Duelo político “mano a mano” em Aveiro entre PS e PSD. Conseguirão os socialistas fazer cair 20 anos de poder “laranja”?

O duelo entre dois irmãos, um pelo PS e outro pelo PSD, está ao rubro e promete acender a corrida à Câmara de Aveiro que já foi presidida por um deles antes de ficar nas mãos do PSD durante 20 anos.

Ainda a campanha eleitoral não tinha oficialmente arrancado em Aveiro e já tinha tanto de inusitado quanto de caricato com os “manos” Souto de Miranda como adversários políticos. Pelo PS entrava na corrida Alberto que já foi presidente do município e secretário de Estado do Governo de Guterres. E o PSD nacional indicava o irmão Luís, atual presidente da Assembleia Municipal; uma decisão que gerou burburinho e até “estragos” na concelhia ao ponto do autarca Ribau Esteves se demitir da mesa da Assembleia.

A disputa entre os irmãos Souto de Miranda à cadeira do poder da Câmara de Aveiro, há 20 anos sob domínio “laranja”, promete aquecer a corrida autárquica. A jogo vai ainda João Moniz pelo Bloco de Esquerda (BE), que segue sozinho e não em coligação como acontece no Porto ou em Vila Nova de Gaia. Já o Chega entra na corrida autárquica com Diogo Machado, antigo deputado municipal do CDS, e a Iniciativa Liberal (IL) acena com o empresário Miguel Gomes — um repetente nesta disputa política pelo município aveirense. Acresce Bruno Fonseca (Livre), Ana Rita Moreira (PAN), Isabel Cristina Tavares (CDU) e Paulo Alves pelo partido Nós, Cidadãos! (NC).

Mas já lá vamos. Comecemos pelo duelo familiar Souto de Miranda. Era uma vez dois irmãos, em lados opostos da barricada, que cresceram com a política à mesa: o pai, advogado, foi candidato a deputado e histórico militante do Partido Popular Monárquico (PPM) e o avô materno foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte e presidente da autarquia aveirense.

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Alberto Souto de MirandaHugo Amaral/ECO

Quis o destino que este ano os Souto de Miranda, ambos na casa dos 60 anos, se vissem em lados opostos na campanha eleitoral — que já qualificaram de amigável — pela Câmara de Aveiro que até já foi presidida por um deles — Alberto — antes de ficar nas mãos dos social-democratas durante os últimos 20 anos, 12 deles com Ribau Esteves (PSD-CDS/PP) — já não pode entrar na corrida por ter atingido o limite de mandatos — e outros oito com Élio Manuel Delgado da Maia.

Numa entrevista à Sic, Alberto Souto de Miranda, que encabeça a candidatura “Um Futuro com Todos” pelo PS, assegurou que iria fazer os possíveis por ter uma “campanha educada e com elevação”. Da espécie de duelo com o irmão deixou uma certeza: “É meu irmão, mas não é meu adversário”. Já o irmão Luís notou no mesmo canal televisivo que “a discussão política faz parte do ADN familiar“.

Resta saber se o socialista Alberto consegue sentar-se outra vez na cadeira do poder e destronar o domínio social-democrata, ou se o irmão Luís leva a melhor pela coligação PSD/CDS-PP/PPM, “Aliança Com Aveiro”, e dá continuidade à política de Ribau Esteves, que até discordou da sua escolha pelo líder do partido Luís Montenegro.

A decisão gerou mesmo mal-estar na cena política aveirense e culminou em três demissões: Ribau Esteves, como presidente da Mesa da Assembleia da Secção de Aveiro do PSD, o líder da Concelhia, Simão Santana, e o vogal Rogério Carlos, número dois da autarquia e que era apontado como um dos nomes para ser o sucessor de Ribau Esteves. Este último chegou a descrever Luís Souto de Miranda como “um homem com uma carreira universitária, sem nenhuma experiência de gestão”, durante uma intervenção no Porto Canal.

Luís Souto de Miranda, cabeça de lista da coligação PSD-CDS-PPM29 agosto, 2025

Militante do PSD desde muito novo, “no tempo de Sá Carneiro”, como já disse publicamente, Luís Souto de Miranda é atualmente presidente da Assembleia Municipal de Aveiro. Docente de bioética e genética forense na Universidade de Aveiro, o candidato Luís social-democrata é licenciado em biologia, mestre em genética aplicada e doutorado em ciências biomédicas. Integra ainda a ADERAV – Associação para Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro, e ainda lhe sobra tempo para a Confraria dos Ovos Moles.

Já o irmão Alberto, o primeiro dos dois a surgir na cena política como cabeça de lista do PS para arrancar o poder aos social-democratas, esteve à frente dos destinos da Câmara de Aveiro entre 1998 e 2005 e o PS coloca nele as fichas todas na esperança de mudar a cor partidária do município. Nas autárquicas de 2021, a coligação PSD/CDS/PPM elegeu seis mandatos e o PS/PAN outros três.

Alberto Souto de Miranda é licenciado em Direito, foi vice-presidente da Autoridade Nacional das Comunicações (ANACOM) entre 2006 e 2012, e entre 2012 e 2017 responsável pela proteção de dados do Banco Europeu de Investimento. Foi ainda secretário de Estado Adjunto e das Comunicações no Governo de António Costa e assumiu diferentes cargos na Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Acérrimo crítico da gestão do autarca Ribau Esteves, o socialista Alberto Souto de Miranda não lhe poupa críticas, nomeadamente à política de habitação, e até puxa dos galões com o legado que deixou quando presidiu o município, designadamente a cobertura de saneamento em 98,5% do concelho.

A troca de galhardetes entre os dois já é antiga. Ainda em dezembro de 2024, por altura do lançamento do seu livro “Um futuro para Aveiro – 101 propostas”, o socialista voltou a deixar reparos, e Ribau não se ficou e até a Concelhia do PSD aveirense lhe deu o troco, responsabilizando-o pela falência a que votou a autarquia durante os seus mandatos.

Resta agora saber se as farpas vão sobrar para o irmão, que quer suceder o atual presidente do município, ou se esta será uma campanha mais “soft” para as autárquicas de 12 de outubro. Por enquanto, os partidos estão muito ativos, mas já lá vamos.

Habitação na agenda política dos candidatos

Há vários meses que a rivalidade política entre dois irmãos está “quente” e promete acender a corrida à Câmara de Aveiro. Se ganhar as eleições de 12 de outubro, o candidato do PSD promete reforçar a política pública de habitação, “incentivando os projetos de custos controlados a par com outras formas de apoio”.

Como bandeiras, o atual presidente da Assembleia Municipal elege a cultura e a inovação, e promete ainda desenvolver as relações com a universidade e as empresas para fazer de Aveiro “uma espécie de um Silicon Valley português”. Durante a apresentação das linhas gerais da sua candidatura, o social-democrata contou com a presença de Luís Montenegro, comprometendo-se a “construir um projeto com as pessoas, pelas pessoas e por mais Aveiro”.

Já o seu oponente do PS, Alberto Souto, assume a revogação do Plano de Pormenor do Cais do Paraíso como compromisso eleitoral. Compromete-se ainda a “eliminar barracas”, criar mais espaços verdes e introduzir bicicletas de nova geração. E já avisou que “nenhuma obra avançará sem o financiamento prévio garantido“.

João Moniz (BE)29 agosto, 2025

Na corrida à Câmara de Aveiro, o Bloco de Esquerda, que integra coligações para outras câmaras como o Porto ou Vila Nova de Gaia, vai a jogo sozinho com o candidato João Moniz. Deputado na Assembleia Municipal e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o bloquista atira baterias ao combate à escalada dos preços da habitação, mediante o aumento da oferta pública a custos controlados. Acena ainda com a criação de uma taxa municipal turística num concelho que ainda é dos poucos do país onde esta medida não está implementada.

Depois de também já ter sido cabeça de lista pelo BE nas últimas eleições autárquicas, João Moniz usa como trunfo “um programa autárquico assente na modernização administrativa, na atração de investimento para a região e na implementação de políticas públicas que incentivem o crescimento económico e a qualidade de vida dos aveirenses”.

Com a campanha ao rubro e carregada de peripécias, Diogo Soares Machado, candidato do Chega, diz que se ganhar as eleições vai pedir uma auditoria às contas da autarquia desde 2014. O antigo deputado municipal do CDS deixou, contudo, um recado a quem porventura sirva a carapuça: “Pedirei responsabilidades a todos” se for detetada alguma irregularidade que remeta a um período anterior. O candidato foi diretor da AveiroExpo até 2013, ano em que Ribau Esteves assumiu as rédeas da autarquia.

Entretanto, o cabeça de lista do Chega já trocou galhardetes com o seu oponente bloquista João Moniz, afirmando “não ter o hábito de responder a trotskistas com muito pouco conhecimento da realidade”. Por isso, categoriza as afirmações do adversário como “falsidades e mentiras” e espera que “ele fique a falar sozinho”. E nem o candidato do PS escapa às farpas lançadas pelo Chega, acusando-o de ter deixado “Aveiro endividada para 50 anos, com 250 milhões de euros contabilizados“.

Nem a política de Ribau Esteves escapou ao candidato do Chega, apontando-lhe o dedo por deixar a situação financeira do município “ao nível do buraco que o candidato Alberto Souto deixou Aveiro em 2005”, na ordem dos 200 milhões de euros.

Já a socióloga Ana Rita Moreira, 24 anos, concorre pelo PAN e também elege a habitação como bandeira através de uma “visão integradora” das necessidades da população. A candidata integra desde 2024 a Distrital de Aveiro do PAN.

Em declarações à Lusa, a cabeça de lista pelo PAN assinalou que “as prioridades para o concelho passam, sobretudo, por garantir soluções de habitação acessível à população, melhorar a mobilidade no território, reforçar a proteção animal e valorizar os espaços verdes como base de qualidade de vida para todos, entregando à população respostas inclusivas e sustentáveis que contribuam significativamente para a comunidade aveirense.

Cabeça de lista pela CDU, a operária têxtil Cristina Tavares aponta baterias para o fim do pagamento das portagens nas autoestradas A17, A19 e A25, assim como mais habitação social e um regime de licenças de alojamento local, que impeça a construção de unidades hoteleiras em zonas de pressão residencial.

Por sua vez, Paulo Alves recandidata-se pelo Nós, Cidadãos! e anseia integrar o executivo municipal para “fiscalizar todas as atividades políticas”. Já foi deputado na Assembleia Municipal De Felgueiras, de onde é natural, entre 2005 e 2009.

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