CTT e retalho brilham no ano em que o PSI-20 ficou ainda mais longe da Europapremium

O PSI-20 fecha 2021 com um ganho de dois dígitos, ficando aquém do desempenho de muitas bolsas europeias e ainda muito longe de máximos históricos. A energia perdeu terreno e o retalho brilhou.

A bolsa nacional gerou um retorno positivo em 2021, com o PSI-20 a valorizar 13,7%. O índice português conseguiu o melhor desempenho anual desde 2017 (15,1%), mais do que anulando a queda de 6% sofrida no primeiro ano da pandemia.

Mas a valorização alcançada este ano pelo PSI-20 não esconde um desempenho algo modesto face aos pares europeus, uma tendência quase crónica nos últimos anos na bolsa portuguesa. A generalidade das bolsas europeias fechou 2021 com ganhos superiores a Lisboa, sendo que o benchmark europeu Stoxx 600 quase duplicou a subida do PSI-20.

A exceção é a bolsa de Madrid, das poucas na Europa que este ano não conseguiu uma valorização de dois dígitos. Já Paris, Amesterdão e Milão destacaram-se com valorizações superiores a 20%, beneficiando por terem várias cotadas dos setores que mais subiram este ano, como os bancos e as companhias de artigos de luxo. A bolsa austríaca liderou os ganhos na Europa, com o ATX a subir perto de 40% devido ao elevado peso do setor financeiro no índice. Já os ganhos em Lisboa e Madrid foram limitados pelo desempenho negativo das elétricas ibéricas.

2021 é já o terceiro ano seguido em que o retorno do PSI-20 fica abaixo do Stoxx 600. Em 2020 tinha registado uma queda mais acentuada e em 2019 um retorno mais reduzido (em linha com o registado em 2021). Nos últimos 15 anos, apenas em cinco o PSI-20 conseguiu um desempenho superior ao benchmark europeu, sendo que só em 2017 por uma margem significativa.

“O índice nacional é cada vez mais periférico e irrelevante, com os fundos internacionais a colocarem capital nas empresas cotadas apenas por obrigações legais de investimento”, refere Mário Martins, analista da ActivTrades.

A prestação da bolsa portuguesa durante este ano acentuou assim, ainda mais, a distância para as principais bolsas europeias. Num ano em que diversos índices europeus marcaram máximos históricos (Stoxx 600, CAC, DAX e outros), o PSI-20 está a uma grande distância do seu recorde alcançado há mais de 20 anos. O índice português terá ainda de subir mais de 170% para alcançar o longínquo máximo histórico fixado em março de 2000, antes de rebentar a bolha das “dotcom”, acima dos 15 mil pontos. A praça portuguesa acaba por estar alinhada com as pares do Sul da Europa, que foram as mais castigadas do Continente com a crise financeira de 2008 e a crise da dívida na primeira metade da década passada. A bolsa de Atenas está a mais de 600% de distância do seu máximo histórico, enquanto Madrid e Milão têm de subir mais de 80% para lá chegar.

Terceiro ano de ganhos nas bolsas mundiais

O segundo ano da pandemia foi de ganhos acentuados para as bolsas mundiais. O MSCI World acumula uma subida de 17% em 2021, marcando já o terceiro ano seguido de ganhos de dois dígitos. O movimento de alta voltou a ser liderado por Wall Street, com o S&P500 a valorizar 27% num ano em que marcou máximos históricos em cerca de um terço das sessões (70).

Os mercados acionistas beneficiaram com o impacto positivo da eficácia da vacinação na reabertura das economias, o que acabou por reforçar a tendência de recuperação da atividade económica e impulsionar os resultados das empresas. Efeitos positivos que ofuscaram os receios com a escalada da inflação, até porque os bancos centrais mantiveram uma política monetária ultra-acomodatícia, reforçando a atratividade dos ativos de maior risco.

“Contrariamente às expectativas de recuperação que suportaram a subida dos mercados de ações no ano transato, em 2021 o bom desempenho deveu-se ao progresso da vacinação contra a covid-19, à redução do grau de severidade da pandemia, aos impactos positivos dos estímulos fiscais e monetários, rapidamente implementados, e à consequente retoma da atividade e dos resultados empresariais”, diz o diretor de estratégia da Caixa Gestão de Ativos, João Marques, ao ECO.

Apesar dos resultados empresariais positivos, o terceiro ano seguido de alta nas bolsas atirou as avaliações das ações para níveis que muitos analistas consideram não serem sustentáveis, sobretudo em Wall Street. O S&P 500 transaciona a mais de 20 vezes os lucros estimados para os próximos 12 meses. Um PER que se situa perto de máximos históricos e que os analistas que estimam a continuação do bull market justificam com o elevado peso das tecnológicas. Um setor que apresenta um múltiplo mais elevado devido à perspetiva de forte crescimento dos lucros.

Nas bolsas europeias, os múltiplos estão menos “esticados” e as cotadas portuguesas, apesar da subida menos acentuada em 2021, estão em linha com as congéneres, sugerindo que não estão mais baratas. O PSI-20 fecha o ano um com um PER estimado a 12 meses de 17,4, que é semelhante ao registado pelo CAC e pelo AEX e situa-se acima do IBEX (PER de 11,4).

Contrariamente às expectativas de recuperação que suportaram a subida dos mercados de ações no ano transato, em 2021 o bom desempenho deveu-se ao progresso da vacinação contra a covid-19, à redução do grau de severidade da pandemia, aos impactos positivos dos estímulos fiscais e monetários, rapidamente implementados, e à consequente retoma da atividade e dos resultados empresariais

João Marques, diretor de estratégia da Caixa Gestão de Ativos

Energia corrige e retalho brilha

Entre as 19 cotadas do índice português, 13 fecharam em alta, sendo que 10 conseguiram superar o índice. Seis fecharam com um saldo anual negativo.

“Os setores energético e financeiro foram os que melhores desempenhos tiveram a nível internacional, enquanto no PSI-20, com exceção do BCP, as energéticas, que têm o maior peso na ponderação do índice, tiveram o pior desempenho”, comenta o analista da ActivTrades.

O desempenho do PSI-20 em 2021 acabou por ser constrangido pela prestação das cotadas do setor energético, que representam quase no índice. Depois de vários anos a puxarem pela bolsa portuguesa, a EDP e a EDP Renováveis corrigiram este ano, em linha com o comportamento das pares ibéricas. As quedas anuais foram de um dígito, mas suficientes para limitar a valorização da bolsa portuguesa este ano.

Num ano em que as empresas lideradas por Miguel Stilwell aceleraram a estratégia de rotação de ativos, com várias operações significativas de compra e venda, as ações da EDP desceram 6,17% e os títulos da EDP Renováveis caíram 4,65%, mantendo ainda o estatuto de cotadas mais valiosas da praça portuguesa. Em 2020 a EDP disparou 36,5%, cumprindo o terceiro ano seguido de ganhos. Já a EDP Renováveis tinha sido a estrela do PSI-20 em 2020, mais do duplicando a cotação.

A Galp Energia também registou um desempenho negativo num ano em que mudou de CEO e alterou a sua estratégia, apostando forte nas energias renováveis e abandonando a pesquisa e prospeção de petróleo. Apesar do Brent ter valorizado mais de 50% em 2021, as ações da petrolífera portuguesa desvalorizaram 2,79%, ficando muito aquém do setor (Stoxx Oil & Gas ganhou 17,39%).

Se o setor predominante na bolsa portuguesa teve um ano negativo, o mesmo não se pode dizer do retalho, que é o segundo com maior peso no PSI-20. Bem pelo contrário, a Sonae e a Jerónimo Martins foram determinantes para a valorização de dois dígitos do índice português, beneficiando pelo facto de serem duas ações defensivas e que tiram partido da recuperação económica, como ficou visível nos resultados que apresentaram ao longo do ano.

A Sonae acumulou uma valorização de 51,78% em 2021, ano em que concretizou a venda de parte do capital da sua unidade de retalho alimentar e efetuou restruturações noutras áreas de negócio, como a venda da Worten em Espanha logo no início do ano, da Maxmat em setembro e da participação na seguradora MDS já este mês. Com a venda de 25% do capital da Sonae MC, em julho, a empresa liderada por Cláudia Azevedo encaixou 528 milhões de euros, um valor bem superior ao que estava implícito no IPO do retalho alimentar que a Sonae suspendeu em 2018.

A Jerónimo Martins foi das poucas cotadas do PSI-20 a atingir máximos históricos em 2021, conseguindo um ganho anual de 46,74%, beneficiando sobretudo dos resultados acima do esperado que apresentou ao longo dos trimestres, sobretudo na Polónia.

A presença na Polónia também afetou outra cotada portuguesa, mas o efeito foi negativo. Os prejuízos do Bank Millennium com os créditos em moeda estrangeira penalizaram os resultados do Banco Comercial Português em 2021, limitando os ganhos em bolsa do único banco cotado na Euronext Lisbon. As ações do banco liderado por Miguel Maya subiram 14,53% em 2021, abaixo do retorno do setor na Europa. O Stoxx Banks avançou 34,31% devido às perspetivas de aperto da política monetária em reação à alta da inflação, o que colocará fim aos juros em mínimos históricos que têm penalizado a margem do setor ao longo dos últimos anos.

Mário Martins realça que, em 2022, o BCP “poderá beneficiar” com a alteração da política monetária da Reserva Federal, “caso o BCE também dê indicações que os juros vão aumentar no curto/médio prazo”. Contudo, o analista da ActivTrades alerta que as perspetivas para os mercados no próximo ano “são tudo menos claras, uma vez que a Fed deverá começar a subir os juros e a terminar com o programa de compras de ativos, o que terá um impacto negativo nos mercados internacionais, podendo haver um período de correção significativo”.

CTT lideram ganhos e Greenvolt sobe 50% na estreia

O estatuto de estrela do PSI-20 este ano vai para os CTT, que depois de vários anos negativos em bolsa devido à redução de lucros e dividendos, conseguiu tirar partido dos efeitos da pandemia. A unidade de entregas de encomendas dos correios registou um forte crescimento devido ao boom do comércio eletrónico, levando as ações da cotada a dispararem 94,04% para 4,555 euros. Uma cotação ainda bem distante do máximo histórico acima de 10 euros que atingiu em 2015, mas também já substancialmente acima do mínimo histórico abaixo de 2 euros que atingiu em 2019.

Os CTT alcançaram lucros de 26,3 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, seis vezes mais do que os 4,3 milhões conseguidos em igual período de 2020. Na unidade Expresso e Encomendas os rendimentos operacionais aumentaram 41,7% para 186,3 milhões.

A Greenvolt também se destacou pela positiva, com as ações a dispararem em bolsa depois do maior IPO da praça portuguesa precisamente desde a privatização dos CTT em dezembro de 2013. Numa operação que gerou um encaixe de 180 milhões de euros, a Greenvolt vendeu as ações aos investidores a 4,25 euros em julho. Registou desde logo uma tendência de alta, fechando o ano nos 6,35 euros, o que traduz um retorno de 49,4% face ao IPO.

A Altri tirou partido da estreia positiva da sua participada, fechando o ano com um ganho de 10,91%. Beneficiando com a recuperação sustentada dos preços do papel, a Navigator mais do que duplicou a subida do PSI-20 (34,83%), arrastando consigo a Semapa, que subiu 30,44% no ano em que foi alvo de uma oferta pública de aquisição (OPA) por parte do seu maior acionista.

Várias ações de menor capitalização conseguiram ganhos mais acentuados, com a Novabase (único representante do setor tecnológico) a ganhar 62,62% e a Ramada a subir 46,67%. Do lado das perdas, a Pharol foi a única com um saldo anual negativo de dois dígitos (-39,9%), sendo que além da EDP, EDPR e Galp, também a Mota-Engil e a Corticeira Amorim fecharam no vermelho.

Para 2022 as perspetivas são tudo menos claras, uma vez que a Fed deverá começar a subir os juros e a terminar com o programa de compras de ativos, o que terá um impacto negativo nos mercados internacionais, ou seja podendo haver um período de correção significativo, no entanto o BCP, poderá beneficiar dessa mudança, caso o BCE também dê indicações que os juros vão aumentar no curto/médio prazo.

Mário Martins, analista da ActivTrades

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