A pressão recente sobre a Mota-Engil voltou a trazer à ribalta os investidores que ganham com a descida das cotações. Esta atividade tem uma longa história e várias personagens maiores que a vida.
Um provérbio inglês com origem no século XVII diz que “a perda de um homem é o ganho do outro”. Nem tudo é um jogo de soma zero, mas nos mercados há um submundo que aposta no movimento contrário ao da maioria dos investidores: quanto pior, melhor.
Em traços muito gerais, as vendas a descoberto ou short-selling é a prática de procurar ganhar com a desvalorização de um ativo. Quanto mais ele descer, melhor para os short-sellers. Isto pode parecer contra-intuitivo e tem alguns pressupostos: se a tendência do mercado é, no longo prazo, subir, e a grande maioria dos investidores deseja isso, quem está do lado oposto acredita ter informação que mais ninguém tem, ou pelo menos, não valoriza. É um caminho solitário e contra-corrente, que tem dado má fama aos short-sellers desde que a prática foi inventada.
A forma mais tradicional de short-selling parte do pedido de empréstimo de ações, que são vendidas a um determinado preço, com a expectativa de que, posteriormente, o valor baixe. Depois, o short-seller compra as ações mais baratas e devolve-as a quem lhas emprestou inicialmente, ganhando a margem. Mas há muitas outras formas de lucrar com a desvalorização de um ativo, com diversos graus de alavancagem, como por exemplo a compra de credit default swaps (CDS) sobre entidades que podem entrar em dificuldades. Se o risco não está bem avaliado por quem vende os CDS, um investidor pode comprar um “seguro” por pouco e ganhar em grande se a entidade subjacente entrar em dificuldades.
Sempre houve alguém a ganhar com a perda de outros, como o provérbio inglês indicia, mas os primeiros casos mais conhecidos nos mercados têm mais de 100 anos. O norte-americano Jesse Livermore, nascido em 1877 numa família pobre do Massachussetts, foi dos primeiros investidores a ganhar fama ao prever e desejar a queda das cotações. Começou a ganhar dinheiro em lojas de apostas. Não negociava títulos propriamente ditos mas fazia apostas sobre se determinada ação ia subir ou descer. Teve tanto sucesso que acabou por ser banido da grande maioria dessas casas, por lhes dar quase sempre prejuízo. Mas a primeira grande marca foi ter aberto uma posição curta na Union Pacific Railroad, um dia antes do grande terramoto de São Francisco, em 1906. As perdas que se seguiram encheram os bolsos de Livermore e, durante o que ficou conhecido como o “Pânico de 1907”, aproveitou as posições que tinha construído para lucrar ainda mais.
Nos anos seguintes, foi investindo cada vez mais, tanto em posições longas como curtas, alternando ganhos e perdas. Em 1915 conheceu a sua primeira falência, mas voltou ao ataque. Esteve envolvido numa tentativa de controlar o mercado do algodão, obrigando o presidente norte-americano Woodrow Wilson a chamá-lo à Casa Branca para resolver o assunto; tentou — junto com outros short-sellers — atacar as ações da Piggy Wiggly (a primeira cadeia de retalho alimentar self-service); e tirou partido da vigilância menos apertada de então para fazer aquilo que hoje em dia seria considerado manipulação de mercado.

Se em 1906 tinha apenas tido sorte, Livermore usava modelos de avaliação, detetives e informação privilegiada para tentar prever o que ia acontecer. Nos anos antes do grande crash de 1929 abriu centenas de posições curtas, convencido que o mercado ia cair. Para isso, utilizou mais de 100 corretores diferentes, para que ninguém percebesse a sua estratégia. Quando o pior aconteceu, o melhor caiu na carteira de Livermore.
Ficou desde então conhecido como “O Grande Urso de Wall Street” e chegou a receber ameaças de morte por pessoas que o responsabilizavam pelo crash e o criticavam por lucrar com a desgraça alheia.
O investidor continuou sempre ativo nos mercados, muitas vezes correndo grandes riscos. Ao mesmo tempo, ia colecionando bens caros e vários casamentos. Em 1934, é criada a Securities and Exchange Comission, o regulador do mercado de capitais norte-americano, pegando nas lições de 1929. Sendo Livermore uma das figuras negras dessa crise, foi um alvo preferencial da SEC.
Em 1940, a política de alto risco de Livermore finalmente tinha-o apanhado, com elevadas responsabilidades por pagar e os credores à porta. No dia de Ação de Graças, suicidou-se num hotel em Manhattan. Foi o fim do grande urso, mas não o fim do short-selling, que sobrevive até hoje.
Num momento em que os short-sellers pairam sobre os mercados, como é o caso do conflito entre a Muddy Waters e a Mota-Engil, recordamos algumas das figuras mais conhecidas deste tipo de investimento, entre as quais já figura o fundador do fundo que levou a construtora portuguesa a tribunal.
Andrew Left
Andrew Eduard Left começou a sua vida profissional andando na fina linha entre a venda de produtos financeiros e a fraude, numa empresa que se especializou em formar batalhões de funcionários que vendiam agressivamente produtos financeiros via telefone, muitas vezes recorrendo a mentiras e dados só parcialmente corretos. Essa empresa foi sancionada e Left, juntamente com todos os outros funcionários, esteve três anos proibido de negociar ativos financeiros em mercado.
Costuma dizer que foi essa experiência inicial que o levou a desconfiar daquilo que se diz sobre determinado ativo. Em 2001, criou o site StockLemmon.com, no qual escrevia sobre empresas que, no seu entender, tinham algo a esconder. Esse site deu depois origem à Citron Research, que se especializou em produzir e amplificar relatórios detalhados sobre empresas que, na visão de Left, estavam claramente sobreavaliadas, cometiam fraude nos seus números ou simplesmente não diziam toda a verdade. Tomou posições em centenas de empresas e foi genericamente bem sucedido, acabando por ser temido pelos conselhos de administração.

Enfrentou vários processos na justiça, sobretudo devido a acusações de que exageraria nas suas conclusões para fazer as ações cair, e com isso ganhar dinheiro. Entre os seus principais alvos estiveram a farmacêutica Valeant, várias empresas chinesas e a Shopify, entre muitos outros.
Bill Ackman
Este é um investidor mais multifacetado, usando várias estratégias combinadas na gestão dos seus hedgde funds, e não se focando apenas nas posições curtas. Ainda assim, alguns dos seus muitos investimentos foram através de short-selling, e deram origem a grandes ganhos e grandes perdas, bem como a algumas batalhas que ficaram famosas. Uma delas foi quando decidiu apostar contra a Herbalife, com uma posição curta de mil milhões de dólares, em 2012, afirmando que a empresa não passava de um gigante esquema piramidal. Isso deu origem ao conflito com o bilionário Carl Icahn, acionista da empresa, e que jurou fazer guerra ao ataque de Ackman. Depois de uma célebre discussão em direto na CNBC, os dois passaram anos em luta, sendo que, no final, os bolsos de Icahn eram mais fundos: continuou a comprar ações da Herbalife e não permitiu que Bill Ackman lucrasse com a sua aposta curta. Este acabou por ter de fechar a posição e aceitar as perdas de muitos milhões de dólares.

Ackman lidera a Pershing Square Capital Management e insere-se na categoria do investidor ativista, ou seja, analisa as empresas nas quais investe e divulga publicamente os resultados das suas conclusões, obrigando as organizações a darem esclarecimentos.
Carson Block
Este é um nome que só recentemente se tornou conhecido em Portugal, depois de a sua empresa, a Muddy Waters, ter tomado uma posição curta na Mota-Engil e levado a administração a tribunal alegando difamação, depois de Carlos Mota dos Santos ter dito, numa entrevista, que a Muddy Waters estava a fazer manipulação de mercado. Mas, nos Estados Unidos, Block é um dos mais desbocados praticantes do short-selling ativista. O que o distingue de outros investidores é a sua postura moralista e justiceira, tendo chegado a dizer que para ele, ao contário do que sucede com os seus investidores, é mais importante provar que as empresas estão a enganar o mercado do que fazer dinheiro.
A sua base é a Muddy Waters Research, empresa que criou em 2010. O objetivo desta era produzir conhecimento sobre empresas cotadas de forma independente, e não ter de tomar decisões com base nas habituais firmas de investimento e research. Block partiu do pressuposto de que o sistema habitual não faz todo o trabalho de casa na análise das empresas em bolsa, pelo que decidiu criar equipas internas para o conseguir. Mas esta empresa não se limita a fazer análise, atua com base nas suas conclusões, com uma estratégia para tirar partido de empresas que, no seu entender, estão sobreavaliadas: o short-selling, procurando lucrar com a desvalorização dos títulos.

Carson Block é uma personagem assídua nos programas de negócios da televisão norte-americana e conhecida pelo seu estilo agressivo e apaixonado. A Muddy Waters Capital LCC – nome tirado de um ditado chinês que diz que “é mais fácil apanhar peixes quando a água está lamacenta” – também tem investimentos longos, mas Block admitiu que isso o faz sentir oco. Prefere ganhar dinheiro indo atrás de quem considera estar a enganar o mercado.
Em declarações a um perfil no site Institutional Investor, há cinco anos, fala dessa diferença, e também dos custos de ser um justiceiro barulhento. Quanto mais bem sucedidos são as suas manobras de short “mais provável é que nos processem; mais merdas ad hominem vêm na nossa direção; mais malucos me vêm ameaçar. É como se nunca parasses de olhar por cima do ombro”. E acrescenta: “Nunca chegas a sentir-te bem. Nunca te permites disfrutar da alegria do sucesso. Cada sucesso traz a pergunta: como é que isto se vai voltar contra nós”?
O seu primeiro alvo foi a Sino-Forest Corporation, com valores mobiliários cotados na América do Norte e que se apresentava como uma das maiores proprietárias de floresta comercial da China. Carson Block fez as contas e achou que havia algo de errado com a empresa, lançando uma campanha contra a gestão, alegando que a Sino-Forest pouco mais era que um esquema Ponzi. Depois da Muddy Waters ter publicado e publicitado as suas conclusões sobre as contas da empresa, as ações caíram perto de 80%, levando a perdas de muitos investidores, incluindo o famoso John Paulson. A Sino-Forest defendeu a solidez das suas contas mas pediu uma auditoria independente. Um ano depois do ataque de Block, entrou em falência.
A empresa continuou a atacar empresas chinesas, americanas e europeias, com diferentes graus de sucesso, mas só a menção de que a Muddy Waters tem uma posição curta costuma ser suficiente para pressionar as cotações da empresa-alvo.
Em 2019, a empresa organizou os prémios “Fidouchies”, uma sátira aos prémios atribuídos normalmente às estrelas do setor financeiro mais mainstream. A apresentadora estrela foi Stormy Daniels, a estrela de filmes pornográficos que ficaria conhecida por ter recebido dinheiro de Donald Trump para não falar dos seus encontros. Um dos prémios anunciados por Daniels foi para “O regulador com o pénis mais flácido”, distinguindo a agência governamental para o controlo de drogas, no meio de uma crise de opiáceos nos Estados Unidos.
Block, que diz de si próprio que “nunca desiste”, tem agora a Mota-Engil e a sua administração na mira, ainda que não tenha publicado um relatório exaustivo sobre quaisquer alegadas más práticas (que a construtora portuguesa nega).
David Einhorm
Criou a sua empresa, a Greenlight Capital, aos 28 anos, e rapidamente começou a ser notado pelas suas opiniões e posições curtas em algumas empresas. Uma delas, logo em 2002, focava a Allied Capital, que caiu 20% um dia depois de Einhorm ter divulgado que a estava a ‘shortar’. A empresa reagiu e o que se seguiu foram seis anos de luta entre as partes. No final, a Allied acabou por ser penalizada pela SEC e Einhorm tinha ganho o gosto por revelar as fraquezas empresariais e ganhar dinheiro com elas.
Mas o grande negócio, aquele que lhe garantiu um lugar nesta lista, foi o short à Lehman Brothers, antes do colapso deste colosso financeiro. Em julho de 2007, Einhorm começou a construir a sua posição, considerando que a Lehman tinha graves deficiências estruturais, entre elas uma grande exposição a ativos imobiliários ilíquidos e mal avaliados nas suas contas, bem como práticas contabilísticas desenhadas para mascarar fragilidades. À medida que a crise financeira se ia agravando e já depois de o governo norte-americano ter sido obrigado a salvar a Bear Stearns, David Einhorm anunciou publicamente, em abril de 2008, que estava a shortar a Lehman, que era vista como o próximo dominó a cair. A pressão era tal que Erin Callan, CFO da Lehman Brothers, convocou Einhorm para uma reunião para o tentar convencer de que estava tudo bem e que as suas críticas eram infundadas. O encontro não correu bem e a Greenlight reforçou as críticas, levando os títulos da Lehman a cair ainda mais. Ainda houve depois o anúncio de um prejuízo trimestral de quase três mil milhões de dólares, e depois a falência propriamente dita, em setembro de 2008. A reputação de Einhorm estava garantida.

O investidor tem um historial de questionar publicamente a administração de várias empresas, entre elas a Apple, e nem sempre o faz estando com uma posição curta aberta.
Na sua vida pessoal, tem duas curiosidades. É um excelente jogador de póquer e já ganhou muito dinheiro em torneios; e é também um filantropo, apoiando várias associações sem fins lucrativos.
George Soros
É muito redutor classificar Soros como um short-seller, mas o seu percurso ficou marcado por uma jogada tão memorável que o marcou para sempre. Mas a sua história vem muito de trás, e começou em Budapeste em 1930, quando nasceu György Schwartz no seio de uma família judia, que sobreviveu à ocupação nazi. Em 1947, estabeleceram-se no Reino Unido, onde George estou economia e filosofia. Começou a trabalhar em bancos de investimento até criar o seu próprio fundo, em 1969. Foi muito bem sucedido e multiplicou o dinheiro da família e dos seus clientes.

Em 1992, chegou o tal episódio. Decidiu apostar contra a libra esterlina, entendendo que os termos em que a moeda tinha sido admitida no mecanismo europeu de câmbio não batia certo. Soros considerava que o câmbio face ao marco alemão era demasiado favorável à libra, a inflação inglesa demasiado elevada e que a Coroa só tinha duas hipóteses: subir agressivamente as taxas de juro ou abandonar o câmbio fixo com as restantes moedas do sistema. Foi construindo uma posição curta que chegou a 10 mil milhões de libras, num braço de ferro com o Banco de Inglaterra que lutou para não deixar desvalorizar a moeda. Naquela que ficou conhecida como a “Quarta-feira negra”, o Banco de Inglaterra viu-se forçado a abandonar o sistema de câmbio europeu, levando a uma forte queda da moeda. O lucro de Soros terá sido de perto de mil milhões de dólares e valeu-lhe o título de “O homem que quebrou o Banco de Inglaterra”.
Para além desse negócio, Soros é também conhecido por ser um grande filantropo e pela ação da Open Society Foundation, com milhares de milhões investidos no apoio da democracia e dos direitos humanos em mais de 100 países. É também a figura preferida dos adeptos das teorias da conspiração, nomeadamente de extrema-direita, que o consideram a cabeça de um grande esquema mundial.
Jim Chanos
Falar de Jim Chanos é, necessariamente, falar da Enron, a gigante da energia que protagonizou uma das falências mais espetaculares dos Estados Unidos nas últimas décadas. Filho de emigrantes gregos nos Estados Unidos, trabalhou toda a vida nos mercados e, em 1985, criou a sua própria gestora, a Kynikos, já desde a origem assumidamente especializada em explorar as oportunidades no short-selling. A sua estratégia assenta, nas palavras do próprio, em “extensa análise das ações”, à procura de inconsistências, fraudes ou sinais de alarme. A sua ação mais mediática foi quando, no início do século, identificou graves problemas contabilísticos na trader de energia Enron. Tomou uma posição curta e foi reforçando à medida que obtinha mais informação. Quando esta faliu, no final de 2001, Chanos garantiu que mais ninguém ia ignorar as suas “profecias”.

Jim Chanos tem muitas opiniões e não é tímido na altura de as revelar. Foi atrás da Caterpillar, da WireCard ou da Tesla, sendo que esta última lhe custou muito dinheiro, face à sua subida impressionante nos mercados. Também as suas recorrentes previsões acerca de verdadeiros cataclismos na economia e empresas chinesas não se concretizaram. A sua visão pessimista valeu-lhe alcunhas como “Darth Vader de Wall Street”, o “Capitalista Catástrofe” ou o “LeBron James do short-selling”.
John Paulson
Paulson criou a firma de investimento com o mesmo nome em 1994. Antes disso, e não sendo de uma família abastada, foi um aluno brilhante por onde passou e, em 1980, começou a carreira como consultor no Boston Consulting Group. Depois trabalhou em vários bancos de investimento, como o Bear Stearns, até criar o seu próprio negócio, que foi crescendo com base nas suas certeiras escolhas de ativos.
Paulson especializou-se em investimentos que pretendiam ganhar com a relação entre vários ativos e/ou as suas coberturas de risco, apostando na arbitragem e também no short-selling. Tal como Michael Burry, foi também na crise do subprime que Paulson se destacou, com um lucro de vários milhares de milhões de euros, ainda que isso lhe tenha valido inúmeras críticas. Isto deveu-se ao facto de ter estado em dois lados contraditórios do dossiê, com um claro conflito de interesses. Por um lado, comprou valores elevados em credit default swaps sobre veículos cheios de hipotecas de baixa qualidade, apostando no seu incumprimento; por outro, esteve envolvido na escolha das tranches de hipotecas incluídas nos pacotes para os quais comprou proteção. O que isto significa é que tinha interesse em escolher os piores contratos para entrar nesses pacotes, porque lucraria com o seguro (via CDS) se eles falhassem. Isto foi feito através do programa Abacus, do Goldman Sachs, que vendeu essas pacotes de maus créditos a terceiros. A Goldman acabou multada em perto de 500 milhões de dólares (por não ter divulgado que Paulson beneficiaria com o incumprimento dos contratos e, ao mesmo tempo, tinha participado na sua escolha) mas Paulson saiu incólume.

Foi um apoiante de Donald Trump nas últimas campanhas, foi um dos seus conselheiros económicos e chegou a ser apontado como o possível Secretário do Tesouro do atual governo.
Michael Burry
Um golpe certeiro levou Burry a ficar na história e até a ser personagem de filme. Começou por querer ser médico e chegou mesmo a licenciar-se. Durante o seu período de residência médica, na área de neurologia, começou a negociar nas bolsas enquanto hobby. Começou por ter muito sucesso nas suas apostas, que ia partilhando online a partir de 1996, nomeadamente no influente website Silicon Investor. Acabou por deixar a medicina e inicialmente a sua estratégia era relativamente linear, defendendo a “aposta em valor”, ou seja, o investimento em títulos com bons fundamentos, histórias de crescimento e estabilidade. Porém, Burry deu que falar por volta do ano 2000, quando a bolha das dotcom estava prestes a rebentar. Mais tarde, soube-se que havia aberto uma posição curta na Amazon. Apesar de ser, agora, uma história de extraordinário sucesso, foi uma das empresas que sofreu duramente no início do século. Ainda em novembro de 2000 abriu o seu hedge-fund, chamado Scion Capital, com o dinheiro de uma herança e empréstimos da sua família. Rapidamente provou que continuava a fazer escolhas certeiras e foi logo bem sucedido.

Mas o seu grande momento, aquele pelo qual ficou na história, surgiu durante a crise do subprime. Michael Burry passou os anos anteriores a olhar com atenção para o segmento dos produtos financeiros de elevado risco. Ficou convencido de que havia uma bolha prestes a estourar, numa conjugação de empréstimos à habitação com poucas garantias e muito vulneráveis às mexida nos juros, e que ainda por cima estavam a ser empacotados e repassados por todo o mundo, sob a forma de produtos financeiros complexos. A jogada de Burry foi, acreditando que vinha um forte crash nesse segmento a caminho, convencer grandes grupos como a Goldman Sachs e outros a vender CDS ao seu fundo. Os tubarões de Wall Street continuavam convencidos de que nada de grave se ia passar naquele segmento e viram aqui mais uma forma de ganhar dinheiro, vendendo “seguros” que nunca iriam ser acionados. Mas foram. Em 2008, o subprime explodiu e os estilhaços estavam nas carteiras de investimento de todo o mundo. Já Burry e o seu fundo ganharam perto de 800 milhões de dólares com essa aposta certeira. O episódio foi imortalizado no filme “The Big Short”, de 2015, que venceu um Óscar. O papel de Michael Burry foi protagonizado por Christian Bale.
Burry continuou a ser voz ativa no que toca a investimentos e chegou a ser noticiada a abertura de posições short sobre títulos como a Nvidia e a Palantir, bem como alertas sobre uma possível bolha na Inteligência Artificial. No entanto, já no final de 2025, fechou de vez o seu fundo, tendo lançado uma newsletter por subscrição na qual explica as suas ideias sobre o mercado atual.
Paul Singer
Nascido em 1944, Singer estudou Direito e foi-se aproximando progressivamente do setor financeiro, sobretudo ajudando a construir negócios complexos. Em 1977 decidiu criar a sua firma, o fundo Elliot Associates, graças ao investimento de família e amigos para compor o capital inicial. Com o tempo tornou-se praticamente a cara dos chamados “fundos abutre”, pela sua especialização na compra de dívida (com desconto) de países em apuros ou à beira do colapso, para depois exigir nos tribunais o pagamento completo, em batalhas que duraram muitas vezes anos. Argentina, Peru ou o Congo foram alguns dos seus alvos, normalmente em raides bem sucedidos.

No que toca ao investimento em empresas, o short-selling nem é a sua maior marca. Tem um longo percurso enquanto investidor ativista, comprando uma participação em empresas e depois exigindo mudanças radicais na administração, venda agressiva de ativos ou aumento da remuneração acionista. Tem sido acusado, nesse campo, de privilegiar absolutamente o curto prazo em detrimento de uma estratégia de maior equilíbrio e de desenvolvimento de longo prazo, tentando maximizar os seus lucros rapidamente mesmo que, aqui e ali, possa com as suas propostas limitar o potencial de crescimento das empresas nas quais investe.
Mais recentemente, tem entrado com mais determinação no campo do short-selling, como parte da sua panóplia de instrumentos. Abriu posições curtas na Shell e noutras petrolíferas e depois na Nvidia, como parte de uma aposta maior de que há uma bolha relacionada com a Inteligência Artificial que poderá vir a rebentar.
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