Aumento de 80% do combustível usado nos aviões leva a subida do preço das viagens e pressiona contas das companhias aéreas. Sombra sobre o setor chega em cima do processo de venda da TAP.
A subida da cotação do petróleo e o bloqueio do estreito de Ormuz estão a fazer disparar o preço do jet fuel, o combustível usado nos aviões, levando a um aumento do preço das passagens e ameaçando os resultados das companhias aéreas, entre elas a TAP.
A cotação do querosene que dá energia às aeronaves já subiu mais de 80% desde o início do ano, com particular incidência na última semana, em resultado do conflito no Médio Oriente desencadeado pelo ataque dos EUA e Israel ao Irão.
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O preço está a ser impulsionado pela subida da matéria-prima, o petróleo, mas sobretudo por causa da dependência daquela região para o fornecimento do jet fuel, interrompido pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. Segundo a S&P Global, em 2025 os países do Golfo Pérsico foram responsáveis por 50% das importações da Europa Ocidental e Mediterrâneo.
“A escalada das tensões geopolíticas — inicialmente na Venezuela e, mais recentemente, no Médio Oriente, com a intervenção militar norte-americana no Irão — impulsionou significativamente as cotações do petróleo, tanto do Brent como do WTI, com impacto direto nos mercados de produtos refinados, incluindo o combustível de aviação (jet fuel)”, assinala ao ECO o analista financeiro Nuno Barradas Esteves.
“O preço do jet fuel acumula uma subida de 82%, passando de 623 para 1.132 dólares por tonelada em 09 de março de 2026, e atingindo o nível mais elevado desde fevereiro de 2023 — o máximo dos últimos três anos”, acrescenta.
O jet fuel representa entre 25% e 30% dos custos operacionais de uma companhia aérea. Só pode ter impacto no preço final.
O combustível mais caro é um dos fatores que já está a levar a um aumento do preço das passagens aéreas. “O jet fuel representa entre 25% e 30% dos custos operacionais de uma companhia aérea. Só pode ter impacto no preço final”, afirma Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagem. O responsável diz que não consegue quantificar uma percentagem, mas descreve “um aumento generalizado”.
O preço das passagens está a ser impulsionado também pela disrupção do transporte aéreo nos principais aeroportos do Golfo Pérsico – Dubai, Abu Dhabi e Doha, por onde passam anualmente cerca de 200 milhões de passageiros – e a “saturação das rotas” alternativas para a Ásia, em particular o chamado “corredor central”.
Com as passagens mais caras, o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagem antecipa um impacto na procura. “Sem sombra de dúvida. O mercado de turismo é muito sensível ao preço”, refere Miguel Quintas, que espera uma retração maior nas viagens das famílias do que nas de negócios, cujo mercado “é mais elástico”.
Contas da TAP ameaçadas em pleno processo de privatização
Este contexto está a lançar uma sombra sobre as contas das companhias aéreas, a que a transportadora de bandeira portuguesa, que está em pleno processo de privatização, não escapará. “Para companhias aéreas como a TAP, a subida do crude traduz-se num aumento direto da sua principal rubrica de custos operacionais — o combustível — que, até setembro, teve um custo de 746 milhões de euros e representou 24% dos custos operacionais”, refere Nuno Barradas Esteves.
Ainda que a concorrência limite a transferência integral para as tarifas praticadas, o resultado irá traduzir-se em passagens aéreas mais caras e numa consequente retração da procura, sendo a transportadora aérea nacional duplamente penalizada.
“Ainda que a concorrência limite a transferência integral para as tarifas praticadas, o resultado irá traduzir-se em passagens aéreas mais caras e numa consequente retração da procura, sendo a transportadora aérea nacional duplamente penalizada”, acrescenta o analista financeiro que segue o setor da aviação.
As companhias aéreas recorrem a contratos financeiros para protegerem as compras de combustível do aumento dos preços, o chamado hedging. A proteção nunca é total, até porque os contratos têm de ir sendo renovados, mas a TAP está claramente mais exposta do que os principais grupos de aviação europeus. A cobertura da transportadora portuguesa era de 42% do total do jet fuel em 2025, muito inferior aos 87% da Air France-KLM (ver gráfico).
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“Com a TAP a apresentar um nível de hedging mais baixo que os seus concorrentes, irá também ser a primeira sofrer com esta escalada dos preços”, sublinha Nuno Barradas Esteves. O analista financeiro calcula mesmo que “cada subida de 10% no preço do jet fuel pode aumentar os custos anuais da TAP em aproximadamente 58 milhões de euros”. O ECO enviou questões à transportadora portuguesa, mas não obteve resposta até à publicação do artigo.
Os custos operacionais da TAP têm vindo a aumentar nos últimos anos, devido sobretudo ao incremento dos custos com pessoal e custos operacionais de tráfego. Mas a evolução tem sido contida pela redução dos gastos com jet fuel, que caíram 6,2% em 2024 e 7,8% nos primeiros nove meses de 2025, segundo os números reunidos por Nuno Barradas Esteves a partir dos relatórios e contas. Se esta tendência se inverter, poderá pôr em causa o resultado operacional positivo conseguido nos últimos anos.
“É de notar que o resultado operacional foi de 383 milhões de euros em 2024 e de 227 milhões até setembro de 2025, valores que podem ser rapidamente exauridos por uma subida tão acentuada do custo do jet fuel, com potenciais reflexos no aumento das tarifas e uma retração da procura nos voos aéreos”, aponta o analista financeiro.
Estando a TAP num processo de alienação, uma deterioração da rentabilidade — ou mesmo a eventual apresentação de prejuízos — poderá pressionar em baixa a sua avaliação, enquanto torna os potenciais compradores mais cautelosos perante um investimento elevado num contexto económico tão adverso.
O possível impacto negativo na rentabilidade chega num momento delicado para a transportadora aérea portuguesa. Os interessados na privatização têm até 2 de abril para entregar ofertas não-vinculativas, seguindo-se a fase de ofertas vinculativas, num processo que o Governo pretende fechar lá para julho.
“Estando a TAP num processo de alienação e, uma deterioração da rentabilidade — ou mesmo a eventual apresentação de prejuízos — poderá pressionar em baixa a sua avaliação, enquanto torna os potenciais compradores mais cautelosos perante um investimento elevado num contexto económico tão adverso”, refere Nuno Barradas Esteves.
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A guerra no Médio Oriente e a subida do preço do petróleo para mais de 100 dólares provocou, na segunda-feira, fortes quedas no setor da aviação, da Europa à Ásia, avolumando as perdas que já vinham da semana anterior. Os títulos da Air New Zeland despencaram mais de 9% e os da Korean Air Lines 8,5%, enquanto na Europa a Lufthansa caiu 6,38% e a Air France-KLM 3,87%.
A aversão dos investidores ao risco foi sentida também na cotação das obrigações, com desvalorizações elevadas que levaram à correspondente subida das taxas de juro implícitas. Foi o caso dos títulos da TAP com maturidade em 2029, em que a taxa de juro exigida pelos investidores saltou quase 80 pontos base em oito sessões para os 4,696%.
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As iniciativas do Presidente dos EUA para tentar reduzir o preço dos bens energéticos – que incluíram uma conversa com Vladimir Putin sobre o levantamento de sanções e uma entrevista à CBS News em que diz que “a guerra está praticamente concluída” – baixaram o preço do petróleo e elevaram a cotação da United Airlines e American Airlines, na segunda-feira à noite.
A incerteza persiste e a duração do conflito ditará se estamos ou não perante uma nova crise da aviação. “Se o cenário de quatro semanas, apontado pelo Presidente dos EUA, se confirmar, o impacto será significativo, mas potencialmente gerível e passível de ser parcialmente acomodado ao longo do ano”, prevê Nuno Barradas Esteves. Caso se prolongue sem fim à vista, “poderão surgir consequências graves para o setor aéreo e para a economia nacional, com o risco de um novo aumento da inflação, subida das taxas de juro e uma consequente retração do consumo e do investimento”.
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