Há uma década os ativos financeiros britânicos registavam quedas fortes com o choque do Brexit. A bolsa recuperou, mas a libra não e Londres perdeu importância entre as capitais financeiras.
- O referendo ao Brexit, realizado há 10 anos, surpreendeu muitos, incluindo profissionais financeiros que esperavam a vitória do Remain, resultando em reações imediatas nos mercados.
- Após a vitória dos eurocéticos, a libra desvalorizou cerca de 8% e o FTSE 100, embora tenha caído inicialmente, recuperou rapidamente devido à sua composição global e receitas em dólares.
- A instabilidade da libra e a perda de competitividade da economia britânica, estimada em uma redução do PIB entre 3% e 8%, têm consequências duradouras para o Reino Unido e sua atratividade para investidores.
O dia foi calmo, mas a noite de ansiedade e o rescaldo de incredulidade. “Não me passava pela cabeça que o lado do Leave fosse ganhar o referendo”, recorda ao ECO Ricardo Evangelista, diretor da corretora ActivTrades, sobre as emoções que sentiu há 10 anos, no dia do referendo ao Brexit. O português, que nessa altura já vivia em Londres há 15 anos e trabalhava na área financeira há oito, lembra-se que “no dia do referendo estávamos muito calmos, confiantes de que o lado do Remain iria ganhar e este falso sentimento de segurança verificou-se porque tanto as sondagens como as casas de apostas apontavam para esse resultado“.
A tranquilidade foi expressa também nos mercados. “Depois de alguma precificação do risco durante a campanha, no dia da votação os mercados estavam bastante positivos, com a libra a subir face ao dólar e ao euro, e o FTSE 100 e outros índices acionistas europeus a fecharem com ganhos“, afirma, adiantando que não tem memória de grandes situações de stress por parte dos clientes durante esse dia.
Acompanhou a informação que ia saindo pela noite dentro e, “quando se confirmou a vitória dos eurocéticos, foi um choque enorme”, partilha. “No dia seguinte, sim, vivemos momentos mais tensos, com a libra a perder cerca de 8% face ao dólar, enquanto o FTSE e outros índices acionistas abriram com gaps significativos, abaixo do preço de fecho da sessão anterior”.
O FTSE recuperou precisamente porque não reflete de forma direta a economia britânica, sendo composto sobretudo por empresas de alcance global, com receitas em moeda estrangeira, principalmente dólares, o que também ajudou, inflacionando os resultados reportados numa libra desvalorizada
Ainda assim, houve uma diferença no comportamento entre esses dois ativos financeiros britânicos no dia 24 de junho de 2016 e que acabaria até por ser, de certa forma, premonitória. O índice acionista composto pelas 100 maiores empresas cotadas britânicas desceu 3,15% esse dia e 2,55% na sessão seguinte (a 27 de junho) mas acabou por recuperar para o nível pré-referendo na duas sessões seguintes, antes de registar subidas nos cinco dos seis meses seguintes e terminar 2016 com um ganho anual de 14,4%.
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“A principal justificação pode parecer paradoxal”, sublinha Ricardo Evangelista. “O FTSE recuperou precisamente porque não reflete de forma direta a economia britânica, sendo composto sobretudo por empresas de alcance global, com receitas em moeda estrangeira, principalmente dólares, o que também ajudou, inflacionando os resultados reportados numa libra desvalorizada”.
Gonçalo Pina, professor associado de economia internacional na ESCP Business School, em Berlim, sublinha ao ECO que o FTSE 100 “é pesado em energia, banca e mineração, que têm beneficiado da subida dos preços das matérias-primas e das taxas de juro“. Também vinca que muitas empresas faturam em dólares no estrangeiro, e por isso uma libra fraca até valoriza: “É preciso comparar em dólares e aí as perdas relativas são mais claras”.
“Ainda assim, ao longo da década o FTSE ficou atrás de Wall Street e da Europa continental, e o índice não é a economia toda”, nota o professor de economia.
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Libra instável afasta negócios
Para Gonçalo Pina, “a libra já não era muito importante antes do Brexit, mas era estável“. Caiu logo a seguir ao referendo e nunca recuperou o nível anterior face ao dólar e ao euro, vinca. “O problema principal não é o nível, é a instabilidade – uma moeda que flutua muito torna mais caro e mais incerto fazer negócios internacionais com o Reino Unido”.
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A libra esterlina entrou numa espécie de ciclo vicioso, a sua instabilidade e desvalorização prejudicou a economia, enquanto essa fraqueza económica abalou o estatuto da moeda. Ricardo Evangelista vinca que a economia sofreu muitos ventos contrários. “Estima-se que o Brexit tenha reduzido o PIB britânico entre 3% e 8% face ao que teria sido observado caso o Reino Unido tivesse permanecido na União Europeia, devido à menor atratividade da economia para investidores estrangeiros, à perda de competitividade das exportações e a uma polarização política que tem dificultado uma governação capaz de estimular o investimento no país”, explica.
“Perante este cenário, a procura por libras nos mercados cambiais tem diminuído, refletindo-se em desvalorizações“, conclui.
Bancos perderam o ‘passaporte’ para a UE
“A City renasceu mais uma vez, tornando-se praticamente o centro financeiro mais poderoso e voltado para o exterior de todo o mundo”. Quando Margaret Thatcher proferiu esta frase na inauguração do Canary Wharf – um segundo polo de arranha-céus ocupados por bancos e outras instituições da ‘cidade’ financeira – a então primeira-ministra dificilmente poderia imaginar o dano que o seu próprio partido conservador acabaria, anos mais tarde, por provocar a esse poderio londrino ao convocar a realização do referendo ao Brexit.
João Moreira Rato, atual presidente do Instituto Português de Corporate Governance e ex-presidente do IGCP (a agência de gestão de tesouraria do Estado), trabalhou nessa ‘City’ entre 2000 e 2012, mais precisamente na banca de investimento, em várias instituições incluindo o Goldman Sachs, o Lehman Brothers e o Morgan Stanley. Londres ainda domina o mundo financeiro, admite, mas reconhece que “vai-se tornando lentamente a localização menos interessante“.
Londres ainda domina, de certa forma, porque é grande, mas perdeu algumas capacidades, alguma competitividade, por exemplo o ‘passporting’ que existia antes, o número de IPO [Ofertas Públicas Iniciais] desceu
“Ainda domina, de certa forma, porque é grande, mas perdeu algumas capacidades, alguma competitividade, por exemplo o passporting que existia antes, o número de IPO [Ofertas Públicas Iniciais] desceu”, lamenta. “Continua a existir muito interesse em Londres, em áreas de inovação específicas, em áreas de private equity, portanto, Londres continua a ser uma cidade importante, mas não como antes“.
Gonçalo Pina, do ESCP Business School, concorda que Londres perdeu competitividade. “Por exemplo, Amesterdão ultrapassou Londres como maior centro de negociação de ações da Europa, porque a UE deixou de reconhecer a negociação de ações em euros feita em Londres“, diz, reconhecendo contudo que em termos de empregos a saída foi menor do que o anunciado.
Londres continua a ser um grande centro financeiro, mas perdeu terreno. “Os bancos perderam o ‘passaporte’ que permitia operar em toda a União Europeia a partir de Londres e tiveram de abrir filiais em Dublin, Paris ou Frankfurt, é um dos pontos onde o efeito é mais visível”, sublinha o economista.
Para Ricardo Evangelista, da corretora ActivTrades, os efeitos foram também muito tangíveis. “Curiosamente, depois do referendo tornei-me mais britânico através da obtenção da nacionalidade, algo que fiz para mitigar a incerteza criada pelo Brexit”, refere.
“Mais tarde, em janeiro de 2021, após o fim do período de transição, a ActivTrades viu-se obrigada a abrir uma subsidiária na União Europeia”, adianta. “Escolhemos Portugal para sediar essa operação, que atualmente dirijo e a partir da qual prestamos serviços a clientes residentes no Espaço Económico Europeu”.
“Por outro lado, a presença do grupo no Reino Unido é hoje bastante mais reduzida do que era antes do Brexit. Em 2016, éramos cerca de 150 colaboradores, enquanto atualmente a ActivTrades UK conta apenas com aproximadamente 20 funcionários”, conclui.
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Brexit. O ‘Footsie’ recuperou, mas a ‘City’ encolheu e o ‘Pound’ perdeu terreno
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