Vozes clonadas por inteligência artificial, identidades falsas e esquemas digitais são uma ameaça real e crescente, e a literacia financeira é a principal defesa dos consumidores, alerta a OCDE.
- A OCDE alerta para o aumento das burlas financeiras digitais, destacando que 85% das jurisdições analisadas consideram este o principal risco para consumidores.
- No relatório "Consumer Finance Risk Monitor 2026" revela que a baixa literacia financeira e o endividamento crescente das famílias são vulnerabilidades que agravam a situação.
- As recomendações da OCDE incluem a necessidade de melhorar a proteção financeira e promover a literacia financeira, visando empoderar os consumidores contra fraudes.
Imagine que recebe uma chamada do seu banco. A voz é familiar, o número é legítimo e a mensagem é urgente: há uma transação suspeita na sua conta e precisa de agir imediatamente. O problema é que se trata de uma burla financeira sofisticada – a voz foi criada por inteligência artificial (IA) e o número foi clonado – e quando perceber o que aconteceu, o dinheiro já desapareceu da conta.
Este cenário de fraude financeira digital, até há poucos anos considerado ficção científica, é hoje uma realidade crescente e documentada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e está longe de ser o único risco que ameaça os consumidores financeiros ao redor do mundo, incluindo em Portugal.
No relatório “Consumer Finance Risk Monitor 2026“, construído a partir das perspetivas de 107 governos e autoridades financeiras de 60 países, a OCDE pinta um retrato preocupante.
“Os consumidores de produtos e serviços financeiros enfrentam um panorama financeiro complexo e dinâmico, caracterizado por uma ampla gama de oportunidades e riscos”, pode ler-se logo no sumário executivo do documento.
A digitalização acelerada, as pressões inflacionistas, o endividamento crescente das famílias e os comportamentos desleais por parte de alguns prestadores de serviços financeiros formam um cocktail de vulnerabilidades que a OCDE considera urgente combater.
Os métodos mais utilizados pelos burlões são o phishing, vishing e smishing, técnicas que enganam as vítimas por email, telefone ou SMS, respetivamente.
Se há uma conclusão que salta da leitura do relatório é que as burlas e os esquemas de fraude financeira digital são, de longe, a maior ameaça identificada. Segundo os analistas da OCDE, 85% das jurisdições inquiridas apontaram-nas como o principal risco proveniente do ambiente operacional, e a esmagadora maioria antecipa que este risco vai continuar a crescer ao longo de 2026.
Entre 2024 e 2025, a incidência destas burlas aumentou em 69% dos países participantes, retrata o relatório. Os números dão escala ao problema:
- Na Austrália, os consumidores sofreram perdas de 2 mil milhões de dólares australianos só em 2024.
- Em Singapura, apenas na primeira metade de 2025, foram perdidos cerca de 456 milhões de dólares de Singapura em esquemas fraudulentos.
- No Canadá, as perdas quase quadruplicaram entre 2020 e 2024, de 165 milhões para 645 milhões de dólares canadianos.
Os métodos mais utilizados pelos burlões são o phishing, vishing e smishing – técnicas que enganam as vítimas por email, telefone ou SMS, respetivamente –, seguidos de fraudes em que criminosos se fazem passar por bancos, consultores financeiros ou outras entidades.
A dimensão jurídica destas burlas está também a ser redefinida a nível europeu. Num caso recente que chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), uma cliente de um banco polaco clicou numa ligação falsa que imitava o site do banco numa plataforma de vendas online, partilhou os seus dados bancários e viu a sua conta ser esvaziada por um pagamento não autorizado. O banco recusou o reembolso, argumentando que a cliente agira com negligência grosseira.
O caso chegou ao TJUE, com o advogado-geral Athanasios Rantos a emitir uma opinião de referência: o Direito da União Europeia obriga o banco a reembolsar imediatamente o montante da operação não autorizada, a menos que tenha motivos fundados para suspeitar de fraude – e esses motivos devem ser comunicados por escrito à autoridade nacional competente.
O reembolso não é definitivo – se o banco provar em tribunal que o cliente agiu com dolo ou negligência grosseira, pode exigir posteriormente a devolução dos valores –, mas o ónus da prova recai sobre a instituição financeira, não sobre o consumidor. E apesar de as conclusões do advogado-geral não vincularem o TJUE, as instâncias nacionais tendem a seguir as orientações do tribunal europeu, o que pode ter implicações diretas para os consumidores portugueses vítimas de fraude.
A vulnerabilidade da baixa literacia financeira que alimenta as burlas
“A digitalização está a intensificar o rápido aumento e a sofisticação das fraudes e esquemas digitais, incluindo ataques de engenharia social, roubo de identidade, deepfakes e conteúdo fraudulento gerado por inteligência artificial”, sublinha o relatório da OCDE.
A análise dos técnicos do organismo internacional aponta inclusive para o facto de a inteligência artificial generativa ter mudado as regras do jogo das burlas financeiras.
Já não basta ter cuidado com emails mal escritos ou com pedidos de informação suspeitos. Atualmente, a IA permite aos burlões imitar vozes com precisão, criar chamadas de vídeo com deepfakes convincentes e fabricar identidades sintéticas praticamente indistinguíveis das reais.
A OCDE relata que as autoridades em Itália alertaram para o facto de a IA generativa “ser cada vez mais utilizada para atrair investidores para esquemas de fraude”, enquanto na Irlanda se registou um aumento da sofisticação das técnicas de fraude, incluindo plataformas de negociação falsas e empresas de investimento clonadas.
Contudo, os técnicos da OCDE reconhecem a dualidade desta tecnologia: a mesma IA que alimenta as burlas pode, quando usada pelas autoridades e instituições financeiras, ajudar a detetá-las. “A IA generativa pode contribuir para melhorar a deteção de fraudes, facilitar a análise de crédito eficiente e proporcionar um serviço de apoio ao cliente mais ágil”, refere o documento.
A baixa literacia financeira dos consumidores é apontada por 81% das jurisdições analisadas como o principal risco do lado da procura, e os comportamentos inadequados dos prestadores de serviços financeiros constituem o problema mais insidioso.
O Banco Central Europeu confirmou, inclusive, que 62% das instituições financeiras avaliadas já utilizam IA para deteção de fraudes. Mas esta corrida tecnológica tem dois lados, e os consumidores mais vulneráveis ficam frequentemente do lado errado.
Por detrás das burlas digitais, o relatório identifica três vulnerabilidades estruturais que tornam os consumidores mais suscetíveis a todos os tipos de risco financeiro.
- A baixa literacia financeira é apontada por 81% das jurisdições como o principal risco do lado da procura. Quando as pessoas não entendem o que estão a assinar, não sabem avaliar o custo real de um crédito, ou não conseguem distinguir um produto de investimento legítimo de um esquema de fraude, as consequências podem ser devastadoras. “Os consumidores com baixos níveis de literacia financeira podem estar a acumular dívidas com elevados juros provenientes de empréstimos ou cartões de crédito, não poupam para a reforma ou para emergências, e fazem escolhas de investimento inadequadas – como produtos de alto risco ou esquemas fraudulentos”, alerta o documento, citando o exemplo da Eslovénia.
- O elevado endividamento das famílias é identificado por 63% das jurisdições como um risco, que tem perspetivas de agravamento em 2026. A expansão rápida dos canais de crédito digital – empréstimos online, Buy Now Pay Later (BNPL) e microcrédito – facilita o acesso ao crédito, mas pode “obscurecer o verdadeiro custo do endividamento ou contornar avaliações robustas de capacidade de reembolso”, avisa a OCDE. Itália destacou os riscos dos BNPL para os grupos mais vulneráveis; Áustria e Suécia reconheceram que a facilidade de acesso pode levar as pessoas a assumir compromissos financeiros além das suas capacidades. No Canadá, 41% dos consumidores viram o seu endividamento aumentar em 2025, e mais de metade recorreram às suas poupanças para fazer face às despesas correntes.
- A baixa capacidade digital, selecionada por 44% das jurisdições, e com tendência para se agravar. O relatório cita Portugal explicitamente: “Portugal observou que os baixos níveis de capacidade digital afetam os consumidores menos familiarizados com a tecnologia no acesso e gestão de produtos e serviços financeiros online, incluindo banca de retalho e investimentos.”
A conjugação destes três fatores é, segundo a OCDE, explosiva. “Quando estas pressões macroeconómicas interagem com vulnerabilidades pré-existentes nas famílias, como os baixos níveis de literacia financeira e digital, os elevados níveis de dívida e os rendimentos limitados, ampliam os riscos para o bem-estar financeiro individual e das famílias.”
O perigo que vem de dentro do sistema financeiro
Se as burlas externas são a ameaça mais visível, os riscos de conduta, isto é, os comportamentos inadequados dos próprios prestadores de serviços financeiros, constituem o problema mais insidioso, porque surgem de dentro do sistema que deveria proteger os consumidores.
O relatório da OCDE dedica um capítulo inteiro a este tema e as conclusões são inequívocas: as práticas desleais por parte de instituições e intermediários financeiros representam uma fonte significativa de prejuízo para quem usa estes serviços.
O risco de conduta mais identificado, apontado por 44% das jurisdições, é a falta de divulgações eficazes. Em termos simples: os consumidores não recebem a informação de que precisam para tomar decisões financeiras verdadeiramente informadas ou recebem-na de forma tão complexa e opaca que o efeito prático é o mesmo.
Neste contexto, a literacia financeira é precisamente o que distingue quem deteta o problema de quem se torna vítima. “Quando as divulgações não são devidamente fornecidas aos consumidores de forma transparente, clara e precisa, pode impedi-los de compreender plenamente os benefícios e riscos de um determinado produto ou serviço financeiro, e de tomar uma decisão informada sobre se o produto ou serviço é adequado às suas necessidades”, refere o relatório.
O aconselhamento deficiente ou a falha nas avaliações de adequação podem levar a uma tomada de decisão inadequada e à perda de recursos económicos, uma vez que os consumidores podem não compreender os riscos ou receber recomendações genéricas.
No Canadá, um em cada quatro consumidores que recorreu a empréstimos de curto prazo (payday loans) não compreendeu o verdadeiro custo desses empréstimos, um problema que o relatório atribui diretamente à insuficiência das divulgações obrigatórias. Portugal não está imune a este risco.
- As autoridades do setor segurador reconheceram no relatório “a necessidade de melhorias na qualidade da informação, como os termos de cobertura e exclusões, fornecida pelas seguradoras aos consumidores”.
- O Banco de Portugal, por sua vez, emitiu cartas circulares sobre divulgação de informação, reforçando as obrigações regulatórias no âmbito da venda de produtos e serviços de banca de retalho através de canais digitais, num sinal de que o problema está identificado, mas que o caminho ainda é longo.
O segundo risco de conduta mais significativo, apontado por 39% das jurisdições, é o aconselhamento deficiente ou a falha na realização de avaliações de adequação. Ou seja: consultores e intermediários financeiros que não verificam se os produtos que recomendam são adequados ao perfil, às necessidades e à situação financeira dos seus clientes.
O relatório é claro sobre as consequências: “O aconselhamento deficiente ou a falha nas avaliações de adequação podem levar a uma tomada de decisão inadequada e à perda de recursos económicos, uma vez que os consumidores podem não compreender os riscos ou receber recomendações genéricas.”
Este risco tem uma nova dimensão no contexto digital por via do fenómeno dos finfluencers, criadores de conteúdo nas redes sociais que aconselham sobre produtos financeiros, por vezes sem qualquer habilitação ou licença, e que podem ser vetores de fraude ou desinformação.
Em Portugal, a CMVM emitiu, em março do ano passado, uma comunicação específica sobre estas atividades, sublinhando que estão sujeitas ao cumprimento integral da regulamentação em vigor.
O terceiro risco de conduta identificado são as práticas de venda desonestas, selecionadas por 33% das jurisdições. Estas incluem representações enganosas na comercialização de produtos, cobranças injustas, condições contratuais desfavoráveis e falta de transparência na publicidade.
“As práticas de venda desonestas podem prejudicar a confiança dos consumidores no sistema financeiro”, alerta o relatório, numa advertência que ressoa em países como a África do Sul, onde estas práticas, segundo as autoridades locais, “minam a integridade do setor financeiro e o cumprimento regulatório.”
A literacia financeira deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma linha de defesa essencial contra burlões e esquemas de fraude.
Em vários países europeus, incluindo a Ucrânia, foi detetado o hábito de bundling, técnica em que os consumidores são pressionados a adquirir produtos adicionais, nomeadamente seguros, quando contratam um produto principal. Em muitos casos, estas práticas exploram a complexidade dos próprios produtos: ativos digitais e investimentos de alto risco são frequentemente utilizados por burlões e vendedores para tirar partido da falta de conhecimento dos consumidores.
A este quadro soma-se ainda a falta de práticas de crédito responsável, incluindo cobranças de dívida agressivas. O relatório alerta para a expansão dos produtos de crédito digital, especialmente os BNPL e os microempréstimos online, sem as devidas verificações de solvabilidade.
“Os consumidores que já têm dificuldades com os serviços financeiros digitais podem deparar-se simultaneamente com produtos mais opacos e com menos vias de apoio adequado ao cliente, o que pode ampliar a sua vulnerabilidade”, conclui o documento.
Face a este diagnóstico, a OCDE apresenta uma agenda de três ações para os governos e reguladores:
- Quadros de proteção financeira mais robustos e alinhados com os Princípios de Alto Nível sobre Proteção dos Consumidores Financeiros, que consistem num conjunto de 12 princípios que balizam tudo, desde a transparência das divulgações até à supervisão dos mercados.
- Reforço das capacidades de supervisão, nomeadamente através de ferramentas tecnológicas como SupTech, análise de dados e IA, que permitam às autoridades detetar mais rapidamente irregularidades e agir preventivamente. “Abordagens coordenadas que reúnam autoridades financeiras, agências de cibersegurança, organismos de aplicação da lei, associações da indústria e de consumidores podem igualmente reforçar a capacidade de enfrentar desafios transversais, como as burlas e os esquemas de fraude financeira”, afirma o documento.
- Empoderamento dos consumidores através de iniciativas de literacia financeira e digital, incluindo programas dirigidos a grupos que possam ser vulneráveis, e ferramentas que melhorem a capacidade dos consumidores de compreender, comparar e utilizar produtos financeiros em segurança” — recomendação expressa da organização. Para isso, a OCDE promove também instrumentos práticos — como comparadores de preços e plataformas de reclamações digitais — e defende a cooperação internacional entre reguladores para combater burlas que cruzam fronteiras.
Num mundo onde a IA pode imitar a voz do seu gestor de conta e onde um clique pode comprometer a poupança de uma vida, a literacia financeira deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma linha de defesa essencial contra burlões e esquemas de fraude. A OCDE já avisou, mas a questão é saber quem vai ouvir.
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