Especialização no turismo reduz valor nas exportações

O verdadeiro desafio consiste em transitar de um modelo assente no volume para um modelo centrado no valor, tanto no turismo como, sobretudo, para além dele, escreve o economista Óscar Afonso.

Na última crónica, sublinhei a falta de escala das exportações de bens em Portugal. A coerência analítica obriga a olhar agora para o outro lado da balança externa: os serviços. E aqui surge um problema estrutural semelhante, com nuances relevantes. A falta de escala e de sofisticação das exportações de serviços resulta, em grande medida, da especialização excessiva no turismo, não porque o seu crescimento não seja relevante, mas porque tem limitado o desempenho económico do país, por se tratar de uma atividade intensiva em mão-de-obra e de baixa produtividade, que precisa de evoluir em qualificação e valor médio por turista, como tenho vindo a defender.

Acresce que o tipo de turismo de massas de baixo valor que predomina no nosso país tem externalidades negativas que se tornam cada vez mais evidentes, como a pressão sobre as infraestruturas, com destaque para a habitação — agravando a crise de acessibilidade nas zonas com preços já elevados —, bem como sobre alguns serviços públicos e também sobre o ambiente.

Por ser um setor intensivo em mão-de-obra, num país envelhecido, exige também a mobilização de contingentes significativos de imigrantes, cuja integração tem revelado fragilidades, desde logo ao nível da resposta dos serviços públicos, refletindo igualmente limitações do próprio modelo económico assente em atividades de baixo valor acrescentado.

O problema nem é tanto o crescimento da atividade turística em si, mas a forma como cresce, como referido, e o facto de tal ocorrer em detrimento de outras atividades geradoras de maior produtividade e valor acrescentado, por falta de aposta e de incentivos adequados das políticas públicas, designadamente na indústria e nos serviços intensivos em tecnologia e conhecimento.

Apesar de tudo, Portugal tem beneficiado do turismo, e seria errado desvalorizar esse contributo. O setor trouxe divisas, dinamizou regiões, criou emprego e ajudou a reposicionar o país no mapa internacional, mas gerando simultaneamente desequilíbrios como os referidos.

Trata-se de um setor particularmente exposto a oscilações abruptas da procura internacional, como ficou bem patente durante e após a pandemia, primeiro com uma quase paralisação da atividade e, posteriormente, com um forte efeito de recuperação no período pós confinamento que, sendo em larga medida transitório, já dá sinais de esgotamento.

Igualmente relevante, o país passou a depender de forma significativa, tanto direta como indiretamente, do turismo na estrutura da economia e no equilíbrio das contas externas, o que configura um risco evidente. Trata-se de um setor particularmente exposto a oscilações abruptas da procura internacional, como ficou bem patente durante e após a pandemia, primeiro com uma quase paralisação da atividade e, posteriormente, com um forte efeito de recuperação no período pós confinamento que, sendo em larga medida transitório, já dá sinais de esgotamento.

Num enquadramento alternativo, em que Portugal tivesse conseguido afirmar uma base sólida de serviços competitivos intensivos em conhecimento, como os serviços digitais, financeiros ou associados à exploração de propriedade intelectual, seria expectável um perfil exportador mais robusto e sofisticado. Nesse cenário, o peso das grandes empresas nas exportações de serviços dificilmente seria dos mais baixos da União Europeia (UE), como atualmente se verifica. Este resultado está, pois, intimamente ligado à predominância do turismo, um setor caracterizado por uma estrutura empresarial fragmentada e dominada por empresas de pequena dimensão, à semelhança do que também ocorre nas exportações de bens, conforme já tive oportunidade de analisar na crónica anterior.

Quando um setor como o turismo assume um peso tão expressivo, acaba por condicionar a estrutura produtiva, influenciar os incentivos económicos e limitar o potencial de criação de valor no longo prazo. Esse é o ponto essencial: o turismo pode contribuir para o crescimento no curto prazo, mas pode simultaneamente travar a capacidade do país em crescer mais e melhor e, sobretudo, de forma mais sustentável e resiliente.

Especialização excessiva: quando o sucesso se torna limitação estrutural

Portugal apresenta uma das mais elevadas especializações no turismo na UE. Em 2023, o turismo representou 47,9% das exportações totais de serviços, o terceiro valor mais elevado da UE, apenas atrás de Espanha, com 48,4%, e da Croácia, com 65,8%, situando-se muito acima da média europeia de 15,3%.

Este valor é também significativamente superior ao registado nos países da Europa de Leste, onde o peso médio se situa nos 21,3%, com a nota de que este indicador seria ainda mais baixo sem a inclusão da Croácia, cuja especialização turística contrasta com o perfil mais industrial desse conjunto de economias. Esse perfil tem, aliás, sustentado um desempenho económico globalmente superior ao português, como já referi anteriormente.

Esta elevada concentração no turismo configura um risco estrutural para a economia portuguesa. Em geral, as economias mais desenvolvidas caracterizam-se por uma maior diversificação das exportações de serviços, com um peso relevante de atividades intensivas em conhecimento, tecnologia e capital humano qualificado, o que favorece ganhos de produtividade mais elevados e trajetórias de crescimento mais sustentadas.

O contraste com a Irlanda é particularmente elucidativo. Com apenas 1,5% das exportações de serviços assentes no turismo, o país construiu uma base exportadora de serviços centrada antes em serviços digitais, financeiros e associados à propriedade intelectual, com níveis de produtividade e valor acrescentado muito superiores. A isso acresce o peso também elevado de exportações de bens industriais de elevada tecnologia no total das exportações de bens.

Portugal seguiu um percurso distinto, mais assente em vantagens comparativas de curto prazo, como o clima, a localização e os custos, que, sendo relevantes, não permitem maximizar o potencial de crescimento no longo prazo. Acresce que esta especialização tende a auto-reforçar-se, na medida em que o sucesso do turismo atrai recursos, designadamente capital, trabalho e até a própria orientação das políticas públicas — que poderiam (e deveriam) ser antes direcionados para setores com maior produtividade —, gerando um efeito designado em economia de “crowding-out”. Este fenómeno traduz-se, portanto, num efeito de deslocação de recursos que dificulta a diversificação da base económica.

Em termos práticos, este quadro apenas poderá ser alterado através de uma reorientação das políticas públicas. No entanto, o discurso dominante de política económica continua a privilegiar a expansão do turismo, contribuindo para a perpetuação dos riscos e fragilidades já identificados.

Figura 1. Peso das exportações de turismo (%) nos países da UE em 2023

Fonte: Eurostat. Nota: dados ordenados do maior para o menor (da esquerda para a direita). Os países de leste estão assinalados com a letra L a seguir ao nome, sendo ainda incluída a média simples dos valores desses países nos dados apresentados, além da média da UE. O valor de Portugal está assinalado com uma caixa com bordo vermelho, acompanhado do ranking na UE a cinza.

Produtividade e valor: crescer mais não é crescer melhor

Uma das limitações mais relevantes da especialização no turismo prende-se com a produtividade. Apesar de existirem segmentos de maior valor, a média do setor permanece relativamente baixa quando comparada com serviços intensivos em conhecimento. Ou seja, o turismo cresce sobretudo em volume — mais turistas, mais dormidas — e muito menos em valor por unidade, o que limita o impacto no rendimento per capita.

Além disso, trata-se de um setor intensivo em trabalho e com menor capacidade de incorporação tecnológica, o que restringe ganhos de eficiência. Ao contrário dos serviços digitais ou financeiros, onde a escalabilidade é elevada, o turismo exige um aumento proporcional de recursos para crescer, criando um “teto” ao crescimento sustentado.

Esta limitação torna-se particularmente relevante num contexto de envelhecimento da população, em que o crescimento económico dependerá cada vez mais de ganhos de produtividade e não da expansão do emprego. Esta realidade tem também implicações na composição do mercado de trabalho. A forte dependência de setores intensivos em mão-de-obra, como o turismo, tende a aumentar a procura por trabalho menos qualificado, frequentemente assegurado por imigração. Quando não acompanhada por ganhos de produtividade e por políticas eficazes de integração, esta dinâmica contribui para perpetuar um modelo de baixo valor acrescentado, em vez de o transformar.

A especialização no turismo ajuda ainda a explicar o peso relativamente reduzido das grandes empresas nas exportações de serviços em Portugal, tratando-se de empresas que, tal como nos bens, têm um impacto elevado também no VAB e no emprego. O país ocupa apenas a 19ª posição nesse indicador (29,0% em 2023), abaixo da média da UE (48,8%) e dos países de leste (34,3%), e muito distante de economias como a Alemanha (69,7%) ou a Irlanda (65,7%), onde predominam serviços transacionáveis de elevada intensidade tecnológica ou financeira (ver Figura 2).

De facto, setores como o turismo tendem a apresentar estruturas empresariais mais fragmentadas e menor concentração empresarial, enquanto atividades como os serviços digitais, financeiros ou ligados à propriedade intelectual — que em Portugal têm um peso reduzido — são mais intensivas em capital e conhecimento, gerando com maior frequência grandes empresas com forte capacidade exportadora.

Figura 2. Peso das grandes empresas nas exportações de serviços (%) nos países da UE em 2023

Fonte: Eurostat e cálculos próprios. Notas: dados ordenados do maior para o menor (da esquerda para a direita). Os países de leste estão assinalados com a letra L a seguir ao nome, sendo ainda incluída a média simples dos valores desses países nos dados apresentados, além da média da UE. O valor de Portugal está assinalado com uma caixa com bordo vermelho, acompanhado do ranking na UE a cinza.

Crescimento vulnerável: dependência, volatilidade e efeitos colaterais

Finalmente, a Figura 3 mostra que o turismo abrandou em 2024 e, com ele, também o crescimento real do PIB, para o qual o setor contribuiu com 0,3 pontos percentuais (16% do crescimento económico), após 1,4 p.p. em 2023 (46%), segundo dados do INE. O INE não apresentou a mesma análise para 2025, razão pela qual esse ano não surge na Figura.

Esta evolução reflete o peso já bastante significativo do turismo no PIB – cerca de 12%, considerando o impacto direto e indireto, segundo dados da Conta Satélite do Turismo – e evidencia os riscos para o crescimento económico que advêm da dependência crescente do setor, associados a uma procura externa muito volátil, baixa produtividade e forte intensidade de mão de obra, exposta a esses mesmos riscos.

Para além disso, a forte expansão do turismo tem gerado pressões significativas noutros mercados, em particular na habitação, contribuindo para o aumento de preços nas zonas urbanas mais procuradas e agravando problemas de acessibilidade. Acrescem externalidades negativas também no ambiente, bem como uma maior pressão sobre alguns serviços públicos, como referido anteriormente.

Paralelamente, o peso direto da Indústria alargada (incluindo indústria extrativa, indústria transformadora, energia, água e saneamento, i.e., as secções B-E da CAE – Classificação das Atividades Económicas) no VAB tem vindo a recuar, tendo passado de 21,2% em 1999 para 16,4% em 2024.

Este conjunto de efeitos — volatilidade externa e pressões internas causadas pelo turismo, incluindo um efeito crowding out que trava o desenvolvimento de outras atividades, nomeadamente a indústria — reforça a ideia de que o modelo atual não é sustentável no longo prazo e o país precisa de uma reconfiguração da base produtiva.

Figura 3. Contributo do turismo e do resto da economia (p.p. e pesos, %) para o crescimento real do PIB

Fonte: INE e cálculos próprios. Notas: p.p. = pontos percentuais.

Conclusão: crescer para além do turismo

O turismo é, e continuará a ser, um ativo relevante da economia portuguesa. Mas não pode ser o seu eixo estruturante, criando forte dependência desse setor no crescimento económico e nas contas externas. O problema não está no turismo em si, mas no tipo de turismo e, em particular, no seu peso excessivo, condicionando a evolução da estrutura produtiva. A atual especialização limita a escala, reduz o potencial de criação de valor e aumenta a vulnerabilidade a choques externos.

Portugal precisa de reequilibrar a sua economia, apostando de forma mais clara em setores intensivos em conhecimento, tecnologia e capital humano, de bens e de serviços. Isso exige políticas públicas mais direcionadas, capazes de corrigir os incentivos atuais e de promover a diversificação produtiva.

Não se trata de reduzir o turismo, mas de promover a sua evolução em termos de qualificação, produtividade e receita média por turista e, sobretudo, de evitar que continue a expandir-se à custa de outros setores. Tal implica uma aposta clara na diversificação da economia, orientada para atividades de maior valor acrescentado, intensivas em tecnologia e conhecimento, capazes de gerar emprego mais qualificado e melhor remunerado, bem como de atrair e reter talento.

Também no plano demográfico e migratório, importa assegurar que a atração de trabalhadores estrangeiros responde a uma estratégia de qualificação e aumento de valor, e não apenas à necessidade de sustentar setores de baixa produtividade.

Sem essas mudanças, o país arrisca-se a ficar preso a um modelo de crescimento assente em baixos salários, baixa produtividade e elevada dependência externa.

Não se trata de reduzir o turismo, mas de promover a sua evolução em termos de qualificação, produtividade e receita média por turista e, sobretudo, de evitar que continue a expandir-se à custa de outros setores. Tal implica uma aposta clara na diversificação da economia, orientada para atividades de maior valor acrescentado, intensivas em tecnologia e conhecimento, capazes de gerar emprego mais qualificado e melhor remunerado, bem como de atrair e reter talento.

O verdadeiro desafio consiste em transitar de um modelo assente no volume para um modelo centrado no valor, tanto no turismo como, sobretudo, para além dele. Com o peso que o turismo passou a ter, o poder político acabou por se acomodar a este novo equilíbrio, mas será necessário questioná-lo e promover uma aposta consistente em setores mais avançados. Caso contrário, Portugal arrisca-se a manter um crescimento anémico e a empobrecer em termos relativos, afastando-se do processo de convergência com as economias mais desenvolvidas e aproximando-se progressivamente dos níveis mais baixos de rendimento da UE.

  • Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Professor Catedrático e sócio fundador do OBEGEF

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