Como Israel produz empreendedores em série desde os anos 90

Obrigatoriedade do serviço militar tem tido influência na maneira como os israelitas veem os negócios. E é no Exército que, segundo os especialistas, se baseia a génese da "Startup Nation".

Sara Freed Katz, 29, foi uma das melhores do seu ano. Aos 18 anos, como todos os israelitas, alistou-se no Exército para cumprir o serviço militar obrigatório de dois anos para as mulheres e de três para os homens. Para grande orgulho da mãe — mais ainda do que para ela mesma — ficou na unidade 8200, de “signal intelligence”. “É uma espécie de cérebro do Exército. Eu estive a trabalhar como analista e researcher mas, no início, nem sabia para o que ia. Mas percebi depois que as grandes inovações israelitas vêm da unidade 8200″, conta Sara, em conversa com o ECO.

Sara é uma entre 7,4 milhões. “Quando um empreendedor tem uma ideia de negócio, ele vai começá-la numa semana”. A frase, dita por um analista a propósito do livro Start-Up Nation (2009), de Dan Senor e Saul Singer, explica em apenas uma ideia a resposta à pergunta para um milhão de dólares: como é que um país com pouco mais de sete milhões de pessoas e poucos de história, rodeado de inimigos e em constante “estado de guerra” desde a sua fundação produz mais startups do que os maiores, mais pacíficos ou mais estáveis nações como o Japão, a Índia, a Coreia, o Canadá ou o Reino Unido?

Os cinco elementos

O sucesso de Israel como país de empreendedores, explica Ran Natanzon, diretor de Inovação no Ministério dos Negócios Estrangeiros do país, tem a ver com cinco entidades ligadas entre si com um objetivo comum: Exército, Academia, Governo, multinacionais e capitais de risco. “Em Israel, a inovação está em todo o lado”, explica Ran. “Há centros de empreendedorismo em todas as universidades e as câmaras municipais criaram também os seus próprios organismos de promoção e aceleração de ideias para as cidades”, detalha, explicando que é nestes locais que se cruzam dois fatores fundamentais: um sítio para trabalhar e mentores com experiência acumulada. “O empreendedorismo faz parte da cultura e não acho que o Governo prejudique o processo. Tem até uma boa atitude face ao empreendedorismo, que deve passar por ser um atenuador dos falhanços do mercado. O primeiro fundo de capital de risco foi criado pelo Governo em 1991″, esclarece o responsável.

A atitude tem um nome: chutzpah. É isso que os israelitas põem em primeiro lugar quando se trata de alcançarem um objetivo, e pode traduzir-se como “audácia”. “A fonte da inovação é a falta de recursos: as pessoas tiveram de reconstruir um país sem recursos, várias vezes”, diz Natanzon.

O responsável fala de três fases fundamentais na construção dessa “nação empreendedora”: a primeira, que deu origem à invenção da irrigação de terrenos agrícolas, nos anos 50; a segunda, que implicou uma mudança de mindset. “Os judeus dizem que antes, os pais queriam que os filhos fossem advogados. Agora querem que sejam empreendedores”, brinca Ran Natanzon, analisando as alterações culturais vividas pelo país ao longo dos anos. E, por fim, a terceira — e atual, de normalização do falhanço. “Os empreendedores são as rockstars do país: dão entrevistas, fazem capas de jornal e são convidados especiais em talkshows na televisão”, argumenta.

Essa maneira de ser, consolidada ao longo dos anos, assenta em características que foram sendo identificadas, geração a geração, e que são “as bases do empreendedorismo israelita”, defende Natanzon. “Informalidade, sinceridade, a ambição de conseguir alcançar objetivos e a tolerância ao falhanço. É ok falhar. E normal pensar desde o dia 1 no mercado global. Não temos hipótese”, acrescenta.

Passagem pelo Exército israelita é obrigatória tanto para homens (três anos) como para mulheres (dois anos). Todos os israelitas o frequentam, normalmente a partir dos 18 anos.Pixabay

Israel state of mind

“Não posso relacionar as duas coisas diretamente mas não posso negar que o Exército me tornou definitivamente mais maduro, e deu-me a experiência e as responsabilidades que eu não teria em nenhum outro lugar com apenas 18 anos. Acredito que o ecossistema de startups israelita tem como base o instinto de sobrevivência que os israelitas foram forçados a desenvolver ao longo dos anos, desde cedo até ao Holocausto e até aos tempos modernos, e até os desafios que temos tido desde que o país nasceu”, analisa Yotam Hod, cofundador e CEO da Lumir Lab, startup que está a desenvolver um tratamento para a endometriose com base nos constituintes da canábis.

Yotam Hod conheceu os dois cofundadores da sua startup no Exército. “Ir ao Exército faz parte de crescer em Israel. Não há outro país onde uma pessoa com 21 anos tenha uma experiência destas que, além de dar um treino especializado e de gestão, também força a inovação”, afirma Natanzon.

Em Israel, a inovação está em todo o lado.

Ran Natazon

Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel

“Na verdade, o segredo de Israel encontra-se em algo mais do que só talento individual. Há vários sítios com pessoas talentosas, muitos dos quais com um número muitas vezes superior ao dos engenheiros que Israel tem para oferecer”, escrevem Senor e Singer em Startup-Nation.

Foi o caso da Mobileye. Amnon Shashua e Ziv Aviram: dois professores vindos da Academia criaram uma empresa que, em 2014 entrou para a bolsa de Nova Iorque e, em 2017, foi comprada pela Intel por 15,3 mil milhões de dólares, num dos maiores negócios de exit da história do país.

“Esta maneira de as startups serem inclui também a liberdade de falhar que é um state of mind, uma maneira de ser”, diz Ran Natanzon.

O Mass Challenge foi uma das primeiras aceleradoras a instalar-se em Jerusalém. Criada em Boston em 2007-08, época pós-crise, a aceleradora surge numa altura em que “ninguém estava a pensar no longo prazo. As pessoas tinham medo”, conta Shai-Shalom Hadad.

“A maneira como ligamos os empreendedores é a nossa rede. E Israel tem uma comunidade muito informal”, analisa Hadad, diretor de Operações do Mass Challenge, uma das maiores aceleradoras do mundo, que há dois anos abriu escritório em Jerusalém. Nascida como uma non profit, começa atividade com uma novidade: abdica da equity das empresas que acelera”, explica Shai-Shalom Hadad. Porquê? O diretor de Operações explica: “Acreditamos que chegando aos empreendedores e aos recursos vamos conseguir que eles tenham sucesso sem comprometer financeiramente os seus objetivos”.

A aceleradora aceita candidaturas de startups de todo o mundo — conta com um portefólio anual de cerca de 136 startups — e prepara-se para lançar nova fase de candidaturas para Jerusalém, a localização em Israel, a 16 de dezembro. “O programa dura sete meses e, no ano passado, recebemos 640 candidaturas de 41 países”, detalha o responsável.

“Estamos a tentar exportar o que fazemos para o mundo. Vimos de um ecossistema muito local mas queremos dar-nos a conhecer. E acredito que os visionários precisam de estar em determinada localização para terem a visão que os distingue”, diz Shai Melcer, CEO da Biohouse, aceleradora e espaço de cowork recém-criado em Jerusalém, dedicado à área bio e com ambição global. “O que define a visão de Israel? As pessoas. Não interessa de onde vêm mas o que perseguem. Nós investimos em pessoas, fazemos a paz — e a guerra — com pessoas. É tudo sobre pessoas”, sublinha.

Mobileye é um dos casos de maior sucesso na startup scene israelita.Mariana de Araújo Barbosa/ECO

A jornalista viajou a Israel a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. Este é o primeiro de uma série de trabalhos sobre o ecossistema empreendedor israelita e a maneira como o país o criou.

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