O plano que Rui Costa apresenta aos sócios do Benfica tem a assinatura de Nuno Catarino, e assenta em menos dívida, mais 53% da receita operacional e os adeptos a gastarem o dobro por jogo.
A escassos dias das eleições mais concorridas da história de 121 anos do Benfica, Nuno Catarino, CFO da Benfica SAD e candidato pela lista de Rui Costa a um novo mandato, traça um plano financeiro ambicioso para os próximos cinco anos: fazer crescer as receitas consolidadas para 500 milhões de euros e baixar o passivo em 100 milhões de euros nos próximos cinco anos. Mas mais do que números, o administrador financeiro da SAD benfiquista quer mudar a forma como o clube gera dinheiro. A ideia é reduzir para metade a dependência da venda de jogadores, fazendo crescer os rendimentos operacionais sem transações de atletas dos atuais 290 milhões de euros para 445 milhões. “Queremos reduzir a dependência da venda de jogadores para metade, ou menos metade, do que temos hoje em dia”, afirma em entrevista ao ECO.
Para alcançar essa meta, Nuno Catarino e a sua equipa traçam um plano estratégico que, entre outros indicadores, assume a duplicação da faturação do merchandising, a renegociação dos contratos de patrocínios — com destaque para a Adidas, cujo acordo “seguramente vamos duplicar”, diz — e garantir receitas dos direitos televisivos acima dos 50 milhões de euros anuais para as próximas duas épocas, período que antecede a entrada em vigor da centralização dos direitos televisivos.
Nuno Catarino diz que é uma prioridade da gestão baixar os Fornecimentos e Serviços Externos (FSE), sublinhando que “já foi este ano e vai continuar a ser. A nossa prioridade é controlar custos e garantir que os custos não crescem acima daquilo que é taxa de inflação”.
O plano assenta numa equação aparentemente simples: fazer crescer a receita “à volta de 10% ao ano” enquanto os custos crescem “bastante menos”, criando uma margem que permita, literalmente, “pagar passivo”, particularmente a dívida líquida, que praticamente duplicou nos últimos cinco anos, passando de 100,9 milhões de euros na época 2020/21 para quase 197 milhões no último exercício.
Uma dívida que não para de crescer
Apesar de reconhecer que o valor é elevado que tem de baixar, Nuno Catarino aproveita para “desmistificar” a forma como se deve olhar para o endividamento de um clube de futebol. Segundo o CFO da Benfica SAD, a dívida líquida financeira — aquela que aparece nos 197 milhões de euros nas contas da SAD — é apenas uma das três componentes da dívida real do Benfica.
Além da dívida financeira a bancos e obrigacionistas, há a dívida líquida a outros clubes (pela compra e venda de jogadores) e a antecipação de receitas futuras, que acarreta sempre um desconto, como sucedeu pelo Benfica e por todos os clubes relativamente aos direitos televisivos negociados em 2015 com as operadoras.
Somando tudo, a dívida total do clube consolidada era de 241,5 milhões de euros no final da última época — um valor que até baixou face aos 300 milhões do ano anterior. “Baixámos em mais de 55 milhões a dívida total, baixámos em 20% esta dívida total do bolo”, sublinha.
O plano da atual administração do Benfica para atingir receitas de 500 milhões de euros em cinco anos passa por um crescimento de 53% das receitas operacionais (sem transações de jogadores) até 2030.
Esta redução resulta de uma estratégia deliberada por parte da sua equipa, que tem passado por substituir dívida mais cara (como o desconto de direitos televisivos que, no caso do Benfica, tem um custo de cerca de 5%) por dívida financeira mais barata.
Com acesso a financiamento bancário a taxas abaixo dos 5%, segundo dados de Nuno Catarino, o Benfica tem preferido recorrer a estas linhas em vez de incrementar as outras dívidas, podendo com isso garantir o pagamento antecipado de passes de jogadores por preços mais baixos. “Estou-me a lembrar de uma situação em que o clube aceitou que pagássemos mais cedo e com isso tivemos um desconto de 10%”, exemplifica, “e se depois precisarmos, vamo-nos financiar a 4,5% e assim tenho um ganho de 5,5% [10% do desconto menos 4,5% do custo de um financiamento]”, exemplifica.
A matemática dos populares FSE
Um dos pontos mais criticados na gestão financeira do Benfica tem sido o crescimento acelerado dos Fornecimentos e Serviços Externos (FSE), que subiram aproximadamente 55% nos últimos quatro anos. Mas Nuno Catarino garante que os números não são o que parecem. “No universo consolidado do Benfica, os FSE são de cerca de 78 milhões de euros”, esclarece, muito abaixo dos mais de 100 milhões que se falam. A explicação está na estrutura do grupo Benfica.
“Metade dos FSE da SAD são FSE internos. São pagamentos que são feitos ao próprio universo do Benfica”, revela o CFO da Benfica SAD. O exemplo mais evidente é a renda que a SAD paga ao Benfica Estádio pelo uso do Estádio da Luz – que anda à volta dos 30 milhões entre renda e mais alguns serviços associados — e que desaparece quando se consolidam as contas, porque é apenas uma transferência de dinheiro entre empresas do mesmo grupo.
O mesmo acontece com os royalties pela utilização da marca Benfica, “a rubrica que mais cresce nos últimos quatro anos em termos de FSE”, que representou 12 milhões de euros este ano mas que, nas contas consolidadas, “não existe”, clarifica. Sobre as vozes críticas de falta de transparência na discriminação destes custos, Nuno Catarino anuncia que, a partir do próximo ano, o Benfica vai apresentar “contas consolidadas a nível do clube, conjugando as empresas todas”.
Ainda assim, admite que trabalhou “rubrica a rubrica” para otimizar custos. O exemplo de maior sucesso foram as deslocações e estadas, onde, garante, o Benfica conseguiu uma redução de “quase 20%” através de negociação com fornecedores, revisão de protocolos de viagens e aumento da concorrência — o clube passou de dois para três operadores de viagens, refere.
Mas nem tudo correu como planeado. Em março, Nuno Catarino tinha projetado para as contas anuais uma redução dos FSE de 1% a 2% na SAD, mas as contas do último exercício mostraram um aumento de 7,1% desta rubrica. “Não conhecíamos ainda as despesas que íamos ter no Mundial de Clubes”, que representaram cerca de 2 milhões de euros, e houve “a transferência do futebol feminino” do clube para a SAD, que acrescentou mais 1,7 milhões de euros às contas, justifica. “Os custos, numa base comparável, estávamos à espera baixassem 1% e subiram 0,8% na mesma base”, refere, excluindo os fatores extraordinários.
Mesmo assim, garante que, caso Rui Costa se mantenha na liderança do Benfica, é uma prioridade da gestão baixar os FSE. “Já foi este ano e vai continuar a ser. A nossa prioridade é controlar custos e garantir que os custos não crescem acima daquilo que é taxa de inflação”, diz, sublinhando que, nos últimos quatro anos, “a receita operacional, sem transação de jogadores cresce 10% ao ano, e os custos crescem 6% ao ano: 10% versus 6%”.
Salto quântico para aumentar em 53% as receitas operacionais
Do lado das receitas, com um plano para os próximos cinco anos para chegar aos 500 milhões de euros, a estratégia da atual administração do clube e da SAD liderada por Rui Costa assenta numa operação corrente (sem transação de jogadores) a crescer como nunca o fez na sua história. Segundo Nuno Catarino, o plano é que as receitas operacionais consolidadas passem dos atuais 290 milhões de euros para 445 milhões projetados em cinco anos. Para alcançar este salto de 53%, o CFO da Benfica SAD revela que a sua equipa tem feito e continuará a fazer um exercício “rubrica a rubrica” com “várias equipas a trabalhar em várias linhas de receita”.
Deste bolo, revela que quase 40 milhões — mais precisamente 38 milhões de euros — virão do Benfica District, o projeto de expansão do Estádio da Luz e da zona envolvente, que terá um custo estimado acima dos 220 milhões de euros e que será financiado por um projet finance. No merchandising, Nuno Catarino refere que o objetivo é ainda mais ambicioso: duplicar as vendas, o que representará “mais cerca de 20 milhões de aumento de receita”. “Temos um plano perfeitamente definido de como é que vai crescer”, assegura em entrevista ao ECO, sem detalhar mais pormenores.
Outro salto significativo virá da renegociação do contrato com a marca desportiva que “veste” a equipa principal das águias, e que termina na atual época desportiva. Sem confirmar se será a Adidas ou outra empresa, o financeiro garante que o valor vai duplicar. “Seguramente vamos duplicar na marca oficial, no contrato da camisola da marca oficial. Mas isso também parece óbvio, porque estamos a vender quase o dobro das camisas que vendíamos há seis anos”, diz, ao mesmo tempo que refere também que está confiante de que irá conseguir um valor acima do que inicialmente tinha previsto.
Não queremos voltar a antecipar receita dos direitos televisivos. A prioridade em termos de dívida é ter dívida líquida financeira o mais aborrecida possível, aquela que fica ali no balanço.
Os patrocínios e a componente corporate também estão no radar do plano financeiro de Rui Costa. E há uma métrica específica que Nuno Catarino quer melhorar: a receita por adepto em dia de jogo. “Cada pessoa que vai ao estádio em média gasta hoje no Benfica 22 euros por jogo”, revela. O objetivo é aumentar esse valor para “mais perto dos 40 euros por jogo em cinco anos”, através de mais oferta de restauração e de serviços no estádio, bem como do aumento da componente corporate, revela.
Para sustentar esta ambição, Nuno Catarino aponta para os resultados do último ano. “Este ano, em todas as rubricas de receita, nós batemos recorde. Temos máximos históricos em todas. Temos no máximo histórico de quotização de sócios. Temos no máximo histórico de merchandising (…). Tudo o que seja sponsorship também estamos em máximos históricos.” A dinâmica de crescimento, garante, “é possível levar para a frente”.
Duas propostas para direitos televisivos acima de 50 milhões
Na área dos direitos televisivos — crucial para as receitas do Benfica nos próximos dois anos, antes da centralização — Nuno Catarino confirma que o clube tem “duas propostas montadas, não aprovadas, mas prontas a serem assinadas”. E garante que ambas apresentam valores “acima dos 50 milhões” de euros anuais.
A diferença entre as duas propostas está no modelo de negócio. Uma segue o formato atual, mais tradicional. A outra envolve “operadores mais inovadores no sentido que não têm presença estabelecida no mercado”, o que implica “discussão de variáveis que depende de assinantes e do que é que eles nos garantem” como ponto de partida. O problema desta segunda opção é temporal. “Dois anos não é muito tempo para alguém fazer um business plan, por exemplo, de angariação de clientes. (…) Tipicamente, quem quer fazer uma aposta num negócio de televisão novo precisa de algum tempo. Precisa de cinco anos. Quatro, cinco anos.”
Seja qual for a escolha das propostas, uma coisa está decidida: não haverá antecipação de receitas, como aconteceu com o último contrato. “Não precisamos”, diz, revelando que desde que chegou ao Benfica há cerca de um ano iniciou um “longo caminho para reduzir 92 milhões para zero este ano”, aludindo ao montante de direitos televisivos que o Benfica tinha descontado antecipadamente. “Ou seja, não queremos voltar a esse caminho. A prioridade em termos de dívida é ter dívida líquida financeira o mais aborrecida possível, aquela que fica ali no balanço.”
Esta decisão afasta também o Benfica do modelo que rivais como FC Porto e Sporting têm seguido, com operações de financiamento de longo prazo junto de investidores institucionais internacionais. “Esse tipo de operações faz sentido num contexto de um desenvolvimento, como um projeto, como o Benfica District, ou qualquer projeto de projet finance. Para a operação do Benfica, do dia-a-dia… não vimos grande vantagem, em boa verdade”, justifica Catarino.
Sobre o papel dos investidores americanos da Lenore Sports Partners (LSP), que detêm atualmente mais de 5% do capital da Benfica SAD, Nuno Catarino é claro: não fazem parte do plano financeiro. “O plano não considera nenhuma alteração de capital da SAD”, afirma. A estrutura acionista — com o clube a deter mais de 60% — mantém-se inalterada nos próximos cinco anos, de acordo com o plano de gestão da lista de Rui Costa.
Se podemos arranjar parceiros que nos ajudem a crescer no mercado internacional, que é o caso da Lenore Sports Partners, que têm mostrado bastante interesse em colaborar connosco, nomeadamente no mercado americano, coisa que nos interessa, temos de discutir.
Mas isso não significa fechar a porta a parcerias. “Se podemos arranjar parceiros que nos ajudem a crescer no mercado internacional, que é o caso destes (Lenore Sports Partners), que têm mostrado bastante interesse em colaborar connosco, nomeadamente no mercado americano, coisa que nos interessa, temos de discutir”, revela.
A diferença é que estas parcerias serão de mercado, não do Benfica. “Não estamos a falar de investidores para a SAD, o que estamos a analisar é, para alguns mercados onde a SAD quer explorar de uma forma diferente, ter investidores para esses mercados”, esclarece, revelando ainda que já houve “algumas conversas introdutórias” com a LSP e outros investidores americanos, mas sem compromissos. “É um parceiro que obviamente estamos a olhar, mas não é o único.”
Com custos financeiros a superarem os 25 milhões de euros, mas que Nuno Catarino garante que “este ano vão voltar a baixar, mais ou menos na mesma dimensão do ano anterior, cerca de 5 milhões de euros”, o Benfica prepara-se para entrar num novo ciclo, vaticina. Um ciclo onde, nas palavras do CFO da SAD dos encarnados, “o crescimento da receita seja superior ao crescimento dos custos” — a fórmula mágica para, finalmente, fazer baixar os 241,5 milhões de euros de dívida total que o clube transporta.
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“Cada adepto gasta 22 euros por jogo. Queremos chegar aos 40 euros em cinco anos”. CFO de Rui Costa explica estratégia
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