Portugal tem-se tornado um mercado mais atrativo para as empresas suecas, que identificam oportunidades em vários setores. As mais de duas centenas de companhias no país empregam mais de 18 mil.

Com produtos que todos os dias são usados por mil milhões de pessoas em todo o mundo, a sueca Essity elegeu Lisboa para colocar um dos dois centros de serviços partilhados, que serve todo o grupo. Uma aposta que coloca Portugal no centro da estratégia da multinacional, líder global no setor de higiene e saúde, que comercializa marcas como a Tena, os produtos para bebé Libero ou o papel Colhogar. “O centro de serviços [em Lisboa] é muito importante e serve toda a Essity“, descreve Per Lorentz, vice-presidente de assuntos corporativos, a partir da sede da empresa em Estocolmo, elogiando o “ecossistema em forte crescimento” que encontra no país e que tem colocado Portugal no radar não só da Essity, mas de mais de duas centenas de empresas da Suécia.
Com 65 milhões de vendas geradas em Portugal e 360 colaboradores, a Essity é uma das 260 empresas suecas que já disseram hej (olá em sueco) a Portugal. Coletivamente, estas mais de duas centenas de empresas geraram 4,2 mil milhões para a economia nacional nos últimos cinco anos e empregavam 18.133 pessoas em 2024, com um volume de negócios agregado de 13,1 mil milhões de euros em cinco anos.
Criado em 2022, o centro de serviços partilhados da Essity localizado em Lisboa, mais concretamente no Parque das Nações, tem vindo a ganhar relevância e é um dos dois hubs que o grupo tem em todo o mundo — o segundo está em Santa Fé, no México.

“É uma operação bem gerida“, realça Per Lorentz a uma equipa restrita de jornalistas portugueses em Estocolmo, explicando que a equipa em Portugal é responsável por serviços de gestão de clientes, administrativos de compras, financeiros, serviços de recursos humanos ou de TI. Funções essenciais para o grupo, que marca presença em 150 países.
Apesar de o grupo não ter fábricas em Portugal — o fornecimento é feito a partir das unidades em Espanha —, o responsável justifica a aposta no país: “Queremos previsibilidade, estabilidade e uma economia que está a crescer, mas não demasiado depressa.” E deixa uma garantia. “Vamos continuar a crescer em Portugal.”

Num setor bem diferente, a Epiroc, cujo nome em português significa “na rocha”, atua na área das minas, através do fornecimento de equipamentos de perfuração e exploração de superfície e subterrânea, transporte e carregamento, acessórios hidráulicos e aço de perfuração, é outra das empresas que vê oportunidades em Portugal. Com presença no país na sede em Oeiras e em Aljustrel, onde conta com um centro de serviços, a empresa trabalha diretamente com a maior mina do país, a Somincor – Sociedade Mineira de Neves-Corvo, comprada pelos suecos da Boliden em novembro de 2024, estando ainda presente na Almina Aljustrel e fazendo parte do projeto Linha Ruby do Metro do Porto.
Segundo explicou Ola Kinnander, media relations da empresa que emprega atualmente 52 pessoas em Portugal, a Epiroc continua atenta a novas oportunidades de negócio no país. Questionado sobre se a empresa teria interesse nas obras no Metro de Lisboa, o responsável é perentório: “Estaríamos sempre interessados.”

A participar atualmente em projetos inovadores, como a criação da maior mina autónoma na Austrália, através da conversão de Roy Hill, a Epiroc tem vindo também a apostar na eletrificação, com o desenvolvimento de baterias, e na automação. Com a sua sede construída em cima de uma mina artificial, que funciona num abrigo construído em 1938, a empresa utiliza os 3,3 km de túnel para testar as suas máquinas de perfuração.
A propósito do conflito no Médio Oriente, Ola Kinnander, reconhece que “é uma área importante onde há muitas oportunidades de negócio” e é uma região onde a empresa quer estar e crescer. Mas, face à guerra no Irão, para já, vai esperar para ver o que acontece.
Saab quer voar nos céus de Portugal
Num momento em que o setor da defesa ganha grande relevância e Portugal se prepara para fazer investimentos significativos, a Saab, que está na corrida para substituir os F-16 da Força Aérea portuguesa, aperta o cerco para ganhar parte destes investimentos e volta a acenar com parcerias locais.

A produtora dos Gripen, na corrida com a americana Lockheed Martin e os seus caças furtivos F-35 e com o consórcio Eurofighter para substituir os F-16 da Força Aérea portuguesa, admite que a OGMA, com quem já assinou um memorando de entendimento, “tem muito potencial” para produzir parte dos Gripen em Portugal.
A empresa nórdica vê com bons olhos um acordo à imagem do que fechou no Brasil com a Embraer, que controla a OGMA em Portugal, uma solução que permitiria deixar parte do investimento no país. Para já, “não há processo formal”, mas Saab sustenta que os seus caças são “um excelente produto para Portugal”.
Num momento em que continua a aguardar a abertura formal do processo para a compra dos novos caças para a Força Aérea Portuguesa, Daniel Boestad, vice-presidente do negócio Gripen na Saab, reiterou que a empresa sueca de defesa, que já fornece diversos produtos a Portugal, “estará lá” quando o processo for iniciado. A falar na sede da empresa em Estocolmo, onde a companhia apresentou os seus mais modernos produtos, Boestad reforçou que as suas aeronaves “são um excelente produto para Portugal, caso assim o país o decida”.
Apesar de o principal foco no mercado nacional atualmente estar de olhos postos nos céus, os produtos do gigante da defesa europeia chegam aos vários ramos das forças de segurança. Desde sensores, a camuflagem, fornecimento de bazucas ou radares, a Saab está presente no setor da defesa nacional.
Olhando para o futuro, o mar poderá ser outra das apostas. O Saab A26 é um submarino convencional de 5.ª geração, inicialmente desenvolvido pela Saab para a Marinha Sueca, que se caracteriza pelas suas pequenas dimensões. Segundo Ingemar Karlsson, responsável pelo mercado português, estes pequenos submarinos conseguem esconder-se melhor, permanecendo mais tempo debaixo de água, além de ter uma porta situada na parte da frente com capacidade para lançar drones e forças especiais.
Para já estes novos submarinos estão na Suécia e foram selecionados pela Polónia. Quanto a Portugal, Ingemar Karlsson diz que Portugal está a investigar, mas ainda não decidiu “o que quer”.
Reagir aos americanos
Depois de um ano marcado pela imposição de novas tarifas comerciais por parte dos EUA, Anders Ahnlid, diretor-geral da Swedish National Board of Trade, defende que a União Europeia “deve reagir ao que se passa”. “O antigo sistema de globalização já não existe”, aponta, acrescentando que “a incerteza vai manter-se” e estamos perante uma “nova era comercial“.
Para o responsável pelo comércio internacional da Suécia, é importante que o bloco europeu continue a privilegiar novos pactos como o acordo UE-Mercosul e com a Índia. “Vamos ver mais acordos destes“, antecipa, dando como exemplo os Emirados Árabes Unidos como outra região com potencial para assinar um pacto comercial com Bruxelas.
O presidente dos EUA anunciou, no ano passado, a imposição de novas tarifas sobre todos os países, contudo, numa decisão proferida em fevereiro, o Supremo Tribunal dos EUA considerou que o presidente dos EUA não tinha uma base legal para impor as taxas anunciadas no chamado Dia da Libertação, que mergulhou o comércio mundial na incerteza. Esta decisão veio trazer ainda mais incerteza para o tabuleiro, uma vez que Trump respondeu ao Supremo com o anúncio de mais tarifas e garantiu que vai impor as tarifas, mesmo que tenha de o fazer de outra forma.
Além da instabilidade associada ao tema das tarifas, as economias enfrentam agora ainda os efeitos da guerra no Irão, que levou os preços do petróleo acima dos 100 dólares por barril. Uma subida que ameaça aumentar os custos para empresas e famílias, assim como acelerar a subida das taxas de juro.
No entanto, os constrangimentos fora da Europa são também uma oportunidade para o comércio de proximidade, estreitando as relações dentro do Velho Continente. “Como disse Winston Churchill, nunca desperdice uma boa crise”, conclui Ahnlid.
*A jornalista viajou a Estocolmo a convite da Câmara de Comércio Luso-Sueca
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Hej. Da defesa às minas e ao consumo, empresas suecas fazem mira a Portugal
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