“Incerteza, custos e barreiras”, a trilogia do Brexit que continua a castigar o Reino Unido

Tal como acontece em muitos divórcios, o resultado do Brexit foi 'lose-lose', mas a economia do Reino Unido foi a mais prejudicada, perdendo influência e oportunidades de crescimento e investimento.

ECO Fast
  • O impacto económico do Brexit tem sido severo, com perdas de PIB entre 6% e 8% até 2025, segundo estudos recentes.
  • A comparação entre o Reino Unido e a UE revela que as taxas de crescimento das exportações e importações britânicas estão aquém das economias semelhantes.
  • As incertezas e barreiras comerciais resultantes do Brexit têm levado a uma diminuição do investimento e a uma atratividade reduzida do Reino Unido para investidores estrangeiros.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

“As consequências económicas foram claramente negativas“, afirma Gonçalo Pina, professor associado de economia internacional na ESCP Business School, em Berlim. O melhor método para demonstrar isso é o “controlo sintético”: constrói-se um Reino Unido “fictício” a partir de um conjunto de países (ou regiões) que seguiam a mesma trajetória antes de 2016, “compara-se com o que aconteceu de facto e a diferença é o custo do Brexit”.

O académico português aponta para um estudo publicado por seis economistas do National Bureau of Economic Research (NBER) em novembro de 2025. “Nicholas Bloom e os seus coautores comparam o Reino Unido com até 33 países e obtêm uma perda de PIB de 6% a 8% no final de 2025”, refere Pina, recordando que o efeito foi mais negativo do que os cerca de 4% que se esperava na altura do referendo de 23 de junho de 2016.

Pina adianta que o estudo do NBER coloca a queda no investimento entre 12% e 13%, e o emprego e a produtividade entre 3% e 4% cada. O economista aponta ainda para outro estudo – Measuring the Regional Economic Cost of Brexit, de Eleonora Alabrese, Jacob Edenhofer, Thiemo Fetzere e Shizhuo Wang – que avalia um custo agregado de 5 a 10 pontos do PIB e que “mostra que as perdas atingem quase todo o país, com cerca de 70% das autarquias abaixo do que teriam sido sem Brexit“.

Para Marianne Mueller, european economist no BNP Paribas, esta tendência é ilustrada pela disparidade no PIB real entre o Reino Unido e a UE a 27, bem como pelas taxas de crescimento das exportações (+3,8 %) e das importações (+4,9 %) entre 2021 e 2025, que ficam aquém das registadas em economias semelhantes. “Consequentemente, a incerteza e as barreiras comerciais tiveram efeitos mensuráveis no crescimento“, explica, numa nota de análise.

Paulo Sande, especialista em assuntos europeus e sócio da Antas da Cunha Ecija, vinca ao ECO que ” a incerteza, os custos e as barreiras formam a trilogia que destrói o Reino Unido” em termos económicos.

As perdas foram significativas, com o mercado interno a diminuir de dimensão e a perder um dos seus mercados nacionais mais relevantes, e o Reino Unido a ver o seu crescimento económico, a partir da saída, diminuir de forma muito significativa.

Paulo Sande

Especialista em assuntos europeus

“As projeções iniciais, usando métodos contrafactuais ou abordagens empíricas, feitas por instituições como o FMI ou a Cambridge Econometrics, apontavam, dependendo também do que fosse e como evoluísse o acordo de comércio com a UE, para quedas entre os 2,5 a 8%”. Estudos mais recentes, adianta, indicam que o nível do PIB britânico será aproximadamente inferior em 6% ao que seria se o país tivesse permanecido na União, enquanto outros vão mais longe e referem 8% de perda média.

“As perdas foram significativas, com o mercado interno a diminuir de dimensão e a perder um dos seus mercados nacionais mais relevantes, e o Reino Unido a ver o seu crescimento económico, a partir da saída, diminuir de forma muito significativa”, acrescenta.

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No divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia – concluído formalmente a 31 de janeiro de 2020 – as duas partes ficaram enfraquecidas, na opinião de Paulo Sande. “A UE perdeu autoridade política e, ao deixar de contar com um dos dois membros com capacidade nuclear, perdeu capacidade de dissuasão”, explica. Do outro lado, “o Reino Unido, a quem os defensores do Brexit no próprio país atribuíam a capacidade de substituir o mercado europeu, e todas as políticas em comum, pela sua própria rede global de parceiros e mercados da Commonwealth, perdeu influência e estatuto”, defende, descrevendo a situação como lose-lose.

Gonçalo Pina concorda: perderam os dois. “Menos acesso aos mercados para os dois, perderam os dois no campo geopolítico“, resume. “A UE respondeu com um reforço da integração depois do Brexit, o Reino Unido perdeu muito em termos económicos e de posição no mundo”.

Uma lição para a UE é que um pouco mais de investimento e de atenção às regiões que se sentiam deixadas para trás poderia ter mudado o resultado do referendo e colocado o país noutro caminho, ou seja, a distribuição geográfica de rendimentos e de oportunidades não é só uma questão social, pode ter consequências enormes para toda a economia

Gonçalo Pina

Professor associado de economia internacional na ESCP Business School, em Berlim

“Uma lição para a UE é que um pouco mais de investimento e de atenção às regiões que se sentiam deixadas para trás poderia ter mudado o resultado do referendo e colocado o país noutro caminho, ou seja, a distribuição geográfica de rendimentos e de oportunidades não é só uma questão social, pode ter consequências enormes para toda a economia”, lamenta.

Reaproximação adiada após queda de Starmer

No final de 2020, as duas partes tentaram atenuar os impactos da separação com a assinatura do Acordo de Comércio e Cooperação, que estabelece regimes preferenciais em domínios como o comércio de bens e serviços, comércio digital, propriedade intelectual, contratação pública, aviação e transportes rodoviários, energia, pescas, coordenação da segurança social, cooperação policial e judiciária em matéria penal e a participação em programas da União. A ideia é de criar condições de concorrência equitativas.

Resultou? “Pouco”, responde Gonçalo Pina. “O ponto essencial é que o problema nunca seriam as tarifas, o problema são as barreiras não-tarifárias: controlos alfandegários, certificações, formulários, filas na fronteira”, refere, salientando que Bloom e seus coautores documentam o tempo que as empresas gastaram a preparar-se para o Brexit. “Em 2025 ainda era uma fonte importante de incerteza, são custos improdutivos que o acordo não resolveu e o Reino Unido devia voltar ao mercado único da UE o mais cedo possível”.

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Paulo Sande aborda o tema de outra perspetiva. “A questão deve pôr-se ao contrário, na minha opinião, sem o acordo as consequências teriam sido muito mais negativas”. O especialista em assuntos europeus também pede um reaproximar. “E se as dificuldades para o concluir – podia certamente ter sido muito melhor – são significativas da natureza sobretudo política da decisão dos britânicos (aliás intrinsecamente ligada a uma questão eleitoral), a verdade é que já são claras as pressões no sentido de aprofundar as relações e melhorar as condições do acordo”.

O Reino Unido busca agora um rapprochement com a União Europeia, explica Marianne Mueller, do BNP Paribas, recordando que a cimeira bilateral de maio de 2025 — a primeira desde o Brexit — culminou numa declaração conjunta, uma parceria de segurança e defesa e um roteiro voltado para o fortalecimento da cooperação em diversas áreas.

Já foram realizados progressos concretos, como a prorrogação do acordo de pesca e discussões sobre o alinhamento dos mercados de carbono e além disso, o Reino Unido negoceia atualmente um acesso mais amplo a programas europeus específicos na condição de país terceiro, notadamente o fundo de defesa SAFE e a Lei do Acelerador Industrial Europeu, vincou.

A próxima cimeira bilateral era para ser realizada em 22 de julho, para contribuir para o avanço dessas discussões, mas foi entretanto adiada devido à demissão do primeiro-ministro Keir Starmer as 23 de junho. Mueller acredita que a mudança estratégica mostrada recentemente pelo Governo trabalhista foi “uma resposta a um cenário internacional cada vez mais desafiador, caracterizado pela escalada de tensões geopolíticas, pelo acentuar de rivalidades económicas e por questões energéticas e climáticas”.

Portugal como ‘âncora’ para relações com UE?

A vitória do Leave há 10 anos retirou alguma atratividade ao Reino Unido como destino de investimento estrangeiro. “Afetou negativamente e era o esperado”, explica Gonçalo Pina. “Se a economia cresce menos e o acesso ao mercado europeu fica mais difícil, instalar uma empresa no Reino Unido passa a dar acesso a um mercado mais pequeno logo, é menos atrativo”, refere, sublinhando que “não é por acaso que os setores que mais crescem são os menos expostos a estas barreiras, como alguns serviços”.

Mas efeitos do Brexit variam entre diferentes setores e regiões, conforme frisa Marianne Mueller, do BNP Paribas “O Reino Unido continua a ser um destino atraente para o investimento estrangeiro direto, especialmente nos setores de serviços financeiros, tecnologia e inteligência artificial“, afirma. Isso deve-se, em grande parte, a regulamentações mais flexíveis nesses setores em comparação com as da UE, uma flexibilidade que já existia antes do Brexit e que foi posteriormente ampliada, particularmente no que diz respeito às normas prudenciais, a uma política governamental deliberadamente voltada para a inovação bem como a pontos fortes estruturais inerentes como a solidez de ecossistemas financeiro e tecnológico, a mão de obra qualificada e as vantagens relacionadas ao idioma e ao fuso horário, que facilitam a conexão com os mercados norte-americano e asiático).

“Essa combinação de fatores tem sustentado o investimento empresarial, a única área em que o Reino Unido conseguiu, nos últimos anos, reduzir parcialmente o distanciamento em relação à UE, ao passo que o relatório Draghi destacou que o excesso de regulamentação prejudicou esse tipo de investimento dentro da UE”, explica.

Portugal e Inglaterra formam a aliança mais antiga do mundo, estabelecida em 1373. Como é que o Brexit afetou a relação entre economias lusa e britânica? Paulo Sande responde que “introduziu fricções económicas, jurídicas e de mobilidade entre Portugal e o Reino Unido, mas não pôs em causa a relação política de fundo nem a importância do Reino Unido como parceiro comercial e estratégico de Portugal”.

Em termos práticos, houve mais burocracia e custos no comércio e circulação de pessoas, mas também um esforço bilateral de adaptação, aproveitando o enquadramento UE–Reino Unido e a relação histórica luso‑britânica”, sublinha.

“Mas em termos de investimento, apesar da redução de 4% do IDE britânico dirigido à UE, em média, que também afetou o nosso país, com menor dinamismo de novos projetos, sobretudo no período inicial, verificou-se alguma recomposição, mantendo-se o stock relevante de IDE já instalado em Portugal e com novos investimentos”, explica. Para Sande, “de alguma forma se pode dizer que a relação bilateral, a sua natureza, a presença em Portugal de uma comunidade britânica relevante (e com recursos), tem ajudado a fazer de Portugal uma espécie de ‘âncora’, também para as relações com a UE, consolidando o Reino Unido como o quinto maior investidor no nosso país.

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