Entre marcas de luxo, glaciares e trilhos. Pestana arranca operação italiana em Courmayeur
Rodeada por glaciares, dominada pelo Monte Branco e habitada por apenas 2 mil residentes, é assim a vila italiana onde o grupo Pestana acaba de abrir o seu primeiro hotel no país.
Depois de atravessar o túnel que corta a montanha, Courmayeur é um prémio. Encaixada entre montanhas, rodeada de vales e glaciares, nesta comuna italiana no extremo noroeste de Itália, no Vale de Aosta, encostada às fronteiras de França e da Suíça, as indicações estão escritas em italiano e francês. A principal artéria da vila é simultaneamente via e rue.
O maciço do Monte Branco domina a paisagem. Surge ao fundo das ruas, entre os edifícios, atrás das árvores e das varandas dos edifícios. É aqui, neste exclusivo destino de montanha, 1.200 metros acima do nível de água, que o grupo Pestana acaba de pôr a placa com o seu nome. O Le Massif é o primeiro hotel do grupo em Itália (e o primeiro de um grupo português de hotelaria).
A nova unidade, com uma fachada moderna de madeira em sintonia com a arquitetura local, é um das quatro unidades de luxo da zona, vizinha de um edifício de apartamentos e a galeria de arte contemporânea Deodato. Desde Portugal, pode chegar-se aqui pelos aeroportos de Genebra, Turim e Milão. Este último, a cerca de duas horas e meia de distância, é normalmente a opção mais eficiente.
Às 09h00 de manhã da última quinta-feira, um grupo de mochileiros, maioritariamente norte-americanos (a julgar pelo sotaque), munidos de bastões, óculos escuros e roupa técnica, reúne-se à espera de instruções antes de iniciar uma caminhada, uma das principais atividades nesta zona no verão. Quando acaba a época de neve, as lojas substituem o material de esqui pelo de montanhismo e bicicleta. Courmayeur é o ponto de partida.
A vila desenvolveu-se no sopé do Monte Branco, o pico mais alto da Europa Ocidental, e só conhece dois períodos calmos: entre a Páscoa e meados de junho; outubro e novembro. “O público de verão procura um destino mais sossegado, um destino de montanha. Quer fugir um bocadinho da costa italiana”, explica João Martins.
“O público de inverno procura a neve e toda a experiência relacionada com a neve”. O grupo Pestana quer agitar um pouco este panorama. Para já, o hotel estará de portas abertas durante todo o ano, dizem o diretor de operações na Europa, João Martins, e o diretor do hotel, Paulo Garcia, aos jornalistas, durante uma visita de apresentação. O município também quer contrariar a sazonalidade, a julgar pelo cartaz que passa em loop nos ecrãs e que diz “Primavera em Courmayeur: desporto, entretenimento, comida”.
Courmayeur cresce em torno da uma rua principal que alterna mercearias que dão a conhecer produtos do Vale de Aosta, lojas de recordações com ilustrações que lembram antigos cartazes turísticos dos Alpes, lojas de material desportivo e marcas de luxo – Gucci, Valentino, Patek Philippe, Rolex, Tudor, Alexander McQueen, Chloé, Burberry ou Loro Piana. Por esta altura, a Dior permanece fechada. Na porta da Moncler, um aviso informa que a reabertura está marcada para 27 de junho.
“Se tens uma casa em Courmayeur, provavelmente és rico”, resume Tiziano Murgia, guia local de montanha que colabora com o Le Massif nas atividades de aventura. As estatísticas explicam o que diz. Apenas 2 mil pessoas têm residência permanente aqui e um terço das casas são segundas residências de quem tem em Turim e Milão a primeira casa. Na montra da imobiliária Engel & Völkers está à venda um apartamento T2 por 455 mil euros. É o mais barato. Também há um chalet com oito quartos que procura comprador por 6,5 milhões.
Nos períodos fortes, a população multiplica-se várias vezes durante os períodos de maior procura. Pode chegar às 40 mil pessoas. E 2025 foi um ano especialmente positivo com 649.999 dormidas, mais 13% do que em 2024 (618.784 dormidas sem os alojamentos turísticos), segundo o jornal La Vallée Notizie, que chama “rainha das dormidas” a Courmayeur, citando dados do turismo de Vale de Aosta. Entre os visitantes, 8% escolheram hotéis de 5 cinco estrelas. É neste cenário que o Grupo Pestana decide entrar.
No início do ano, a cadeia portuguesa comprou o hotel e assumiu a gestão do Le Massif. Os valores de aquisição não foram revelados pelo grupo Pestana. Trata-se um edifício de 80 quartos, que é o 17.º destino internacional da cadeia de origem madeirense e também o seu primeiro hotel alpino. Inaugurou oficialmente a 5 de junho como Pestana.
“Estamos a entrar num mercado onde praticamente ninguém conhece o Pestana”, admite Paulo Garcia. “Esperamos que aconteça o mesmo que aconteceu em Marrocos. Quando chegámos, praticamente ninguém conhecia a marca. Hoje a realidade é completamente diferente”.
A estratégia tem duas frentes. Atrair italianos para a rede Pestana e apresentar Courmayeur aos clientes habituais do grupo. “É uma forma de oferecermos aos nossos clientes fidelizados um destino diferente, mas também de atrair clientes italianos para outros hotéis do grupo”, explica. João Martins explica que a entrada em Itália era um objetivo antigo, mas “não é só entrar num destino por entrar”.
“Se esse fosse o propósito do grupo, se calhar já podíamos ter entrado em Itália há mais tempo”. Para o diretor de operações na Europa, o Le Massif acrescenta uma experiência que não existia no portefólio da cadeia. “É um ativo que soma. Traz-nos a experiência de montanha enriquecida com a componente de ski resort no inverno”. O grupo mantém-se atento a outras oportunidades, diz João Martins.
Inaugurado há cerca de 10 anos, é uma gigantesca cabana de alpina contemporânea com interiores de madeira, tecidos quentes e tons castanhos. Tem dois restaurantes (um com refeições mais ligeiras, outro de inspiração internacional que serve pequenos-almoços e jantar, o Le Chétif), spa e 80 quartos distribuídos por quatro tipologias.
No oitavo piso, encontram-se as quatro suítes mais exclusivas, com sala própria e vistas privilegiadas para o Monte Branco. Cada uma leva o nome de um alpinista histórico: Giusto Gervasutti, Marie Paradis (a primeira mulher a subir ao Monte Branco), Ricardo Cassin e Henriette D’ Angeville.
Apesar da mudança de proprietário, a transformação foi discreta. “O hotel já estava perfeitamente operacional”, explica Paulo Garcia. “As intervenções que fizemos tiveram sobretudo a ver com manutenção e atualização de equipamentos”.
No fim de semana de 13 e 14 de junho, poucos dias depois da abertura sob gestão Pestana, a ocupação atingiu os 70%. Por estes dias, recebeu também a notícia de que é finalista nos World Ski Awards, integrados nos World Travel Awards, na categoria Italy’s Best Ski Hotel 2026.
Uma montanha para todas as estações
Nesta altura do ano, das varandas do Le Massif podem ver-se longas faixas verdes que descem a encosta. No inverno, são as pistas de esqui, atualmente em obras de manutenção tal como o teleférico que transporta os esquiadores e que fica menos de 500 metros a pé do hotel. Está encerrado por agora, mas no final, além das pistas, encontra-se o Loge do Le Massif, uma cabana com um restaurante especializado em champanhe e marisco, bar e cacifos aquecidos. A cada quarto está associado um cacifo”, explica João Martins. “O cliente chega lá em cima, entra no lounge e tem os seus equipamentos à espera”.
“Para quem costuma praticar ski, o maior transtorno é andar a carregar toda aquela parafernália de equipamentos”, diz o diretor de operações. “Nós tratamos do transporte. Quando o cliente sobe, os equipamentos já estão no cacifo. Quando regressa, tratamos novamente de tudo”, conclui.
“Isto não pode ser algo que se tenta solucionar à pressa”, acrescenta Paulo Garcia. “Tem de ser pensado, estruturado e comunicado ao cliente desde a reserva”. Acredita numa oferta à medida de cada cliente e para isso trabalham em exclusivo com a empresa What a Trail que prepara programas específicos para clientes específicos.
“As pessoas querem estar na natureza, desafiar-se e viver experiências”, explica o guia Tiziano Murgia descrevendo os novos clientes que param em Courmayeur para conhecer o Monte Branco e fazer o Tour du Mont Blanc, o TMB, um percurso de cerca de 170 quilómetros que atravessa Itália, França e Suíça e atrai milhares de caminhantes todos os anos. Outros vêm pelos UTMB (Ultra Tour du Mont Blanc).
O guia é o rosto visível da empresa que organiza atividades para os hóspedes do Le Massif. Enquanto acompanha os jornalistas pela floresta explica que nas noites de inverno, depois de um dia de esqui, é possível fazer uma caminhada noturna, pelos bosques de Courmayeur, sob a luz da lua e do capacete, por trilhos repletos de neve.

A quatro quilómetros de distância do hotel, o Skyway Monte Bianco é outras das atrações locais. Nasceu para que não fosse preciso ser alpinista para ‘chegar’ ao Monte Branco e tem duas estações: Pavillion e Punta Helbronner. É um feito da engenharia que aqui se encontra desde 1947 e recebeu obras de modernização em 2015. No ponto mais alto, estamos a quase 4 mil metros de altura.
Em poucos minutos, é possível passar de vales verdes para um cenário de neve, gelo e rocha, e também chegar a França (quando as obras de reabilitação do teleférico Trans Mont Blanc terminarem). Segundo o Skyway Monte Bianco, “os teleféricos da Compagnie du Mont Blanc atravessam o glaciar Mer de Glace, chegando primeiro à Aiguille du Midi e descendo depois até Chamonix, transpondo a fronteira entre Itália e França para aproximar as duas nações”.
A montanha já não é a mesma que os alpinistas que dão nome às suítes do Le Massif conheceram, muito menos aquela que Horace Benédict de Saussure, suíço, desbravou até tocar o topo do Monte Branco em 1787. “Há 25 anos a paisagem era muito diferente”, diz Carolina Gugliemotti, guia do Skyway Monte Bianco, que acompanha visitantes, envergando uma sweat shirt que diz SavetheGlaciers. É parte de um projeto de consciencialização para as alterações climáticas que estão a afetar este maciço montanhoso. Aponta para os glaciares e o que diz está à vista. O recuo do gelo é notório até para o mais leigo.
De volta a Courmayeur, os interessados em aprofundar o conhecimento sobre esta longa ligação entre a povoação e a montanha, têm à disposição o Museu Alpino Duca degli Abruzzi, instalado na Società delle Guide – a primeira a ser constituída em Itália, a segundo no mundo. Distribuído por três pisos, preserva fotografias de época, cadernos de viagem, trenós, picaretas, botas, máquinas fotográficas e outros objetos (até um antigo abrigo) utilizados pelos pioneiros que desbravaram estes caminhos.
Mais de dois séculos depois da conquista de Horace Benédict de Saussurre, continuam a chegar pessoas. Pelo esqui, pelos trilhos, pelas bicicletas, pela gastronomia ou pelo desafio. Courmayeur continua a viver da montanha.
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