Remax, Century 21, Era, KW e Zome fecharam 2025 com recordes de faturação e de consultores, revelando um setor em ebulição que cresce à medida que se torna menos acessível para as famílias.
- O preço médio dos imóveis transacionados pelas cinco maiores redes imobiliárias aumentou 12% em 2025, potenciando assim um crescimento de 24,4% na faturação destas empresas.
- O número de consultores imobiliários aumentou 8,5% no ano passado para quase 25 mil, mas o número de casas transacionadas por agente caiu 1,6%.
- Os líderes do setor perspetivam para 2026 um crescimento moderado dos preços, num mercado onde a escassez de produto é o principal constrangimento.
O mercado imobiliário português viveu em 2025 mais um ano de máximos históricos. Preços em alta, transações em crescimento e volumes de negócio inéditos. A acompanhar de perto esta tendência estiveram as cinco maiores redes de mediação imobiliária a operar em Portugal, que fecharam o ano com uma faturação agregada que cresceu 24,4% face ao ano anterior, consolidando uma trajetória de expansão de vários anos.
Os dados recolhidos pelo ECO junto da Remax, Century 21, Era, Keller Williams (KW) e Zome revelam um setor em plena forma, mas com os líderes de todas as redes a avisarem para um risco que os números não conseguem esconder: o mercado está a tornar-se cada vez menos inclusivo para as famílias portuguesas.
Este não é um fenómeno isolado, vem de trás. Em 2024, as mesmas cinco redes já tinham registado um crescimento médio da faturação de 26,6%, intermediando mais de 129 mil transações num volume de negócios superior a 12 mil milhões de euros.
A expansão continuou em 2025, mas com uma dinâmica diferente: mais moderada em faturação, mais intensa no recrutamento de consultores, e com um mercado que continua a colocar pressão crescente sobre a oferta. O grande tema estrutural é reconhecido por todos os responsáveis das redes sem exceção e atravessa cada um dos números que compõem este retrato do setor.
O crescimento de 24,4% da faturação agregada das cinco redes em 2025 resultou da intermediação de mais de 140 mil transações de imóveis residenciais, mais 8,6% do que em 2024, e num volume de negócios recorde de 22,5 mil milhões de euros, à boleia de um aumento de 12% do preço médio dos imóveis intermediados, que atualmente se situa perto dos 270 mil euros. Mas dentro deste resultado coletivo, há histórias muito diferentes.
A que mais se destaca é a da Zome, a mais jovem e mais pequena das cinco redes. A empresa encerrou 2025 com uma faturação de 53 milhões de euros, mais 32,8% do que em 2024 — quando faturou 40 milhões –, alcançando com isso o maior crescimento do grupo, mas ficou abaixo da meta dos 60 milhões que Carlos Santos, CEO do grupo, tinha anunciado ao ECO no início de 2025.
Para este resultado contribuiu decisivamente o aumento do volume de negócios intermediados: 2,3 mil milhões de euros, mais 26,2% face ao ano anterior, alavancado por 11.320 transações.
“Não existe um paradoxo, existe um mercado sob pressão estrutural. Os recordes de transações e de preços refletem uma procura sólida, sustentada por emprego, confiança e capital disponível, mas a oferta continua cronicamente insuficiente“, diz Carlos Santos, ao ECO. A rede reforçou também a sua presença territorial, passando de 42 para 54 agências (mais 28,6%), e o número de consultores cresceu 14%, de 1.810 para 2.064 profissionais.
No polo oposto, em termos de crescimento de faturação, esteve a Remax, que continua a ser, por larga margem, a maior rede imobiliária a operar em Portugal.
A rede americana, liderada em Portugal por Beatriz Rubio e Manuel Alvarez, fechou 2025 com um crescimento de faturação de 18,3%, o menor entre as cinco redes e ligeiramente abaixo dos 18,4% registados no ano anterior.
Ainda assim, os números absolutos impressionam: a Remax intermediou negócios no valor de 8,7 mil milhões de euros (+21,8%) através de 74.313 transações, com uma rede de 11.350 consultores distribuídos por 422 agências.
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“O facto de 2025 registar crescimentos no número de transações, nos preços e no volume de investimento é sinal de que Portugal continua a ser atrativo para investimento internacional e de que o imobiliário mantém-se como ativo de refúgio face à volatilidade de outros mercados“, afirma Manuel Alvarez.
A operação da Century 21 mostrou-se ainda mais dinâmica do que em 2024, muito por conta da subida de 22,9% do preço médio dos imóveis intermediados para mais de 254 mil euros, que ajudou a consolidar a rede de Ricardo Sousa como a segunda maior a operar em Portugal, ao fechar o ano com um crescimento de 28,2% da faturação para quase 150 milhões de euros.
“2025 foi um ano historicamente forte em volume, mas evidenciou uma segmentação clara do mercado. Uma parte significativa da atividade resulta de trocas de casa entre proprietários, enquanto o acesso à primeira habitação se tornou mais difícil”, refere o CEO do grupo ao ECO, salientando as 26.797 transações realizadas em 2025 (mais 8,2% face a 2024), das quais 21.193 foram vendas e 5.604 arrendamentos, num volume total de 5,31 mil milhões de euros (+23,4%).

A Era Portugal fechou 2025 com uma faturação de 126 milhões de euros, crescendo 23,5% face a 2024, quando tinha faturado 102 milhões — ano em que tinha ultrapassado pela primeira vez a barreira dos 100 milhões de euros.
A rede intermediou 13.400 transações em 2025 (+9,8%), num valor global de 2,5 mil milhões de euros (+25%), com um preço médio de 235.280 euros, mais 17,3% do que em 2024. Na leitura de Rui Torgal, CEO da Era, os números são reflexo de uma tensão acumulada. “O que vivemos em 2025 é o reflexo de um desequilíbrio estrutural que se arrasta há vários anos em Portugal. Temos uma procura estruturalmente forte, movida por fatores sociais e económicos, e uma oferta de habitação nova manifestamente insuficiente”.
A KW Portugal encerrou o ano com uma faturação de 86 milhões de euros, um crescimento de 19,4% face aos 72 milhões de 2024, intermediando 14.429 transações (+10,4%) num volume de negócios de 3,77 mil milhões de euros (+21,7%).
Há um ano, Marco Tairum, CEO da KW Portugal, revelou ao ECO que 2024 tinha “ficado para a história da companhia como o melhor de sempre em território português”. Em 2025, o crescimento da operação manteve-se, mas a leitura sobre o mercado é mais crítica.
“Lemos este cenário não como uma bolha, mas como uma crise de crescimento e de oferta. O paradoxo de termos fechado 2025 com máximos históricos explica-se por um desequilíbrio estrutural que se agravou: a procura continua a ser global e resiliente, enquanto a produção de casas novas não acompanhou o ritmo”, afirma o gestor.
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Um exército de quase 25 mil consultores num mercado estrangulado
Em termos de estrutura de mercado, as cinco redes chegaram a 2025 com 944 agências em todo o território nacional, mais 7% do que em 2024 (882), revelando uma expansão mais moderada do que o crescimento de 9% registado no ano anterior.
Mais expressivo foi o crescimento dos consultores, com as cinco redes a passarem de 22.879 para 24.825 profissionais, um aumento de 8,5%, bem acima dos modestos 2,4% verificados em 2024.
A Era foi a rede mais dinâmica nesta frente, com o número de consultores a disparar 32% em 2025, de 2.500 para cerca de 3.300 profissionais, uma expansão que reflete uma clara aposta no crescimento da força de vendas. “O maior desafio operacional em 2025, e de há alguns anos a esta parte, foi, claramente, a escassez de casas para angariar porque a mediação imobiliária vive de oferta”, refere Rui Torgal.
Essa realidade é visível na queda das angariações de imóveis da primeira rede de franchising imobiliário a estabelecer-se em Portugal há 28 anos, que ao contrário da média do mercado registou uma contração de 5,4%. “Num mercado em que há mais compradores do que casas disponíveis, o principal constrangimento ao crescimento não está na procura, mas sim na dificuldade em colocar mais imóveis no mercado, seja por falta de construção nova, seja por proprietários que adiam decisões de venda ou ainda pela existência de muitos imóveis devolutos no mercado”, explica Rui Torgal.

No extremo oposto figurou a Century 21, que registou o menor crescimento no número de consultores, aumentando o seu “exército” de profissionais em apenas 1,4%, de 5.016 para 5.086 profissionais, após um crescimento de 6% em 2024. “Estamos a preparar-nos para a nova legislação” que irá ao encontro da necessidade de haver um registo dos agentes imobiliários e não apenas das empresas por via de licenças AMI, justifica Ricardo Sousa ao ECO, salientando a aposta na rede em mais formação dos seus colaboradores em virtude de ter mais gente nas suas fileiras.
O crescimento do número de consultores trouxe uma consequência mensurável para o mercado: a eficiência individual contraiu face ao ano anterior. Em 2025, cada consultor das cinco redes intermediou, em média, 5,2 imóveis residenciais, menos 1,6% face a 2024, quando este rácio disparou 15,1%. Destaque para a Era, que registou um decréscimo de 16,8% deste indicador, com cada consultor a intermediar 4 transações no ano passado face aos 4,9 negócios que contabilizou no ano anterior.
A Remax mantém a liderança neste indicador com 6,5 transações por consultor em 2025, mais 2,7% do que em 2024. Já o maior salto registou-se na Century 21, com cada consultor a transacionar em média 5,3 imóveis, mais 6,7% face ao ano anterior. “Não faltam compradores. Faltam casas a preços compatíveis com a capacidade financeira das famílias”, sintetiza Ricardo Sousa.
Crescimento mínimo de angariações e grandes assimetrias
Um dos indicadores que mais preocupa o setor é o das angariações de imóveis. Em 2025, as cinco maiores redes angariaram pouco mais de 155 mil imóveis, um crescimento quase residual de 0,25% face às cerca de 155 mil angariações registadas em 2024.
A dinâmica foi, contudo, muito diferente de rede para rede: enquanto a Zome (+11%), a KW (+6,3%) e a Century 21 (+4,1%) registaram crescimentos, a Era e a Remax viram as suas angariações cair 5,4% e 0,4%, respetivamente.
Para Manuel Alvarez, presidente da Remax Portugal, o problema é estrutural e exige uma resposta igualmente estrutural. “Na essência, o verdadeiro problema está do lado da oferta. A escassez de habitação nova, associada à morosidade nos licenciamentos, custos de construção elevados e escassez de solo disponível, impede o mercado de responder à procura de forma equilibrada”, refere o gestor, notando ainda que “quando a oferta não acompanha a procura, são inevitáveis a subida de preços e a existência de uma procura suspensa no tempo: um mercado contraído, pressionado, que não atinge o seu verdadeiro potencial”.

Carlos Santos, da Zome, aponta o mesmo dilema. “O maior obstáculo em 2025 foi claramente a escassez de produto qualificado. A procura existiu, o financiamento esteve disponível e a confiança manteve-se, mas a oferta não acompanhou”, afirma, sublinhando ainda que “quando o stock é curto, todo o mercado entra em modo de pressão, as decisões tornam-se mais rápidas, os preços sobem e a margem para erro diminui”.
Segundo os dados mais recentes do Confidencial Imobiliário, o preço das casas disparou 23,4% no ano passado, após um incremento de 11% em 2024. Trata-se do maior aumento desde, pelo menos, 1988 (início da série estatística). Nas contas das cinco maiores redes imobiliárias a operar em Portugal, a dinâmica de preços foi mais contida, mas mantendo uma clara tendência de subida face a anos anteriores.
De acordo com dados compilados pelo ECO, o preço médio dos imóveis transacionados pela Remax, Century 21, Era, KW e Zome fixou-se em cerca de 246.500 euros em 2025, um aumento de 12% face à média de 220.110 euros registada em 2024, e após um incremento de 3,7% em 2023.

Para Marco Tairum, da KW Portugal, que das cinco é a que apresenta o preço médio mais elevado (261.359 euros), a solução para equilibrar os preços das casas não passa por medidas pontuais. “O imobiliário precisa de um choque. É necessária visão de longo prazo, olhar para as várias variáveis que trouxeram o país até esta situação e atuar através de um pacto de governação de forma a evitar que a crise social de acesso à habitação se agrave”.
O responsável alerta ainda para um agravamento estrutural do problema construtivo, notando que além da escassez de construção nova, “o país vai agora enfrentar um esforço enorme de reconstrução na sequência dos eventos meteorológicos que afetaram fortemente várias zonas do país. Em paralelo, nunca se formaram tão poucos engenheiros civis como na última década e o custo da mão de obra disparou“, diz Marco Tairum ao ECO.
O risco não é o mercado cair, é tornar-se menos inclusivo
Por detrás dos números recordes do mercado imobiliário em 2025, os líderes do setor partilham uma preocupação comum: o risco de exclusão progressiva das famílias de classe média do mercado habitacional.
“O risco não é uma queda de preços ou uma quebra abrupta do mercado, mas sim uma crescente exclusão, caso continuemos a produzir sobretudo para segmentos com maior poder de compra” refere Ricardo Sousa da Century 21, alertando ainda que “sem um reforço estrutural da oferta dirigida à classe média, o crescimento perde sustentabilidade social. O principal risco não é o mercado cair, é tornar-se cada vez menos inclusivo”.
Rui Torgal, da Era, partilha do mesmo diagnóstico. “O principal risco não é uma correção abrupta de preços, mas sim a exclusão progressiva de segmentos cada vez maiores da população no acesso à habitação. Sem um reforço sério da oferta, pública e privada, o mercado continuará dinâmico, mas estruturalmente desequilibrado”.

Carlos Santos da Zome coloca o dedo na ferida, notando que “o problema não é conjuntural, é estrutural. Portugal acumula anos de défice de construção e de processos de licenciamento demasiado lentos e imprevisíveis”, salientando que “enquanto essa base não for resolvida, os máximos históricos continuarão a surgir, mas à custa de uma acessibilidade cada vez mais frágil. Um mercado saudável não é apenas aquele que cresce, é aquele que é sustentável social e economicamente”.
Do lado da procura, os responsáveis identificam três tendências que estão a redefinir o perfil do comprador:
- Crescente presença de compradores estrangeiros e portugueses regressados,
- Descentralização da procura para cidades médias e zonas periféricas das áreas metropolitanas,
- Entrada de uma nova geração de jovens compradores alavancada por medidas públicas de apoio ao crédito e garantias estatais. “O mercado está mais diverso, mais segmentado e exige hoje uma mediação mais especializada e informada”, nota Rui Torgal.
Para o ano em curso, o consenso entre os cinco responsáveis aponta para um cenário de estabilização, sem grandes acelerações nem correções abruptas. “Perspetivamos para 2026 um mercado em estabilização, com crescimento moderado. Não antecipamos uma aceleração forte, mas também não vemos claros sinais de correções estruturais”, afirma Manuel Alvarez, presidente da Remax Portugal, sublinhando que a aposta da rede passa pela inovação tecnológica como fator diferenciador, com investimento em ferramentas de IA e especialização em segmentos como o imobiliário de luxo.
Ricardo Sousa, da Century 21, vai no mesmo sentido. “Para 2026, antecipamos um cenário de consolidação, não de euforia. Enquanto persistir a escassez estrutural de oferta, não vemos condições para correções abruptas nos preços, mas também não consideramos sustentáveis crescimentos acelerados.”
A KW mantém planos de expansão ambiciosos. “Em 2026, o nosso foco será manter um crescimento significativo em todas as áreas, incluindo a nossa expansão geográfica que ambiciona cobrir todo o território nacional até 2030″, refere Marco Tairum.
Na Zome, a aposta estratégica assenta na tecnologia como alavanca competitiva. “A nossa principal aposta estratégica é transformar tecnologia em vantagem competitiva real. Não se trata apenas de usar inteligência artificial ou automações, trata-se de dar aos nossos consultores capacidade analítica superior, melhor leitura de mercado, simulação financeira mais rigorosa e apoio jurídico e fiscal em tempo real”, explica Carlos Santos, que prevê integrar mais 750 profissionais em Portugal ao longo de 2026 e acelerar a expansão internacional da rede.
Os recordes alcançados em 2025 foram construídos sob um mercado que se tornou, simultaneamente, mais robusto e menos acessível. E para 2026, o cenário que se desenha não é muito diferente.
Os números de 2025 das operações das cinco maiores redes imobiliárias a operar em Portugal contam uma história de sucesso, mas também de um mercado que avança sobre uma fratura oculta.
O crescimento da faturação, o recorde de transações e o exército de quase 25 mil consultores a ganhar dimensão são o reflexo de uma economia e de um setor imobiliário dinâmico e de uma procura que não para de se reinventar. Ao mesmo tempo, o estrangulamento da oferta, agravado por décadas de licenciamentos morosos, falta de construção nova e agora, também, pelos custos acrescidos da reconstrução pós-catástrofes naturais, vai empurrando para fora do mercado um número crescente de famílias portuguesas.
O verdadeiro paradoxo de 2025 não é ter batido recordes, mas que esses recordes foram alcançados num mercado que se tornou, simultaneamente, mais robusto e menos acessível. E para 2026, o cenário que se desenha não é muito diferente: crescimento moderado dos preços, desaceleração face aos dois dígitos dos últimos anos, e um setor a apostar cada vez mais na tecnologia e na especialização para ganhar vantagem num mercado onde a escassez de produto é o principal constrangimento.
Segundo os líderes das cinco redes imobiliárias, a grande incógnita continua a ser política, com todos os gestores a salientarem que só com medidas estruturais e não pontuais sobre a oferta será possível evitar que o crescimento do imobiliário português se converta numa crise social de proporções cada vez mais difíceis de ignorar.
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Faturação das 5 maiores imobiliárias aumenta 24,4% à boleia de um exército de quase 25 mil vendedores de casas
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