Depois de dez dias de ida à Lua, astronautas da Artemis regressam a casa

Esta sexta-feira à noite – espera-se a chegada por volta das 20h00 ET, cerca da uma da manhã de sábado de hora de Lisboa – irá viver-se um dos momentos mais críticos da missão Artemis: a reentrada.

Depois de dez dias até à Lua, esta sexta-feira à noite os quatro astronautas da Artemis II preparam-se para um dos momentos mais críticos da missão: a reentrada na Terra. Terão de abrandar a nave de uma velocidade superior a 40 mil quilómetros hora para zero. “É o momento talvez mais crítico da missão, depois do lançamento, e com este último movimento a missão será considerada um êxito.”

“Até agora esta missão está a cumprir com todos aqueles objetivos que foram estipulados”, diz Hugo André Costa, diretor executivo da Agência Espacial Portuguesa ao ECO/eRadar.

“Não só bateu o recorde da distância em que os humanos estiveram mais longe da Terra até hoje [atingiram as 252 mil milhas, até aqui o recorde tinha sido atingido pela tripulação da Apollo 13, cerca de 4 mil milhas, atingido há 56 anos] como houve tempo para observarmos o lado oculto da Lua, o menos conhecido, e os astronautas puderam verificar aquilo que também poderá ser no Polo Sul a futura base do lunar”, explica.

Durante os dez dias da primeira missão tripulada em mais de 50 anos — Victor Glover, Jeremy Hansen, Reid Wiseman e Christina Koch compuseram a tripulação da primeira da missão Artemis — foram feitos testes a todos os sistemas de suporte de vida. “Isso foi extremamente importante para perceber como é que esta nave funciona para uma próxima missão no Artemis IV no regresso à Lua”, destaca.

(Da esquerda para a direita) O piloto Victor Glover, da NASA, o especialista de missão Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadiana, o comandante Reid Wiseman, da NASA, e a especialista de missão Christina Koch, da NASA, saem do Edifício de Operações e Verificação Neil A. Armstrong em direção à Plataforma de Lançamento 39B, como parte dos preparativos para o lançamento da Artemis II em Titusville, Florida, EUA, a 1 de abril de 2026. O lançamento da Artemis II está agendado para 1 de abril de 2026, num sobrevoo lunar tripulado, a primeira missão humana para além da órbita terrestre baixa desde 1972. EPA/CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH

“Foram feitos testes de radiação e percebemos a quantidade de radiação que os astronautas vão receber quando estão a esta distância da Terra”, destaca. E igualmente testados os sistemas de comunicação ótica por laser, uma inovação.

E também aqui os testes revelaram-se positivos, pese embora o silêncio de cerca de 40 minutos que marcou um dos momentos mais emocionalmente tensos da viagem, quando a nave na sua órbita atingiu a face oculta da Lua. O silêncio tem uma explicação simples. “Esses cerca de 40 minutos sem comunicações, deve-se ao facto de a Lua estar entre a nave e a Terra, portanto o sinal não chega à Terra. Se existisse um satélite à volta da Lua para reemitir esse sinal, isto não teria acontecido”, explica.

“Embora nós saibamos que, se a órbita estiver correta, a nave vai entrar neste silêncio e depois vai novamente aparecer e vamos comunicar, é quase como quando temos um eclipse do Sol”, comenta.

“Sabemos que a luz desaparece naqueles dois minutos e ela a seguir vai aparecer, mas aqueles dois minutos em que nós não vemos a luz do Sol, ficamos assim com um friozinho na barriga. Parece que vamos viver na noite para sempre”, descreve o diretor executivo da Agência Espacial Portuguesa.

A sonda Orion da NASA capta a Lua e a Terra numa única imagem durante a viagem espacial da tripulação da missão Artemis II, às 18h42 (hora do leste dos EUA) do sexto dia da missão. O lado direito da sonda Orion da NASA é iluminado pelo Sol. É visível uma Lua crescente atrás dela. E depois, uma Terra crescente, minúscula em comparação com a Lua, está prestes a pôr-se abaixo do horizonte lunar à direita. NASA

“Portanto, a missão em si foi extremamente positiva. Certamente hoje à noite, ao aterrar certamente vai correr tudo bem e, portanto, podemos dizer que a missão foi um êxito. Não só para a NASA mas também principalmente para a Europa e para o módulo europeu”, aponta, referindo o módulo que teve o contributo da Agência Espacial Europeia e da indústria espacial europeia.

“Este é o principal módulo que dá o apoio de vida, de propulsão, as telecomunicações, nada falhou. E, portanto, isso também, para o ponto de vista europeu, é um êxito desta missão, porque aquilo que a Europa se propôs, cumpriu, e cumpriu com muito boa nota”, destaca.

Reentrada é momento crítico

Esta sexta-feira à noite – espera-se a chegada por volta das 20h00 ET, cerca da uma da manhã de sábado de hora de Lisboa – irá viver-se um dos momentos mais críticos da missão: a reentrada.

“A reentrada tecnicamente, é muito difícil, porque temos uma nave que vem a cerca de 40 mil quilómetros hora, e tem que chegar à Terra aproximadamente a zero quilómetros hora, portanto tem que travar de 40 mil quilómetros hora até aproximadamente zero quilómetros hora, e portanto este vai ser um momento extremamente crítico”, aponta Hugo André Costa.

Reentrar na atmosfera tem um efeito de quase como quando atiramos uma pedra a um charco. “O que pode acontecer numa reentrada deste género, se a nave vier com uma inclinação muito alta, vai entrar a pique e, portanto, a nave pode desintegrar-se, ou então ela entra muito tangencialmente e o que acontece é que a nave bate na atmosfera e salta para longe”, descreve o diretor executivo da Agência Espacial Portuguesa.

Uma imagem divulgada pela Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço (NASA) mostra a Terra captada através da janela da nave Orion às 18h41 EDT (hora de Brasília), no dia 6 de abril de 2026, durante a passagem da tripulação da missão Artemis II pela Lua. Em primeiro plano, a cratera Ohm apresenta bordos em socalcos e um fundo plano interrompido por picos centrais. EPA/NASA

Esse momento da missão irá igualmente testar ao máximo o escudo térmico da Orion, num altura em que ele é atingido por um intenso atrito atmosférico, criando uma espécie de bola de fogo em torno da cápsula. Algo que está no pensamento dos astronautas, como admite o piloto da missão Artemis II, Victor Glover. “Na verdade, tenho pensado na reentrada desde 3 de abril de 2023, quando fomos designados para esta missão”, disse quando questionado sobre como se sentia em relação ao retorno, citado pela Reuters.

Numa missão de exploração espacial, mas com humanos, a missão também teve os seus momentos emocionais. Talvez o maior tenha sido quando a tripulação deu o nome de Carroll Wiseman, esposa do comandante Reid Wiseman que morreu de cancro em 2020, a uma cratera na Lua recentemente formada.

A sugestão surgiu do lado da tripulação durante o período de quarentena antes do lançamento. “Foi um momento emocionante para mim”, disse Wiseman. “Eu disse ‘Com certeza, eu adoraria’… Mas não consigo fazer o discurso. Não consigo fazer a apresentação”, disse Wiseman, citado pela Reuters.

E depois da órbita à Lua, o que se segue?

Chegados os astronautas, os meses que se seguem serão para analisar todos os dados desta missão: do lançamento, da viagem até à Lua, da vida dos astronautas a bordo, o problema que eles tiveram com a casa de banho, analisar todas as imagens que eles capturaram da face oculta da Lua.

Mas também servirão para ajudar a definir onde será feita a alunagem na próxima missão, mas também “perceber como é que ocorreram também as manobras de proximidade que fizeram logo após o lançamento, primordial para Artemis III”.

(6 de abril de 2026) - A Lua, aqui vista iluminada pelo Sol durante um eclipse solar a 6 de abril de 2026, é fotografada por uma das câmaras nas asas do painel solar da sonda Orion. A constelação de Orionte é visível em primeiro plano, à esquerda. A Terra reflete a luz solar na orla esquerda da Lua, que é ligeiramente mais brilhante do que o resto do disco. O ponto brilhante visível logo abaixo do bordo inferior direito da Lua é Saturno. Mais adiante, o ponto brilhante na margem direita da imagem é Marte. NASA

A próxima missão, a Artemis III, “é uma missão à volta da Terra para fazer todas as operações de proximidade com as várias naves que vão estar a orbitar depois a Lua. Depois Artemis IV será já a aterragem, a alunagem na Lua”, refere. Data: 2028.

“2028 é, sem dúvida, um espaço de tempo muito curto. Neste momento sabemos que a cápsula Orion funciona, mas falta agora testar todo o material para aterrar na Lua. Vai ser desenvolvido ou para o SpaceX ou para o Blue Origin, e, portanto, vai ser muito importante ver como é que isto se desenvolve até lá”, aponta.

Corrida ao espaço

Com o até aqui sucesso da missão Artemis — e a mensagem de poderio tecnológico subjacente — vários analistas apontaram que a pressão para a China para chegar à Lua em 2030 iria aumentar.

“A China é um bocadinho imune aos ciclos políticos. Põem os objetivos a longo prazo e conseguem atingi-los. Basta ver, por exemplo, a Estação Espacial da China, que foi construída, obviamente, com muito apoio da Rússia, em termos de know-how mas eles fizeram e estão agora a operá-la de forma muito bem-sucedida. Portanto, a ida à Lua, do meu ponto de vista, é algo semelhante. Ou seja, eles colocam 2030 como objetivo, eventualmente, se não chegarmos no 2030, creio que do ponto de vista dos chineses não haverá problema, porque eles querem ir e ficar”, considera o diretor executivo da Agência Espacial Portuguesa.

“No caso americano, 2028 será, em princípio, o último ano da administração de Trump que tem o objetivo em 2030 já ter uma base lunar”, refere. A pressão está então do lado americano? “Vai estar sempre do lado dos Estados Unidos, porque a China vê as coisas a longo prazo.”

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