Do ‘país às escuras’ ao mundo iluminado. EDP conta 50 anos, uma privatização e muita internacionalização

A EDP conta 50 anos de história, que separam uma empresa a eletrificar um 'país às escuras' de uma multinacional com ativos renováveis espalhados por vários cantos do globo.

É criada a Electricidade de Portugal – Empresa Pública, abreviadamente EDP”. Esta é a frase, inscrita num decreto-lei que data de 30 de junho de 1976, que marca a decisão de juntar 13 empresas regionais de energia elétrica, recém-nacionalizadas, debaixo da sigla EDP. Assim se deu início a um novo capítulo na história da energia em Portugal que, em grande parte, se confunde com a história desta elétrica.

Quando foi criada, o desígnio da empresa era “promover e satisfazer as exigências de desenvolvimento social e económico de toda a população”, através da produção, transporte e distribuição de energia elétrica. Isto porque, na altura, a empresa “herdou um cenário complexo de desequilíbrio na eletrificação de todo o território”, com a distribuição concentrada nos grandes centros urbanos, “o que levava a que uma parte do país ainda estivesse às escuras”, recorda a elétrica no próprio site. A pressionar estava também o grande choque petrolífero que se viveu nos anos 70.

Naquele tempo, o objetivo era eletrificar todas as localidades com mais de 50 pessoas. A EDP recolheu uma série de testemunhos dos quais o atual CEO, Miguel Stilwell de Andrade, destacou “a alegria das pessoas que receberam a eletricidade pela primeira vez”. Fê-lo num encontro com jornalistas, que decorreu a semana passada, para marcar o meio século da empresa, e no qual traçou os principais momentos da história da elétrica.

Nesses primeiros anos, para a eletricidade chegar às casas, a produção também tinha de crescer e, em 1985, ergueu-se em Sines a central termoelétrica a carvão, que chegou a abastecer um terço do consumo nacional nos anos 90.

A EDP Distribuição, empresa do grupo EDP que tem a seu cargo sobretudo as redes elétricas de baixa tensão (as que chegam à casa das pessoas), nasceu na viragem do século, no ano 2000. “Este primeiro objetivo da EDP [de eletrificar o país] foi um sucesso. Hoje em dia temos um país completamente eletrificado”, rematou Stilwell.”

“Não fique às escuras na maior privatização”

Na apresentação aos jornalistas, Stilwell de Andrade sublinhou que “é muito importante que uma empresa que era 100% estatal” passasse “a ser uma empresa 100% privada“. Essa mudança não aconteceu, no entanto, toda de uma vez, foi em várias fases, muitas delas com controvérsia à mistura.

 

A primeira decorreu em junho de 1997, com o Governo de António Guterres a optar por privatizar 29,99% da empresa, ou pouco menos de 180 milhões de ações com o valor nominal de mil escudos (cinco euros). A privatização tinha duas vias: 80 milhões de ações numa venda direta dirigida a investidores institucionais que ficaram obrigados a proceder à posterior dispersão, nomeadamente em mercados internacionais, e quase 100 milhões de ações através de uma Oferta Pública de Venda (OPV) no mercado nacional destinada a pequenos subscritores, público em geral, obrigacionistas e trabalhadores da EDP.

É aqui que a EDP entra no ‘capitalismo popular’ das privatizações dos anos 90, que incluíram Portugal Telecom, Cimpor, Brisa, Tabaqueira, Banco Português do Atlântico e Lisnave. “Não fique às escuras na maior privatização de sempre”, lia-se no material de marketing colocado nas sucursais dos bancos que participavam na operação.

O repto foi aceite por 770 mil portugueses, que se tornaram acionistas da elétrica, mas o então ministro das Finanças, António de Sousa Franco, teve de reconhecer que foi normal o “entusiasmo dos intermediários financeiros”, alguns dos quais foram criticados por levar ao endividamento de clientes para comprarem ações, mas sublinhou que “não aconteceu nada de grave”. Já a CGTP viu gravidade na venda, organizando protestos e defendendo que a eletricidade era um setor estratégico que deveria permanecer sob controlo do Estado. “Privatizações: Nem Salazar foi tão longe”, lê-se num dos cartazes de uma manifestação registada pela RTP.

Rapidamente se seguiriam as próximas fase da privatização, em maio e junho de 1998. Na primeira, o Estado alienou 2,25% do capital através de uma venda direta ao parceiro estratégico Iberdrola, com algumas vozes da oposição a criticarem a entrada de um concorrente direto espanhol na empresa. No mês seguinte, nova OPV, com 16,2% do capital a passar para acionistas privados, numa operação em que a procura excedeu em mais de 51 vezes a oferta. 1999 foi o ano de inauguração da EDP Comercial, a empresa que marca a presença da EDP no mercado livre.

Em 2000, chega o momento de o Estado deixar de controlar a maior do capital – depois de um stock split (uma ação de 5 euros para uma ação de 1 euro) – e passou a representar 31,3% do capital. “O sucesso da operação de venda contrariou o cenário negativo nos mercados bolsistas, a subida do preço do petróleo e a queda do euro face ao dólar”, sublinhou a EDP.

Para acelerar a ambição internacional da empresa, o Estado em 2004 faz um aumento de capital e venda direta a investidores de referência para suportar uma aquisição adicional de 56,2% da Hidrocantábrico, reduzindo a participação estatal para 25,3%.

EDP apresenta rebranding da marca - 02JUN22
João Talone 'levou' a EDP para Espanha Hugo Amaral/ECO

O começo do fim da privatização. É a própria EDP que classifica assim a emissão de obrigações permutáveis em novembro de 2007, representativas de 4,14% do capital. Em 2013, com a transformação dessas obrigações em capital, a EDP tornou-se totalmente privada.

Entretanto, em outubro de 2011, com o país já sob resgate internacional para evitar a bancarrota, o Governo de Pedro Passos Coelho, escolhe a China Three Gorges (CTG) na última ronda de privatização, com a estatal chinesa a vencer a concorrência das brasileiras Eletrobras e Cemig e da alemã E.ON para comprar 21,35% do capital. A empresa chinesa torna-se na maior acionista como contrapartida de 2,69 mil milhões de euros.

Passos Coelho diz que a venda “não envolveu nenhuma consideração de caráter geopolítico”, mas a operação terá consequências dessa natureza. Em maio de 2018, a CTG lança uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para comprar os 77% que não detinha na EDP, mas a operação fracassa, muito devido à oposição da primeira administração Trump, que não vê com bons olhos o controlo chinês de ativos da empresa portuguesa nos Estados Unidos.

A CTG continua, contudo, a ser a maior acionista da EDP com 22,2%. E a liderança da EDP continua a relativizar a importância desse facto. “Eu sei que vocês vão dizer, ‘não, mas a CTG tem mais de 20%, mas não são uma empresa privada'”, disse aos jornalistas Miguel Stilwell de Andrade na semana passada.

“Estão num mercado de capitais, não é o Estado português, são um investidor como são outros e a verdade é que nós temos uma base acionista muito forte, não é só o chinês, temos 80% de outros acionistas que não são chineses, que são da Singapura, que são do Abu Dhabi, que são do Canadá, que são americanos, que são ingleses, noruegueses, enfim, com quem nós lidamos todos os dias, que interagem diariamente ao funcionamento da empresa tem que permitir também que tenhamos essa força para continuar a crescer”, vincou.

Espanha e Estados Unidos foram ‘trampolins’ para a empresa

Em paralelo com o processo de privatização da elétrica, foram sendo dados passos para fora do país. Os primeiros movimentos neste sentido remontam a 1996, quando a EDP se aventurou para lá do Atlântico: entrou no mercado brasileiro, com a aquisição de 21% da distribuidora de energia do Rio de Janeiro, a CERJ.

Das “pequenas participações”, passou-se à criação da EDP Brasil, no ano 2000, e ao investimento na produção a partir de painéis solares e eólicas. O crescimento culminou no lançamento da subsidiária na bolsa de São Paulo, cinco anos depois da sua criação. Este ano celebram-se 30 anos de atividade da elétrica portuguesa no país irmão. “O Brasil tem sido uma boa história”, refere Stilwell de Andrade.

Mas a elétrica portuguesa não se limitou, durante estes anos, a olhar apenas para aquele lado do globo. Virou-se também para Este, mais precisamente para o país vizinho. Em 2004, fez-se “o impensável”, nas palavras de Stilwell. A empresa portuguesa comprou a Hidrocantábrico, na altura a quarta maior utility em Espanha. Fê-lo através de um aumento de capital de 1,2 mil milhões de euros, que permitiu comprar as participações detidas por três empresas e ficar com 97,5% do capital, “numa altura em que havia uma série de OPA e contra-OPA”, recorda Miguel Stilwell de Andrade.

Quase 20 anos depois, houve um novo grande reforço em território de nuestros hermanos: a aquisição da espanhola Viesgo, em 2020, por 2 mil milhões de euros, acompanhada de um aumento de capital de mil milhões de euros. Esta operação permitiu reforçar a presença nas redes elétricas espanholas e captar um investimento de baixo risco e longo prazo.

Hoje dividimos [entre Portugal e Espanha] um mercado muito integrado, que é o Mibel. Sem essa presença em Espanha, acho que seríamos uma empresa também muito diferente daquilo que somos hoje.

Miguel Stilwell de Andrade

CEO da EDP e EDP Renováveis

“Hoje dividimos [entre Portugal e Espanha] um mercado muito integrado, que é o Mibel. Sem essa presença em Espanha, acho que seríamos uma empresa também muito diferente daquilo que somos hoje”, reflete o gestor executivo da EDP.

No ‘portfólio’ de operações de internacionalização falta uma terceira, que foi também definidora do futuro da EDP. A entrada nos Estados Unidos deu-se em 2007, através da compra da Horizon Wind Energy.

Na altura, toda a gente dizia que era uma operação caríssima e colocou-nos de facto algum stress no balanço”, recorda o atual CEO. A compra, que custou à EDP 2,7 mil milhões de euros, representou mais do que a porta de entrada num mercado que, atualmente, está traçado como o principal destino de investimento da EDP; a Horizon foi alavanca para uma das mudanças mais estruturais que existiram na empresa: “A verdade é que, em 2007, juntamente com a presença que já tínhamos na Europa, [a aquisição da Horizon] permitiu-nos criar a EDP Renováveis”, explica Stilwell.

Celebrados os 50 anos, a pegada da EDP estende-se a vários países europeus, como França, Itália, Alemanha, Polónia, Roménia e Reino Unido. Viajou também mais para este e chegou à Ásia, a países tão diversos como Singapura, Japão, Austrália e Vietname. “Hoje em dia temos uma pegada verdadeiramente global e acho que isso tem-nos dado alguma flexibilidade para ir crescendo”, valoriza o CEO.

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Contudo, nem tudo tem sido um mar de rosas: uma recente incursão na América Latina, na Colômbia especificamente, ditou perdas potenciais de 700 milhões de euros, depois de a EDP ter tomado a decisão de não prosseguir com dois projetos, justificando com a dificuldade em ter visibilidade sobre as receitas.

Também os projetos eólicos offshore nos Estados Unidos, face à oposição da administração chefiada por Donald Trump, ditaram a necessidade de constituir imparidades avultadas, em 2024. O impacto nas contas da Renováveis foi estrondoso: um prejuízo sem paralelo, de 566 milhões de euros. Já este ano, a EDP Renováveis anunciou um acordo com o Governo norte-americano para reaver os 200 milhões de dólares de valor estimado destes projetos.

A grande renovação dá-se à conta da(s) Renováveis

A EDP produz energia renovável desde a sua génese, uma vez que herdou barragens que eram detidas por algumas das empresas que se fundiram para dar origem à elétrica, em 1976. Mais tarde, em meados dos anos 90, os primeiros dois parques eólicos construídos pela EDP começaram a ‘girar’ em Portugal e Espanha. Mas a aposta retumbante chegou nos anos 2000, com a aquisição da Hidrocantábrico. Esta incluía a Genesa, uma “empresazinha” de eólicas que foi considerada, na altura, “irrelevante”, recorda Stilwell.

Fonte do setor relata que, inicialmente, a EDP Renováveis começou a ser criada precisamente com base nos ativos da sociedade espanhola recém-adquirida. Seguiu-se um crescimento gradual, com a entrada em França e nalguns países. Mas “o grande salto foi a aquisição da Horizon”, porque foi o que permitiu à EDP “pensar noutra escala” e levantar fundos que “nunca teria conseguido de outra forma”.

A EDP Renováveis é então criada, oficialmente, em 2007, e ainda hoje tem sede em Espanha precisamente tendo em conta a origem ligada à Hidrocantábrico. Logo no ano seguinte, um momento determinante: a Renováveis estreou-se em bolsa. Uma entrada marcada por alguma sorte, tendo em conta que aconteceu em junho, poucos meses anos de a bolha do subprime rebentar em Wall Street e ditar uma crise financeira de proporções internacionais.

António Mexia, CEO da EDP, em entrevista ao ECO - 22JAN20
Hugo Amaral/ECO

Miguel Stilwell de Andrade, que na altura era responsável de Corporate Development and M&A do grupo, admite que conta algumas vezes essa história. “Na altura os bancos recomendavam-nos que nós fizéssemos o IPO depois do verão“, diz aos jornalistas, antes de recordar que depois desse verão vieram a queda do Lehman Brothers e a crise do subprime.

Rebentou o mercado”, relembra, mas acrescenta que “esse capital foi suficiente para conseguirmos atravessar ali aquele período de crise financeira, do subprime, e depois mesmo com o problemas todos em Portugal, com a troika, etc.”

A janela de oportunidade foi perfeita, especialmente num quadro em que a Europa vivia o pico do ciclo de investimento em energias renováveis e a EDP queria reduzir risco de balanço, acelerar a expansão internacional e cristalizar valor num ativo de crescimento. “A EDP Renováveis representa uma plataforma global de crescimento no setor das energias limpas”, disse o então CEO da EDP, António Mexia. “Esta operação permite libertar valor e acelerar a expansão internacional da energia eólica.”

A EDP vendeu 22,5% da Renováveis, por um preço final de 8 euros por ação, o que representou uma avaliação implícita de cerca de 8 a 8,5 mil milhões de euros e uma angariação de até 1,2 mil milhões de euros.

A estreia em bolsa aconteceu a 4 de junho de 2008, com a sede da Euronext na Avenida da Liberdade, em Lisboa, a fervilhar de entusiasmo numa manhã de sol – era, afinal, um dos maiores IPO desse ano na Europa. Mas as nuvens não estavam longe, primeiro as da crise financeira e depois das dívidas soberanas, e as ações das ‘renováveis’ só regressariam a esse patamar inicial quase 10 anos depois, a 3 de abril de 2018.

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Se não tivéssemos feito o IPO naquele momento, a EDP seria uma empresa… Não sei se existiria, mas seria uma empresa muitíssimo diferente do que é hoje”, reflete Miguel Stilwell de Andrade.

Miguel Stilwell EPA/JOSE SENA GOULAO

É que, à boleia destas aquisições e de um foco crescente nas energias limpas, em cerca de três décadas, houve uma inversão radical na forma de produção da empresa. De um mix energético suportado em 80% por energia térmica, como o gás e o carvão, a empresa passou a produzir 90% da sua eletricidade com base em energias renováveis.

“Temos tido uma capacidade de nos adaptarmos às novas tecnologias e acho que isso também mostra um lado inovador da EDP”, balança Stilwell, reconhecendo a capacidade da empresa de não ficar “demasiado agarrada” aos seus ativos, criando espaço para evoluir noutra direção.

Fonte do setor afirma que não está surpreendida pela dimensão que a EDP Renováveis atingiu, já que foi das primeiras empresas a olhar para a energia limpa e “o mercado estava lá”. A partir daí, o segredo foi criar competências próprias e resistir a choques negativos, persistir em mercados como Espanha e Polónia mesmo quando a regulação sofria reveses e se tornava desfavorável. Há momentos para sair, outros para ter calma”. Na opinião da mesma fonte, a EDP Renováveis soube ter calma.

“Nós éramos uma empresa principalmente térmica e hídrica. Depois entrámos no gás, depois entrámos nas eólicas, depois entrarmos no solar e agora, mais recentemente, também nas baterias”, descreve o CEO.

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A central a carvão de Sines, que nos anos 90 chegou a abastecer um terço de toda a eletricidade consumida em Portugal, serve bem para ilustrar esse percurso. Encerrou antes do prazo, em 2021, pressionada pelos elevados custos de produção. O ano passado, em outubro, a última “pedra” no caixão da central: as torres de 225 metros, que marcavam a paisagem da cidade alentejana desde os anos 80, foram demolidas, fazendo desaparecer a estrutura emblemática, com 35 anos de história, num único minuto.

A encerrada (2021) Central Termoelétrica a Carvão de Sines, contígua aos terrenos da construção do edifício do centro de dados NEST – New & Emerging Sustainable Technologies, localizado na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), em Sines, 22 de novembro 2023. O NEST insere-se no projeto SINES 4.0, um dos maiores data centers europeus. Composto por 9 edifícios (NEST com 15MW e mais 8 edifícios com 60 MW de capacidade cada), o data center será 100% verde e quando estiver terminado, em 2027, terá 495 MW de capacidade total. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DE 26 DE NOVEMBRO DE 2023). MIGUEL A. LOPES/LUSAMIGUEL A. LOPES/LUSA

O percurso nas energias renováveis foi “impressionante”, considera o CEO. E não é por acaso. “É, de facto, a energia mais competitiva que temos neste momento no mercado”, defende. Primeiro era a eólica a mais barata, nos últimos anos passou a ser a energia solar, e as baterias também se começam a impor. “Acreditamos que isto vai continuar daqui para a frente. (…) Acho que é a forma inteligente de produzir energia”, remata.

Em paralelo, Stilwell realça que também houve evolução no âmbito das redes, nomeadamente no que toca a torná-las mais inteligentes. Hoje em dia, todos os clientes em Portugal possuem um contador inteligente, preparado para uma gestão da eletricidade mais dinâmica, um processo que foi concluído no final de 2024.

Dos impostos à justiça, as pedras no caminho

O caminho de crescimento da EDP ficou marcado, também, por alguns episódios mais mediáticos. Aquele que mais ‘abanou’ a empresa ficou conhecido pelo caso das ‘Rendas Excessivas‘: em junho de 2017, a Polícia Judiciária e o Ministério Público lançaram buscas na EDP e na REN e constituíram quatro arguidos, entre eles os presidentes executivos da EDP e EDP Renováveis, António Mexia e João Manso Neto, assim como João Conceição, administrador da REN (Redes Energéticas Nacionais) e Pedro Furtado, diretor desta última empresa.

Na altura, os arguidos foram investigados por suspeitas de crimes de corrupção ativa, corrupção passiva e participação económica em negócio. Três anos depois, em julho de 2020, o juiz Carlos Alexandre validou a suspensão de funções de António Mexia, presidente da EDP, e João Manso Neto, presidente da EDP Renováveis.

Apenas doze anos depois de lançado o caso foi formalizada uma acusação, com António Mexia e Manso Neto a serem acusados crime de corrupção ativa para ato ilícito de titular de cargo político. Foram acusados de corromper o ex-ministro socialista da Economia Manuel Pinho. De acordo com o processo, Pinho terá autorizado, quando era ministro da Economia, uma extensão da concessão de exploração de 27 barragens por 25 anos à EDP em que esta deveria ter pago um valor mínimo de 1,6 mil milhões de euros, mas pagou apenas 759 milhões. Ao dia de hoje, o processo ainda decorre na justiça.

Miguel Stilwell de Andrade, que sucedeu a António Mexia e a Manso Neto, acumulando as funções de CEO da EDP e EDP Renováveis, coloca o caso das rendas excessivas como uma das “adversidades” enfrentadas pela empresa, e face às quais esta mostrou “resiliência”. Além disto, aponta “toda uma carga fiscal pesadíssima”, nomeando a controversa Contribuição Extraordinária sobre o Setor Energético.

Esta contribuição foi criada em 2014 para que as energéticas ajudassem a baixar o défice tarifário do setor na sequência dos anos difíceis de intervenção da troika, mas mantêm-se até hoje, tendo enfrentado contestação da parte do setor pelo prolongamento constante. “E de cima de um balanço já bastante frágil, que fez com que fosse bastante difícil crescer durante uma série de anos”, queixou-se o gestor. Este ano, pela primeira vez,

Com a energia no centro do mundo, EUA e centros de dados são os alvos da EDP

A energia está claramente no centro daquilo que se está a passar no mundo”, refletiu, por último, o CEO da elétrica. Stilwell realça como a energia se tem tornado cada vez mais uma arma geopolítica, e exemplifica com o impacto que o fecho do estreito de Ormuz teve no mercado de petróleo e gás, e até no da eletricidade, no caso de alguns países. Não há muito tempo, outro exemplo do uso da energia como arma: a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. “É uma questão de independência energética” e, no caso da Europa, de “competitividade”.

A principal razão pela qual se continua a empurrar bastante as renováveis continua a ser um tema de competitividade e de independência energética.

Miguel Stilwell de Andrade

CEO da EDP e EDP Renováveis

A sustentabilidade, que costumava de ser a grande bandeira da Europa e que justificava também o investimento em renováveis, é vista agora pelo CEO da EDP como uma “externalidade positiva”, pois “a principal razão pela qual se continua a empurrar bastante as renováveis continua a ser um tema de competitividade e de independência energética”. É que as energias limpas têm a seu favor serem mais baratas e menos voláteis que os combustíveis fósseis.

A nossa visão é muito clara: vai ser necessária muito mais geração renovável”, prevê Stilwell. Isto porque “há um aumento grande de procura”, do qual Portugal não só não é alheio, como lidera. Portugal é o país que mais cresce do ponto de vista da procura elétrica nos últimos anos, e a previsão é que assim continue, indica o CEO.

A ‘pedir’ mais energia está um crescimento da população, das necessidades de eletricidade – com a mobilidade elétrica, ares condicionados, bombas de calor – e, como não podia deixar de ser, os centros de dados. Estes, dentro de cinco anos, ditarão “um aumento enorme” de procura, acredita.

Na apresentação do plano estratégico até 2028, que teve lugar em Londres, em novembro do ano passado, a EDP foi clara nos ‘alvos’ preferenciais que sustentarão o seu crescimento nos próximos anos. Em termos de geografia, destacam-se os Estados Unidos, território ao qual pretende dirigir 60% do total de investimento previsto para estes dois anos, que chega aos 12 mil milhões de euros.

No que diz respeito ao motor que justifica ligar cada vez mais energia à rede, o holofote recai sobre os centros de dados. A empresa prevê que a capacidade instalada, em termos de centros de dados, no conjunto dos Estados Unidos e da Europa e até 2030, duplique.

Neste sentido, e se não se quiser limitar a procura, “vai ser necessário fazer um reforço nas redes e um reforço também na geração”. Além das renováveis, que perfazem mais de metade dos investimentos previstos até 2028, a EDP pretende reforçar no segmento das redes elétricas. Tem planeado desembolsar 3,6 mil milhões de euros neste âmbito, dos quais dois terços na Península Ibérica. Vai também reforçar o portefólio de produção flexível de eletricidade (flexgen) e clientes na Península Ibérica.

Assim sendo, “o tema do licenciamento, de burocratização, simplificação administrativa, é essencial”, conclui, alertando para os vários projetos que carecem de autorização para avançar.

Em jeito de conclusão, Stilwell assume que não é fácil fazer previsões para os próximos 50 anos. “Uma coisa é certa, não sei o que vai acontecer em 2076. Mas sei que vamos precisar de energia, sei que vamos precisar de empresas como a EDP”, assegura. Pelo menos nos próximos cinco a 15 anos, espera que continue a haver um grande investimento em redes e promete: “Vamos continuar a olhar para as novas tecnologias que possam aparecer, porque acho que isso é uma das coisas que também nos move”.

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