Economia portuguesa é importadora líquida de energia, o que significa que a balança externa deverá sofrer deteriorações perante a escalada de preços. Conflito pode levar a retração do consumo.
A economia portuguesa não está diretamente exposta ao Irão e energeticamente tem uma posição mais favorável para não correr riscos de abastecimento. No entanto, todos os cenários estão dependentes da duração do conflito no Golfo, até porque a escalada do preço do petróleo tem efeitos mundiais, afetando a atividade económica. A incerteza pode estender-se à confiança dos consumidores, levando a uma retração do consumo e do investimento, ao mesmo tempo que os economistas admitem um cenário de défice orçamental.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as importações portuguesas do Irão ascenderam a 527,7 milhões de euros em 2024, tendo aumento 267,4% em 2025, para 1.931,6 milhões de euros. Portugal não depende pois de importações diretas iranianas, ao contrário de alguns países asiáticos, o que reduz o impacto direto.
Ainda assim, o Irão foi o 148º fornecedor de Portugal em 2024 e o 129º em 2025. Uma análise mais fina permite verificar que, no cômputo geral, o contributo do Irão para o crescimento das importações globais de Portugal é nulo.
Em termos de produtos, os bens agrícolas e alimentares, os plásticos e borrachas e as pastas celulósicas e papel representam as principais compras de Portugal àquele país, que chegam sobretudo através de transporte marítimo.

No entanto, a economia portuguesa é importadora líquida de energia, o que significa que a balança externa deverá sofrer deteriorações perante a escalada de preços. Em 2024, o saldo importador de produtos energéticos fixou-se em 5.747 milhões de euros, de acordo com a publicação “Fatura Energética”, da Direção Geral de Energia e Geologia.
Neste documento lê-se que a tendência de redução do valor das importações manteve-se nesse ano, com uma diminuição de 4,3% face a 2023. O petróleo bruto, que representa o maior peso em volume e em valor, registou um aumento em 2024 de 14,3% em volume e 13,5% em valor, em euros, “refletindo um maior consumo”, indica a DGEG.
A economia portuguesa é importadora líquida de energia, o que significa que a balança externa deverá sofrer deteriorações perante a escalada de preços. Em 2024, o saldo importador de produtos energéticos fixou-se em 5.747 milhões de euros.
Porém, o país está pouco exposto a uma rutura física de abastecimento e pauta-se por uma diversificação das fontes energéticas, com peso das renováveis. Uma menor dependência energética quando comparado com outros países europeus também atenua a pressão direta sobre a inflação.
O que não significa, porém, que a elimine. Como a economia integrada nas cadeias globais, Portugal continua exposto uma vez que, por exemplo, tendo o petróleo um preço global, qualquer escalada tem efeitos diretos nos combustíveis, o que já se tem verificado.
“Somos afetados a nível do preço, como estamos a ver, e depois temos condições que eu diria que num balanço geral são favoráveis para não estarmos tão expostos ao outro possível problema que é a rotura física de abastecimento“, afirma Nuno Ribeiro da Silva, consultor da área de energia e ex-CEO da Endesa em Portugal, tendo também assumido as funções de secretário de Estado da Energia.
Os preços do contrato de referência do gás para a Europa, o holandês Title Transfer Facility, marcava esta segunda-feira os 56,68 euros por Mwh, quase o dobro do registado a 27 de fevereiro, 31,96 euros por MWh, o dia que antecedeu o primeiro ataque ao Irão no âmbito deste conflito. O preço do barril de Brent rondava, no arranque desta semana, os 100 dólares, quando a 27 de fevereiro estava nos 72,29 dólares.
Na Península Ibérica, os preços da eletricidade no mercado grossista, onde os produtores vendem a eletricidade aos comercializadores e a muito grandes consumidores, já regressaram a níveis em torno dos 35 euros por MWh, pouco acima dos cerca de 20 euros por MWh do dia 27 de fevereiro. Contudo, a 10 de março, Portugal e Espanha ultrapassaram os 130 euros por MWh.
Por terras lusas, as cotações internacionais dos produtos petrolíferos atingiram também os preços na bomba: antes do conflito, o gasóleo simples e a gasolina 95 marcavam, respetivamente, 1,59 e 1,684 euros. A 22 de março, a DGEG regista como preço médio 1,926 euros para o gasóleo e 1,855 para a gasolina.
Ademais, a inflação energética transmite-se rapidamente aos consumidores e afeta custos das empresas, sobretudo transportes, indústria e agricultura. No Orçamento do Estado para 2026 (OE2026), o Ministério das Finanças fez um exercício de sensibilidade a choques externos. Um dos cenários estudados passa por um aumento do preço do petróleo em 20% face aos 65,4 dólares previstos para este ano no cenário base.
No caso desenhado em outubro do ano passado, a tutela estima uma redução de 0,1 pontos percentuais (pp.) na previsão do crescimento da economia de 2,3%, “em virtude de um menor crescimento do consumo (devido à queda do rendimento disponível) e do investimento (em resultado do aumento dos custos de produção), parcialmente mitigado pela redução no crescimento das importações”.
Se as famílias e as empresas, preocupadas com o contexto geopolítico, reagirem de forma exagerada e reduzirem o consumo e o investimento por precaução, o impacto do choque será significativo.
Este cenário pode ser agravado caso a confiança dos consumidores entre em queda abrupta. “Se as famílias e as empresas, preocupadas com o contexto geopolítico, reagirem de forma exagerada e reduzirem o consumo e o investimento por precaução, o impacto do choque será significativo“, salienta a economista-chefe do BPI, Paula Carvalho numa nota de research.
O risco sobre o consumo privado é particularmente acrescido pelo peso que tem tido no crescimento económico dos últimos anos. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,9%, tendo o contributo da procura interna no crescimento voltado a acelerar, passando de 2,9 pp. em 2024, para 3,7 pontos em 2025. Uma dinâmica explicada sobretudo pelo consumo privado, cujo crescimento se fixou em 3,5%.
O Ministério das Finanças calcula, na simulação efetuada, que o deflator do consumo privado aumentaria em 0,3 pp.. Quando considerando o peso dos bens energéticos derivados do petróleo nas importações, “este choque originaria uma deterioração da balança comercial e, consequentemente, da capacidade de financiamento da economia face ao exterior em cerca de 0,2 pp. do PIB”.
Contudo, o valor para o preço do petróleo assumido neste choque situa-se abaixo do incorporado pelo Banco Central Europeu (BCE) na semana passada, uma vez que foi desenhado meses antes do atual conflito. No cenário base, Frankfurt calcula no cenário base que o preço do barril sobe para 81,3 dólares em 2026. Porém, no cenário adverso aumenta para 120 dólares por barril e no cenário adverso escala para 150 dólares. O que agravaria o impacto simulado no Orçamento do Estado.

“Embora a economia portuguesa não deva enfrentar problemas de abastecimento, será afetada pelo aumento dos preços da energia“, assinala a economista-chefe do BPI. Paula Carvalho conta que o preço médio do gás em 2026 se fixe em 58 euros por megawatt-hora (MWh), 20 euros acima do ano anterior, ao mesmo tempo que o preço médio do barril de petróleo está mais caro em 20 dólares que no ano anterior. O efeito dos preços elevados do barril subtrai 0,14 pontos percentuais ao crescimento do PIB, calcula, enquanto no caso do gás o efeito ronda os 0,1 pp..
Numa nota de research, a economista alerta para um impacto setorial na economia “muito heterogéneo”: a indústria, mais intensiva em energia, seria a mais afetada – a associação de eletrointensivos já pediu apoios – enquanto, por outro lado, no turismo, “a perceção de um destino seguro poderá compensar o efeito do choque sobre a procura”. Relativamente à inflação, prevê que “a moderação esperada para 2,1% para o conjunto do ano poderá não se concretizar e poderá manter-se em níveis mais elevados, em torno de 2,7%”.
Certo é que lá fora os cenários macroeconómicos começam a ser revistos, com instituições como o BCE a cortarem as projeções de crescimento da Zona Euro.
E o saldo orçamental, como fica?
O ano de 2026 já seria desafiante do ponto de vista orçamental devido ao impacto dos empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), mas “o caminho ficou ainda mais estreito” devido às tempestades do arranque do ano e agora à guerra no Golfo Pérsico. O alerta tem sido dado pelo ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, que não avançou para já com estimativas atualizadas do saldo para este ano.
A pressionar a despesa estarão as medidas de mitigação tomadas pelo Governo (e as que ainda poderá tomar), como os apoios aos combustíveis, a subida do apoio à botija de gás de 15 para 25 euros ou a ajuda no gasóleo profissional nos próximos três meses.
“Dado que o saldo projetado era de apenas 0,1% do PIB, e perante declarações de membros do Governo, o mais provável é termos um défice público em 2026. Dadas as incertezas sobre a atual crise – só esta segunda-feira já houve variações das cotações dos vários mercados muito significativas e em ambos os sentidos –, sobretudo em relação à sua duração, mas também à sua intensidade, parece prematuro avançar já com uma previsão”, considera o diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, Pedro Braz Teixeira, em declarações ao ECO.
No entanto, o economista salienta que “a maior ou menor desaceleração económica, interna e externa, deverá reduzir a receita fiscal e aumentar encargos com prestações sociais“. Porém, ao mesmo tempo, sublinha que os cenários de subida da inflação com aumento da despesa nominal da economia tipicamente significam mais receitas fiscais para o Governo, pelo que poderá atenuar o impacto nas contas públicas por essa via.
O aumento do preço dos combustíveis pode aumentar a receita fiscal, sendo muito incerto em que medida o governo vai contrariar essa tendência.
“O aumento do preço dos combustíveis pode aumentar a receita fiscal, sendo muito incerto em que medida o governo vai contrariar essa tendência”, assinala. A pressionar as contas estarão ainda potencialmente “a subida dos juros que afetará a despesa com juros”.
Por seu lado, o coordenador do NECEP – Católica Lisbon Forecasting Lab, João Borges de Assunção, em declarações ao ECO, realça que, no caso das tempestades, poderá assistir-se “a um aumento nas despesas públicas e de investimento para ajudar as regiões afetadas e financiar a reconstrução de infraestruturas públicas”. Porém, o efeito sobre a atividade poderá ser relativamente pequeno no contexto da economia nacional.
No caso da guerra no Médio Oriente, o efeito sobre a economia portuguesa poderá ser maior [do que o das tempestades]. Mas por enquanto, antes de se observarem os indicadores de alta frequência é prematuro antecipar a dimensão e persistência do impacto na economia ou no défice.
“No caso da guerra no Médio Oriente, o efeito sobre a economia portuguesa poderá ser maior. Mas por enquanto, antes de se observarem os indicadores de alta frequência é prematuro antecipar a dimensão e persistência do impacto na economia ou no défice“, considera. O economista admite que, em traços gerais, “o conjunto das crises poderá ter impacto de poucas décimas no saldo orçamental e um impacto essencialmente neutro em termos do saldo estrutural”. Ou seja, “apenas efeitos temporários e conjunturais”.

Produtos petrolíferos dominam consumo de energia na UE e Portugal
Um retrato detalhado sobre a energia na União Europeia revela que, em 2024, os produtos petrolíferos, onde se inclui a gasolina e o gasóleo, representaram 37% do consumo final, seguidos pela eletricidade (23%) e do gás natural (20%). Em quarto lugar, fica o uso direto de renováveis, ou seja, quando estas não são transformadas em eletricidade, e se usa lenha, energia solar térmica, energia geotérmica ou biogás para aquecimento de espaços ou produção de água quente.
Este uso ocupa uma fatia de 12%. Chipre é o país da União Europeia que consome a maior fatia de produtos petrolíferos, acima de 55%, Malta é o ‘recordista’ na eletricidade, chegando aos 40,9%, e os Países Baixos exibem a maior percentagem de uso de gás, atingindo os 32,7%.

Portugal está acima da média europeia no uso de produtos petrolíferos e de eletricidade, mas bastante abaixo no uso de gás natural. Já em comparação com os dois motores económicos da Europa, Alemanha e França, consome mais produtos petrolíferos, enquanto na eletricidade ultrapassa a Alemanha mas está ligeiramente abaixo de França, quase taco a taco. Já em relação ao gás, é o nono país que menos o usa, sendo portanto menos dependente deste gás fóssil que o geral da Europa, e que França e Alemanha em particular.
Olhando à origem das importações no ano de 2024, Portugal parece relativamente protegido no contexto do conflito no Golfo: no gás natural, a maioria das importações vêm da Nigéria, seguida dos Estados Unidos, depois Rússia e, finalmente, Trinidade e Tobago. Nenhum dos principais parceiros é um país do Médio Oriente. O mesmo acontece com França e Alemanha.
No que diz respeito a produtos petrolíferos, o Azerbaijão aparece como o único país a oriente do qual Portugal importa, ficando em quinto na lista de países parceiros, por quantidades, muito atrás dos restantes.
França importa quantidades significativas do Cazaquistão e Arábia Saudita, e a Alemanha do Cazaquistão e da Líbia, pelo que parecem mais diretamente fragilizados.
Numa nota de análise do Banco BPI, os analistas apontam que o peso das importações de energia que chegam a Portugal através do Estreito de Ormuz é relativamente baixo: cerca de 7% no caso do petróleo e menos de 1% no caso do gás.
“Temos uma posição geográfica e uma rede de abastecedores de petróleo e gás que estão sobretudo na bacia mediterrânica e Norte de África, que que nos afastam da maior sensibilidade e exposição ao Golfo e Médio Oriente“, comenta Nuno Ribeiro da Silva, para salientar, em paralelo, que o país apresenta reservas “confortáveis”, quer de petróleo, quer de gás natural.
É muito pouco provável que a crise de abastecimento seja impactante em Portugal. Se chegarmos a ter escassez física de hidrocarbonetos, o mundo esta virado do avesso.
Atualmente, 48% da eletricidade produzida na União Europeia tem origem renovável, e apenas 28% é produzida com recurso a combustíveis fósseis. Neste “campeonato”, Portugal está especialmente bem classificado, com cerca de 80% da sua eletricidade a ter origem renovável.
É o nono país na União Europeia que menos usa energia fóssil para produzir eletricidade (14,3%), atrás de França, que ocupa o quarto lugar (4,6%). A Alemanha está apenas em 18.º lugar, contando com combustíveis fósseis para produzir mais de 41% da sua eletricidade.
A somar a estes números, Ribeiro da Silva realça que Portugal está a avançar para uma altura do ano com dois fatores adjuvantes, em particular no que toca o consumo de gás natural.
Este consumo tende a reduzir, dado que as temperaturas estão a ficar mais amenas e portanto há menos necessidade de climatização, reduzindo a quantidade de gás natural exigida para produzir eletricidade. Ao mesmo tempo, nesta época do ano, a disponibilidade de renováveis é tipicamente elevada, com o sol a contribuir cada vez mais e a componente hídrica e eólica ainda forte.
No final de contas, “é muito pouco provável que a crise de abastecimento seja impactante em Portugal. Se chegarmos a ter escassez física de hidrocarbonetos, o mundo está virado do avesso“, afere o mesmo especialista. Em relação à restante União Europeia, tem a mesma visão, embora Portugal esteja mais confortável, por comparação.
Tudo dependerá, por um lado, de quanto o conflito irá durar e, por outro lado, de “como saímos desta escaramuça”, isto é: quando o conflito parar, é preciso avaliar em que estado estão as refinarias, terminais de gás, gasodutos e navios que possam ter sido destruídos ou necessitar de uma recuperação. A favor está o pouco interesse do Irão em “fechar a torneira”, já que a exportação de petróleo deste território é “pão para a boca” da população.
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Da economia à energia, qual o nível de exposição de Portugal à guerra no Médio Oriente?
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