Não faltaram anúncios de parcerias e compras no início da cimeira NATO em Ancara que arrancou com um Fórum Industrial de Defesa. Trump insiste com o tema Gronelândia. Hoje é o dia dois.
Mark Rutte tinha prometido que a cimeira NATO em Ancara seria rica em anúncios de contratos para a indústria de defesa dos dois lados do Atlântico e o arranque do Fórum Industrial de Defesa na Turquia cumpriu. Tudo somado são mais de 50 mil milhões de dólares de investimento dos aliados NATO em projetos de vigilância aérea, espaço, capacidades anti-drones, mísseis ou satélites. A Ucrânia ‘ganhou’ um cheque de 570 milhões de euros de ajuda militar do Canadá. E Trump anunciou o levantamento de sanções à Turquia, acenando com a possível reentrada do país do “amigo Erdogan” no programa dos F-35.
O secretário-geral da NATO chegou a Ancara com uma missão clara: provar que os países aliados da NATO – entenda-se os europeus e o Canadá – estavam a cumprir com os compromissos de gastos em defesa assumidos em junho do ano passado, em Haia. Ou seja, caminhar no sentido de, até 2035, o investimento em defesa atingir os 5% do PIB e, com isso, ‘apaziguar’ Donald Trump.
O tema é um dos irritantes entre os EUA e os restantes aliados. Dias antes da cimeira, o presidente dos EUA apelidava de “ridícula” a desproporção do contributo do país, face aos restantes países, para a aliança militar. E quando aterrou em Ancara, além de um novo ataque à sua antiga aliada, Giorgia Meloni — que é “boa pessoa” mas fez um erro em não apoiar os EUA no conflito com o Irão —, Trump fez questão de recordar isso mesmo, bem como o interesse dos EUA na Gronelândia.
No ano passado, os gastos estritamente militares dos aliados europeus e Canadá aumentaram 20%, mas este ano o ritmo não será tão elevado. Estima-se que Europa e Canadá irão gastar 634 mil milhões de dólares (cerca de 555 mil milhões de euros), valor que compara com os 571 mil milhões (aproximadamente 500 mil milhões de euros) em 2025, ou seja, um aumento de 11%, segundo estimativa da NATO.
Este ano, os aliados europeus e o Canadá atingiram gastos militares de 2,53% do PIB, ligeiramente acima dos 2,31% em 2025, mas a ritmos muito diferentes. Polónia, Lituânia, Letónia, Estónia e Grécia foram os países que este ano já atingiram a meta dos 5% do PIB. Os Estados Unidos vão atingir 3,17% este ano, o mesmo nível do ano passado.
Chuva de anúncios e contratos de milhões de milhões
E a prova que os aliados estão a abrir os cordões à bolsa foi a verdadeira chuva de anúncios de contratos – uns com valores outros nem por isso –, com que o secretário-geral da NATO arrancou o Fórum Industrial de Defesa em Ancara.
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Capacidades anti-drones: 40 mil milhões de dólares
Comecemos pelo valor mais ambicioso: 40 mil milhões de dólares de investimento em capacidades anti-drone nos próximos cinco anos. “E, como essas capacidades exigem pessoal qualificado para operá-las, [os Aliados] também estão a comprometer-se a treinar cinco vezes mais operadores de drones nas suas forças armadas até ao final de 2027”, referiu Mark Rutte sobre o projeto que designou de “Drone Edge initiative”.
A NATO está a ampliar as suas capacidades de treino com drones, inclusive por meio de um projeto denominado ‘NATO Flight Training Europe’”, disse ainda o responsável. Finlândia, França e Suécia juntaram-se a este projeto, elevando para 20 o número de países aliados, com 16 centros de formação em oito países.
“Juntos, estamos a construir uma aliança preparada para o uso de drones. Estamos a aproveitar as mais recentes tecnologias inovadoras, a investir nas nossas indústrias de defesa transatlânticas e a aprender lições do mundo real a partir do campo de batalha na Ucrânia”, sintetiza.
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Vigilância aérea: 4,5 mil milhões para GlobalEye
Na vigilância aérea, a Aliança Atlântica anunciou igualmente reforço de capacidade. Vão comprar até 10 aviões GlobalEye da SAAB garantindo a vigilância e controlo aéreo, num negócio que poderá implicar um investimento na ordem dos 4,5 mil milhões de dólares. Até aqui, eram os americanos AWACS [Airborne Warning and Control System] da Boeing, a chegar ao fim da sua vida útil, a vigiar os céus.
O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, foi a Ancara para anunciar que França e Canadá iriam juntar-se à família GlobalEye. “A partir de 2027, irão vê-los a operar também a partir de bases aéreas suecas, em benefício da Aliança”, disse.
O valor do negócio foi avançado pelo CEO da Saab, Micael Johansson, tendo o mesmo referido aos jornalistas que a companhia sueca – que está a tentar vender caças Gripen a Portugal – tem capacidade para avançar com entregas em 2030, se um acordo for assinado em breve. O valor final de cada aeronave ainda não está fechado, mas deverá oscilar entre os 400 e os 450 milhões de dólares, referiu.
Mas os parceiros ‘americanos’ não foram esquecidos. A Noruega, a Dinamarca, a Finlândia e a Alemanha irão adquirir em conjunto “até cinco” aeronaves do tipo MQ-4C Triton, fabricadas pela norte-americana NorthropGrumman. Trata-se de uma aeronave não tripulada capaz de voar até 24 horas seguidas a uma altitude superior a 15 quilómetros, vigiando territórios a grande distância, destacou Rutte, embora o valor desta aquisição não tenha sido referido.
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Capacidade de reabastecimento aéreo powered by Airbus
No reabastecimento aéreo, não só a frota internacional de aviões cisterna MRTT da NATO vai receber o seu décimo Airbus A330 MRTT, aproximando-se do objetivo de 12 aeronaves, como a Finlândia juntou-se à iniciativa MRTT, composta por nove países. Neste campo, vários países da aliança estão ainda a lançar um projeto assente nos Airbus A400M.
“Os aliados também estão a lançar um novo projeto multinacional voltado para o Airbus A400M. Trata-se de uma capacidade de transporte aéreo estratégico de classe mundial. O A330 MRTT e o A400M irão proporcionar à Aliança duas frotas multinacionais de alta capacidade”, destacou Mark Rutte. Espanha, Bélgica, Croácia, França, Polónia, Turquia e Reino Unido são os países NATO envolvidos neste projeto da Airbus A4400M.
O secretário-geral destacou o projeto “made by NATO” como um “excelente exemplo de cooperação multinacional em ação”. “As plataformas da Airbus baseiam-se numa forte liderança industrial europeia, em estreita cooperação entre a NATO e a UE e em contribuições de parceiros industriais dos EUA. Mantêm o poder aéreo da NATO forte, credível e pronto para as próximas décadas”, argumentou.
Não foram avançados valores de investimento nestes projetos.
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Espaço: Satélites espanhóis da Constelação Atlântico vão fazer vigilância da costa
A fronteira espaço não foi esquecida. Um programa, envolvendo oito países — Dinamarca, o Canadá, a Finlândia, Alemanha, Noruega, Países Baixos, Suécia e Turquia —, para reforçar as capacidades militares nesse campo, o HALO, foi anunciado, bem como investimentos em satélites, assim como parcerias com o Canadá, para o lançamento espacial a partir de Nova Escócia. Espanha, através da Constelação Atlântico, também vai participar na vigilância costeira, anunciou Radmila Shekerinska, vice-secretária-geral da NATO.
O programa HALO pretende integrar satélites militares nacionais numa rede conjunta, criando uma “mega constelação interconectada” capaz de reforçar as comunicações militares, a recolha de informações e o rastreamento de mísseis, superando as “limitações de custo, tempo e cobertura das frotas de satélites” associadas às frotas de satélites operadas individualmente por cada país, esclarece a NATO.
Já Espanha aderiu ao Alliance Persistent Surveillance from Space (APSS), o 19.º país a juntar-se ao projeto lançado há dois anos na cimeira de Washington. “A Espanha contribuirá reforçando a vigilância costeira por meio de imagens de seus satélites da Constelação Atlântica”, adianta Radmila Shekerinska.
O Canadá tornou-se o 15.º membro da iniciativa STARLIFT, dedicada ao desenvolvimento de uma rede de capacidades de lançamento espacial que permita colocar satélites em órbita com maior rapidez a partir de diferentes bases de lançamento da Aliança. E a alemã Isar Aerospace assinou um acordo com a canadiana Maritime Launch Services para garantir acesso às infraestruturas do porto espacial na Nova Escócia, reforçando a capacidade de lançamento orbital. Segundo a vice da NATO, o acordo envolve 140 milhões de dólares.
A Turquia vai expandir as suas capacidades espaciais militares, com dois novos satélites de alta resolução, complementando o atual satélite de observação IMECE, a serem construídos pelo TÜBİTÁK Space Institute, num contrato de 300 milhões de dólares, referiu Radmila Shekerinska.
O país também assinou contratos com a empresa de defesa turca Aselsan para o desenvolvimento de satélites de órbita baixa e sistemas de comunicação militar, bem como para a aquisição e o desenvolvimento de sistemas de radar de alerta antecipado, no âmbito da arquitetura nacional integrada de defesa aérea “Steel Dome”. Tudo somado, dois contratos que implicam mais de 350 milhões de dólares de investimento.
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Mísseis, munições e potenciais parcerias entre indústria europeia e americana
A Aliança irá ainda procurar fabricantes para desenvolver munições genéricas, compatíveis e intercambiáveis de artilharia de 155 milímetros para os países membros, bem como outros produtos deste tipo de armamento. Seis nações Aliadas uniram-se para “desenvolver e fornecer, em larga escala, mísseis de cruzeiro e balísticos de baixo custo”, no âmbito do projeto “Strike Precision”. A Turquia também se comprometeu a adquirir um número significativo de mísseis de cruzeiro de longo alcance ATMÁCA, lançados a partir de plataformas terrestres.
“Ao todo, essas iniciativas totalizam um valor de aproximadamente de 1,6 mil milhões de dólares”, referiu Radmila Shekerinska.
A agência de compras da NATO (NPSA) “adquiriu um grande número de mísseis Patriot PAC-2 nos últimos três anos e está em processo de adquirir mais num futuro próximo. Também vemos os aliados a realizar mais ações conjuntas. Os Países Baixos e a Bélgica assinaram um memorando de entendimento para iniciar a aquisição conjunta de diversos sistemas essenciais de defesa aérea, e a Turquia está a investir na sua notável indústria de defesa para a produção de uma gama de sistemas de defesa aérea”, referiu a vice da NATO.
Um esforço que está a ser acompanhado pelas empresas. “A Rheinmetall Italia anunciou investimentos que permitirão duplicar a sua capacidade de produção. Isso será realizado numa fábrica em Roma dedicada a capacidades de defesa aérea e munições”, referiu ainda.
No que toca a este tipo de capacidades, Mark Rutte já tinha referido um conjunto de parcerias entre empresas de defesa europeias e norte-americanas.
“Saúdo o facto de que os Estados Unidos e várias das suas principais empresas de defesa – incluindo a Anduril, a Boeing, a General Dynamics Land Systems, a Lockheed Martin e a Raytheon – tenham acordado novas iniciativas de cooperação industrial com grandes empresas europeias do setor de defesa, como a Diehl, a PGZ e a Rheinmetall. Isso irá permitir-nos produzir ou manter capacidades americanas fundamentais – como o tanque Abrams, AMRAAMs, ATACMS, o Barracuda-500M, bombas de pequeno diâmetro (SDBs) e mísseis Stinger – aqui na Europa”, referiu o secretário-geral da NATO.
Rutte destacou igualmente o facto dos Aliados NATO estarem envolvidos em várias coligações a nível de aquisições, para garantir, por exemplo, capacidades ao nível de mísseis. “Ao agregar a procura e harmonizar as abordagens de aquisição, os esforços de capacidade industrial e os investimentos, os aliados podem realmente começar a suprimir lacunas específicas de capacidade. Vemos com satisfação que diversos aliados estejam a trabalhar, com a Kongsberg, a Raytheon, a Boeing e a RWM Italia em algumas dessas iniciativas”, aponta.
Zelensky: mais sistemas de defesa aérea e um cheque de 570 milhões do Canadá
O tema Ucrânia chegou pela voz de Zelensky. O líder ucraniano pressionou os membros da NATO a investir mais em sistemas de defesa aérea, salientando que as capacidades do país na área de drones poderiam ser valiosas para a Aliança.
“A Europa precisa de sistemas antibalísticos acessíveis e produzidos em massa o mais rapidamente possível. Já hoje, na verdade”, apelou o chefe de Estado ucraniano, referindo que espera que um dos principais resultados desta cimeira seja, precisamente, “uma maior determinação e mais decisões em matéria de defesa aérea”.
Mesmo que não haja essa definição, Zelensky já garantiu mais apoio financeiro para reforçar as capacidades de defesa do país, há quatro anos em guerra com a Rússia. O Canadá anunciou esta terça-feira uma nova ajuda militar à Ucrânia no valor de 570 milhões de euros, parte do compromisso de conceder este ano à Ucrânia 2,8 mil milhões de dólares canadianos (cerca de 1,7 mil milhões de euros) em ajuda militar.
O novo apoio inclui 475 milhões de dólares canadianos (cerca de 292 milhões de euros ao câmbio atual) para a compra de munições, quase 400 milhões (cerca de 246 milhões de euros) para o fabrico de 35 veículos blindados produzidos no Canadá e outros 50 milhões (cerca de 30 milhões de euros) para o fornecimento de tecnologia essencial e equipamento de engenharia.
Bancos mobilizam financiamento
No primeiro dia de Ancara não houve novidades sobre o banco para financiar a defesa que o Canadá trazia na bagagem para a cimeira, convencendo vários países a juntar-se ao projeto. Mas a NATO apelou aos bancos para financiarem a produção de armamento, uma vez que o capital privado no setor “está longe de ser suficiente”.
Uma dezena de bancos, entre os quais o Banco Santander, o Barclays, o BNP Paribas e o Deutsche Bank, uniram-se para mobilizar 217 mil milhões de dólares (cerca de 190 mil milhões de euros), algo que “deve ser apenas o começo”, adiantou o secretário-geral da NATO, noticia a Lusa.
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Cimeira NATO. Chuva de anúncios e mais de 50 mil milhões em contratos de defesa
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