Hungria. Muito mais do que mais umas eleições

Péter Magyar tenta acabar com os 16 anos de poder de Viktor Orbán, num sufrágio que mais parece uma espécie de 'proxy war' entre a União Europeia e as visões mais autocráticas de Putin e de Trump.

A Hungria, no seu formato e fronteiras atuais, é uma construção recente, com pouco mais de 100 anos, mas o território está cheio de história. Foi casa de celtas, hunos ou romanos, foi parte do império otomano e um colosso com ambições imperiais na viragem do século XIX para o século XX, como parte do Império Austro-Húngaro. A sua própria localização a coloca numa encruzilhada, segundo alguns pontos de vista, ou numa centralidade, segundo outros: a Hungria, na sua configuração do último século, faz fronteira com a Eslováquia, a Ucrânia, a Roménia, a Sérvia, a Croácia, a Áustria e a Eslovénia, não tendo acesso ao mar. Agora, em pleno 2026, volta a estar no centro das atenções da Europa, pela via de um ato eleitoral que diz respeito a muito mais do que aos seus 9,5 milhões de habitantes.

Nas eleições legislativas deste domingo defrontam-se dois candidatos muito diferentes, na idade, no estilo e, sobretudo, na visão que têm para o país e para o papel que este deve desempenhar na cena internacional. De um lado, o incumbente, Viktor Orbán, de 62 anos, no poder há 16; do outro, Péter Magyar, de 45 anos, o homem que quer tirar Orbán do poder e recentrar a Hungria num caminho de progressiva europeização e de menos laços com os russos.

Em Bruxelas, é seguro dizer que esta será uma noite de nervos. A Hungria de Orbán é há muito uma pedra no sapato da União Europeia, insistindo numa postura sistemática de boicote, atraso de decisões ou, pior ainda, de passagem de informação sensível para fora do bloco comunitário, nomeadamente para a Rússia. Esta postura já levou a Hungria a ser admoestada e até sancionada várias vezes, e cada vez são mais as vozes que gostariam de ver explorada a própria saída da Hungria da União Europeia. Se esta visão defende que a União Europeia é também feita de valores comuns inegociáveis, e que a Hungria não deve fazer parte do bloco se deles não comunga, a visão dos partidários de Orbán afirma que a União é uma junção de países muito diferentes e que a diversidade — nomeadamente de opinião — deve ser respeitada.

Os últimos episódios desta relação de amor/ódio foi o bloqueio, por parte da Hungria, do empréstimo europeu de 90 mil milhões de dólares à Ucrânia, bem como a uma nova ronda de sanções contra a Rússia. Por outro lado, o tom subiu ainda mais com a notícia que o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, partilhou com a Rússia informação sobre o que estava a ser discutido no seio da União Europeia, em relação a Moscovo e à Ucrânia. Tal levou a França a acusar mesmo a Hungria de “traição” à Europa.

Viktor Orbán.European Union

Orbán vs Magyar: os dois líderes em confronto

Viktor Orbán fundou e lidera o partido Fidesz, de raiz nacionalista, conservadora e populista, e é com base neste eixo que vai justificando a posição húngara. Tem insistido que o seu papel é defender exclusivamente os interesses dos cidadãos húngaros, nomeadamente no que toca à sua economia e energia, que vem em boa parte da Rússia (é, aliás, um dos dois países, juntamente com a Eslováquia, que encontraram forma de não cumprir com o fim progressivo das importações energéticas da Rússia). Mais do que isso, segundo dados recentes, a Hungria aumentou exponencialmente as compras de petróleo e de gás a Moscovo desde a invasão à Ucrânia.

Os últimos anos não têm exatamente trazido novidades na postura da Hungria, que já havia sido condenada pela União Europeia devido a temas de corrupção na máquina política e a violações do Estado de Direito. Da limitação à comunicação social às mexidas na lei eleitoral, Orbán tem cimentado uma política cada vez mais assumida de democracia iliberal com tendências autocráticas: há eleições, tribunais e um aparente respeito pela lei, mas a realidade mostra um líder que cada vez reforça mais o seu poder, limita a oposição e as forças sociais.

Aquilo que começou sobretudo com a recusa em receber migrantes foi sempre subindo de tom, num braço de ferro com a União Europeia que tem colocado Orbán e o Fidesz cada vez mais alinhado com a Rússia de Vladimir Putin e com Donald Trump, como parte de um eixo nacionalista e conservador que inclui o Vox em Espanha e o Chega em Portugal (Orbán foi o primeiro líder internacional a dar os parabéns a André Ventura pelos resultados da primeira volta das presidenciais).

A vida dá muitas voltas, e o mesmo é verdade do Fidesz, do seu fundador e até de Peter Magyar, o seu rival.

Quando nasceu, no final dos anos 80, o Fidesz era um partido liberal próximo do centro, tendo sido progressivamente puxado para a direita até ao atual alinhamento com as forças iliberais de direita do mundo ocidental, pela mão de Orbán. E Magyar, que agora ameaça conquistar o poder, nasceu politicamente nas fileiras desse partido. Advogado de profissão, era quadro do Fidesz e foi casado com uma ex-ministra da Justiça do Governo de Órban. A dissidência deu-se apenas há dois anos, com Peter Magyar a bater ruidosamente com a porta, depois de o Presidente e o Governo terem concedido uma série de perdões a responsáveis por abuso sexual de crianças institucionalizadas.

O presidente do partido da oposição Tisza, Peter Magyar.EPA/Tibor Illyes

Magyar juntou-se então, enquanto novo líder, ao Partido do Respeito e Liberdade (Tisza), formado em 2020 mas com pouca expressão até se ter tornado a plataforma de oposição de Peter Magyar a Viktor Orbán. Magyar foi eleito eurodeputado pelo Tisza, um partido de centro-direita, conservador e europeísta.

O tema das relações com a Rússia, por um lado, e com a União Europeia, tornou-se absolutamente central nesta acesa campanha eleitoral, mas está longe de ser o único. Orbán tem reforçado o discurso nacionalista contra os ditames de Bruxelas, ao passo que Magyar ataca a corrupção nas instituições húngaras e a situação económica no país.

A Hungria “tem enfrentado um elevado aumento do custo de vida e um desenvolvimento económico muito lento há vários anos, e o Governo não cumpriu as suas promessas económicas”, refere a organização não-governamental (ONG) Comité de Helsínquia Húngaro, numa análise publicada na sua página online. Neste contexto, prossegue, “o descontentamento social cresceu significativamente e evidenciou vários problemas, incluindo o estado dos cuidados de saúde, dos transportes públicos e do sistema de proteção infantil”. Isto, resume, “ajudou o partido opositor Tisza [liderado por Péter Magyar] a construir o seu apoio”. Entre 2022 e 2024, o país registou uma das taxas de inflação mais elevadas da União Europeia, com o pico a atingir os 25%.

A economia do país tem também sido afetada pelo congelamento de milhares de milhões de euros de subsídios europeus, devido a preocupações com a corrupção sistémica no país e violações do Estado de Direito. Por outro lado, a Hungria partilha com Portugal um problema cada vez mais sério, o galope dos preços da habitação. Nos últimos dez anos, Portugal foi o segundo país da União Europeia em que estes mais subiram. O primeiro? A Hungria.

Sondagens e eleições

À entrada para o dia decisivo, não só as sondagens dão vantagem a Magyar como a distância para o Primeiro-ministro tem estado a aumentar, mesmo depois de JD Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos da América, ter aparecido num comício de Orbán a prestar o seu apoio (onde criticou a “ingerência externa” da União Europeia nas eleições húngaras). Segundo o Politico, que faz um agregado das sondagens que considera mais credíveis, o Tisza surge com perto de 50% das intenções de voto, distante dos 39% do Fidesz.

Porém, na Hungria e em Bruxelas, ninguém dá nada por certo. Por um lado, Orbán já bateu anteriormente sondagens que lhe eram desfavoráveis (em 2022, a corrida era vista como muito renhida mas Orbán conseguiu mais de 67% dos lugares do parlamento). Por outro lado, as mudanças eleitorais promovidas por ele em 2011 vieram complicar um sistema que não é fácil de entender, nem linear na antecipação dos seus resultados. Na prática, estas alterações vieram reforçar o resultado do vencedor (numa lógica de winner-takes-all).

Há duas formas de chegar ao parlamento, uma de candidatos locais (que assegura a maioria dos mandatos) e outra de partidos, a nível nacional. Nesta segunda lista, há uma série de exceções e limitações, que podem fazer os resultados mexer muito e surpreender a sondagens.

Ainda assim, de acordo com as autoridades, espera-se que os resultados sejam conhecidos rapidamente, ainda na noite deste domingo, pelo menos no que toca à certeza de quem venceu.

De Bruxelas a Moscovo, passando por Washington, todos os olhos estarão, esta noite, em Budapeste, à procura de ver, nos reflexos do Danúbio, para onde vai o mundo.

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