Inflação, Trump e uma agenda reformista: começa a Era Warsh na Fed

Warsh inicia funções como presidente da Fed com planos ambiciosos para mudar o banco central. Escalada de inflação pode atrasar redução de juros e complicar relação com Trump desde os primeiros dias.

Kevin Warsh quer que as reuniões da Reserva Federal norte-americana (Fed) onde se decidem as taxas de juro sejam “caóticas” e uma “discussão familiar”, em vez terem um guião predeterminado que condicione a tomada de decisão mesmo antes de se sentarem à mesa do conselho.

A escolha de Trump para liderar o poderoso banco central também tem uma visão muito particular em relação ao rumo que a política monetária deve seguir: defende um relaxamento das taxas mais cedo do que se poderia antecipar face aos ganhos de produtividade que se assistirá na economia por conta do impacto da Inteligência Artificial no trabalho.

Uma ideia que já foi disputada por outros governadores, como Austan Goolsbee de Chicago, e que também poderá encontrar resistência no facto de a inflação estar a galopar para os valores mais elevados desde 2023.

O que deixa antever um início de mandato para o 17.º presidente da Fed, que se prepara para iniciar funções, no mínimo atribulado, não fossem também as exigências implacáveis de Donald Trump para cortar as taxas de juro.

Kevin Warsh EPA/WILL OLIVEREPA/WILL OLIVER

Fim do dot plot e decisões abertas

Warsh, um financeiro de 56 anos, regressa à Fed com uma agenda reformista para transformar o banco central, ou, como já disse, “mudar o regime” para evitar os erros do passado recente, em que não foi capaz de evitar o descontrolo dos preços.

Quando foi ao Senado há duas semanas, defendeu uma Fed menos interventiva no mercado e mudanças profundas na forma como o banco central lê a economia e decide.

Warsh critica o facto de a instituição ter passado anos a comprar títulos de dívida — razão pela qual abandonou o banco central em 2011 — e se apresente agora com um balanço de 6,7 biliões de dólares para encolher.

Também considera que a política de comunicação da Fed tornou os investidores demasiado dependentes das mensagens do banco central e que conceitos como o forward guidance e o famoso dot plot — introduzidos no âmago das últimas grandes crises para conferir maior certeza quanto à atuação da Fed — deixaram o banco central ‘preso’ às expectativas do mercado. Quer menos conferências de imprensa.

As reuniões de política monetária também vão mudar por dentro. Warsh não quer reuniões muito preparadas e consensuais à partida. Antes, prefere debates abertos e incertos, como se fossem uma “discussão familiar”.

Por outro lado, acredita que indicadores como a inflação e os gastos de consumo pessoal — que são centrais no atual processo de decisão sobre os juros — mostram uma realidade desfasada e quer valorizar dados mais prospetivos que avaliem melhor como forças de longo prazo — como os ganhos de produtividade e as mudanças tecnológicas — podem impulsionar a economia.

Dot plot, ou como os membros do comité da Fed antecipam a evolução dos juros a prazo.Fed

Fed à margem trará mais volatilidade

“Em síntese, a visão de Kevin Warsh pode significar uma Fed que interfira menos com o mercado e passe mais tempo à margem — por vezes, até a tomar decisões políticas que apanham os investidores de surpresa. Com menos dependência da orientação e da firmeza da Fed, é possível que o mercado assista a mais episódios de volatilidade, particularmente em torno das reuniões da Fed”, observa a Fidelity numa nota publicada esta semana.

Para a gestora de ativos, o tema da independência de Warsh face ao poder político importa, mas esta questão pode estar a desvalorizar o debate “igualmente importante” sobre as mudanças que o novo presidente da Fed quer introduzir: “Uma redução significativa do papel da Fed nos mercados financeiros, incluindo o nível de orientação que proporciona aos investidores, e, implicitamente, a sua disponibilidade para intervir quando os mercados se revelam instáveis”.

Warsh não é fã da atual Fed, mas também “não quer causar uma disrupção nos mercados”, salienta Randall Kroszner, professor de Economia da Universidade de Chicago e que também foi governador da Fed juntamente com Warsh entre 2006 e 2009.

“Não se trata apenas de ‘cortar-lhes as cabeças’ ou de, de repente, amanhã, termos um balanço de quatro biliões de dólares”, disse, citado pela Reuters.

A visão de Kevin Warsh pode significar uma Fed que interfira menos com o mercado e passe mais tempo à margem — por vezes, até a tomar decisões políticas que apanham os investidores de surpresa. Com menos dependência da orientação e da firmeza da Fed, é possível que o mercado assista a mais episódios de volatilidade, particularmente em torno das reuniões da Fed

Fidelity

Maior divisão desde 1992 e Powell na sombra

A primeira reunião do Comité Federal de Mercado Aberto na era de Kevin Warsh vai ter lugar no próximo dia 17 de junho.

Neste momento, apesar dos anseios de Trump, há praticamente 100% de certeza no mercado de que a Fed vai manter as taxas de juro no intervalo entre 3,5% e 3,75%, de acordo com a plataforma FedWatch da CME Group.

As tarifas, e sobretudo a subida dos preços da energia por conta do fecho do Estreito de Ormuz, estão a provocar uma nova aceleração dos preços. A taxa de inflação nos EUA subiu para 3,8% em abril, o valor mais elevado desde maio de 2023.

A última reunião de Jerome Powell mostrou o comité mais dividido desde 1992. Três governadores anunciaram que já não há razões para a Fed continuar a sinalizar que a próxima mudança nas taxas de juro será uma descida.

Apenas o governador Stephen Miran (aliado de Trump) defendeu um corte e foi contra a decisão de manter as taxas, mas vai ser ele a ser substituído por Warsh no conselho que continuará a ter um assento para o anterior presidente da Fed – Powell recusou a ideia de que vai ser um governador-sombra, mas assegurou que não deixará o board até que a investigação aberta pelo Departamento de Justiça por causa dos gastos com as obras do novo edifício “esteja verdadeira e definitivamente encerrada”.

Há quem veja a permanência de Powell, alguém que granjeia respeito no seio do staff da Fed, como mais um elemento perturbador. “Não vai tornar as coisas mais fáceis”, admite John Cochrane, economista da Hoover Institution, citado pelo Financial Times.

Ou seja, o presidente da Fed não decidirá sozinho os destinos do banco central e tampouco terá a concordância dos outros membros. Além disso, lembra a Fidelity, a história tem mostrado que o legado dos anteriores presidentes da Fed foi mais vezes definido pela necessidade de responder aos acontecimentos do que pela visão de uma personalidade. Por exemplo, Ben Bernanke nunca terá pensado num plano para comprar biliões de dólares em obrigações nas audições para líder da Fed em 2005, antes da grande crise financeira. “E o termo quantitative easing nem fazia parte do vocabulário da maioria dos investidores”.

Talvez por isso, acredita a Fidelity, os mercados estejam a reagir pouco à mudança de comando na Fed.

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