Entre o futuro turvo da guerra no Irão e a esperança na Índia, azeite reduz ‘tempero’ ao PIB

Guerra no Médio Oriente trava exportações de azeite para Ásia e Oceânia, e aumenta custos de produção. A alternativa pode estar nos acordos comerciais da UE com a Índia e Mercosul.

Numa altura em que a escalada do conflito no Médio Oriente está a travar as exportações do azeite português para os mercados da Ásia e Oceânia, e a agravar os custos de transporte e dos fertilizantes, a fileira vê uma janela de oportunidade nos acordos celebrados pela União Europeia (UE) com o Mercosul e a Índia. Mas é preciso ter uma marca chapéu para a promoção do produto nacional no estrangeiro. As vendas deverão sofrer uma quebra de 18% na campanha de 2025/2026, que foi pressionada pelas condições climáticas do último verão: 700 milhões de euros, abaixo dos 850 milhões da colheita anterior.

Entre as preocupações de alguns olivicultores estão os impactos no negócio na sequência do agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irão. Queixam-se dos constrangimentos logísticos, a reboque da interrupção das rotas comerciais marítimas, que estão a provocar atrasos de várias semanas na exportação dos produtos, segundo revela ao ECO/Local Online o presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL), Manuel Norte Santo.

Temos encomendas de azeite embalado há já três semanas, no nosso armazém, à espera de um contentor disponível para seguirem na rota comercial marítima para Sidney, na Austrália.

Manuel Norte Santo

Presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL) e diretor comercial da SICA - Sociedade Industrial e Comercial de Azeites

“Já estamos a ser afetados com o aumento de custos, essencialmente de transporte. Muitos olivicultores relatam dificuldades de escoamento das mercadorias para a Austrália, Taiwan, Coreia do Sul e África do Sul”, alerta Manuel Norte Santo, que é também diretor comercial da SICA – Sociedade Industrial e Comercial de Azeites, em Estremoz. Nesta empresa, o impacto da ofensiva americana-israelita contra o Irão começou a sentir-se há cerca de um mês.

Temos encomendas de azeite embalado há já três semanas, no nosso armazém, à espera de um contentor disponível para seguirem na rota comercial marítima para Sidney, na Austrália”, relata Manuel Norte Santo, preocupado com a crise logística nas exportações. Outra encomenda para Taiwan “esteve mais de um mês parada no armazém à espera de navio”, e igual contratempo aconteceu com o transporte para a Coreia do Sul. “Esta situação causa atrasos nas entregas e faz com que o produto esteja menos tempo nos lineares para venda”, queixa-se.

O problema, explica, resulta da redução e reorganização das rotas comerciais marítimas internacionais. “Está a ser muito difícil arranjar a rota comercial marítima de Portugal até ao destino final”, lamenta.

Manuel Norte Santo, presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL)8 maio, 2026

Fernando do Rosário, presidente AIFO – Associação Interprofissional da Fileira Olivícola, também alerta para os constrangimentos provocados pela escalada da guerra no Irão, realçando o impacto direto nas exportações do setor para a Oceânia e Ásia. “Os nossos produtos, como é o caso do azeite, têm mais dificuldade e mais custos para sair do nosso país e chegar a mercados alvos“, adverte.

Acrescem os custos de produção que são transversais a grande parte dos produtores, aponta o presidente AIFO, nomeadamente os fertilizantesque, atualmente, são comprados por valores muito mais elevados devido a serem provenientes desses mercados”.

Também José Duarte, presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos, a “maior cooperativa de olivicultores de Portugal” — com 4.000 associados, dos quais 1.300 são olivicultores distribuídos por 20 mil hectares de olival — se queixa do agravamento do custo dos fertilizantes, como “a ureia, cujo preço duplicou desde o início da guerra no Irão”. Acresce o “aumento significativo do preço do gasóleo”, que abastece os tratores que operam nos olivais.

José Duarte não tem, por isso, dúvidas de que “guerra do Médio Oriente está a afetar bastante o setor agrícola em geral e, em particular, o setor da olivicultura”.

Estes fatores, avisa, deverão traduzir-se “no aumento do preço de produção da azeitona” e, por consequência, no preço final do azeite na próxima campanha de 2026/2027. Este cenário é igualmente apontado por Fernando do Rosário, da AIFO: “Se não for travada a escalada de custos na produção, nomeadamente dos combustíveis e fertilizantes, poderá refletir-se depois no aumento do preço do azeite. “Estamos a gastar mais dinheiro para produzir o mesmo produto que antes produzíamos com custos mais baixos“, enfatiza.

Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos8 maio, 2026

Ainda assim, o presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos antecipa uma “produção recorde” este ano para esta região, dando conta que já a campanha de 2025/2026 foi excelente.

“No ano passado tivemos a segunda maior campanha de sempre: produzimos 59.500 toneladas de azeitona, o que correspondeu mais ou menos a 9.000 toneladas de azeite”, detalha. Grande parte dos embalados de azeite (80%) são vendidos no mercado nacional e os restantes 20% são exportados para a Colômbia, França, Alemanha, Bélgica e Polónia. Contas feitas, calcula, a cooperativa faturou no ano passado cerca de 50 milhões de euros”.

À semelhança do resto do país — que baixou a produção de 177 mil toneladas de azeite para 160 mil, pressionado pela seca –, já a SICA registou uma quebra de produção, na ordem dos 10%, nos 250 hectares de olival durante o verão de 2025. Ano em que faturou cinco milhões de euros e vendeu 850 mil litros de azeite, calcula Manuel Norte Santo que exporta 90% do azeite, com os Estados Unidos a absorverem metade da produção, seguido do Brasil e da Coreia do Sul.

Portugal ter uma marca chapéu para o azeite nacional para trabalhar esse mercado e outros.

Manuel Norte Santo

Presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL)

A dependência do mercado norte-americano tem-se refletido nas contas da empresa. “Estamos muito dependentes do mercado americano e a questão das tarifas também nos tem prejudicado um pouco. Alguns dos nossos importadores pediram para baixarmos as nossas margens e assim fizemos, mas continuam com alguma dificuldade ao nível de tesouraria”.

Resultado: os clientes americanos “acabam por fazer encomendas menores, mais controladas, e até pedem para estender os prazos de pagamento”, conta Manuel Norte Santo, que antecipa, por isso, uma “pequena quebra nas vendas” da próxima campanha de 2026/2027. Ainda assim, o empresário prevê um crescimento da produção do azeite.

Acordo comerciais da UE alimentam expectativas

A abertura de novos mercados na sequência dos acordos da UE com o Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — e, com a Índia é vista como um espécie de balão de oxigénio para a fileira do azeite. “A Índia é um mercado muito interessante; ainda não tem tradição de azeite e tem um potencial de 1,47 mil milhões de consumidores“, nota José Duarte, presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos.

Igualmente o presidente AIFO está confiante que o acordo da UE com Mercosul vai ser benéfico para os olivicultores, uma vez que “baixa as tarifas”. Ainda assim, nota, “é preciso ter em conta que essa redução” é transversal a todos os países da Europa e, como tal, Fernando do Rosário, defende que deve haver uma marca chapéu de Portugal para promover o azeite lá fora.

A importância do acordo entre UE e a Índia no aumento das exportações nacionais é unânime entre os produtores com os quais o ECO/Local Online falou. O presidente do CEPAAL, também olivicultor, acredita que “a Índia é um mercado com muito potencial; país onde os consumidores utilizam muitos óleos alimentares refinados e o azeite pode ser uma alternativa, uma vez que tem uma vantagem a nível nutritivo muito superior a estas gorduras”.

Mas, para se tornar competitivo e exportar para a Índia, “Portugal tem de criar uma marca chapéu para o azeite nacional para trabalhar esse mercado e outros”, à semelhança do que já acontece em Espanha e Itália. “Estamos a ignorar o valor acrescentado que podemos retirar de vender um produto sob a nossa marca e embalado”, alerta Manuel Norte Santo, referindo que Portugal é o terceiro maior exportador europeu depois daqueles dois países, e que “grande parte do azeite exportado é a granel”.

Com “350 mil hectares de olival”, grande parte no Alentejo, Portugal também é o sexto maior produtor mundial, atrás de Espanha, Itália, Grécia, Turquia e Tunísia, evidencia o responsável.

Herdade do Esporão, no Alentejo8 maio, 2026

Igualmente a oleóloga Ana Gaspar, gestora de produção de azeite do Esporão — pertencente à família Roquette, que produz este produto desde 1997 –, defende que “tem de haver uma estratégia nacional para o país entrar fortemente no mercado da Índia“. E que começa, desde logo, pela criação da marca chapéu Azeite de Portugal, “para fazer um grande trabalho de promoção e de educação ao consumidor”, uma vez que “é muito mais difícil” e exige um maior investimento se cada olivicultor se autopromover sozinho.

Em 2025, vendeu 10 milhões de euros de azeite, e tem o Brasil como principal mercado (50%), seguido de Portugal, que absorve 30% da produção, seguido dos Estados Unidos e Canadá, entre outros países.

Com vista a aumentar a produção e criar valor, a empresa vai plantar mais 200 hectares de variedades portuguesas de oliveiras, “porque hoje em dia são cada vez mais raras”, nota Ana Gaspar, adiantando que “o Esporão também foi pioneiro nos azeites monovarietais em Portugal”.

Também Pedro Ribeiro, CEO da Rocim, localizada no Alentejo, entende que “este acordo comercial poderá ser uma oportunidade para aumentar as exportações de azeite. A redução gradual das tarifas sobre o azeite europeu poderá facilitar a entrada num mercado com elevado potencial de crescimento, sobretudo para produtos premium“.

A produzir azeite desde 2007, a Rocim, no Alentejo, vende anualmente cerca de 20 mil litros e exporta para 30 mercados, com a Alemanha, a Suíça e o Brasil no Top 3. Em 2025, faturou 300 mil euros. Agora, o CEO, Pedro Ribeiro, antecipa um crescimento de 5% em 2026.

“A abertura e reforço de acordos comerciais com mercados como a Índia representam oportunidades relevantes para a expansão do azeite português, sobretudo em segmentos premium e gourmet“, considera, por sua vez, António Boal, da Costa Boal Family Estates.

Desde 2024 que produz azeite nas quintas de Alijó, Murça e Vila Nova de Foz Coa, onde tem oliveiras centenárias, plantadas em sistema de bordadura. E apontou logo baterias para o mercado nacional, além de Angola e Brasil.

Por seu lado, Ana Macedo, administradora da Quinta do Sampayo, no Vale da Pinta, Cartaxo, que se estreou na fileira do azeite em dezembro de 2025 com a venda em Portugal e no Reino Unido, considera que o acordo da UE com a Índia “traz uma oportunidade gigante para exportar o azeite português”. Ainda assim, admite que, por enquanto, “não tem dimensão para o mercado indiano, mas vai estar atenta a oportunidades que possam existir e que façam sentido”.

Foi neste contexto de instabilidade geopolítica e de novos desafios geográficos no setor oleícola nacional que especialistas, decisores, académicos e agentes se reuniram, na última sexta-feira, em Moura, no 9.º Congresso Nacional do Azeite. Apesar da imprevisibilidade, o balanço do século é bastante positivo: nos últimos 26 anos, o setor quintuplicou. E, concordaram diversos dos especialistas presentes no evento decorrido no Baixo Alentejo, há potencial para crescimento em quantidade e valor.

Em 2026, diz Manuel Norte Santo, o contributo para o PIB nacional, “tendo em conta o valor médio a que está a ser comercializado o azeite a granel, [foi de] 700 milhões de euros”.

 

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