França vai aumentar ogivas. Quem é quem na corrida nuclear?

Emmanuel Macron anunciou uma nova doutrina para o nuclear francês, estendendo a proteção do arsenal a outros países. Só a Rússia tem mais de quatro mil ogivas, segundo estimativas.

Num momento em que na Europa se discute a soberania de defesa do continente, Emmanuel Macron atirou para cima da mesa uma nova arma: o arsenal nuclear francês. Ao todo são cerca de 300 ogivas, número que o presidente francês diz querer aumentar e, ao mesmo tempo, envolver na esfera de dissuasão países europeus. Uma ferramenta que enfrenta no ‘quem é quem do nuclear’ dois pesos pesados: EUA e Rússia. Em conjunto, estes dois países detêm mais de 80% do arsenal nuclear. Mundialmente, nove países têm capacidades nucleares bélicas.

Tendo como pano de fundo o submarino nuclear balístico francês Le Téméraire, Macron anunciou a nova doutrina da França no que toca ao nuclear: o país vai aumentar para um número não divulgado o seu arsenal; irá deixar de divulgar o número de ogivas de modo a manter uma estratégia de ambiguidade e, mais relevante, irá permitir armas com essa capacidade em outros territórios e aumentar a colaboração nesta estratégia de dissuasão com outros países europeus.

A Alemanha — com quem irá criar um grupo para alinhar estratégia — irá juntar-se à França nos seus exercícios nucleares e inspeções a sites. A própria confirmação veio do chanceler alemão, Friedrich Merz, na rede social X. “Tencionamos dar passos concretos antes do final do ano, incluindo a participação alemã nos exercícios nucleares franceses”, disse.

 

Mas Macron anunciou ainda que manteve conversações com outros Estados-membros como Polónia, Países Baixos, Bélgica, Grécia e Suécia no sentido de uma cooperação mais profunda neste campo.

A Noruega também está disposta a iniciar negociações com Paris nesta matéria para garantir a segurança da região, admitiu Espen Barth Eide, ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês, no Parlamento, mas com condições. “Estamos prontos para discutir isso no âmbito de um acordo de parceria com a França. Mas a nossa política nuclear permanece firme. Não teremos armas nucleares em solo norueguês em tempos de paz”, disse, citado pelo Politico (artigo em inglês/acesso não reservado).

Já o sim da Polónia foi categórico. Na rede social X Donald Tusk não só confirmou as negociações com a França e com um grupo de “aliados europeus próximos”, para a participação no programa de “dissuasão”, como explicou porquê: “Estamos a armar-nos juntos com os nossos amigos para que os nossos inimigos não se atrevam a atacar-nos”, disse o presidente polaco na rede social.

 

A escolha da base militar de Île Longue, que abriga os submarinos nucleares franceses, para anunciar a mudança de posição de França em relação ao tema da defesa via dissuasão nuclear não terá sido por acaso. E marca uma mudança, na forma como o país olha para o uso do nuclear como instrumento de dissuasão. Desde 1992 que não havia um aumento do arsenal, de cerca de 300 ogivas, eventualmente ‘demasiado pequeno’ para uma política de dissuasão efetiva. Afinal, na Europa, tirando a França e o Reino Unido, mais nenhum país tem essas capacidades. E juntos nem chegam perto da capacidade militar da Rússia.

A pressão para uma autonomia de defesa da Europa tem vindo a aumentar desde a invasão da Rússia à Ucrânia e ganhou caráter de maior urgência com a chegada de Trump à Casa Branca. A mensagem do outro lado do Atlântico do aliado NATO tem sido clara: a Europa tem de aumentar o seu contributo financeiro para os seus esforços de defesa, e em junho do ano passado, 32 países acordaram gastos para defesa de 5% do PIB até 2035.

Desde o pós-guerra, a NATO tem sido o ‘chapéu de defesa’ da Europa, tendo os EUA como forte aliado. Mas o novo mandato de Trump na Casa Branca tem dado fortes indicações de que as relações estão em plena mudança. O braço de ferro em torno da Gronelândia fez temer pela saúde da Aliança — a Dinamarca chegou mesmo a afirmar que uma ação militar americana na ilha ártica significaria o fim da Aliança — e o discurso de uma NATO mais europeia, entenda-se, mais independente do ‘velho aliado’, ganhou tração.

O que pensam os europeus sobre a dissuasão nuclear?

É neste contexto que surge a nova estratégia de dissuasão francesa. “Estamos a viver um período de turbulência geopolítica repleto de riscos”, justificou Emmanuel Macron, afirmando que “este período justifica um fortalecimento” do modelo francês de dissuasão.

Mas a posição dos europeus em torno do tema nuclear também tem vindo a alterar-se. Um inquérito de opinião levado a cabo pelo think tank European Council on Foreign Affairs (ECFR), em maio e novembro do ano passado, em vários países europeus, incluindo Portugal, revelam dados algo surpreendentes.

Quando questionados sobre o seu apoio ao desenvolvimento de uma alternativa europeia de dissuasão nuclear muitos mostravam-se mais convictos do que opositores a essa política, aponta os dados do ECFR (artigo em inglês/acesso não reservado).É o caso de Portugal, por exemplo, onde 24% dos inquiridos apoiam fortemente uma estratégia europeia alternativa; 36% tende a apoiar; 21% não sabe; 13% tende a opor-se e 6% opõe-se fortemente.

Os portugueses também estão entre os europeus que tendem a apoiar o aumento de despesas de defesa (41%) com 16% a apoiar fortemente este tipo de medidas; já sobre o serviço militar obrigatório a posição nacional não é tão conclusiva: com 26% a tender a apoiar esse mecanismo e 23% a opôr~se fortemente.

O inquérito também questionou os europeus sobre o que pensam sobre o reforço do arsenal nuclear. Aqui o inquérito aponta apenas as opiniões dos inquiridos do Reino Unido e França, as duas únicas potências nucleares da região — com a exceção da Rússia.

Mais de um terço (31%) dos franceses inquiridos tendem a apoiar — no Reino Unido apenas 25% —, com 15% a apoiar fortemente (9% no Reino Unido). Mas 19% dos franceses tende a opor-se e 13% é fortemente contra. No Reino Unido, 25% tendem a opor-se e 19% é fortemente contra esta possibilidade.

A posição de Macron é de reforço. “Ordenei um aumento no número de ogivas nucleares no nosso arsenal”, disse. “Não divulgaremos mais os números do nosso arsenal nuclear, ao contrário do que pode ter acontecido no passado”, frisou ainda. “Os novos tempos exigem um endurecimento da doutrina nuclear francesa”, alertando para uma “possível eclosão de conflitos nas fronteiras” francesas. O país entra agora numa nova fase, a “dissuasão avançada”, que é uma “abordagem progressiva”, acrescentou.

epa12789719 Members of the French Navy are aboard a submarine awaiting the arrival of French President Emmanuel Macron at the nuclear submarine navy base of Ile Longue in Crozon, France, 02 March 2026. EPA/YOAN VALAT / POOL

A França deve “reforçar sua dissuasão nuclear diante da combinação de ameaças”. “E devemos considerar a nossa estratégia de dissuasão no interior do continente europeu, com pleno respeito à nossa soberania. Isso envolve a implementação gradual do que eu chamaria de dissuasão avançada”, continuou.

Mas diz não querer iniciar uma nova corrida nuclear. “Não se trata de entrar em qualquer tipo de corrida de armamento. Essa nunca foi a nossa doutrina”, disse. “A cadeia de comando é perfeitamente clara e a decisão final” de lançar um ataque nuclear “cabe exclusivamente ao Presidente da República”, reafirmou Emmanuel Macron, que deixou um aviso claro: “O nosso país tem esta arma fora do comum que é a base da nossa defesa. A decisão última de utilizá-la é do Presidente”, disse. “Não hesitarei em tomar a decisão que seja indispensável aos nossos interesses vitais”, assegurou o Chefe de Estado francês.

Quem é quem no nuclear

O número exato de armas nucleares em posse de cada país é um segredo rigorosamente guardado, com a maioria dos países com capacidades nucleares a não revelar dados do seu arsenal. É o caso dos EUA. Entre 2010 e 2018, divulgaram qual era o arsenal em stock, prática interrompida em 2019 no primeiro mandato de Donald Trump; em 2020, Biden voltou a revelar números, mas mais tarde recusou-se a revelar dados sobre o arsenal do país referentes a 2021, 2022 ou 2023.

O Reino Unido — com França a única força nuclear da Europa Ocidental — em 2021 deixou de fazer essa divulgação; em em 2023, tanto os EUA como a Rússia optaram por não revelar o estado do seu arsenal, conforme o exigido pelo Tratado Novo START (que caducou a 5 de fevereiro de 2026).

As estimativas de arsenal são assim estimativas. Calcula-se que o arsenal nuclear tem vindo a ser reduzido desde a Guerra Fria, mas o número de ogivas a nível global permanece elevado: nove países têm cerca de 12,321 ogivas no seu arsenal no início de 2026, aponta a Federação dos Cientistas Americanos (artigo em inglês/acesso não reservado).

No seu arsenal, França conta com cerca de 300 ogivas. Mas longe dos pesos pesados que são os EUA e a Rússia nesse campo. Globalmente, estima-se que estes dois países detenham 86% do inventário total de ogivas a nível mundial e 83% das ogivas disponíveis para uso militar.

Globalmente, o arsenal total de armas nucleares está a diminuir, mas o ritmo dessa redução “está mais lento em comparação com os últimos 30 anos. Além disso, essas reduções só estão a ocorrer porque os Estados Unidos e a Rússia ainda estão a desmantelar ogivas anteriormente desativadas”, aponta a Federação dos Cientistas Americanos (FAS).

Em contraste com o stock total de armas nucleares, o número de ogivas nos arsenais militares globais — que engloba as ogivas atribuídas às forças operacionais – está novamente a aumentar. Os EUA ainda estão a reduzir o seu arsenal nuclear lentamente. França e Israel têm stocks relativamente estáveis. “Mas acredita-se que China, Índia, Coreia do Norte, Paquistão e Reino Unido, bem como possivelmente a Rússia, estejam a aumentar os seus arsenais“, aponta a FAS.

No quem é quem do nuclear, a Rússia lidera com mais de 4 mil ogivas; segue-se os EUA com 3.700. Estima-se que a China tenha 600; França 290, Reino Unido 225; Índia 180 e Paquistão 170. Já Israel terá 90.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

França vai aumentar ogivas. Quem é quem na corrida nuclear?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião