Habitação, mobilidade e educação, o ‘Lado B’ de Sines

Na habitação, estradas e ferrovia, educação e saúde, energia e água, Sines pede soluções. Há trabalhos em curso, mas em velocidade aquém das necessidades, alertam autarcas e agentes económicos.

Habitação, mobilidade e educação são a tríade de preocupações mais ouvidas no triângulo Sines-Santo André-Santiago do Cacém. Mas também há apreensão com a energia e a água necessárias para fábricas, a indústria do hidrogénio e o arrefecimento de centros de dados. O ECO/Local Online compila as respostas públicas e das empresas que chegam a Sines, num horizonte até final da década.

Ainda por conhecer está o estudo para avaliação do impacto da chegada de até 15 mil pessoas nos próximos anos, e que, segundo conta o autarca de Santiago do Cacém, está a ser desenvolvido pelo Governo.

Vejamos então o que está já em execução em cinco áreas em que urge o investimento: Educação, Saúde, Água e Energia, Habitação e Mobilidade e Transportes.

  • Educação

“Temos os nossos equipamentos escolares, na sua grande maioria, no limite da sua lotação. Naturalmente que tem de haver aqui investimento”, diz o presidente da Câmara de Santiago do Cacém. Álvaro Beijinha salienta a duplicação do número de alunos na única escola secundária do município – inaugurada há cerca de 35 anos, sendo que antes disso os alunos tinham de viajar até Vila Nova de Santo André para frequentarem o secundário entre o 10.º e o 12.º ano. “A escola pública está completamente cheia”, incluindo “filhos de pessoas que vieram para aqui trabalhar. Temos muitas nacionalidades na escola. A escola secundária nos últimos oito, nove anos, praticamente duplicou o número de alunos, tinha quase 400 e agora tem setecentos e tal”.

Aludindo ao orçamento municipal de 41 milhões de euros, Beijinha explica ter apenas 12 milhões para investimento. “Se o Governo não nos ajudar, temos aqui um problema gravíssimo”, alerta.

Escola Secundária Poeta Al Berto em SinesHugo Amaral/ECO

Já o presidente da junta de Santo André, David Gorgulho, considera “injusto atribuir a responsabilidade direta às câmaras municipais e juntas de freguesias” na resolução dos problemas de educação e saúde.

No ensino, Sines e Santiago do Cacém irão, em breve, acolher também o nível superior, com a chegada de um polo do Instituto Politécnico de Setúbal, que ficará, precisamente, no terreno ao lado da atual secundária de Sines. A câmara cedeu o terreno, mas, alerta Álvaro Beijinha, não lhe poderá ser assacada a responsabilidade da construção do edifício do Politécnico. O mesmo espaço irá acolher o ensino profissional, com a mudança da Escola Tecnológica do Litoral Alentejano (ETLA), há décadas localizada nos terrenos onde a Repsol tem a sua fábrica de polímeros, atualmente em expansão para o projeto Alba.

  • Saúde

Hospital do Litoral AlentejanoHugo Amaral/ECO

A Unidade Local de Saúde (ULS) agrupa centros de saúde e hospitais de Alcácer do Sal, Sines, Odemira, Grândola e Santiago do Cacém. Aqui, o único hospital de todo este território, o Hospital do Litoral Alentejano, substituiu a antiga infraestrutura há duas décadas, mas perdeu valências, designadamente maternidade, realça Bruno Pereira, autarca de Santiago do Cacém, nascido precisamente nesse velho hospital. O equipamento inaugurado em 2004 “está preparado para uma duplicação ou uma triplicação de espaço. Acredito que vai ter ampliações e mais valências”, antevê o presidente da Câmara.

Com a chegada de milhares de pessoas aos dois concelhos – Bruno Pereira admite que a migração possa chegar a 15 mil, cerca de 20% mais que toda a atual população do município de Sines -, a saúde é um dos setores sob pressão.

  • Água e energia

Se fossem um país, os centros de dados que alimentam a Inteligência Artificial (IA) estariam na 11.ª posição a nível mundial em termos de consumo. Quem o aponta é a ONU, num estudo de há dias. “As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, afirmou António Guterres esta semana, a propósito dos centros de dados.

Em Sines está “um dos maiores e mais sustentáveis ecossistemas digitais da Europa”, descreve a Start Campus, a propósito do seu centro de dados preparado para a IA. A empresa indica que “o campus utiliza energia 100% renovável” e promete indicadores exemplares no uso de recursos hídricos “tirando partido do arrefecimento com água do mar”.

Antiga Central Termoelétrica de Sines, operada pela EDP, em fase de desmantelamento Hugo Amaral/ECO

O plano da Start Campus passa por trazer água da zona da praia de São Torpes através de canais de duas vias (a água será devolvida ao mar, até três graus mais quente) que durante cerca de quatro décadas serviram a central termoelétrica da EDP, entretanto desmantelada, explica o diretor-geral da empresa, Luís Rodrigues, ao ECO/Local Online:

"No momento em que tivermos água do mar, não vamos pôr nenhuma pressão em termos de consumo de água na comunidade. Não existe consumo, não existe evaporação, sai é um bocadinho mais quente. Quando o projeto estiver todo construído será equivalente à central termoelétrica.”

Nesta fase com apenas um edifício, a empresa já está a consumir água do mar, sem utilização de outros recursos hídricos, para lá de alguma água industrial para os dry coolers – dispositivos de água recirculável para arrefecimento, à imagem de um radiador de automóvel. Os sistemas com água industrial servirão depois como “redundantes, mas não primários”, conclui Luís Rodrigues.

Um plano que poderá estar em risco, devido ao litígio entre a EDP e o Governo pela propriedade dos canais que levam e trazem a água do canal localizado há quatro décadas junto à Praia de São Torpes.

Além do uso da infraestrutura construída pela EDP nos anos 1980, o acordo da Start Campus com a elétrica passa ainda pelo fornecimento de eletricidade proveniente de renováveis.

Para que o fornecimento acompanhe o crescimento das necessidades, a Start Campus e os seus clientes farão uma previsão de consumos “para garantir” que “à medida que vamos consumindo mais, a EDP desenvolva projetos novos”, diz Luís Rodrigues.

Start Campus em Sines Hugo Amaral/ECO
  • Mobilidade e transportes

O atraso de décadas na construção da autoestrada é uma lacuna penalizadora. A opinião é comum aos presidentes das autarquias de Sines e Santiago do Cacém, ao presidente da Administração dos Portos de Sines e do Algarve, ao presidente da Junta de Freguesia de Santo André, e ao presidente da Associação Empresarial de Sines.

Ao ECO/Local Online, o Ministério das Infraestruturas e Habitação esclarece que até final de agosto estarão concluídos os trabalhos no atual troço em obras na A26, permitindo somar os primeiros 14 quilómetros de autoestrada novos desde que, há mais de 40 anos, se construíram dez quilómetros de autoestrada entre Santiago do Cacém e Sines (e outro tanto dali a Vila Nova de Santo André, a cidade criada de raiz nos anos 1970 para alojar os milhares de trabalhadores do complexo industrial e portuário).

Após a conclusão do troço entre os nós de Relvas Verdes e Roncão, espera-se o arranque do que falta para que a A26 chegue à A2, no nó desta em Grândola Norte. Esta ambicionada conclusão ocorrerá em 2028, confia o presidente da Câmara de Santiago do Cacém.

Obras de requalificação do IP8/IC33 para a futura A26 que vai ligar Sines à A2. O Governo espera ter o primeiro troço ao serviço no final de agosto Hugo Amaral/ECO

Esse lanço final “já foi adjudicado, com previsão de início da empreitada no último trimestre de 2026 e com o prazo de execução de 750 dias, dependendo da obtenção do Visto do Tribunal de Contas e dos respetivos licenciamentos ambientais”, esclarece o Ministério de Miguel Pinto Luz.

Mas se esta ligação ao nó da A2 em Grândola Norte está em execução, fora dos planos está o projeto consignado por José Sócrates em 2007, de Santiago do Cacém para leste, para o nó da A2 em Grândola Sul. Dali, a A26 continuará para Beja, para já com uns escassos quilómetros abertos.

A ligação da Sines e Santiago do Cacém à rede nacional de autoestradas faz-se com a extensão da A26 até ao nó da A2 em Grândola Sul. O projeto para uma ligação para leste em direção a Grândola Sul saiu dos planos. De Grândola Sul, nó da A2, a A26 já segue até Santa Margarida do Sado. Daqui a Beja, "cujo projeto de execução está em fase de contratação", explica o ministério de Miguel Pinto Luz

À rodovia junta-se, no atraso do Estado central, a ferrovia. “Temos que ir ao Entroncamento, para depois descer, não faz sentido”, diz Pedro do Ó Ramos, presidente da APS, referindo-se à linha em uso desde há décadas. Quando a linha entre Évora e Espanha estiver aberta, o comboio de 400 metros poderá, finalmente, passar a 750 metros, colocando mais carruagens por comboio. “Podemos chegar a Madrid três horas e meia mais rápido” e “o frete fica muito mais barato, porque é pago ao quilómetro. É uma competitividade totalmente diferente”, diz o presidente do porto de Sines.

“Encontram-se em curso os testes e ensaios prévios à entrada em exploração da nova ligação ferroviária, necessários ao processo faseado de certificação da infraestrutura, prevendo-se a entrada ao serviço no início de 2027”, esclarece o gabinete de Pinto Luz.

Linha férrea que liga o Porto de Sines à rede ferroviária inaugurada em setembro de 1936. Em 1990, a CP abandonou o serviço de passageiros, que continua a não estar nas previsões do Governo. Contudo, a nova linha em estudo pela IP, que ligará Sines a Grândola (ao invés da centenária viagem para Sul até à estação de Ermidas Sado), já tem prevista a utilização para mercadorias e passageirosHugo Amaral/ECO

No que concerne ao serviço ferroviário de passageiros, que, como realça Álvaro Beijinha, foi eliminado no início dos anos 1990 – e que hoje poderia servir de alternativa para os que aqui trabalham e não conseguem encontrar habitação condigna –, o Governo, em resposta ao ECO/Local Online opta por um ‘nim’.

Por um lado, o Ministério das Infraestruturas e Habitação assegura que “não se prevê a reativação do serviço de passageiros na atual linha de Sines”. Contudo, realça, há uma nova linha até Grândola em estudo pela IP e, nessa, “o estudo que está em curso prevê a utilização de tráfego misto”.

Entre os que realçam à reportagem do ECO/Local Online a importância da mobilidade está o diretor da Start Campus:

"[O atraso na A26 e linha férrea] não impede o projeto [Start Campus], porque já construímos o primeiro edifício e estamos a construir o segundo, mas, como é óbvio, se tivéssemos a autoestrada toda feita e uma linha férrea a apoiar, atrasava mais a pressão que trazer muitas pessoas pode trazer para uma comunidade.”

Quanto à ligação entre Sines e o aeroporto de Beja tanto por autoestrada quanto por comboio, uma pretensão nestes dois concelhos, será necessário esperar pela continuação de estudos. Por um lado, na A26, para viajar entre Santa Margarida do Sado – onde atualmente termina o troço da A26 iniciado no nó da A2 em Grândola Sul – e Beja, o projeto de execução “está em fase de contratação”, esclarece o Governo. Em paralelo, o IP8, atualmente a única solução minimamente expedita para chegar à capital de distrito, tem em curso obras financiadas pelo PRR, incluindo a construção de variantes às travessias de Figueira dos Cavaleiros e Beringel.

Menos estruturante, mas com uma perspetiva de aumento da qualidade de vida, está em estudo a transformação do troço final da A26 em Santo André numa via urbana, corrigindo o corte feito pela autoestrada na cidade. Ao que o ECO/Local Online apurou, a reformulação já está a ser discutida.

Santo André, dividida pela A26, poderá ter no seu extremo Norte uma nova via urbana criada a partir do troço final desta autoestrada construída nos anos 1970 Hugo Amaral/ECO
  • Habitação

Cinco décadas após a construção de raiz da cidade de Vila Nova de Santo André, há uma nova “aldeia” a caminho do grande projeto de Sines. A Start Campus vai erguer do zero uma “base de vida”, uma mini-aldeia com casas modulares “de boa qualidade” um quarto por pessoa e, a servir o local, “restaurantes, mercearias e pavilhões desportivos”, descreve o diretor-geral da empresa que se espera venha a investir até 10 mil milhões de euros em Sines até final da década.

A localização será, expectavelmente, a sul, até um máximo de oito quilómetros do centro de dados vizinho da central termoelétrica da EDP. A decisão será tomada ainda este ano e, tal como o próprio centro de dados, haverá uma construção faseada, num mínimo em torno dos 200 quartos até um máximo que se prevê chegue aos 3.000, sem prejuízo de serem mais, assegura Luís Rodrigues.

Primeira fase do Start Campus, na zona sul de Sines. Com a segunda fase já em construção, os responsáveis da empresa vão iniciar o projeto para uma "base de vida" para os seus trabalhadores

Atualmente, das cerca de 70 a 100 pessoas envolvidas na operação – “dependendo das atividades de manutenção que temos”, pormenoriza o diretor-geral -, 95% são locais, pelo que a habitação ainda não surgiu como problema, assegura.

Estamos a fazer Sines 02, o próximo edifício. Prevê-se que poderá chegar até 1.500 pessoas. É para isso que estamos a dimensionar. Estamos a assumir que vamos continuar com os edifícios e estamos a balizar entre 1.000 a 2.000″ quartos para trabalhadores temporários, explica o diretor de operações da Start Campus.

“Depois, há a parte permanente, de operações, de manutenção e dos clientes. Dependendo de quem são os clientes e do tipo de operação, os trabalhos permanentes, diretos e indiretos, pode oscilar, para um campus desta dimensão, entre 800 a 1200″. Este intervalo superior implica um aumento da população de Sines em 10%, destaca.

Habitação em construção em SinesHugo Amaral/ECO

A Start Campus está a percorrer ainda outra via, trabalhando com fundos de investimento para assegurar o arrendamento em novos edifícios a construir, desvenda o responsável da empresa:

"Garantimos rendas para X quartos para Y tempo, o que lhes permite tirar o risco de arrancarem com um projeto e começarem a construir. Já começámos esse trabalho há dois anos, estamos perto de chegar a acordo em dois projetos, estamos na fase final de acordar termos.”

Para formulação do valor da renda a pagar ao investidor, a Start Campus está a partir de “back engineering”, explica o gestor: “Queremos pagar isto, o que é preciso fazer para podermos pagar isto? Estamos a trabalhar com eles nessa direção”.

Motivados por estas conversas, “já arrancaram quatro projetos imobiliários [e] dois deles já estão a acabar, porque também falaram connosco e começaram a ver o mercado. As rendas estão a 2 mil euros, é quase Lisboa, porque não há oferta. Quer dizer que quem construir vai conseguir arrendar”.

Uma das curiosidades da “base de vida” é a sua posição a sul. Isto, considerando que a opção por Vila Nova de Santo André, há cinco décadas, fez-se para precaver a chegada da poluição à cidade nova, colocando-a a Norte, de onde, na maioria dos dias, provêm os ventos – a “nortada”.

Santo AndréHugo Amaral/ECO

Cidade do concelho de Santiago do Cacém, Vila Nova de Santo André é uma criação do final do Estado Novo, quando Marcello Caetano deu ordens para se estruturar em torno de Sines um polo portuário e industrial com infraestruturas adequadas aos milhares de trabalhadores que se esperavam. A cidade nova foi então desenhada de raiz por urbanistas e arquitetos.

Numa primeira fase, estavam previstos 30 mil habitantes, com potencial de crescimento de até 100 mil. Atualmente, ronda as 9.000 pessoas, diz ao ECO/Local Online o presidente da Junta de Freguesia de Santo André, David Gorgulho.

É para Santo André que se prevê o grosso da construção nova para satisfazer a procura de pelo menos 7.000 novos trabalhadores de Sines, a que se juntarão, em alguns casos, famílias.

Precisamente em Santo André, já em território do concelho de Santiago do Cacém, a autarquia identificou terrenos públicos para 3.000 fogos. Na sede de concelho, os terrenos identificados permitem um máximo de 500 fogos, estima o presidente da Câmara.

Em perspetiva, está, ainda, um complexo com serviços e alojamento para 700 funcionários da Calb (o autarca admite que o contacto inicial dos chineses não esclarece se se trata de camas ou quartos) e 70 moradias, expectavelmente para lugares de liderança. O pedido de informação já chegou à Câmara de Santiago do Cacém, mas não é líquido que o projeto tenha luz verde das autoridades. Para já, tem apenas terreno identificado.

Terrenos para futura construção de habitação para 70 moradias destinadas a funcionários da Calb, a fabricante de baterias que se irá instalar Sines Hugo Amaral/ECO

Ainda no que toca à habitação, a autarquia de Santiago tem sido ponto de chegada de pedidos de informação e reuniões por parte de investidores.

Bruno Pereira, presidente da Câmara, aponta construtoras espanholas e “multinacionais de construção portuguesas”. Nos planos do município está a abertura de hastas públicas para os terrenos públicos. “Quando vendermos as casas, a parte que é para ser vendida a custos controlados, não é para vender a empresas, é para particulares“, assegura o autarca, que já tem em mente o modelo de parceria que pretende empreender com privados.

No modelo em perspetiva, um lote para apartamentos ficaria com um terço para o promotor vender a custos controlados – “aos preços de custo de construção hoje, que se cifram entre os 120 mil e os 150 mil euros”, destaca o autarca – , um terço para entregar à autarquia e o último terço para venda a preços livres pelo próprio investidor.

Bruno Pereira, presidente da Câmara Municipal de Santiago do CacémHugo Amaral/ECO

Bruno Pereira deixa uma nota sobre o perfil procurado pela autarquia entre as construtoras:

"Queremos que haja grandes players de mercado que venham, por isso estamos a agrupar lotes para também os chamar, mais do que os intermédios ou pequenos, sem menosprezar a existência de lotes mais pequenos, até 100 fogos, porque queremos que toda a gente participe. Há quase como que uma fila para a Câmara de Santiago, de interessados de construtores nacionais grandes, e multinacionais, para ir construir no concelho de Santiago.”

A solução na habitação passará também pela Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS).

Pedro do Ó Ramos, presidente da APS, alude, em entrevista ao ECO/Local Online, à dificuldade habitacional expressa por responsáveis de organismos públicos como a Autoridade Tributária e a unidade costeira da GNR. “Todos percebemos que é muito difícil captar talento precisamente pelos custos de contexto, nomeadamente o custo da habitação“.

À esquerda, terrenos para futura construção de habitação para os funcionários da Calb. À direita, moradias recentes. Em perspetiva, está uma “mini Chinatown” para 700 pessoas.Hugo Amaral/ECO

Para que o próprio porto contribua para a resolução do problema, a APS reservou o terreno onde iniciou atividade há cerca de cinco décadas, e onde vemos hoje pavilhões pré-fabricados desocupados, e preparou um projeto para dezenas de casas novas a construir pela própria APS. O presidente da APS explica ao ECO/Local Online o processo de decisão:

"Percebi que esse terreno tinha uma utilização apenas para comércio e serviços. Falou-se na possibilidade de transferir o posto médico para lá – o nosso posto médico está muito perto do terminal de granéis líquidos, o posto médico não é de última geração, mas dá perfeitamente para as necessidades da APS. Disse que temos que contribuir para a solução. Não faz sentido ter a DGAV e a AT a dizerem que não conseguem ter aqui inspetores, e mesmo a GNR a dizer que tem muita dificuldade em captar gente, se tenho aqui um terreno e posso ajudar nessa solução.”

Mesmo estando fora do plano de investimentos a três anos da APS, começou-se a desenhar um projeto para construir habitação, de 50 a 70 fogos – “vai depender um bocadinho das tipologias, à partida T1 e T2”, diz Pedro do Ó Ramos.

Segundo apurou o ECO/Local Online junto da autarquia de Sines, a necessária alteração do uso do terreno para habitação deverá acontecer já este Verão.

Terreno para futura construção habitacional da APSHugo Amaral/ECO

Em paralelo com esta análise, o Executivo municipal de Álvaro Beijinha está a estudar o novo plano urbanístico para o norte de Sines, de modo a permitir desatar um nó que vem de longe e criar uma nova área de urbanização neste concelho.

A cidade de Sines tem seis planos de pormenor, nomeadamente o plano de pormenor Norte, uma área de terreno em que a cidade pode crescer“, esclarece, prosseguindo na crítica ao trabalho do antecessor: “Temos um Plano Diretor Municipal, o primeiro do país, em 1990, ou 1991, que está há 19 anos em revisão, e que está longe de estar concluído – no mínimo, levará mais um ou dois anos. Temos um plano de urbanização da cidade de Sines que é de 2008. Já contratámos uma empresa para iniciarmos o processo de revisão“.

Beijinha explica que os “muitos” terrenos municipais, o plano de urbanização define máximos de dois e três pisos. “Não me resolve problema nenhum. Nós precisamos de construir com densidade. Vamos ter que ter prédios com cinco, seis pisos”.

Temos de ter instrumentos de ordenamento do território que permitam aos investidores privados investir [em habitação]. E eles querem muito investir. Literalmente, todos os dias batem à porta.

Álvaro Beijinha

Presidente da Câmara de Sines

A solução preconizada por Álvaro Beijinha é mista, envolvendo alterações que promovam a maximização da propriedade privada disponível para habitação e pensando em construção a custos controlados. “Temos de ter instrumentos de ordenamento do território que permitam aos investidores privados investir. E eles querem muito investir”, assegura. “Literalmente, todos os dias batem à porta da câmara”, mas estes mesmos investidores pedem a revisão dos instrumentos de ordenamento do território. Mas, alerta, o mercado “não quer” habitação unifamiliar. “Precisa de responder a esta enchente de pessoas. Temos de construir com densidade, e até com soluções mais ágeis, como a construção modular”.

O autarca aponta os da terra como a sua maior preocupação:

"Aqueles que já vivem em Sines – aqueles que me preocupam em primeiro lugar -, por exemplo um jovem casal que quer emancipar-se de casa dos pais, não tem 2000 euros para pagar da renda, não tem dinheiro para comprar um apartamento de 350 ou 400 mil euros.”

No seu cálculo, a construção da habitação necessária para 5.000 novos trabalhadores ficará em torno dos mil milhões de euros (custo unitário em torno dos 200 mil euros). Um esforço inatingível para os municípios.

Álvaro Beijinha, presidente da Câmara Municipal de Sines, em entrevista ao ECO/Local OnlineHugo Amaral/ECO

Notando que a pressão na habitação provém da “fixação destes grandes investimentos, que são importantes para o país”, o autarca realça que “o Estado central vai receber muitas receitas de impostos”. Já a Câmara, recebeu, em 2025, 1,5 milhões de euros de derrama – informado pelo ECO/Local Online do anúncio feito ao jornal pelo diretor-geral da Start Campus, de que a sede será levada para Sines, Álvaro Beijinha considera boa notícia e a concretização de uma promessa feita pela empresa há já algum tempo.

Ainda no caso das casas do porto de Sines, o presidente da APS assegura ter inscritos os 10 milhões de euros para construção no plano de investimentos, mas admite que irá, primeiro, procurar financiamento comunitário.

"Gostaria de começar a gastar [os 10 milhões de euros] para o ano. Seria muito bom sinal. Para mais, para o ano faremos 50 anos. O objetivo é a comunidade portuária ser servida por esta habitação, em regime de arrendamento. Temos que amortizar o investimento, não vamos fazer comodatos, mas as rendas não são as praticadas neste momento, são rendas que seriam normais há 10 ou 15 anos, e que neste momento duplicaram o seu valor.”

Pedro do Ó Ramos, presidente da Administração dos Portos de Sines e do AlgarveHugo Amaral/ECO

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