O trio SpaceX, Anthropic e OpenAI destaca-se, mas o grupo Inspire Brands poderá avançar para a maior oferta pública inicial do setor da restauração.
Satélites e foguetões, modelos de inteligência artificial (IA), clouds para processar dados ou donuts e asinhas de frango. São estes os negócios das empresas que se preparam para chegar a Wall Street ainda este ano e estão prestes a dar a novo ímpeto ao mercado global de IPO – Initial Public Offering, que está praticamente estagnado desde o boom da pandemia de Covid-19. Das tecnológicas norte-americanas que dominam os algoritmos e a conectividade – Anthropic, OpenAI e SpaceX – até à fintech Stripe, passando pelo grupo Inspire Brands e a Databricks, há estados e valores de abertura de capital significativamente diferentes.
“O pipeline para este ano é, sem hipérbole, o mais robusto da última década”, garante o responsável de Trading do Banco Carregosa, João Queiroz. São “três círculos concêntricos” neste movimento de novos entrantes na bolsa de Nova Iorque com um núcleo composto por SpaceX, Anthropic e OpenAI, seguindo-se o círculo da Databricks ou Stripe.
Só o trio da IA tem potencial para mobilizar “dezenas de milhares de milhões de dólares num período em que a incerteza económica é elevada”, assinala Henrique Tomé, analista da XTB. “O facto de estas três operações surgirem em simultâneo não é coincidência: reflete uma janela de mercado favorável que os bancos de investimento de Wall Street estão claramente a tentar aproveitar ao máximo”, diz ao ECO.
O catalisador desta vez não é conjuntural: é estrutural. A IA transformou-se no tema dominante de investimento à escala global, criando uma corrida industrial a infraestruturas de energia, computação, semicondutores e modelos de linguagem que não tem paralelo. A SpaceX é um exemplo claro desta transformação: apesar de ser uma empresa aeroespacial, estimou no seu prospeto de admissão à bolsa que o conjunto de setores onde pode vir a atuar.
No alinhamento para os próximos meses surgem ainda nomes como a Reliance Jio Indiana (telecomunicações), a Shein (fast fashion), a Crusoe Energy (infraestrutura de IA para data centers) e candidatos menos prováveis como a Canva (grafismo online), a Cohere (IA), a Flexport (gestão de logística) e a Altera (chips), esta última um spin-off da Intel. “Quanto à efetiva probabilidade de chegarem ao mercado com igual impacto, sejamos francos: não partem todos em pé de igualdade”, alerta João Queiroz.
Sem pé de igualdade estão também as praças de Xangai e de Nova Iorque, tendo em conta que na China (incluindo Hong Kong), registaram-se 68 novos no primeiro trimestre, em comparação com o ano anterior, num total de 16,7 mil milhões de dólares (14,4 mil milhões de euros), o que representa um disparo de 181%, o maior entre as principais bolsas, de acordo com o barómetro dos IPO da auditora EY.
Entre janeiro e março, tanto nos EUA como na Europa, o número de empresas que avançou para IPO diminuiu, embora o valor captado tenha crescido em comparação com os primeiros três meses de 2025. Na maior economia do mundo, contabilizaram-se 27 ofertas públicas iniciais (-55%), de 10,2 mil milhões de dólares ou cerca de 8,8 mil milhões de euros (+13%), enquanto no Velho Continente também menos (-18%) empresas dispersaram o capital em bolsa (28), mas graças ao maior IPO de defesa de sempre – o da checa CSG – o volume total disparou 48%, em termos homólogos, para 6,4 mil milhões de dólares (na ordem dos 5,5 mil milhões de euros).
“Juntamente com o setor aeroespacial e de defesa, a IA continua a ser um fator chave para o mercado de IPO, com destaque para os IPO esperados nos Estados Unidos. No entanto, o foco está a deslocar-se cada vez mais de meras visões para aplicações concretas e escaláveis, especialmente nas áreas de infraestruturas de IA, data centers, semicondutores e aplicações industriais”, explica a EY.
Por entre as dúvidas sobre a duração do conflito no Médio Oriente, que fez com que a operadora de telecomunicações Digi adiasse a entrada na bolsa de Espanha, há empresas que não só mantêm os planos de IPO, como os aceleram.
SpaceX
Comecemos pelo maior – não do ano, mas da história. A SpaceX apresentou esta semana o prospeto preliminar para a entrada em bolsa, com a qual os analistas e imprensa internacional indicam que pretende arrecadar 80 mil milhões de dólares (69 mil milhões de dólares), avaliando a empresa de Elon Musk entre 1,75 e dois mil milhões de dólares (1,5-1,7 mil milhões de euros). “Tendo em conta que em 2025 tiveram receitas de 18.700 milhões de dólares, estariam a avaliar 105 vezes as vendas”, comparam os traders do Bankinter. Trata-se de mais do triplo do tamanho do maior IPO norte-americano até à data, o de 22 mil milhões da Alibaba em 2014.
A data deste IPO, previsto para o próximo dia 12 de junho sob o símbolo “SPCX”, não surge ao acaso e torna-o histórico também por esse motivo. Segundo fontes do Financial Times, o bilionário, dono da rede social X e fundador da Tesla, completa 55 anos a 28 de junho e quer que o momento seja uma espécie de presente de aniversário, mas também coincida com as celebrações dos 250 dos Estados Unidos e com um alinhamento planetário incomum entre Vénus e Júpiter. Eis uma das principais citações do prospeto mais badalado dos últimos dias:
Queres acordar de manhã e pensar que o futuro será ótimo — e é disso que se trata ser uma civilização espacial. Trata-se de acreditar no futuro e pensar que o futuro será melhor do que o passado. Não consigo imaginar nada mais entusiasmante do que ir lá para fora e estar entre as estrelas.
Tudo porque a SpaceX tem um plano ambicioso de investimento na economia lunar, com transporte de pessoas e mercadorias para a Lua, e operação em Marte e “mais além”, que fez questão de explanar no documento. Elon Musk avista potencial para “remodelar as indústrias terrestres” e surgirem “novos mercados de biliões de dólares na Lua, em Marte e mais além”, nomeadamente o crescimento da capacidade computacional de IA à escala dos terawatts por ano. Caso seja bem-sucedido e leve humanos para o Planeta Vermelho, Elon Musk ainda terá um extra nos direitos de voto.
O analista Henrique Tomé explica que esta ambição é o fator mais determinante para a diferença de escala face à Alibaba, além do desempenho “extraordinário” da divisão de conectividade (a Starlink, cujo número de assinantes ultrapassa os 10 milhões e representa 70% da receita anual da SpaceX) e da transformação da empresa num operador de infraestrutura de IA além de fabricante de Falcons, Dragons e Starships. Por exemplo, no início do ano, a SpaceX comprou a startup xAI.
“Estas iniciativas conferem à empresa uma narrativa de longo prazo sem equivalente no universo das empresas cotadas, num momento em que os investidores estão dispostos a pagar prémios históricos por empresas posicionadas no epicentro da próxima grande transformação tecnológica. Em 2014, quando a Alibaba foi à bolsa, a IA e a exploração espacial comercial não eram sequer critérios de avaliação. Hoje, são precisamente os dois temas que mais captam o apetite dos mercados de capitais, e a SpaceX tem ambos”, argumenta Henrique Tomé.
A SpaceX em números de 2025
- Resultado líquido: -4,93 mil milhões de dólares
- Receitas: 18,67 mil milhões de dólares (+33%)
- EBITDA ajustado: 6,58 mil milhões de dólares
- EBITDA ajustado do negócio de espaço (700 milhões), conectividade (7,2 mil milhões) e IA (-1,2 mil milhões)
OpenAI
O segundo lugar neste pódio de mais aguardados do ano – e em iminência de prospeto preliminar – é a OpenAI, que está a afinar os preparativos para lançar-se no IPO entre setembro e o último trimestre deste ano e captar em torno de 60 mil milhões de dólares (51,6 mil milhões de euros) na estreia bolsista. É mais do dobro do maior IPO de sempre, o da petrolífera Saudi Aramco em 2019, de 25,6 mil milhões de dólares (22 mil milhões de euros).
A capitalização da criadora do ChatGPT poderá ser entre os 730 mil milhões e o bilião de dólares. A tecnológica cofundada e liderada por Sam Altman tem trabalhado com os bancos como Goldman Sachs e Morgan Stanley na elaboração do documento pré-IPO, que deverá ser submetido confidencialmente às entidades reguladoras em breve. Aliás, pode acontecer “nos próximos dias ou semanas”, segundo a informação obtida pelo Wall Street Journal.
A OpenAI está avaliada em mais de 850 mil milhões de dólares (731 mil milhões de euros) por investidores privados, mas tem tentado aumentar as receitas antes do IPO. No ano passado, assinou uma série de contratos bilionários, nomeadamente com a AMD – Advanced Micro Devices, a Oracle ou o Pentágono.
Anthropic
Em terceiro lugar, numa batalha com a anterior que já ultrapassa os chatbots, surge a Anthropic. A dona do Claude está a apontar para o próximo mês de outubro, segundo avançou o jornal The Information, para ‘levantar’ 30 mil milhões e uma avaliação de 900 mil milhões. Numa ronda de financiamento de 30 mil milhões, coliderada pela MGX e concluída em fevereiro, a Anthropic – que é parceira da Google, da Amazon e da Microsoft, foi avaliada em 380 mil milhões.
Além dos bancos Goldman Sachs e Morgan Stanley, também o JPMorgan Chase está a ser considerado para “papéis importantes” no IPO da Anthropic, noticiou a Bloomberg.
Este entusiasmo tecnológico cobre uma concentração de risco que poucos comentam com candura e leveza. As dez maiores IPO por capitalização inicial registaram, historicamente, uma queda mediana de 31% no primeiro ano e a maioria ficou aquém do S&P 500 desde a estreia. Momentos de exuberância no mercado primário são, regra geral, coincidentes com fases tardias de ciclo — não com os seus arranques.
Inspire Brands
O grupo Inspire Brands, proprietário das cadeias Dunkin Donuts e Buffalo Wild Wings, submeteu a 8 de maio, confidencialmente, um pedido de IPO. Fundada em 2018 e financiada pela private equity Roark Capital, a empresa de restauração procura uma avaliação de aproximadamente 20 mil milhões de dólares. No setor, onde a Inspire Brands se demarca com as várias insígnias e mais de 33.300 restaurantes em todo o mundo e uma faturação anual de 33,4 mil milhões, o IPO poderá ser um dos maiores de sempre.
“O número de ações a serem oferecidas e a faixa de preço da oferta proposta ainda não foram definidos. A Inspire Brands espera utilizar os recursos líquidos da oferta proposta para quitar dívidas pendentes referentes ao seu empréstimo a prazo existente e para pagar taxas e despesas da oferta. A oferta pública inicial deverá ocorrer após a conclusão do processo de análise da SEC, sujeita às condições de mercado e outras condições”, informou a holding da Geórgia.
Databricks
A Databricks, com sede no coração de Silicon Valley que desenvolveu uma plataforma na nuvem para análise e processamento de dados, é outra das empresas mais referenciadas no pipeline de IPO para este ano. A tecnológica, que conta com Nancy Pelosi, ex-presidente da Câmara dos Representantes, e a Nvidia entre os investidores, captou mais cinco mil milhões em fevereiro, atingindo uma avaliação de 134 mil milhões, para investir na IA para clientes empresariais.
Por ser das empresas privadas mais valiosas do outro lado do Atlântico, nem todos os analistas de mercado concordam que um IPO é o melhor caminho no curto prazo, sobretudo se esta verba e reputação lhe permitir continuar a crescer sem a obrigação de apresentar as demonstrações financeiras todos os resultados, como defendeu Michael Ashley Schulman, partner e diretor de investimento da Running Point Capital Advisors. “Continua privada e preserva o controlo”, justificou em declarações à Reuters.
Stripe
Mais distante do toque do sino está a Stripe. A fintech pretende entrar em bolsa e foi criando especulação em torno de 2026, mas o sentimento arrefeceu à medida que encontrou outras fontes de rendimento. Neste momento, a empresa de pagamentos e transações financeiras digitais está avaliada em 159 mil milhões após uma venda secundária de ações a trabalhadores e acionistas, quase triplicando de valor em relação a 2021.
Em entrevista ao canal CNBC, divulgada em fevereiro, o cofundador e presidente da Stripe, John Collison, disse que o negócio da Stripe estava num “momento incrível de descolagem” e que um IPO, apesar de fazer parte dos planos, acabaria por desviar a atenção dos seus outros objetivos. “Para nós, neste momento, um IPO seria uma solução à procura de um problema. Temos um negócio autossustentável que está a crescer muito bem, com muitos novos produtos que queremos criar, e por isso não precisamos de capital extra agora”, assegurou o empreendedor.

Na opinião de João Queiroz, responsável de Trading do Banco Carregosa, há quatro razões que explicam a inversão do mercado de IPO para esta versão mais animada, depois de anos de “inércia” devido às consequentes subidas das taxas de juros por parte da Reserva Federal. “Primeiro, e o mais óbvio, é o efeito gravitacional da IA”, enumera.
“Segundo é a normalização da volatilidade — o VIX terminou 2025 em torno dos 15 pontos, um patamar que se presta apricing rigoroso e a planeamento ponderado, algo impensável há dois anos. O terceiro é a acumulação de “unicórnios” maduros: o conjunto de empresas tecnológicas privadas com avaliação agregada superior a 3,6 triliões pressiona pela monetização, com os fundos de venture de 2017-2020 a aproximarem-se do fim do horizonte de investimento e os colaboradores das tecnológicas a aguardarem liquidez há demasiado tempo”, argumenta o analista.
Em quarto lugar, o quadro regulatório. “A SEC, sob Paul Atkins, sinalizou uma postura mais permissiva quanto à formação de capital, com tendência para aligeirar exigências de divulgação para emerging growth companies — uma inflexão que reduz custos de admissão e encurta janelas de tempo processuais”, esclarece João Queiroz.
Ainda assim, quer o entusiasmo perante a SpaceX quer com as restantes futuras inquilinas de Wall Street, não devem ser considerados um indicador para o mercado de IPO em geral, porque a ‘menina bonita’ dos foguetões têm pouco em comum com um candidato típico a IPO, alertam à Reuters um grupo de analistas especializados.
“A SpaceX é tão grande e extraordinariamente avaliada que não se presta como um caso de teste normal para o mercado de IPO. O mercado de IPO foi reaberto, mas o interesse ainda está concentrado em empresas que se enquadrem em temas fortes, como a indústria, as infraestruturas de IA, a defesa, a energia e partes da biotecnologia”, explicou Lukas Muehlbauer, associado de investigação da IPOX.
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Dos foguetões aos donuts. Os IPO do ano “mais robusto da década” em entradas em bolsa
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