Entre reuniões adiadas e agendas de missões empresariais ajustadas, investidores e CEO portugueses mostram-se cautelosos. Cenário no Dubai ou Riade difere de Doha, onde o conflito trava a dinâmica.
Os investidores e empresários portugueses que estão no Médio Oriente mantêm-se cautelosos e a lutar por manter a normalidade nos negócios. Precisamente uma semana depois de os Estados Unidos e Israel terem desencadeado um ataque contra o Irão, que Teerão retaliou, há um sentimento de “mixed feelings” perante o contexto geopolítico, mas o trabalho continua. Só as próximas decisões de investimento estratégico é que poderão ficar em suspenso.
O dia-a-dia das organizações salvaguarda-se com o teletrabalho, até porque praticamente todas as reuniões presenciais foram desmarcadas. A agenda das empresas reajustou-se perante um contexto de guerra sem previsão de terminar, como diz ao ECO o presidente do Conselho Empresarial Portugal-Arábia Saudita, Abílio Alagôa da Silva.
“Até ao momento, não temos conhecimento de negócios cancelados ou investimentos abortados em consequência direta desta situação. O que se tem verificado é sobretudo algum ajustamento de agendas e maior prudência em deslocações ou reuniões presenciais, algo que é natural numa fase inicial de maior incerteza”, diz o líder do Conselho Empresarial Luso-Saudita.
“Tínhamos previstas duas missões empresariais setoriais à Arábia Saudita, bem como uma missão organizada em articulação com alguns municípios portugueses. Face à evolução da situação, essas iniciativas poderão sofrer um adiamento de algumas semanas, essencialmente por razões logísticas e de prudência”, refere Abílio Alagôa da Silva, que tinha uma viagem para Riade marcada para o início desta semana. O voo para a cidade onde costuma estar mais tempo em trabalho acabou por ser cancelado e, neste momento, decidiu avançar com reuniões no Brasil enquanto aguarda indicações para poder voltar ao Golfo Pérsico.

Abílio Alagôa da Silva garante que, para já, não tem qualquer registo de “impactos estruturais nas operações empresariais portuguesas na região, embora seja natural que possam ocorrer pequenos atrasos pontuais em processos administrativos ou na constituição de empresas, sobretudo quando dependem da deslocação física de administradores ou investidores”.
É o caso de Márcia Pereira, fundadora e CEO da Bandora Systems, que iniciou operações no Médio Oriente em outubro. Perante as restrições aéreas e o desaconselhamento de viagens, adiou os planos de voar para Riade. “Tenho mantido contacto diário com os nossos parceiros e colaboradores, procurando ultrapassar a distância e garantir a continuidade e o ritmo do trabalho”, conta a empreendedora.
Doha “sofre mais” que Riade
O empresário investidor Nuno Anahory, membro do conselho executivo da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa, acredita que, entre as geografias da região, é Doha que “está a sofrer mais pela proximidade geográfica ao Irão”. “Os ataques ao Qatar estão a ser instrumentais para provocar um dano maior na economia mundial pelo fornecimento do gás e petróleo também. O Qatar até já suspendeu o fornecimento de GNL – Gás Natural Liquefeito para a Europa”, recordou o presidente da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social no Médio Oriente.
A CEO da Bandora, Márcia Pereira, corrobora esta tese: “Noto diferenças claras no ritmo e no comportamento de trabalho entre o Qatar e a Arábia Saudita. No Qatar, o impacto tem sido mais evidente. Temos recebido informação sobre o cancelamento de alguns eventos, nomeadamente as celebrações do Dia Internacional da Mulher, não estão a ser agendadas novas reuniões e, embora as já marcadas se mantenham, a circulação de emails diminuiu e os tempos de resposta são mais longos”. Por outro lado, os parceiros da Arábia Saudita, fruto da menor colateralidade da guerra, vão respondendo a emails e chamadas telefónicas.
Por essa mesma razão, Nuno Anahory, em declarações a partir de Lisboa, e com familiares, amigos e parceiros de negócios retidos pelos entraves aéreos, mostra-se apreensivo para os próximos tempos: “É business as usual, mas o ambiente de negócios — tenho que admitir — está um pouco em suspenso com toda esta situação. Ou seja, dá-se continuidade aos projetos que estão ongoing [em curso], mas acho que há decisões estratégicas que vão ficar on hold [em suspenso]”.
Até porque, para evitar uma corrida aos depósitos ou alterações significativas nas contas bancárias, os bancos locais estão a travar movimentações financeiras além-fronteiras, conta Nuno Anahory. “Sei que os bancos dos Emirados estão a retrair as transferências bancárias internacionais e informaram clientes, com uma mensagem corporativa e do Governo, de que as transferências não estavam operacionais devido ao ataque do míssil à central de base de dados. É para tentar mitigar algum alarmismo e pânico que as pessoas possam ter e começarem a transferir dinheiro para fora do país”, explica.
Os bancos dos Emirados estão a retrair as transferências bancárias internacionais. É para mitigar algum pânico que leve as pessoas a começarem a transferir dinheiro para fora do país.
No fundo, sente “mixed feelings” porque “são tempos muito difíceis para todos”, mas a vida quotidiana mantém-se: os cidadãos estão em regime de teletrabalho e as escolas continuam com aulas, mas fazem-no (também) em formato online.

É a mesma sensação que tem Francisco Paiva, que se mudou do concelho de Torres Vedras para o Dubai há sete anos. Na última semana, o manager responsável pelo departamento de recursos humanos de Magnitt, uma empresa de business intelligence para capital de risco, tem trabalhado a partir de casa, seguindo não só as recomendações da empresa como das autoridades do Dubai, das quais recebe frequentemente avisos no telemóvel. “Tem sido uma semana diferente, devido à incerteza causada pelos ataques ao país, mas sinto-me seguro com a proteção oferecida pelo governo dos Emirados Árabes Unidos”, garante o consultor de RH.
Dubai capta empresas portuguesas em semana de conflito
O presidente do Portuguese Business Council Dubai, Paulo Paiva dos Santos, afirma que o emirado “tem um historial sólido de gestão de crises” e destaca o “papel exemplar” do embaixador Fernando Figueirinhas.
“Há alguma apreensão, o que é natural, mas o clima geral é de confiança no governo local e na capacidade das autoridades do emirado para lidar com situações de instabilidade regional. As pessoas sabem que o sheik rapidamente repõe a normalidade. Este conhecimento e confiança ajudam à ausência de reações precipitadas por parte da comunidade estrangeira residente”, diz.
Salientando que “não houve um ataque direto ao Dubai”, Paulo Paiva dos Santos revelou ao ECO que ainda esta semana o conselho empresarial ganhou dois novos membros. Sem apresentar detalhes, disse que um deles “é uma grande empresa portuguesa, conhecida de todos”.
Importa também realçar que, desde meados de fevereiro, esta região do globo está a celebrar o Ramadão, que é um período anual em que, tipicamente, o ritmo das empresas abranda. A semana de trabalho tende a ser de apenas três ou quatro dias para privilegiar o descanso, mas assim que termina este ritual de fé no calendário Islâmico volta tudo a acelerar nos escritórios.
Não se tem notado uma diminuição drástica de negócio. A intensidade que existe fora desta época festiva do Ramadão diminui, portanto a redução acaba por acontecer quase de forma natural.
António Azevedo Campos vive no Médio Oriente desde 2008 e na Cidade do Kuwait há cerca de uma década. Enquanto membro do conselho consultivo da embaixada portuguesa em Abu Dhabi, que trata dos assuntos consulares e diplomáticos do Kuwait, tem estado a apoiar nos repatriamentos. “É a minha maior preocupação. Depois, se as pessoas estão bem, os negócios também funcionam bem”, assegura.
Negócios esses que trata por tu, até porque é presidente do Portuguese Business Council Kuwait, sócio fundador e CEO da Hub2Energy — uma consultora dedicada à indústria petrolífera e energética — e acionista e administrador da AGM Kuwait, uma construtora especializada em acabamentos de luxo. “É business as usual com precaução. Os negócios têm seguido uma certa normalidade, à semelhança dos períodos do Covid-19, em que muito do trabalho é feito remotamente”, conta António Azevedo Campos, que se encontra retido no Sri Lanka, para onde foi se deslocou em lazer para aproveitar os feriados de 25 e 26 de fevereiro, que celebram o fim da ocupação iraquiana do Kuwait em 1991.
“Há uma resiliência bastante grande que, de certa forma, caracteriza os negócios no Médio Oriente em geral. As pessoas sabem ajustar-se às condições, seguindo as diretrizes das autoridades. As coisas não param por causa desta situação, embora haja limitações normais”, completa António Azevedo Campos.

Ideia partilhada por José Pereira Leal, investidor, gestor de empresas do ramo científico e ex-vice-presidente da P-Bio – Associação Portuguesa de Bioindústria, que está a montar um projeto em Doha chamado Health Tech Qatar. Ao ECO, admite que teve de adiar algumas reuniões e viagens, mas continua focado em “construir” esta iniciativa e confiante de que “a visão de longo prazo e visão” que o atraiu – e ao seu sócio – para o país árabe “se manterá depois de mais esta crise”.
Ao longo destes sete dias de conflito, o Irão retaliou contra alvos em Telavive e bases norte-americanas tanto na Arábia Saudita como no Bahrein, Emirados, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque. A comunidade empresarial portuguesa nestes países, contactada pelo ECO, garante estar a seguir o desenvolvimentos em articulação com embaixadas, consulados, Conselho da Diáspora Portuguesa, Aicep e Governo, através do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
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“Business as usual” com cautela: portugueses no Médio Oriente enfrentam guerra sem parar negócios
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