Dionísio Pestana: o paciente hoteleiro português que está em 17 países
Da África do Sul para a recuperação de um hotel na Madeira, passando pela abertura de um hotel em Londres, o caminho de presidente do maior grupo português do sector.
Dionísio Pestana falou pouco nesse almoço que reunia os mais importantes empresários da hotelaria portuguesa nos anos 90, mas deixou uma imagem de pragmatismo que marcou José Theotónio. O atual CEO do grupo Pestana era chefe de gabinete do secretário de Estado do Turismo Alexandre Relvas quando conheceu aquele que, anos mais tarde, viria a ser o seu patrão no grupo Pestana. Esse sentido prático é uma característica que ainda hoje lhe reconhece.
O encontro aconteceu em 1994 durante um almoço de trabalho, ao lado de outros empresários do setor da hotelaria, que também tinham sido convidados para conversar sobre um recém-criado sistema de incentivos europeus para hotéis que chegaria aos 100 mil contos, valor modesto para os investimentos que uma unidade hoteleira exige. Havia reclamações quanto ao valor e havia outra questão: tratava-se de uma imposição da União Europeia. O empresário madeirense foi o “mais calado” , diz o agora CEO do grupo. Acabaria por dizer: “O que temos de fazer é arranjar projetos até 100 mil contos”. O assunto ficou arrumado, mas a impressão que Dionísio Pestana causou em José Theotónio persiste: “É pragmático”.
Anos depois, já com José Theotónio no grupo Pestana, voltou a ver o sentido prático do chairman em ação. “Quando fizemos o CR7 na Baixa de Lisboa, o prédio estava todo pronto e pintado de azul, mas alguém na câmara disse que tinha de ser no amarelo da Baixa. Os engenheiros queriam fazer requerimentos, quando ele soube perguntou quando queríamos ter o hotel aberto. Respondemos: o mais depressa possível”. E o prédio foi pintado de amarelo.
Dionísio Pestana nasceu em Joanesburgo, África do Sul, e tornou-se hoteleiro quase por acaso, quando, em 1976, o pai lhe pediu para salvar um hotel Pestana Carlton Madeira, que tinha inaugurado em 1972. Diz, ainda hoje, que foi o maior desafio que enfrentou: “Eu era novo e não tinha experiência, apenas boa vontade, e o que eu queria, na verdade, era trabalhar na bolsa”, disse, em entrevista à revista do grupo por ocasião dos 50 anos do grupo Pestana.
A história é contada em pinceladas largas pelo próprio. “O hotel estava a ser financiado com receitas do Prédio Funchal (atual Pestana Rovuma), no centro de Maputo. Após o 25 de Abril de 1974, perdemos essa fonte de rendimento, e o meu pai não estava disposto a meter mais dinheiro na operação da Madeira. Já o estava a dar como perdido”. José Theotónio acrescenta que Dionísio Pestana sempre quis saber mais. “Quando não sabia nada de turismo e hotelaria, tinha a preocupação de ir a seminários sobre o setor e foi aí que aprendeu o que era o timesharing, um conceito diferente do que se fazia na Europa. Foi o que lhe permitiu pagar a dívida à banca e recuperar a empresa”.
Foi assim que adquiriu o Casino Park Hotel, emblemático edifício da paisagem do Funchal, assinado por Óscar Niemeyer. “Com esse hotel surge a primeira diversificação de negócio: o casino, que estava arrendado a um grupo libanês que pagava um milhão de dólares por ano. Foi por isso que não precisei de ir à banca, porque tinha essa liquidez — mas correu mal”, contou Dionísio Pestana à revista do grupo. “Não pagaram e foi assim que foi a Las Vegas aprender a gerir casinos e começou a diversificar o portefólio do grupo.
Hoje, a empresa tem mais de 100 unidades hoteleiras, distribuídas por quatro marcas: CR7, em parceria com Cristiano Ronaldo, Hotels & Resorts, Collection Hotels e Pousadas de Portugal. Mais de 12 mil quartos, em 17 países. Desses primeiros tempos, ficou uma prática: “Não vamos para nenhum mercado que não tenhamos estudado e que não saibamos como funciona”. Explica, aliás, que o departamento de desenvolvimento do grupo Pestana, liderado por José Roquette, analisa muitos projetos ao mesmo tempo.
José Theotónio, ao telefone com o ECO, diz que Dionísio Pestana “é alguém que sabe muito do sector. “Vamos a congressos lá fora e ele é bastante considerado como hoteleiro”. “Como é que em 40, 50 anos se passa de um hotel para mais de cem, em 17 países, com rendibilidades e sem uma standardização do produto”, refere. “Nos hotéis do grupo Pestana é raro haver dois iguais”, acrescenta. E tocam todos os géneros: all inclusive, praia, cidade, boutique… “Essa visão é a grande característica dele”, diz o CEO. “Ele compreende o mercado e sabe fazer produtos para esse mercado”, resume.
Durante parte do seu percurso no Pestana, José Theotónio trabalhou na Madeira, “lado a lado”, com Dionísio Pestana, num escritório separado pela secretária dele. “Eu reúno com ele, pessoalmente ou por telefone, dia sim, dia não, e às vezes duas vezes por dia”, conta. “Ele é muito acessível”.
Como é como gestor? “Tem um princípio: se estiver a correr tudo bem, podem dizer no final do ano. Se estiver a correr mal, quero saber imediatamente para começar a mudar as coisas”, explica José Theotónio. E ainda que não esteja na operação diária, o CEO diz que é ele quem tem “a última palavra” em “novos projetos e grandes renovações”.
Os que o conhecem fora do trabalho dizem que gosta de estar com os amigos, jogar golfe, faz muito desporto e é uma pessoa muito interessada pelo mundo. Da infância na África do Sul ficou-lhe o gosto pelo rugby e a língua inglesa. “Faz contas em inglês e lê muitos meios de comunicação de língua inglesa”, nota José Theotónio. Está muito atento ao que se publica em Portugal, mas também à imprensa norte-americana e inglesa. Também se tornou aficionado aos podcasts.
Também gosta de passar férias nos hotéis Pestana e o Alvor, com dois elevadores para a praia, é um dos preferidos. Porto Santo é outro local de eleição, mas “as férias dele são a olhar para a operação, como está a correr e falar com os diretores. Tem férias com a família, mas está sempre atento à operação, gosta de ver como está a correr”, diz José Theotónio.
O resultado líquido do grupo Pestana foi de 128,9 milhões de euros em 2025, 15 anos depois de terem inaugurado o primeiro hotel na Europa. Londres foi o primeiro destino — uma cidade “onde o grupo tinha de competir com todas as marcas internacionais”. “Era um desafio grande saber se tínhamos capacidade de sermos relevante no mercado e desde o primeiro ano as coisas correram bem”, explica. Depois de Londres, abriram em Berlim, Amesterdão, Espanha, além dos EUA e América do Sul. “O facto de aquele hotel ter sido um sucesso ajudou na estratégia futura do grupo. Se tivesse corrido mal, ter-nos-íamos remetido aos destinos que conhecemos bem”, calcula.
Atualmente, cerca de 30% da operação do Pestana está fora de Portugal e este ano o grupo abriu o primeiro hotel em Bruxelas e o primeiro hotel de um grupo português em Itália, em Courmayeur, estendendo a oferta do grupo Pestana aos hotéis de montanha. É o primeiro grupo hoteleiro português neste país. No próximo ano, preveem a abertura do CR7 Pestana, em Paris, junto à Gare de Austerlitz, uma zona da cidade que está a ser alvo de uma ampla requalificação.
“O projeto de Paris é o maior projeto imobiliário em construção na cidade. O hotel está pronto, já estão apenas a fazer obras interiores, mas para ter licença para abrir têm que estar todos os projetos prontos — residências, escritórios, residência universitária…”. O nosso hotel representa 10% [do total]”, diz José Theotónio. A previsão do grupo é que abra no segundo trimestre de 2027.
Sobre Dionísio Pestana, diz que “é uma pessoa que ouve bastante, até para saber a convicção que as pessoas têm. Tem capacidade de decisão, mas se achar que os outros estão a ver bem, aceita. Diz: ‘Eu não faria assim, mas vamos tentar essa solução’, ‘se pensam que é assim, confio em vocês’. Nesse aspeto é muito leal”, refere José Theotónio. O contrário também acontece. “Num projeto recente, uma remodelação, só ele a queria fazer, todos os envolvidos estávamos contra. Acabámos a remodelação, está a ser um sucesso, quem tinha razão era ele”.
Uma curiosidade: tem uns papelinhos onde vai apontando as metas traçadas pela equipa. Depois, vai fazendo o ponto de situação.
Ele tem a capacidade de saber esperar e, com a sua teimosia, no bom sentido, continuar a lutar.
O grupo tem uma resiliência e tempo que uma companhia cotada, que não pode esperar dez anos por retorno, não tem, considera José Theotónio. Essa circunstância faz sobressair outra característica de Dionísio Pestana: ser paciente. “Ele tem a capacidade de saber esperar e, com a sua teimosia, no bom sentido, continuar a lutar”, diz o CEO, lembrando o caso do Pestana Palace, flagship do grupo, pelo qual esperou cerca de uma década, e que hoje é um dos locais mais marcantes da zona ocidental de Lisboa — e o escolhido por personalidades tão distintas quanto os reis de Espanha, Madonna, Rosalía ou Prince nas suas passagens por Portugal.
“Era um edifício com muita história e pensavam que os madeirenses o iam deitar abaixo para construir em altura. Fez-se até um abaixo-assinado contra o nosso hotel! Mais tarde viram que se enganaram e pediram desculpa”, lembrou, nos 50 anos do grupo Pestana.
O grupo Pestana mantém-se com um acionista único, a família, e, como diz José Theotónio, Dionísio Pestana, 74 anos e pai de quatro filhos, “não esconde que gostaria de ver alguém da família suceder-lhe” à frente de uma empresa que começou com um hotel e cresceu, dentro e fora de portas, até ter cerca de seis mil trabalhadores e uma gestão profissionalizada no dia-a-dia. “Ele tem feito para que a família esteja preparada e queira assumir essas posições”.
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