Fundador da Sports Direct e antigo dono do Newcastle. Quem é Mike Ashley, o milionário que só quer negócios de luxo

Lina Santos, Leonor Gonçalves,

De uma loja numa pequena cidade britânica a um grupo com ambições no luxo. Só este ano, o Frasers Group adquiriu 4% da Burberry, os armazéns Harvey Nichols e passou a deter 48% da Boss.

Sem rodeios nem meias palavras, o grupo britânico Frasers disse ao que vem no momento em que anunciou a aquisição do armazém Harvey Nichols: “Acrescenta à ousada Estratégia de Elevação, reforçando o seu posicionamento de luxo ao lado da Flannels, The Webster e Hulcan’s Mile”. Menos de uma semana depois, a empresa falhava a operação para ter o controlo maioritário da marca alemã Hugo Boss, mas aumentava, ainda assim, a sua participação na empresa dos 26% para os 48%.

O grupo ofereceu 38 euros por ação da Hugo Boss, na convicção de que os acionistas iam vender, tendo em conta que a companhia alemã não atravessa o seu melhor momento, mas ficou às portas do controlo. No Harvey Nichols também fez uma oferta por uma empresa em apuros. O negócio inclui seis grandes armazéns no Reino Unido, o negócio online, inventários, acordos de franchising e mais de mil trabalhadores. No início do ano, a empresa aumentou para 4% a sua participação na britânica Burberry.

Nos bastidores, e na origem do grupo, está Michael Ashley, um dos homens mais ricos do Reino Unido, que falhou uma carreira como jogador de squash e fundou a primeira loja de artigos de desporto e esqui em 1982, aos 18 anos, em Maidenhead, Berkshire. Era o início do que viria a ser a Sports Direct, uma cadeia de artigos de desporto que está hoje em mais de 20 países, incluindo Portugal (onde tem 19 lojas).

Para o arranque da empresa valeu-lhe um empréstimo familiar de 10 mil libras (quase 12 mil euros) e o trabalho dos progenitores: o pai fazia as contas, a mãe atendia os clientes ao balcão. No final dos anos 90, menos de 20 anos depois, tinha uma centena de lojas e começou a adquirir marcas. Pelo meio, sobreviveu a acusações de más condições laborais na cadeia de desporto e ao Newcastle (e aos seus adeptos). Fala muito pouco e gosta de viver discretamente.

Michael James Wallace Ashley, nascido a 9 de setembro de 1964, é um empresário com faro para encontrar negócios com problemas que se dedica a salvar. Foi assim que se tornou o 730.º homem mais rico do mundo, segundo a Forbes. Mike, como é conhecido, fez a própria fortuna a partir da expansão das lojas Sports Direct, ancorada na venda de produtos de marcas conhecidas aos melhores preços e, mais tarde, comprando essas mesmas marcas.

A Donnay, comprada em 1996, foi o início dessa nova estratégia comercial. Depois desta vieram a Dunlop Slazenger, a Lonsdale, a Karrimor, e, entre outras, a Everlast, que hoje é também o nome de uma cadeia de ginásios do grupo Frasers. Esta marca, muito associada ao boxe, foi adquirida em 2007, o mesmo ano em que a empresa foi para a bolsa. Segundo a Forbes, Ashley ganhou 1,8 mil milhões de dólares. É também neste ano que compra o clube de futebol Newcastle United. Em 2019, a companhia deixou de ser Sports Direct International e passou a chamar-se Frasers Group.

Sports Direct, o início do grupo Frasers

Pai de três filhos (Anna, Oliver e Matilda) e divorciado desde 2003, vive numa propriedade de muitos hectares em Hertfordshire, na imprensa britânica, Ashley costuma ser descrito como um homem que raramente dá entrevistas, foge dos holofotes e prefere “um saco de papel a uma pasta de executivo”, como escreveu o The Telegraph. A informalidade é um traço que nem sempre é entendido por todos da mesma forma.

Em 2017, um antigo consultor da Sports Direct, Jeffrey Blue, processou Mike Ashley, alegando que lhe tinha prometido 15 milhões de libras se conseguisse elevar a cotação da empresa de cerca de quatro para oito libras, durante uma conversa num pub, em 2013. Segundo o queixoso, nesse encontro, relatado pelo jornal The Guardian, “as bebidas circularam abundantemente”. O tribunal conclui que a promessa podia ter sido feita mas que ninguém a levaria a sério.

Escondido “nos arbustos”

Este ano, numa rara entrevista o Financial Times, surpreendeu ao confirmar que esteve por trás da queda de Peter Cowgill, antigo presidente executivo da JD Sports, que foi filmado em vídeo, em 2021, num carro a conversar com Barry Brown, responsável da Footasylum, enquanto a primeira tentava comprar a segunda. Essas imagens chegariam ao regulador do setor (Autoridade da Concorrência e dos Mercados britânica) e, após investigação, resultou na aplicação de uma pesada multa de 5 milhões de libras à JD Sports (e na saída do gestor da JD Sports). “Ele não devia estar no parque de estacionamento e talvez eu não devesse estar nos arbustos”, disse Ashley.

Durante 14 anos, Mike Ashley foi dono do Newcastle United, e também deixou uma marca polémica. Quando comprou o clube sentava-se entre os adeptos com a camisola do clube. Não correu bem. Além dos resultados desportivos aquém do esperado pelos adeptos (a equipa desceu duas vezes de divisão), foi mal recebida a ideia de rebatizar o estádio da equipa como Sports Direct Arena. Em 2021, vendeu o negócio a um consórcio apoiado pelo fundo soberano da Arábia Saudita por cerca de 356 milhões de euros.

Nenhum destes casos, no entanto, se aproximou da polémica mais grave que afetou Michael Ashley e a Sports Direct. Uma comissão parlamentar britânica descreveu práticas laborais que considerou comparáveis às da época vitoriana. “As provas que ouvimos apontam para uma empresa cujas práticas laborais estão mais próximas das de um asilo de pobres da era vitoriana do que das de um retalhista moderno e reputado presente nas principais ruas comerciais. O facto de isto acontecer no Reino Unido em 2016 constitui uma grave acusação à gestão da Sports Direct, e Mike Ashley, enquanto rosto da empresa, tem de ser responsabilizado por estas falhas”, acusou Iain Wright, então presidente da Comissão de Negócios, Inovação e Competências da Câmara dos Comuns, na apresentação do relatório parlamentar Employment Practices at Sports Direct.

As instalações do Frasers Group no Reino Unido

Um documento apresentado pelo sindicato Unite à comissão parlamentar denunciava a prática de uma política batizada como “seis infrações e estás despedido”, que permitia penalizar trabalhadores por demorarem demasiado na casa de banho, conversarem ou faltarem por doença, bem como contratos de zero horas e uma cultura de humilhação através do sistema de som. Também afirmava que entre janeiro de 2013 e abril de 2016, foram chamados 110 ambulâncias ao armazém da empresa. Cinco grávidas fizeram chamadas, uma delas deu à luz numa casa de banho.

O sindicato acrescenta ainda que registaram 115 incidentes entre 1 de janeiro de 2010 e 19 de abril de 2016. “Estes incluíram a amputação de um dedo até à primeira articulação, uma fratura cervical, o esmagamento de uma mão e numerosos ferimentos nas mãos, pulsos, costas e cabeça. Doze destes incidentes foram classificados como lesões ‘graves’ e 79 das lesões resultaram em ausências ao trabalho superiores a sete dias”.

Michael Ashley disse desconhecer muitas das práticas descritas pela comissão parlamentar, mas assumiu que, em última análise, era o responsável.

Michael Murray, CEO do Frasers Group e genro do fundador, Michael Ashley

O discreto Michael Ashley tornou-se ainda mais discreto em 2022, quando passou a presidência executiva do grupo ao genro, Michael Murray, que tem reclamado para si a paternidade das decisões estratégicas mais recentes do grupo, com os seus quase 1.500 pontos de venda e 33 mil trabalhadores, distribuídos por marcas como House of Fraser, Flannels e participações na Mulberry e, desde o início do ano, de 4% na Burberry.

O milionário diz que se afastou, mas está sempre disponível para aconselhamento e, em qualquer caso, como acionista maioritário, tem sempre a última palavra.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.