Incêndios preocupam no pós-Kristin. Estamos preparados para o verão ou vamos correr atrás do prejuízo?

Com o calor a voltar em força e máquinas ainda a limpar terrenos, regressamos ao local do “crime” de Kristin. Esta semana passam nove anos da tragédia em Pedrógão. O que devemos esperar, ou temer?

Temperaturas acima dos 35 graus celsius por quase todo o continente e trovoadas em vários pontos do litoral e interior marcam a entrada na semana em que se assinalam nove anos do mais mortífero incêndio em Portugal, no qual perderam a vida 66 pessoas, numa contabilização que terminaria em mais de 100 mortes até final desse ano 2017. Antes deste, o trágico recorde estava na serra de Sintra, onde, fará 60 anos em setembro de 1966, morreram 25 bombeiros.

Restam menos de 20 dias para os proprietários poderem limpar os terrenos nas zonas fustigadas a 28 de janeiro pela tempestade Kristin. Não há nem tempo nem gente para tirar a “gasolina” vegetal dos terrenos a tempo, asseguram ao ECO/Local Online. Adicionalmente, o ministro da Administração Interna não tem dúvida de que os trabalhos “levarão anos”.

António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, admite que, “se se vierem a verificar previsões de clima adverso, temos reunidos todos os fatores para uma época de combate aos incêndios verdadeiramente preocupante”. Não está sozinho.

“Estimamos que vamos encontrar três a seis vezes mais biomassa no solo” e isso “é um problema tremendo do ponto de vista do incêndio”, antevê João Lé, administrador do grupo Navigator, um dos maiores produtores florestais do país.

A Liga de Bombeiros tem vindo a chamar a atenção para que as metodologias usadas e os processos de mobilização de meios para combate a incêndios florestais deveriam ser outros.

António Nunes

Presidente da Liga dos Bombeiros de Portugal

Pelo menos desde 2017 que, na memória coletiva, há época de incêndios para lá dos três meses de julho a setembro. Nesse ano, morreram 66 pessoas no incêndio iniciado a 17 de junho em Pedrógão e mais 51 pereceram no decurso dos fogos de 15 de outubro. Em 2024, no discurso do Dia de Portugal em Pedrógão Grande, o então Presidente da República deixou um pedido que, dois anos depois, soa alto: “Que este 10 de junho queira dizer que tragédias como as de 2017, nunca mais.”

Com o passar dos anos e a intensificação das alterações climáticas, o fogo foi-se agigantando para “megaincêndios que libertam energia de que ninguém se pode aproximar”, resume João Lé. Nesse cenário, “os meios aéreos não funcionam, pura e simplesmente”.

Marcelo Rebelo de Sousa discursa em Pedrógão Grande no dia de Portugal em 2024: "Que este 10 de junho queira dizer que tragédias como as de 2017, nunca mais" Lusa

Em 2025, 0,5% do total de ocorrências valeram por 92% do total de área ardida. Para 2026 há um novo quadro no terreno, com os milhões de árvores tombadas na madrugada de 28 de janeiro. Perante esse cenário, Luís Neves, ministro da Administração Interna lançou um alerta “muito sério” para o que pode ser um “verão terrível”.

A “Liga de Bombeiros tem vindo a chamar a atenção para que as metodologias usadas e os processos de mobilização de meios para combate a incêndios florestais deveriam ser outros”, diz António Nunes, alertando que, em alguns dos incêndios fatais para bombeiros, a tragédia não acontece na floresta, mas em zona de matos altos.

O representante dos bombeiros pede “uma discussão e análise à possibilidade de aumentar a capacidade de resposta para ataques iniciais”. Entre as sugestões está o isolamento de zonas vulneráveis nos dias de maior alerta.

Em Leiria, o arvoredo tombou ao longo de mais de 10 mil hectares, fazendo deste o concelho “com maior área de floresta com madeira no chão”, explica o vereador Luís Lopes, apontando para o bloqueio de 460 quilómetros da rede viária florestal a 28 de janeiro. “Temos neste momento metade dos caminhos desobstruídos”, avança o vereador da Proteção Civil, com um alerta:

"O estado da nossa floresta é completamente atípico, não conseguimos antecipar a meteorologia e o perigo de incêndio, o que significa que este ano, mais ainda do que em qualquer outro no passado seja claramente entendido que esta é uma missão de todos e que apenas assim será possível, proteger as pessoas, infraestruturas e ambiente, recuperar e proteger a floresta, reduzir ou evitar a ocorrência de incêndios e garantir a vigilância permanente do nosso território.”

Luís Lopes

Vereador da Câmara Municipal de Leiria

Já na Marinha Grande, concelho vizinho, e também um dos mais devastados a 28 de janeiro, a autarquia já desobstruiu mais de 220 quilómetros de rede viária florestal, de um total de 289 quilómetros identificados como críticos, diz Paulo Vicente ao ECO/Local Online. As condições estão criadas para que os proprietários cheguem aos terrenos e os limpem até final de junho, diz o autarca. “Depois da divulgação dos editais, temos autoridade para entrar nos terrenos privados, retirar o material lenhoso e pô-lo em parques que vão ser criados para o efeito”, explica. “Vamos ver se conseguimos empresas para fazerem esses trabalhos”, admite Paulo Vicente.

O colega de Ourém, Luís Albuquerque, salienta que este é “um município muito grande, com muita população de casas e onde a floresta entra pelas casas dentro“, condição propícia aos incêndios, sobretudo com “as milhares e milhares de árvores tombadas” e “material lenhoso espalhado um pouco por toda a floresta“. Com mais de mil quilómetros de caminhos florestais obstruídos a 28 de janeiro, os trabalhos prosseguem com “12 a 13 equipas” no terreno. “Temos a esperança de que até ao final do mês de junho tenhamos todos os caminhos florestais totalmente desobstruídos“, perspetiva o presidente da Câmara de Ourém.

Após a publicação dos editais num jornal local, já efetuada, começaram a contar duas semanas para se poder entrar nos terrenos privados. A autarquia de Ourém pretende iniciar o trabalho “rapidamente”, consciente de que “é impossível de concretizar até ao verão”, explica o edil. A autarquia tem consignados 3,6 milhões de euros do Estado central para estes trabalhos, acima dos 2,7 milhões da Marinha Grande.

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Fogo amigo e ‘deixem a couve em paz’

Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, região com maior área geográfica afetada pela tempestade Kristin. José Ribau Esteves opõe-se à terminologia fogos rurais – “nunca vi uma couve, uma abóbora ou alface a arder”. Pela experiência de mais de duas décadas enquanto autarca em Ílhavo e Aveiro, Ribau Esteves aponta que “o culpado é a má gestão”.

João Joanaz de Melo concorda. “O que arde mais é o que não é gerido, independentemente da espécie”, defende o engenheiro do Ambiente e professor na Universidade Nova de Lisboa. Por isso, entende que a viabilidade do território se faz por rentabilização dos produtos florestais, ou pela “justa remuneração aos proprietários do serviço de ecossistemas” realizados, até porque, considera, “são serviços públicos importantíssimos que não são remunerados a quem os está a prestar”.

“Fala-se disso há muitos anos. Está escrito em muitos sítios, o pior é passar à prática”, afirma Joanaz de Melo.

O fogo controlado é uma ferramenta fundamental para a redução do perigo de incêndio, e é de tal forma fundamental que, alguns meses antes de sabermos que havia Kristin, no final de 2025, tínhamos como missão pelo menos duplicar a área executada de fogo controlado.

Paulo Farinha Luís

Diretor do ICNF

Travar a energia e velocidade de um incêndio são elementos fundamentais, diz Akli Benali, do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa. Há mesmo, indica o investigador especializado em ciência do fogo florestal, incêndios “impossíveis de suprimir”. Assim, centrando a atenção na prevenção, considera que “a gestão de combustível é claramente uma ferramenta chave na prevenção. A gestão de combustível não apaga incêndios, cria oportunidades para apagar incêndios. Ao termos menos combustível, quando houver um incêndio, vou ter menos intensidade. É mais fácil de apagar aquele incêndio. Não podemos esperar que, milagrosamente, a gestão de combustível, passivamente, apague os incêndios.”

Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, defende a realização de fogo controlado para tirar densidade à biomassa, numa lógica simples: é melhor fazê-lo de forma programada do que deixar o fogo servir-se sem freios no período crítico dos incêndios.

Ao ECO/Local Online, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas valida esta estratégia. “O fogo controlado é uma ferramenta fundamental para a redução do perigo de incêndio, e é de tal forma fundamental que alguns meses antes de sabermos que havia Kristin, no final de 2025, tínhamos como missão pelo menos duplicar a área executada de fogo controlado”, partindo da média dos últimos cinco anos, explica Paulo Farinha Luís, diretor da região centro do ICNF.

Fogo controlado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), na Serra do Marão, em Amarante, 17 de março de 2026. PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

“Quando a tutela nos deu este objetivo, não sabíamos que havia Kristin, e já nós dizíamos que esse fogo controlado é uma ferramenta absolutamente essencial”. Após 28 de janeiro, o ICNF chegou mesmo a ir “um bocadinho para lá daquilo que eram as condições ideais de prescrição”, procurando reduzir pasto para o fogo. Contudo, o inverno muito chuvoso, a quantidade de árvores caídas e a dedicação das equipas do ICNF à limpeza da região centro tornaram “muito reduzidas” as condições para fogo controlado, explica o responsável do instituto.

Paulo Mateus, presidente da AGIF, mostra-se igualmente a favor do que chama de “fogo bom”. Com o “fogo controlado, aproveitando queimadas associadas à pastorícia”, pode-se “de forma mais acelerada reduzir o risco do território, e com isso atrair o investimento de quem quer produzir na paisagem”.

Perante a devastação que atingiu a região centro, e que perdura nos terrenos, Henrique Pereira dos Santos alerta que “é preciso gerir os combustíveis finos. Do ponto de vista dos incêndios, não é o tronco das árvores que incomoda particularmente, a não ser pelo combate aos incêndios, que podem constituir obstáculo”, considera o arquiteto paisagista.

É preciso gerir os combustíveis finos. Do ponto de vista dos incêndios, não é o tronco das árvores que incomoda particularmente, a não ser pelo combate aos incêndios, que podem constituir obstáculo.

Henrique Pereira dos Santos

Arquiteto paisagista

Ao ECO/Local Online, Paulo Mateus, presidente da Agência para a Gestão dos Incêndios Florestais (AGIF), assume um “problema grave na região de Leiria”, o “aumento da carga de combustível. Estava na copa das árvores verde, viçoso, agora está no chão e está a secar. Isso vai criar combustível disponível, se houver uma ignição, vamos ter problemas muito graves”, antevê.

Apesar dos receios, Paulo Farinha Luís assegura que “os cidadãos podem entrar tranquilos. As instituições estão a fazer todo o possível para que a normalidade da prevenção e do ataque possa ocorrer já este verão. O que é certo é que, mesmo estando criadas essas condições para que o combate ocorra normalmente, o risco é mais elevado. O verão tem sido cada vez mais ríspido, mais severo, e por isso também aumenta o risco, mas desta vez a carga de combustível que temos no solo aumentou exponencialmente”.

Permitir a limpeza de terrenos até final de junho traz “riscos”

Portugal encaminha-se “devagarinho, aos poucos, para voltar a ter uma situação trágica. Temos de mudar alguma coisa. Vai acabar por acontecer, mais tarde ou mais cedo, uma situação análoga ao que tivemos em 2017”, alerta João Melo Bandeira, engenheiro florestal da Navigator.

Tal como em 2003, este ano a abundância de chuva veio acelerar o crescimento da biomassa. Carlos da Câmara, climatologista no Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, confessa: “O meu medo este ano é que possa ser um 2003 exacerbado” devido à abundância de biomassa.

Luís Neves, ministro da Administração Interna, alerta para um Verão que pode ser “terrível” e diz que o país “enfrenta hoje incêndios mais longos, mais intensos e mais imprevisíveis”MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Problema adicional, nestes 23 anos o fogo agigantou-se. “O fogo hoje está mais rápido, mais intenso, muito mais imprevisível e muito mais destrutivo”, aponta Sérgio Gomes, diretor executivo da Afocelca — entidade conjunta das empresas Navigator e Altri, proprietárias de cerca de 200 mil hectares de floresta em Portugal, criada em 2002 para prevenção e combate a incêndios.

Luís Neves, ministro da Administração Interna e ex-líder da Polícia Judiciária, força chamada à investigação de crimes de incêndio florestal, concorda que o país “enfrenta hoje incêndios mais longos, mais intensos e mais imprevisíveis”.

Perante a grande quantidade de árvores tombadas pela tempestade Kristin, o Governo deu mais um mês aos proprietários, até final de junho, para limpar terrenos. Contudo, já não podem decorrer queimadas dos sobrantes, o que pode significar que o combustível seja na mesma servido à mesa do fogo.

“Os cidadãos têm aqui um papel absolutamente essencial, não podem usar o fogo de forma arbitrária”, apela o presidente da AGIF, pedindo “muitas cautelas com a maquinaria”. Olhando especificamente para a região centro, diz que “se houver uma ignição, pode ser um problema”. Paulo Mateus admite que há “um risco” em ter a intervenção de maquinaria de limpeza na floresta durante um mês em que, como se verifica por estes dias, as temperaturas já se aproximam dos 40 graus celsius.

Vamos ver se a meteorologia nos ajuda. É uma situação perfeitamente extraordinária. O ponto principal é o cuidado dos utilizadores do território para ver se não temos ignições. Temos consciência plena de que até 30 de junho não vamos conseguir retirar aquela carga combustível toda, é impossível, ninguém consegue, é um problema que se vai empurrar para os próximos anos.

Paulo Mateus

Presidente da AGIF - Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, I.P.

“Vamos ver se a meteorologia nos ajuda. É uma situação perfeitamente extraordinária. O ponto principal é o cuidado dos utilizadores do território para ver se não temos ignições. Temos consciência plena de que até 30 de junho não vamos conseguir retirar aquela carga combustível toda, é impossível, ninguém consegue, é um problema que se vai empurrar para os próximos anos”, reconhece o presidente do instituto público.

Parte da solução poderá passar pela chegada de meios da União Europeia para colaborar na tarefa de remoção, explica o responsável da AGIF ao ECO/Local Online: “Toda a ajuda é bem-vinda e sei que há iniciativas nesse sentido. O problema, muito grande, ultrapassa-nos, como já aconteceu noutros países, em França, na Suécia, e eles pediram ajuda aos parceiros”, explica o presidente da AGIF, apontando a existência de contactos do Governo português com os parceiros europeus.

João Lé, administrador The Navigator Company, assume, em conversa com o ECO/Local Online, uma preocupação da indústria: “vamos ter menos madeira a médio prazo. É um problema muito sério”

Nos 68 concelhos afetados pelo comboio de tempestades, 850 mil hectares de floresta foram impactados, dos quais “sensivelmente metade” compostos por eucalipto, descreve João Lé, administrador da Navigator. Foram afetadas áreas que representam 40% do abastecimento da papeleira no mercado nacional.

Na cadeia de abastecimento da empresa, “o impacto potencial é elevado”, reconhece ao ECO/Local Online o administrador da Navigator, dando nota de que, nas áreas mais afetadas pelo comboio de tempestades, a empresa detém quase 20 mil hectares de floresta, dos quais “um bocadinho menos de 20%” saíram afetados e a “necessitar de intervenção mínima, corrigir, voltar a pôr as árvores de pé ou fazer um corte ou uma replantação”.

A indústria não passará incólume. Há “um problema de médio prazo”, perspetiva João Lé. “Esta tempestade afetou diferentes idades de plantações, seja em pinheiro, seja em eucalipto. As árvores partiram-se, racharam-se, com o passar de tempo vão encher-se de fungos e de outras pragas que degradam a madeira. O problema é que vamos ter menos madeira a médio prazo. É um problema muito sério.”

no curto prazo, “de repente, há uma sobreoferta de madeira, muita dela que não tem condições comerciais para ser aceite pela indústria. Quando uma coisa destas afeta a floresta, não escolhe idades [das árvores]. Muito deste material caído não estava em idade de corte. São árvores com diâmetro muito fino”, esclarece João Lé. Confrontado com isto, o grupo industrial decidiu flexibilizar a admissão de madeira: “Relaxámos, entre aspas, as nossas condições de receção e permitimos o fornecimento de madeira de diâmetros mais finos, sem qualquer perda de valor.” A condição é ter proveniência no território afetado.

Estragos provocados pela tempestade Kristin nos arredores da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO

Portugal aquinhoado

Portugal soma mais de 400 mil proprietários e acima de 11,5 milhões de prédios rústicos, destaca João Lé. “Temos uma floresta sem escala, muitos donos desconhecidos”, reforça o colega João Melo Bandeira, engenheiro florestal e um dos que, na Navigator, apontam o dedo ao minifúndio.

“Já me daria por satisfeito se, em cada região, a agregação de parcelas desse para atingir a unidade mínima de agricultura. Nalgumas regiões são quatro hectares, noutras são cinco, noutras dez, já começaria a haver massa crítica para se poder fazer ordenamento”, defende João Lé. Para tal, insta o Estado a criar legislação que fomente esta agregação. “Tenho a certeza de que haveria interessados” nessa exploração, afirma.

Com cerca de 200 milhares de hectares de património florestal, a Navigator e a concorrente Altri concentraram esforços na Afocelca, entidade que conta com três helicópteros e meios terrestres ligeiros e pesados, cerca de 500 operacionais (a que acrescem 80 técnicos florestais das empresas) e ligação direta à Proteção Civil. Nos trabalhos de prevenção, atua dentro das propriedades dos dois grupo, mas, na hora do combate, espraia-se por perímetros próximos, procurando evitar que as chamas cheguem aos terrenos por si geridos. A área de intervenção ocupa 27% do território entre Viana do Castelo e Faro, e mais de 90% das ações são efetuadas fora das propriedades dos dois grupos ligados à pasta de papel.

Desde que é dado o alerta de incêndio, a equipa da Afocelca tem apenas sete minutos até descolar.Paula Nunes/ECO

“As pessoas que fazem a prevenção, são as mesmas que fazem o combate. Evidentemente, há um reforço de meios no Verão, naqueles 3 ou 4 meses”, diz João Lé. Desafiado pelo ECO/Local Online a extrapolar a ação nos cerca de 200 mil hectares (o equivalente a 200 mil campos de futebol) para o país, sugere a criação de sapadores florestais profissionais ao longo do território.

Nas forças da Afocelca, explica, “tem-se todo o cuidado para contratar pessoas, fazer-lhes provas físicas, testes psicológicos, dar-lhes formação, treino, só depois é que integram as brigadas”.

Este modelo, defende, poderia ser replicado pelo país fora. “Hoje em dia, o que está a acontecer – não estou a fazer nenhuma crítica, é assim que tem de ser –, é que os bombeiros, com a potência de energia que os incêndios libertam, não têm forma de fazer combate direto, e têm que proteger as populações, porque essa é a primeira prioridade do Sistema Nacional de Proteção Civil”. Em consequência, “o fogo andar a queimar floresta sem qualquer controlo”, considera. “Precisamos de encontrar, entre outras vias, uma entidade que seja capaz de executar a prevenção durante o inverno e o combate durante o verão, e deixar que os bombeiros façam sobretudo a sua função de Proteção Civil. Mas para isto acontecer, tem de ser uma entidade profissionalizada”, insta.

Entre prevenção e combate, a Afocelca custa “na casa dos dez milhões de euros” à Navigator e, estima João Lé, a Altri “fará uma coisa semelhante”, o que perfaz um valor em torno dos 20 milhões de euros para manter 200 mil hectares praticamente incólumes ao fogo.

Neste valor inclui-se limpeza de caminhos e aceiros, redução da carga de combustível e outras intervenções de gestão de biomassa. “Cria as condições para haver uma intervenção de combate com maior probabilidade de sucesso”, diz o administrador.

Para o arquiteto paisagista Henrique Pereira dos Santos, nem todos os incêndios têm de ser apagados, devendo deixar-se a natureza percorrer o seu caminho a eliminar zonas de mato sem qualquer valor. Opinião partilhada pelo engenheiro florestal João Melo Bandeira. “Sei que devíamos deixar por vezes arder mais alguma coisa, principalmente quando a condição meteorológica assim o permite. Não pode é acontecer na altura do verão”, ressalva.

Kristin: a devastação espalhou-se pela região centro

Dos 11 mil hectares da Mata Nacional de Leiria, cerca de 10% foi afetado pela depressão Kristin. Em 2017 tinham ardido quase 9.000 hectares. "Podemos dizer, de forma genérica que no espaço de 10 anos vamos ter um novo Pinhal de Leiria”, afirma Paulo Farinha Luís, do ICNF Hugo Amaral/ECO

Para o ministro da Administração Interna, “durante demasiado tempo o país habituou-se a olhar para os incêndios, desgraçadamente, quase sempre na vertente do combate. Hoje sabemos que os territórios mais seguros são aqueles onde existe prevenção contínua, gestão ativa e capacidade de intervenção precoce.”

O governante destaca a alteração no paradigma do investimento no capítulo dos incêndios: em 2017, ano dos trágicos incêndios de junho e outubro, “cerca de 80% do investimento estava concentrado no combate e apenas 20% na prevenção”, enquanto, em 2024, 55% das verbas do sistema de gestão integrada de fogos rurais se direcionaram à prevenção e 45% ao combate”.

No pacote da prevenção está o incentivo financeiro de até 1.500 euros por hectare, para limpeza de floresta impactada pela depressão Kristin, atribuídos aos proprietários que façam a limpeza de terrenos florestais. Os proprietários que se inscreveram numa plataforma específica e assumiram o compromisso de fazer a limpeza, acederão ao cheque estatal logo a autarquia constate a limpeza. “As pessoas têm que nos dizer que já limparam o terreno, nós temos de ir ao terreno verificar se efetivamente isso aconteceu. Havendo condições para isso, temos condições para pagar”, sintetiza o presidente da Câmara de Ourém.

O recém-nomeado líder da AGIF concorda que “só com um território economicamente sustentável é que conseguimos mantê-lo cuidado”. Só que, tanto na intervenção dos proprietários como na execução da lei que permite que a partir de 1 de julho o Estado entre em imóveis privados para fazer essa limpeza, a falta de meios poderá fazer letra morta da lei.

Presente no terreno, João Lé diz haver “muita procura por prestadores de serviços”. “Há falta de equipamentos, de prestadores de serviços e de mão-de-obra. Temos um problema circunstancial no imediato, que é o que fazer a todas estas áreas tombadas. Para lá da desobstrução de caminhos.”

Vereadora com pelouro da Proteção Civil em Pombal, um dos municípios por onde Kristin entrou no continente, Ana Pimenta de Jesus alerta que, perante meios escassos, “vai ser muito difícil conseguirmos estar no terreno a substituir-nos aos proprietários. Uma das nossas dificuldades passa pelos sapadores florestais. Apesar de termos protocolo com o ICNF, por vezes há dificuldades em termos esses meios humanos ao nosso dispor. Ou, quando há um incêndio e precisamos de uma máquina de rastos, por vezes falta o operador”.

Ação de limpeza da floresta na Mata Nacional de Leiria, Marinha Grande.PAULO NOVAIS/LUSA

União de esforços pela via municipal

Nesta sexta-feira, mais de metade dos concelhos do continente em praticamente todos os distritos ficaram em risco máximo de incêndio (só Viana ficou de fora), e uma das consequências é a proibição de uso de motorroçadoras, equipamento quase indispensável para limpeza de terrenos. A dúvida é o que acontecerá no resto do mês.

Para João Lé, deveriam ser criados parques intermunicipais de biomassa, de modo a simplificar a logística de rentabilização de “um produto leve, com muito volume e pouco peso”. O produtor florestal, designadamente aqueles que estejam a limpar os seus terrenos até final de junho, poderia receber um valor por tonelada. “Hoje, não se recebe nada. O Estado o que faz é obrigar a limpar, se não aplica uma coima”, critica. Esta proposta, explica João Lé ao ECO/Local Online, já foi apresentada ao Governo, incluindo um desenho e uma estimativa de custos do que poderia ser um parque intermunicipal de biomassa.

Já a olhar o futuro, Paulo Farinha Luís, responsável do ICNF do centro, alude ao exemplo francês, onde foram necessários cinco anos para resolver as consequências de um comboio de tempestades. “Tem que ficar claro que não é possível fazer tudo neste curto espaço de tempo. Não podemos pensar que em cinco meses tudo será feito”.

O responsável do ICNF conclui, dizendo ao ECO/Local Online que “não é possível fazer tudo nos próximos meses”: “Isso está fora de questão, não há recursos, mesmo trazendo recursos de fora do país. Isso é uma tarefa que não é possível ser feita.”

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