Desaceleração económica europeia, agravada pela incerteza internacional, e crescente perda de competitividade face a concorrentes externos, levam exportações portuguesas a perder terreno.
As exportações de bens entraram num ciclo de abrandamento, depois de vários anos em que as vendas ao exterior funcionaram como um dos principais motores da recuperação económica portuguesa. Os sinais mais recentes apontam para uma perda de dinamismo que resulta sobretudo da desaceleração económica europeia, agravada pela incerteza internacional, mas também de uma crescente perda de competitividade face a concorrentes externos, sobretudo asiáticos, aliados aos custos internos, segundo as fontes do setor ouvidas pelo ECO.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelaram uma quebra homóloga das exportações de bens de 6,4% no primeiro trimestre, com o seu peso a baixar 1,5 pontos para 26,3% do PIB face ao período homólogo. O recuo surge numa altura de forte incerteza devido ao contexto internacional, colocando desafios acrescidos para a economia portuguesa.
Embora março até tenha registado uma recuperação pontual das exportações de bens, com uma subida homóloga de 10,6%, o movimento poderá refletir efeitos de calendário e reposição de encomendas após meses de forte desaceleração. A tendência de fundo permanece marcada pela fragilidade da procura europeia — sobretudo na Alemanha, França e Espanha, países que absorvem a grande fatia das vendas portuguesas ao exterior.
A deterioração do comércio externo surge num momento em que o Governo e as principais instituições económicas reviram em baixa as previsões de crescimento económico para este ano, apontando agora para uma expansão de entre 1,6% e 2%. No entanto, a fotografia é mais cinzenta quando se junta à equação outro dado: o peso que a procura interna tem vindo a ganhar, nos últimos dois anos, para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), em detrimento da procura externa.
O peso das exportações portuguesas no PIB tem vindo a reduzir como reflexo da conjuntura internacional menos favorável que penaliza as trocas comerciais. Esta tendência não se verifica apenas em Portugal, mas também na maioria dos países da União Europeia.
“O peso das exportações portuguesas no PIB tem vindo a reduzir como reflexo da conjuntura internacional menos favorável que penaliza as trocas comerciais. Esta tendência não se verifica apenas em Portugal, mas também na maioria dos países da União Europeia. Os conflitos militares e a guerra comercial iniciada pelos EUA são as duas principais causas desta tendência”, considera Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP).
Num retrato mais geral, as mais recentes previsões da Comissão Europeia apontam para um crescimento das exportações portuguesas de bens e serviços de apenas 0,6% em 2026 (após 0,4% em 2025), recuperando parcialmente para 2,2% em 2027. Estes valores contrastam com a média da União Europeia, onde as exportações deverão crescer 2,3% em 2025, 0,9% em 2026 e 2,1% em 2027.
Ao mesmo tempo, Espanha mantém uma trajetória mais resiliente, o que aumenta a pressão competitiva sobre Portugal: o país vizinho não é apenas o principal cliente das exportações portuguesas, mas também um concorrente direto em vários setores industriais ou no agroalimentar. O facto de as exportações espanholas continuarem a crescer mais rapidamente sugere um ganho relativo face à economia portuguesa.
Já França e Países Baixos também apresentam um desempenho mais robusto do que Portugal, ao passo que a Alemanha e Itália continuam praticamente estagnadas.
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O quadro de Bruxelas vai mais além e aponta ainda para quatro anos consecutivos de contributos negativos das exportações líquidas (exportações descontadas das importações) para a evolução do PIB. Se em 2022 o contributo era de 2,1 pontos, em 2024 cifrou-se em -0,6 ponto e em 2025 em -1,7 pontos. Para este ano, o Executivo comunitário prevê um contributo negativo líquido de 0,6 pontos e no próximo ano de 0,1.
A evolução das exportações de bens em 2025 traduziu-se assim numa perda de quota de mercado, após a sequência de ganhos da última década. Uma análise preliminar do Banco de Portugal, divulgada em março, à quota de bens nos mercados da União Europeia (UE), em termos nominais, sugere que parte desta perda de quota esteve concentrada nos bens energéticos e agroalimentares e, em menor grau, no material de transporte e produtos diversos. Por outro lado, registaram-se ganhos de quota nas exportações de máquinas e de químicos, plástico e borracha.
Comissão Europeia prevê quatro anos consecutivos de contributos negativos das exportações líquidas para a evolução do PIB.
No entanto, Luís Miguel Ribeiro fala numa tendência transversal a vários países europeus. “Entre 2022 e 2025, a intensidade exportadora diminuiu em 26 dos 27 países da União Europeia, com a exceção da Irlanda que aumentou 0,6 pontos percentuais. Neste período, a intensidade exportadora de Portugal reduziu num valor semelhante ao observado na média da União Europeia, 5,8% e 5,7%, respetivamente”, elenca. E acrescenta: “Mais recentemente, entre 2024 e 2025, a intensidade exportadora reduziu em 23 dos 27 países da União Europeia, com a exceção da Estónia, Chipre, Malta e Finlândia”.
Indústria exportadora sob pressão
Os setores portugueses mais expostos ao mercado europeu estão entre os mais afetados pelo abrandamento das encomendas externas. O automóvel, um dos pilares das exportações portuguesas, enfrenta uma combinação de fatores adversos em que a menor procura europeia, se alia à desaceleração da indústria alemã, a custos energéticos elevados e à crescente concorrência asiática, sobretudo chinesa.
Manuel Oliveira, secretário-geral da Associação Nacional da Indústria de Moldes (CEFAMOL), destaca que “a descida das exportações portuguesas abaixo dos 50% do PIB [de bens e serviços] explica-se, em grande medida, pelo abrandamento económico e desaceleração da atividade industrial nos principais mercados europeus, com quem Portugal mantém uma forte relação comercial“.
“A Europa atravessa um período de crescimento económico reduzido, particularmente na Alemanha, principal motor industrial europeu e um mercado estratégico para a indústria portuguesa”, resume o responsável.
A descida das exportações portuguesas abaixo dos 50% do PIB explica-se, em grande medida, pelo abrandamento económico e desaceleração da atividade industrial nos principais mercados europeus, com quem Portugal mantém uma forte relação comercial.
Cerca de 70% das exportações portuguesas de bens destinam-se à União Europeia, com Espanha, França e Alemanha a concentrarem uma fatia dominante. A Alemanha assume particular relevância devido ao peso da indústria automóvel e metalúrgica. A economia alemã está praticamente estagnada há vários trimestres e a sua indústria enfrenta atualmente uma das maiores crises das últimas décadas, com a produção industrial abaixo dos níveis pré-pandemia e vários grupos a anunciarem cortes de investimento e redução de atividade.
Este contexto afeta diretamente Portugal através das cadeias de valor industriais europeias, com fabricantes de componentes instalados em Portugal a reportarem reduções de encomendas vindas da Alemanha.
“A quebra da produção industrial em vários setores teve impacto direto nas cadeias de valor onde Portugal está fortemente integrado. Setores altamente exportadores, como a indústria de moldes, sentiram uma redução do investimento industrial e uma maior prudência por parte dos clientes, num contexto marcado por incerteza económica, custos de produção elevados e menor crescimento global“, explica Manuel Oliveira.
Contudo, o porta-voz alerta que “o problema” não se limita à procura. “A concorrência internacional intensificou-se, sobretudo por parte de países asiáticos, em particular da China, que tem vindo a ganhar quota em diversas atividades económicas“, assinala. Ainda assim, aponta que “Portugal continua a manter vantagens competitivas relevantes em nichos de elevada complexidade técnica, onde fatores como qualidade, engenharia, rapidez de resposta e proximidade ao cliente são determinantes”.
A indústria portuguesa de moldes exporta diretamente mais de 80% da produção e em 2025 manteve a presença em dezenas de mercados internacionais, segundo os dados facultados pelo líder da CEFAMOL. No ano passado, o setor registou um crescimento das exportações na ordem dos 2,2% face ao ano anterior, mas “o início de 2026 revela um contexto de maior cautela”, já que se tem verificado um abrandamento no lançamento de novos projetos e maior prudência nas decisões de investimento.
Neste momento estamos com uma retração muito forte a nível mundial, o que coloca grandes desafios às nossas exportações. Depois temos uma concorrência desleal de produtos que entram na Europa e em Portugal sem controlo e sem regras, o que também impõe uma certa pressão às empresas exportadoras
Também os setores tradicionais exportadores, como o têxtil, vestuário e calçado, atravessam um período desafiante. “Neste momento estamos com uma retração muito forte a nível mundial, o que coloca grandes desafios às nossas exportações. Depois temos uma concorrência desleal de produtos que entram na Europa e em Portugal sem controlo e sem regras, o que também impõe uma certa pressão às empresas exportadoras”, considera César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção (ANIVEC).
O empresário explica que o setor procura manter as exportações em termos de valor em linha com o ano passado, mas entre as forças negativas inclui-se ainda o aumento dos custos das matérias-primas. “As matérias-primas aumentaram e há mais valor em exportações, mas menor valor de ganho“, detalha.
No ano passado, a venda de bens portugueses de têxteis e vestuário caíram 0,8% para 5,5 mil milhões de euros face a 2024. Segundo o líder da ANIVEC, as exportações de vestuário ascenderam a 3,2 mil milhões no ano passado, em linha com as do ano precedente.
O setor da maquinaria e equipamentos industriais enfrenta igualmente dificuldades associadas à quebra do investimento industrial europeu. Muitas empresas portuguesas ligadas à metalomecânica dependem da evolução do investimento empresarial na Alemanha e em França, atualmente condicionado pelas taxas de juro elevadas e pela incerteza económica.
Para o CEO da Metalogalva, António Pedro Antunes, há ainda outro fator. “O aço europeu ficou mais caro e mais difícil de comprar, com as quotas de importação reduzidas em quase 50% e tarifas de 50% fora da quota, aplicadas apenas à matéria-prima e não aos produtos transformados“, aponta, destacando igualmente os custos de transporte, que considera penalizarem “desproporcionalmente” Portugal pela sua posição periférica no mercado europeu.
Quando a Europa protege a siderurgia com quotas e tarifas sobre matérias-primas mas deixa entrar livremente os produtos transformados feitos com aço barato fora da UE, transfere competitividade para concorrentes na Turquia, Marrocos e Ásia.
“Quando a Europa protege a siderurgia com quotas e tarifas sobre matérias-primas mas deixa entrar livremente os produtos transformados feitos com aço barato fora da UE, transfere competitividade para concorrentes na Turquia, Marrocos e Ásia“, alerta.
No entanto, admite que há também “boas” notícias. “Em Israel, a quebra de relações com a Turquia abriu-nos um mercado onde antes não tínhamos presença significativa. Não podemos ignorar a guerra das tarifas que fez deslocalizar algumas indústrias e investimentos. Em 2022, o Inflation Reduction Act tornou inviável exportar para os EUA a partir de Portugal — no caso da Metalogalva, perdemos 70 milhões de exportações diretas, mas deslocalizámos a produção e a nossa unidade americana faturou 110 milhões em 2025“, exemplifica.
Contudo, identifica um outro fator que denomina como “talvez o mais determinante” para 2026. “Estamos no último ano do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com a procura interna a crescer muito mais depressa que as exportações. A construção tem uma carência de 80.000 trabalhadores e está a disputar à indústria transformadora a mesma mão-de-obra qualificada. O verdadeiro teste à competitividade exportadora portuguesa virá quando o PRR terminar, a partir de 2027“, antevê o empresário nortenho.
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Exportações portuguesas perdem fôlego pressionadas por incerteza e concorrência chinesa
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