascença, uma vez que o prazo para recolha de dados foi anterior ao início do conflito.
Por isso, Michael Krautzberger antecipa que o BCE publique cenários adicionais que ilustrem os riscos de subida para a inflação, medida já sinalizada pelo governador do banco central holandês, Olaf Sleijpen.
Ulrike Kastens, economista sénior do DWS, considera que “a subida da inflação vista em 2022 e 2023 não se irá repetir” mas reconhece que “os aumentos de taxas estão a tornar-se mais prováveis, enquanto os cortes saíram da mesa”. Quanto ao ritmo, sublinha que “o BCE provavelmente atuaria hoje mais rapidamente do que em 2022 para travar as expectativas de inflação numa fase inicial”.
Num mundo de preços mais altos e crescimento mais fraco, apertar a política monetária pode agravar a desaceleração; não fazer nada arrisca deixar a inflação escapar ao controlo.
A Allianz GI vai na mesma direção, esperando “uma vigilância calma”, com o “BCE a sinalizar que está a acompanhar de perto os dados da inflação e está preparado para agir com rapidez e decisão, se necessário.”
Membros mais conservadores do Conselho de Governadores como Isabel Schnabel, Joachim Nagel, Madis Müller e o vice-presidente cessante Luis de Guindos já alertaram explicitamente para os riscos ligados às expectativas de inflação, preparando o terreno para uma linguagem mais musculada. E o quadro é ainda mais complexo porque a guerra não afeta apenas a inflação, mas também pesa sobre o crescimento económico.
O Deutsche Bank reviu recentemente em baixa a previsão para a economia alemã em 2026, de 1,5% para 1%, argumentando que a subida dos preços da energia vai “penalizar a balança comercial, travar o consumo privado e agravar os desafios de competitividade da indústria alemã”. O Instituto Ifo estima que, num cenário de escalada, o conflito pode retirar 0,8 pontos percentuais ao crescimento alemão nos próximos dois anos.
Para a economia da moeda única estas não são boas perspetivas, dado que a Alemanha continua a ser o motor da economia da Zona Euro, e qualquer efeito sob Berlim tem consequências diretas sobre os restantes Estados-membros.
É este o dilema com que Lagarde, os 21 governadores de bancos centrais do Eurosistema e os cinco membros do Conselho executivo do BCE se deparam nesta reunião: num mundo de preços mais altos e crescimento mais fraco, apertar a política monetária pode agravar a desaceleração; não fazer nada arrisca deixar a inflação escapar ao controlo.
A resposta, pelo menos por agora, deverá ser a de quem instalou uma sala de pânico mas ainda não a ocupou, mantendo-se de olhos bem abertos e dedo próximo do botão à espera de perceber qual o próximo movimento da guerra.
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