Comunidade portuguesa tem forte implantação no país, com emigrantes sobretudo oriundos da Madeira. Relações comerciais viveram período intenso, mas perderam fulgor. Que retrato fica?
A Venezuela é o segundo país da América Latina com a maior comunidade portuguesa e apesar de, em 2024, ter sido o 112.º cliente das exportações portuguesas de bens, com 165 empresas a vender para aquele destino, Portugal ocupa o 35º lugar como fornecedor do Estado até agora liderado por Nicolás Maduro.
Portugal e a Venezuela tem relações diplomáticas desde o início do século XX, mas foi sensivelmente a partir de 1940/1950 que a comunidade portuguesa se começou a implementar naquele país, registando-se uma forte onda de emigrantes portugueses até meados da década de 1980.
Atualmente, residem oficialmente cerca de 600 mil portugueses na Venezuela, número que a própria comunidade garante estar aquém da realidade, insistindo que são perto de 1,2 milhões, menos que os 1,5 milhões que existiam no país há cerca de cinco anos, de acordo com a Lusa. Ainda assim, é o segundo país da América Latina com o maior número de portugueses, apenas superado pelo Brasil.
Comunidade portuguesa está espalhada pelos 23 Estados da Venezuela, embora os maiores núcleos se concentrem em torno da capital, Caracas, e das cidades de Valência, Maracay, Maracaibo e Puerto Ordaz.
De acordo com informação da Embaixada Portuguesa na Venezuela, a maioria da comunidade é oriunda da Madeira, mas também de Aveiro e do Porto, estando “fortemente integrada no tecido social e económico do país, com uma forte implantação nas áreas de distribuição alimentar e retalho“, estando espalhada pelos 23 Estados da Venezuela, embora os maiores núcleos se concentrem em torno da capital, Caracas, e das cidades de Valência, Maracay, Maracaibo e Puerto Ordaz.
O Governo português disse este sábado à Lusa que não há, até ao momento, indicações de que cidadãos portugueses tenham sido afetados pelos ataques aéreos dos Estados Unidos contra a Venezuela, nos quais, segundo avançou o presidente norte-americano, Donald Trump, Nicólas Maduro foi capturado.

Exportações portuguesas para a Venezuela são diminutas
Portugal exportou cerca de 10 milhões de euros em bens para a Venezuela em 2024, tendo importado bens no montante semelhante, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE). Os dados mais recentes revelam que, até outubro de 2025, Portugal tinha exportado bens no valor total de 8,9 milhões de euros, um aumento de 4,8% face a igual período do ano anterior.
Um valor muito distante dos cerca de 190 milhões de euros exportados em 2013, quando Maduro subiu ao poder, e dos 207 milhões de euros em 2014, ano a partir do qual se registou uma quebra. Em 2016, o montante ascendeu a 76 milhões de euros, mas em 2017 reduziu-se para 8,9 milhões de euros.
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Em 2013, a Venezuela era o 33.º cliente das exportações portuguesas, mas a retirada de vários operadores portugueses da equação levou a que, em 2017, já ocupasse o 106º lugar. Em 2023 subiu alguns degraus, sendo o 73º cliente, mas foi uma exceção, e em 2024 situou-se no 112.º lugar do ranking, com uma contribuição para a quota de mercado das exportações de bens portugueses nula.
Paralelamente, ocupou o 99.º como fornecedor de Portugal, sobretudo metais pesados, embora no passado tenha chegado a vender ainda bens alimentares.
Por outro lado, em 2024, Portugal foi o 35.º maior fornecedor da Venezuela, no total de importações daquele país, vendendo sobretudo bens agrícolas, alimentares, químicos e, em menor grau, máquinas e aparelhos. Mais especificamente, os produtos em maior destaque foram azeite, medicamentos, móveis, vinho e alimentação para animais.
Ademais, para os venezuelanos situa-se no 32º lugar de países para onde mais vende, uma descida face aos últimos anos onde se tem situado entre o 17º e o 28º lugar.
Se em 2013, 238 empresas portuguesas exportavam para a Venezuela, em 2024 eram 165, 81,8% das quais com um nível de exposição àquele mercado inferior a 25%. Apenas 11,5% registava uma exposição superior a 75%. De acordo com dados da AICEP, 57,5% do total de produtos industriais transformados eram de baixa tecnologia, sendo apenas 14,6% de alta tecnologia.
Em 2024, Venezuela foi o 112º cliente das exportações portuguesas, com um contributo nulo para a quota de mercado nacional. No entanto, na lista dos venezuelanos, Portugal foi o 35º maior fornecedor.
No que toca aos serviços, a Venezuela surge na lista como o 55.º cliente de Portugal, com 26,4 milhões de euros de exportações, ocupando o mesmo lugar como fornecedor, com 11,2 milhões de euros.
No total, juntando os bens e serviços, a balança comercial portuguesa com a Venezuela foi positiva em 12,9 milhões de euros em 2024, resultado de exportações no valor de 36,8 milhões e importações de 23,9 milhões.
De acordo com dados do Banco de Portugal, o investimento direto português na Venezuela cifrava-se em 16,3 milhões de euros, mais 34,2 milhões do que em 2023, enquanto o investimento daquele país em Portugal ascendia a 1,2 milhões de euros.
Portugal não reconheceu vitória de Maduro
O Estado português não reconheceu a reeleição de Nicolás Maduro nas presidenciais da Venezuela de julho do ano passado, à semelhança da União Europeia, não se fazendo representar na tomada de posse do presidente agora capturado pelos Estados Unidos.
“Portugal, desde logo, não esteve representado por ninguém na posse, no dito ato de posse. Portanto, isso tem um significado que eu julgo que é claro“, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, em entrevista à Renascença em janeiro do ano passado.
O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela anunciou, em julho de 2024, que Nicolás Maduro foi reeleito para um terceiro mandato consecutivo com 51,20% dos votos, ficando em segundo lugar o principal candidato opositor González Urrutia, com 5.326.104 votos, 43,18%.
Contudo, a oposição venezuelana reivindicou a vitória nas presidenciais, com 70% dos votos para Gonzalez Urrutia, com a líder opositora María Corina Machado — Nobel da Paz de 2025 — a recusar reconhecer os resultados oficiais, com base em atas na posse da coligação da oposição.
Na altura, o PCP saudou “a eleição de Nicolás Maduro como Presidente da República Bolivariana da Venezuela, bem como o conjunto das forças progressistas, democráticas e patriotas venezuelanas que alcançam mais uma importante vitória com esta eleição, derrotando o projeto reacionário, antidemocrático e de abdicação nacional”.
“Repudiando as manobras de ingerência nas eleições da Venezuela, que foram amplamente propagandeadas, o PCP denuncia as ações internas e externas que visem pôr em causa a sua legitimidade, colocar em causa o processo eleitoral e os seus resultados, à semelhança do que se verificou em anteriores atos eleitorais por parte das forças de extrema-direita golpista”, referiu em comunicado.
Na mesma linha, o partido de Paulo Raimundo condenou “a reação do Governo português, alinhada com a política de ingerência dos EUA e da UE e quantos procuram animar a campanha promovida pela extrema-direita golpista”.
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Exportações residuais e segunda maior comunidade portuguesa na América Latina: as relações entre Portugal e a Venezuela
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