A inovação existe, mas disseminação é limitada, o que se traduz em impactos diretos na especialização produtiva, fragilizando a coesão territorial e restringindo dinâmicas de crescimento.
Portugal tem vindo a registar melhorias nos seus indicadores médios de inovação, mas essa evolução agrega uma fragilidade estrutural que condiciona o potencial de crescimento económico: a inovação permanece fortemente concentrada na área de Lisboa, sem uma difusão efetiva pelo conjunto do território.
O Regional Innovation Scoreboard (RIS) de 2025, publicado pela Comissão Europeia, confirma um padrão já visível noutras dimensões da economia portuguesa. O problema não reside apenas no nível de desempenho, mas sobretudo na sua distribuição desigual. A inovação existe, mas a sua disseminação é limitada, o que se traduz em impactos diretos na especialização produtiva, fragilizando a coesão territorial e restringindo as dinâmicas de crescimento no longo prazo.
Mais preocupante ainda é o facto de esta configuração não ser meramente circunstancial, mas sim o reflexo de um modelo económico persistente. Trata-se de um modelo marcado por um forte centralismo e por uma especialização excessiva em atividades de baixo valor acrescentado, ao mesmo tempo que revela dificuldades estruturais na conversão de conhecimento em valor económico — uma limitação evidenciada para o conjunto do país no European Innovation Scoreboard (EIS) de 2025, a publicação relacionada da Comissão que analisa o desempenho de inovação nos Estados-membros da UE .
Essas limitações comprometem a capacidade de transformar investimento em ciência e tecnologia em ganhos de produtividade e competitividade, como tive oportunidade de analisar em crónicas anteriores (“Três bloqueios ao crescimento económico em Portugal ” e ”Transformar o conhecimento em mais inovação e valor”, respetivamente).
O RIS 2025 não se limita a acrescentar evidência empírica. Transporta uma mensagem inequívoca: sem uma estratégia de inovação com verdadeira dimensão territorial, Portugal continuará a registar um crescimento aquém do seu potencial, perpetuando desequilíbrios estruturais e limitando a capacidade de convergência económica e redução das assimetrias no desenvolvimento territorial.
O RIS 2025 não se limita a acrescentar evidência empírica. Transporta uma mensagem inequívoca: sem uma estratégia de inovação com verdadeira dimensão territorial, Portugal continuará a registar um crescimento aquém do seu potencial, perpetuando desequilíbrios estruturais e limitando a capacidade de convergência económica e redução das assimetrias no desenvolvimento territorial.
Lisboa como exceção: quando a média esconde o problema
O RIS 2025 evidencia que a Grande Lisboa é a única região portuguesa classificada como “inovadora forte”, apresentando um desempenho equivalente a 109,6% da média da União Europeia (UE), conforme ilustrado na Tabela 1.
Mais do que isso, a região continua a acentuar o seu afastamento face ao restante território, tendo registado a maior progressão a nível nacional do índice de inovação tanto no período entre 2018 e 2025 como na evolução mais recente entre 2023 e 2025. Este resultado não é surpreendente, sendo antes a consequência direta de um modelo fortemente centralizado, no qual se concentram as decisões políticas, as sedes empresariais, os principais centros de investigação, o acesso ao financiamento e uma parte significativa do talento mais qualificado.
Importa sublinhar que este centralismo não é neutro do ponto de vista económico. Ao canalizar recursos de forma desproporcionada para um único território, limita a capacidade das restantes regiões desenvolverem os seus próprios ecossistemas de inovação. O efeito é cumulativo e auto reforçador: Lisboa atrai mais recursos precisamente porque já dispõe de uma base mais sólida, num contexto em que a ausência de políticas públicas eficazes aprofunda o esvaziamento relativo do resto do território numa dimensão crítica para o desenvolvimento.
Esta assimetria acaba também por distorcer a leitura da média nacional apresentada no EIS 2025. Com um índice de 90,7% da média europeia, Portugal surge numa posição intermédia, ocupando o 16º lugar entre os 27 Estados-membros e sendo classificado como Inovador Moderado, um desempenho que à primeira vista não parece particularmente desfavorável.
Contudo, esta média está significativamente inflacionada pelo peso da Grande Lisboa. Quando se observa a média simples dos indicadores regionais, o valor desce para 80,7% e reduz-se ainda mais para 76,6% quando se exclui a Grande Lisboa. Estes níveis colocariam Portugal entre os países com pior desempenho relativo, mais próximos do grupo dos cinco a sete Estados-membros menos bem classificados, em linha com a posição que o país tem vindo a ocupar em termos de nível de vida.
Na prática, a maioria das regiões portuguesas apresenta níveis de desempenho inferiores a 80% da média da UE, o que evidencia a profundidade do desequilíbrio territorial na capacidade de inovação.
Tabela 1. Desempenho de inovação das regiões de Portugal no RIS 2025

Fonte: Regional Innovation Scoreboard (RIS 2025) da Comissão Europeia (ficha de Portugal).
Um país de “inovadores moderados”, a pender para menos — e com regiões que ficam para trás
A análise regional revela um padrão claro de divergência interna, que importa interpretar com atenção. Prosseguindo a leitura da Tabela 1, a região Centro surge classificada como “inovador moderado +”, com um desempenho de 90,1%, ainda assim abaixo da média nacional, o que confirma o peso desproporcionado da Grande Lisboa na formação desse indicador agregado.
O Norte, com 88,8%, e a Península de Setúbal, com 82,3%, posicionam-se ligeiramente abaixo do Centro, integrando o grupo dos “inovadores moderados”, que corresponde à classificação global de Portugal.
Segue-se um conjunto de regiões com desempenhos mais frágeis, enquadradas como “inovadores moderados“, designadamente o Oeste e Vale do Tejo, com 79,3%, o Algarve, com 72,1%, e a Madeira, com 71,4%. Num patamar ainda mais baixo encontram-se as regiões classificadas como “inovadores emergentes”, designação que, na prática, corresponde às regiões com maior atraso neste indicador: o Alentejo, com 69,1%, e a Região Autónoma dos Açores, com 62,2%.
Este padrão evidencia uma realidade estrutural: Portugal não dispõe de um sistema de inovação verdadeiramente nacional, mas sim de um sistema fortemente concentrado num único polo. Essa concentração tem implicações económicas profundas.
Desde logo, limita a difusão tecnológica, uma vez que as empresas localizadas fora dos principais centros têm menor acesso a conhecimento, financiamento e redes de inovação, fatores essenciais para ganhos de produtividade. Em segundo lugar, condiciona a especialização produtiva, empurrando as regiões menos inovadoras para atividades de menor valor acrescentado e menor intensidade tecnológica. Por fim, compromete a coesão territorial, ao agravar assimetrias já existentes entre regiões.
A Figura 1 ilustra de forma clara esta desigualdade territorial em matéria de inovação (cujo o padrão de cores tem o mesmo significado do apresentado na Tabela 1), a qual se repercute inevitavelmente noutras dimensões económicas, nomeadamente na produtividade e no nível de vida das diferentes regiões.
Figura 1. Mapa do desempenho de inovação das regiões de Portugal no RIS 2025

Fonte: Regional Innovation Scoreboard (RIS 2025) da Comissão Europeia (ficha de Portugal).
Nota: o padrão de cores tem o mesmo significado do apresentado na Tabela 1.
O problema não é novo: Portugal continua a falhar na transformação do conhecimento
Esta leitura regional reforça um problema que já identifiquei ao nível nacional.
Na crónica ”Transformar o conhecimento em mais inovação e valor”, sublinhei que Portugal tem feito progressos relevantes ao nível das qualificações e da produção científica, mas continua a falhar na sua transformação em valor económico, uma das principais conclusões que emerge da análise do EIS 2025.
O RIS 2025 evidencia que essa transformação não só permanece insuficiente, como também fortemente concentrada do ponto de vista geográfico. Por outras palavras, mesmo quando o conhecimento é gerado, a sua tradução em inovação económica não ocorre de forma disseminada pelo território.
Isto coloca uma questão fundamental para a política económica: qual é o verdadeiro retorno do investimento em capital humano e em ciência quando os mecanismos de transmissão para o tecido produtivo são limitados e, além disso, marcadamente assimétricos entre regiões?
Sem uma ligação efetiva entre a produção de conhecimento e a sua aplicação económica, o impacto da inovação na produtividade, na competitividade e no crescimento será inevitavelmente reduzido, comprometendo a capacidade do país em transformar investimento em desenvolvimento sustentado
A resposta impõe-se com clareza. Sem uma ligação efetiva entre a produção de conhecimento e a sua aplicação económica, o impacto da inovação na produtividade, na competitividade e no crescimento será inevitavelmente reduzido, comprometendo a capacidade do país em transformar investimento em desenvolvimento sustentado.
Turismo e centralismo: os bloqueios que moldam o mapa da inovação
A distribuição regional da inovação não pode ser analisada isoladamente. Está profundamente ligada ao modelo de crescimento da economia portuguesa.
Na crónica “Três bloqueios ao crescimento económico em Portugal” identifiquei três fatores particularmente relevantes que ajudam a contextualizar e reforçar esta crónica: o peso excessivo do turismo, o centralismo e o baixo nível de investimento nacional.
O RIS 2025 evidencia, de forma consistente, como estes fatores se materializam no território. As regiões com maior especialização no turismo, como o Algarve e as regiões autónomas, apresentam dos níveis de inovação mais baixos do país, o que está longe de ser uma coincidência.
Embora o turismo desempenhe um papel relevante, trata-se, em geral, de uma atividade com menor intensidade tecnológica e reduzida incorporação de conhecimento. Quando assume um peso dominante na estrutura produtiva, tende a reduzir os incentivos ao investimento em inovação, quer ao nível das empresas, quer ao nível do próprio ecossistema económico.
Em paralelo, o centralismo contribui para reforçar a concentração de recursos na área de Lisboa, dificultando a emergência e consolidação de polos regionais de inovação no restante território. Essa limitação reduz a capacidade de atrair investimento e talento em atividades mais intensivas em capital e conhecimento, nomeadamente na indústria e nos serviços avançados, que são determinantes para a sofisticação económica.
O resultado é uma configuração económica marcada por uma fraca diversificação produtiva, uma elevada concentração geográfica da atividade e uma difusão limitada da inovação, a par de um défice persistente de investimento produtivo.
Este modelo de especialização, assente no turismo e em serviços de baixo valor acrescentado, pode sustentar níveis de crescimento e de emprego no curto prazo. No entanto, impõe restrições significativas ao potencial de convergência no longo prazo, ao limitar ganhos de produtividade e a capacidade de transição para atividades mais sofisticadas.
Sem polos regionais de inovação não há crescimento sustentado
A evidência internacional é consistente: as economias que conseguem convergir com a fronteira tecnológica não assentam num único centro de inovação. Pelo contrário, desenvolvem redes articuladas de cidades e regiões dinâmicas, interligadas entre si, capazes não só de gerar conhecimento, mas também de o difundir de forma eficiente pelo tecido económico.
Portugal permanece ainda distante desse modelo. A ausência de polos regionais de inovação robustos implica que uma parte significativa do tecido empresarial opera sem uma ligação efetiva a sistemas de produção e transferência de conhecimento, o que condiciona o seu desempenho.
Esta limitação traduz-se, desde logo, em níveis de produtividade mais baixos, numa menor capacidade de exportação de bens e serviços diferenciados e numa reduzida atratividade para investimento qualificado, particularmente aquele associado a atividades intensivas em tecnologia e conhecimento.
Adicionalmente, este quadro contribui para agravar um problema estrutural relevante, que é a saída de talento das regiões menos dinâmicas, reforçando um ciclo cumulativo de divergência territorial. À medida que os recursos humanos mais qualificados se concentram nos poucos polos existentes, enfraquece-se ainda mais a capacidade dessas regiões periféricas desenvolverem ecossistemas de inovação próprios.
Sem uma estratégia deliberada de desenvolvimento regional assente na inovação, que promova a criação e consolidação de polos fora dos centros tradicionais, este padrão tenderá a persistir, limitando o potencial de crescimento e aprofundando as assimetrias económicas no país.
Conclusão: o problema não é falta de inovação — é falta de estratégia
O RIS 2025 transmite uma mensagem clara e difícil de ignorar: Portugal não enfrenta apenas um problema de nível de inovação, mas sobretudo um problema de modelo. A inovação existe, mas encontra-se excessivamente concentrada, e essa concentração compromete dimensões essenciais como a especialização produtiva, a coesão territorial e o próprio potencial de crescimento económico.
Como tenho vindo a sublinhar, não é suficiente aumentar o volume de investimento. É fundamental melhorar a sua qualidade, orientação e distribuição territorial.
Isso exige, desde logo, o reforço dos sistemas regionais de inovação, a criação e consolidação de polos fora da área da Grande Lisboa, e uma maior articulação entre as políticas de inovação e as estratégias de desenvolvimento regional. Exige também uma reorientação progressiva da estrutura económica, reduzindo a dependência de atividades de baixo valor acrescentado.
No entanto, esta transformação implica enfrentar uma questão estrutural incontornável: o centralismo. Sem alterações no modelo de governação e na forma como os recursos são alocados no território, será muito difícil inverter o atual padrão de concentração.
Num contexto em que é expectável uma redução dos fundos europeus disponíveis já num futuro próximo, este desafio ganha ainda maior urgência. A margem para ineficiências e desequilíbrios será cada vez menor, o que reforça a necessidade de escolhas estratégicas mais exigentes.
A questão, por isso, não é se devemos agir, mas sim se existe disponibilidade para alterar um modelo que, sendo confortável para alguns, limita o potencial de crescimento do país no seu conjunto. A evidência empírica é clara: adiar essa transformação terá custos económicos e sociais crescentes.
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Inovação regional: o retrato de um país desequilibrado
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