Com a crescente substituição do trabalho intelectual pela inteligência artificial (IA) e falta de profissionais em muitas áreas, tem aumentado o interesse e valorização das profissões mais "antigas".
- A adoção crescente da Inteligência Artificial está a gerar ansiedade entre os trabalhadores, que questionam o futuro do emprego e a relevância das suas funções.
- O relatório Future of Jobs 2025 indica que profissões em áreas como análise de dados e logística terão uma procura crescente, enquanto funções repetitivas estão em risco devido à automação.
- A valorização das profissões manuais, como canalização, poderá aumentar, refletindo uma tendência de salários mais elevados no trabalho manual em comparação com o intelectual.
À medida que avança a implementação de inteligência artificial (IA), aumenta a ansiedade dos trabalhadores com o futuro do emprego. A tecnologia está a mudar processos em muitas empresas, mas nem todas as funções estão expostas da mesma forma a esta transformação. E apesar de ainda não se assistir a uma vaga de despedimentos em massa, a IA já está a redefinir o valor de muitas profissões.
Segundo o relatório Future of Jobs 2025, publicado pelo Fórum Económico Mundial, profissões ligadas às áreas da análise de dados, IA, logística e construção civil deverão registar uma procura crescente até 2030. Em contraste, funções mais repetitivas ou facilmente automatizáveis — como atendimento ao balcão, operadores de caixa, serviços postais e até mesmo algumas áreas do design gráfico — estão entre as que mais poderão sofrer com estas mudanças.
A grande questão que muitos colocam por estes dias é simples, mas difícil de responder: qual será, afinal, o futuro do trabalho? Ainda compensa investir tempo e dinheiro na Universidade, ou estarão os cursos profissionais e as formações em profissões manuais a abrir caminho para carreiras mais estáveis — ou, em alguns casos, até melhor remuneradas?
“Profissões antigas estão a tornar-se mais procuradas e valorizadas”
Madalena Pereira, Head of Standard Training Solutions do ISQ, revela que, apesar de a IA estar a automatizar muitas tarefas intelectuais, as profissões manuais e práticas continuarão a ser essenciais. “Mudar canos, fazer instalações elétricas, ligações de AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado), isso a IA nunca vai conseguir substituir. Pelo contrário, estas profissões antigas, muitas vezes menos valorizadas nos últimos 25 anos, estão a tornar-se mais procuradas e valorizadas”, afirma.
A responsável do ISQ explica que a oferta de cursos técnicos tem crescido significativamente e continua a ter grande procura. “Nós temos mais de 30 cursos técnicos e todos eles têm muita saída. Alguns cursos fazemos duas vezes por ano, outros quatro, mas nunca mais do que isso, por limitações de disponibilidade dos formadores”, diz.
“São profissões mais antigas, e muitos formadores têm mais de 50 anos e trabalharam na área toda a vida. Alguns até foram professores em escolas industriais que deixaram de existir. Encontrar estas pessoas hoje em dia não é fácil, mas são essenciais para garantir a qualidade prática dos cursos”, afirma.
Quanto a inscrições nas formações, os números são elevados, mas nem todos os inscritos acabam por confirmar a participação: “As inscrições são muitas. Mas, quando chega a hora de pagar, algumas pessoas desistem”, detalha a responsável do ISQ.
Madalena Pereira salienta ainda que os cursos técnicos atraem públicos variados, incluindo jovens antes dos 18 anos que querem aprender uma profissão muitas vezes familiar, assim como licenciados que procuram adquirir competências práticas complementares à formação académica. “Muitos engenheiros saem das faculdades com conhecimentos teóricos sólidos, mas têm dificuldade em aplicar na prática. Com os nossos cursos, conseguem ligar a teoria à prática, ganhando competências que os destacam no mercado de trabalho”, explica.
A responsável do ISQ indica mesmo que “muitos licenciados procuram o ISQ para aprender a componente técnica, sobretudo nas áreas de eletricidade e noutras consideradas mais ‘limpas’.”
“Muitos engenheiros saem das faculdades com conhecimentos teóricos sólidos, mas têm dificuldade em aplicar na prática”.
Além do catálogo fixo do ISQ, que permite que a inscrição de qualquer pessoa nos determinados cursos, a instituição também oferece soluções de formação à medida, respondendo a pedidos de empresas que querem preparar especificamente os seus trabalhadores em competências concretas. “Se uma empresa tem um grupo de canalizadores e precisa apenas de formar os colaboradores numa parte específica, nós adaptamos o curso às necessidades do cliente”, detalha.
Durante a última Web Summit, Daniela Braga, CEO da empresa portuguesa Defined.ai, afirmou em conferência de imprensa que “um canalizador irá ganhar mais do que um programador na próxima década”, abrindo assim uma discussão sobre quais serão as profissões melhor remuneradas.
E, concretamente sobre o curso de canalização, Madalena Pereira explica que a maioria dos formandos que procuram o ISQ “são pessoas individuais, que querem fazer os seus biscates e trabalhar por conta própria”.
A procura pelos cursos varia consoante a área: enquanto a canalização atrai sobretudo formandos individuais, outras áreas, como eletricidade ou AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado), registam uma participação mais expressiva de empresas. “Cada curso tem a sua realidade, e isso pode mudar de ano para ano”, afirma Madalena Pereira.
Os cursos têm um limite de formandos definido pela necessidade de garantir qualidade na formação prática. No caso do curso de canalização, o máximo é de 14 alunos por edição. Já em cursos de instalações elétricas, devido à natureza do trabalho, a turma pode chegar a 22 participantes.
“Preço por hora do trabalho manual é superior ao do trabalho intelectual”
Depois de uma experiência frustrante com serviços de reparações, João Marques decidiu fundar o Óscar, uma aplicação tipo Uber que permite chamar um técnico especializado ao domicílio em cerca de 30 minutos. Lançado em 2021, o serviço do Óscar está disponível em Portugal, Espanha e Reino Unido e conta com cerca de 60 colaboradores, além de aproximadamente 3.000 técnicos associados nos vários países.
Segundo o empreendedor de 31 anos, que reside agora em Londres, “o preço por hora do trabalho manual é superior ao do trabalho intelectual” nos dias de hoje, algo a que não é alheia a escassez de mão-de-obra que existe em várias profissões. “Mesmo antes da IA, um canalizador já podia ganhar mais do que um programador”, afirma, justificando que, com o “boom tecnológico”, os empregos de escritório tornaram-se mais atrativos, o que reduziu a oferta de mão-de-obra manual.
Como tal, dá o exemplo dos técnicos do Óscar: “os nossos profissionais em esquentadores reparam, em média, um equipamento em 25 minutos, e o serviço custa 60 euros. Isso equivale a 120 euros por hora. Um canalizador pode ganhar 200 euros por hora.”
A tendência de valorização do trabalho manual deverá, por isso, continuar. Mesmo que o país comece a formar novos trabalhadores manuais, o criador do Óscar acredita que a diferença salarial entre trabalho manual e intelectual continuará a ser elevada: “O preço do trabalho manual poderá descer um pouco caso se verifique o aumento da oferta, mas ainda estamos muito longe desse equilíbrio”, atira.
Os nossos profissionais em esquentadores reparam, em média, um equipamento em 25 minutos, e o serviço custa 60 euros. Isso equivale a 120 euros por hora. Um canalizador pode ganhar 200 euros por hora.
Além disso, João Marques destaca o impacto que a inteligência artificial terá no mercado de trabalho. Na sua perspetiva, os profissionais que não acompanharem esta evolução tecnológica poderão ser prejudicados: “muitas pessoas que não forem early adopters da IA vão ficar sem emprego. Não é que todos percam, mas não acompanhar esta evolução será drástico”, alerta.
No caso do Óscar, o CEO considera que a IA será um complemento e não uma substituição do trabalho humano. “Para nós, a IA não vai substituir ninguém. Estamos a tornar-nos mais eficientes com a IA e a aumentar a produtividade. Vemos o futuro de duas formas: ou os mais intelectuais não se tornam trabalhadores manuais — e, nesse caso, a procura pelos nossos serviços continuará a crescer — ou esses intelectuais passam a desempenhar funções manuais, permitindo-nos servir mais pessoas a um preço ainda mais acessível”, explica.
Para João Marques, esta combinação entre salários elevados no trabalho manual e a necessidade de adaptação tecnológica reforça a importância de valorizar a formação prática e a capacidade de integrar novas ferramentas digitais no dia-a-dia profissional. “Hoje, oferecer uma experiência de qualidade ao cliente depende de profissionais bem preparados”, sublinha, admitindo que “há, de facto, falta de profissionais” no mercado.
Massificação do ensino superior pode trazer salários mais baixos
João Cerejeira, economista e professor da Universidade do Minho, considera que continuarão a ser os licenciados e mestres a ter as melhores oportunidades no mercado de trabalho. “Se olharmos para todos os indicadores, mesmo nos períodos de crise, verificamos que são aqueles que têm ensino superior que registam menores taxas de desemprego e maiores níveis de empregabilidade”, sublinha.
Ainda assim, o académico reconhece que a massificação do ensino superior pode trazer desafios, sobretudo ao nível das remunerações. Segundo João Cerejeira, “o aumento do número de licenciados não prejudica quem conclui o curso, mas pode levar a que alguns diplomados aceitem profissões com salários mais baixos do que o esperado”.
Apesar disso, o economista destaca que quem conclui o ensino superior continua a ter uma vantagem clara face aos restantes. “Estão sempre numa posição competitiva mais favorável do que aqueles que não concluem o ensino superior ou que ficam apenas pelo ensino básico ou secundário”, afirma. Questionado sobre se teme que a IA possa eliminar uma quantidade significativa de empregos, o académico afastou esse cenário dramático. “Não é obrigatório que a IA diminua o emprego”, afirma, sublinhando que “as pessoas vão é ter de mudar as competências que tinham anteriormente”.
João Cerejeira recorre a uma analogia para explicar o impacto desta transformação: “A IA, para algumas profissões, pode ser o equivalente ao efeito de um trator agrícola no trabalho do cavador”, compara. “Continuamos a ter agricultores. O agricultor agora tem é uma função diferente, já não está com a enxada a trabalhar a terra, mas desempenha outras tarefas”, explica o economista.
“Continuamos a ter agricultores. O agricultor agora tem é uma função diferente, já não está com a enxada a trabalhar a terra, mas desempenha outras tarefas”.
“Ensino profissional é visto apenas como opção para os piores alunos. Isso é que é mau”
Quando se está prestes a concluir o 9.º ano do ensino básico, surge a inevitável questão sobre qual o caminho a seguir. Tradicionalmente, há duas alternativas possíveis: seguir para o ensino secundário ou optar por um percurso profissional. A maioria dos estudantes portugueses escolhe a primeira opção — muitos ouviram dizer a vida toda que é preciso estudar e ir para a universidade para ter um futuro melhor.
Contudo, João Cerejeira reforça que em algumas situações a formação profissional pode mesmo oferecer melhores salários do que cursos de ensino superior. Questionado sobre se o ensino profissional é valorizado, o economista reconhece que, em certa medida, o mercado recompensa estas competências: “A sociedade valoriza, porque depois o mercado paga bem. Mas o nosso sistema de ensino, e muitas vezes as famílias, é que desvalorizam um pouco o ensino profissional naquilo que procuram transmitir aos filhos”, sublinha.
O académico acrescenta que o preconceito se reflete também nas escolas: “Muitas vezes o ensino profissional é visto apenas como opção para os piores alunos. E isso é que é mau, porque acaba por reduzir a apetência pelos cursos técnicos e profissionais”, conclui.
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IA e escassez de trabalhadores aumentam interesse por profissões manuais. Há canalizadores a ganhar 200 euros por hora
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