Investir na economia do espaço pode ter um efeito catalisador na criação de emprego com um impacto acumulado no PIB de mais de 40 mil milhões até 2040, aponta estudo da BCG para a New Space Alliances.
- Um investimento de 4 mil milhões de euros no setor espacial em Portugal poderá gerar um impacto acumulado de mais de 40 mil milhões de euros no PIB até 2040, criando 27 mil novos postos de trabalho.
- A indústria espacial portuguesa cresceu 40% em número de empresas e 50% em emprego entre 2019 e 2023, mas ainda representa apenas 0,03% do PIB nacional.
- O investimento público é crucial para acelerar o setor, prevendo-se que contribuições superiores a 3 mil milhões de euros até 2040 estimulem o crescimento e a inovação.
Um investimento de 4 mil milhões de euros no setor espacial em Portugal poderia desbloquear mais de 40 mil milhões de euros de impacto acumulado no PIB até 2040, criar cerca de 27 mil novos postos de trabalho diretos e indiretos, 6 mil dos quais altamente qualificados, e construir uma economia espacial anual de 2 mil milhões de euros, aponta o estudo “Portugal no Espaço – Potenciar 40 mil milhões de euros em inovação e crescimento económico”, realizado pela Boston Consulting Group (BCG) para a New Space Alliances, a que o ECO/eRadar teve acesso. O estudo será apresentado na quarta-feira em Bruxelas, na European Space Conference.
O setor espacial nacional tem vindo a crescer ao longo da última década. Entre 2019 e 2023, a indústria registou um crescimento de 40% no número de empresas ativas — entre elas 42 startups (empresas com menos de nove colaboradores) que representam cerca de metade do setor — e de 50% do emprego. Em 2023, a indústria gerava 121 milhões de euros, ou seja, 0,03% do PIB, “muito aquém do seu potencial”.
Um potencial que a BCG considera que pode ser alavancado através de um investimento de 4 mil milhões de euros, maioritariamente de origem institucional (80%), “mas acompanhado por um aumento de nove vezes no capital privado entre 2025 e 2040″ — estimava-se que em 2023 o investimento privado relacionado com o setor espacial fosse de apenas 10 milhões de euros — escalando as capacidades nacionais.
“O setor espacial é, por natureza, fortemente impulsionado pelo Estado, sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento. Isto deve-se à elevada intensidade de capital, aos longos ciclos de retorno e à sua relevância estratégica. O investimento público desempenha, assim, um papel catalisador, ao criar escala, reduzir risco e permitir a entrada progressiva de capital privado, com efeitos de arrastamento significativos sobre o resto da economia”, começa por referir Carlos Elavai, managing director da BCG Portugal, ao ECO/eRadar.

Mas, “em Portugal, antecipa-se igualmente um aumento relevante do investimento privado à medida que o setor ganha dimensão”, ressalva. As estimativas dão disso conta. “Este deverá passar de cerca de 5% em 2023 (aproximadamente 7,5 milhões de euros por ano) para cerca de 30% em 2040 (cerca de 130 milhões de euros por ano), resultante de novo capital de risco e do reinvestimento privado das próprias empresas. Esta tendência deverá prolongar-se para além de 2040″, antecipa.
“O investimento público continuará, por isso, a ser o principal acelerador do setor. Estima-se um montante acumulado superior a 3 mil milhões de euros até 2040, através de contribuições para a Agência Espacial Europeia (ESA), fundos europeus e contratação pública de serviços espaciais nas áreas da defesa e da gestão do território, entre outras. Nos últimos meses, já se materializou uma parte deste investimento, nomeadamente com o reforço do PRR para o espaço em 280 milhões de euros e com o aumento da contribuição nacional para a ESA em cerca de 200 milhões de euros ao longo dos próximos três anos”, realça o responsável da BCG.
Pelos cálculos da BCG, com essa injeção de capital no ecossistema, Portugal pode “gerar 17 mil milhões de euros em receitas entre 2025 e 2040. Esta atividade poderá gerar mais de 40 mil milhões de euros de resultado acumulado no PIB até 2040 — representando um efeito multiplicador no PIB de cerca de três vezes”, pode ler-se no estudo produzido pela BCG para a New Space Alliances, associação privada fundada pelo CEiiA, o CTI Aerospacial, a N3O e a GEOSAT, e que será esta terça-feira apresentado na 18.ª edição da European Space Conference, em Bruxelas, durante o slot “Setting Priorities for Space Research and Innovation in the Next Funding Cycle”.

“Este impacto será impulsionado não apenas pelo crescimento direto do setor espacial, mas também considera os efeitos indiretos e induzidos em indústrias adjacentes, como metais complexos, construção, fabrico avançado, eletrónica/microeletrónica, serviços de análise de dados, serviços ambientais, entre outros. Este efeito reforçará as cadeias de abastecimento, estimulará a inovação intersetorial e impulsionará exportações de elevado valor”, refere.
“Até 2040, a economia espacial portuguesa poderá alcançar: 2 mil milhões de euros de volume de negócios anual, criação de mais de 6 mil empregos altamente qualificados, e uma contribuição equivalente a 17 vezes a sua quota atual no PIB nacional — passando de 0,03% hoje para cerca de 0,50%”, refere o estudo.
O investimento público continuará, por isso, a ser o principal acelerador do setor. Estima-se um montante acumulado superior a 3 mil milhões de euros até 2040, através de contribuições para a Agência Espacial Europeia (ESA), fundos europeus e contratação pública de serviços espaciais nas áreas da defesa e da gestão do território, entre outras. Nos últimos meses, já se materializou uma parte deste investimento, nomeadamente com o reforço do PRR para o espaço em 280 milhões de euros e com o aumento da contribuição nacional para a ESA em cerca de 200 milhões de euros ao longo dos próximos três anos.
Mas há que acelerar o investimento no setor. Tanto pela via pública, como privada. Em 2023, o país assegurou um investimento total de cerca de 155 milhões de euros para o setor espacial. “Cerca de 90% destes fundos tiveram origem em fontes públicas civis, 5% em fontes públicas de defesa e os restantes 5% em capital privado”, refere o estudo.
“Em 2030 é esperado que o investimento anual no setor ascenda até aos 240 milhões de euros, com as fontes públicas civis a representar 50% do financiamento total, mantendo um contributo absoluto semelhante, apesar da mudança no peso relativo das diferentes fontes. A Defesa Pública poderá assumir um papel bastante mais relevante, representando cerca de 40% do financiamento, impulsionada por necessidades operacionais de curto prazo. O capital privado deverá registar um crescimento ligeiro, mas consistente, representando 10% do total”, estima a BCG.
Já em 2040, estima-se que “as fontes públicas civis representem 40% do financiamento, um peso relativo inferior apesar de aumentos táticos de despesa. A Defesa Pública poderá continuar a desempenhar um papel significativo, com 30% do total. Já o capital privado deverá dar o maior salto, impulsionado pelo desenvolvimento do mercado”, considera.
As fontes de financiamento para o setor
Que fontes de financiamento poderão dar o seu contributo? Fundos europeus geridos por Portugal (PRR ou os PT2020 e PT2030); fundos europeus geridos por instituições europeias (Horizon 2020 ou Horizon Europe); financiamento de entidades nacionais (CCDR, incubadoras…); de entidades internacionais (Agência Europeia Espacial, por exemplo), mas também, num momento de aposta nas chamadas tecnologias de uso dual, no Fundo Europeu de Defesa; NATO, Lei de Programação Militar, elenca a consultora. Com o contributo do setor privado a vir do private equity, capital de risco ou atividades de M&A, dá como exemplo.
E como aumentar o contributo do capital privado via capital de risco, historicamente escasso, para o setor? “O capital privado tende a surgir em escala quando existe procura clara e redução de risco associado”, lembra Carlos Elavai, apontando que o estudo elenca várias “alavancas” para estimular o investimento privado na indústria.

Por exemplo, “o Estado assumir um papel de cliente âncora — e.g. através da Defesa, proteção civil, ambiente e entidades marítimas — contratando de forma regular dados e serviços espaciais portugueses para suprir as suas necessidades, criando previsibilidade de receitas e confiança para investir no desenvolvimento de novas capacidades”, mas também através de “modelos de coinvestimento público-privados, como fundos que invistam lado a lado com o capital de risco, partilhando o risco inicial associado a estes projetos”, ou através da “aposta em áreas de serviços e dados (downstream), que exigem menor intensidade de capital e apresentam ciclos de retorno mais curtos”.
Outra das alavancas, seria “clareza e simplificação regulatória, através de uma Lei do Espaço Moderna e de processos de licenciamento mais ágeis, reduzindo a incerteza e acelerando a entrada de novas empresas no mercado”, destaca o managing director da BCG Portugal, ao ECO/eRadar.

Retrato do setor espacial privado
Ao longo da última década, a indústria espacial em Portugal tem vindo a crescer de forma constante, com um aumento de 40% no número de empresas ativas e uma subida de 50% no emprego entre 2019 e 2023.
Pouco mais de 40 startups — definidas como empresas com menos de nove colaboradores — representam cerca de metade do setor. Mas o espaço, aponta o estudo, é “uma linha de negócio secundária para muitas empresas”, mais uma estratégia de diversificação do que a sua atividade principal.
“Esta realidade reflete tanto a ausência de um mercado nacional sólido de contratação pública, como a escala limitada do investimento público — fatores que dificultam a priorização do setor espacial face a verticais mais estabelecidos”, justifica o estudo.

O setor, alerta ainda a BCG, continua também “fortemente dependente dos mercados internacionais”. “Muitas empresas recorrem à importação de componentes e exportam a maioria dos seus serviços para a ESA, programas da UE ou parceiros comerciais estrangeiros. Os contratos nacionais com clientes âncora permanecem escassos, e as missões lideradas por Portugal continuam limitadas — o que restringe as oportunidades de ganhar histórico operacional (heritage) e experiência em órbita através de iniciativas financiadas nacionalmente”, refere.
Economia global do espaço está a crescer
A nível global a economia do espaço tem vindo a reforçar o seu peso, com a crescente procura por aplicações de defesa, conectividade segura ou sistemas de monitorização climática. Os números são expressivos do crescimento da indústria.
“Passou de 337 mil milhões de euros em 2020 para 540 mil milhões de euros em 2024, e estima-se que ultrapasse 1 bilião de euros até 2040 (com um CAGR >3,4% entre 2025 e 2040), segundo a Space Foundation”, aponta o estudo. Mais de 77% da atividade espacial é comercial.

Sinal desse dinamismo é o aumento do número de lançamentos de satélites: de uma média de 300 por ano, na década de 2010, para mais de 2.500 satélites em 2023, impulsionados, sobretudo, por megaconstelações comerciais como a Starlink, da SpaceX, refere.
“O número de empresas espaciais ativas cresceu de aproximadamente 600 em 2012 para mais de 1.000 em 2023, com novos players a entrarem em domínios que antes estavam restritos às agências governamentais”, refere ainda.
Estados Unidos, China e Europa são as regiões que concentram a atividade espacial. Em 2023, estavam em operação mais de 5.500 satélites a nível global, “com os EUA e a China a deterem a grande maioria dos ativos, lançamentos e do capital privado investido”.

Como Portugal se pode posicionar na economia do espaço
Na Europa, o tema defesa tem vindo a colocar na ordem do dia o espaço e a chamada soberania espacial, com o Continente a abrir os cordões orçamentais e a responder com investimentos avultados: há “mais de 10 mil milhões de euros comprometidos nos programas IRIS², GOVSATCOM, EU SST e em programas dual-use da ESA”, lembra o estudo.
Mas, assinala a BCG, os fundos da ESA “não serão distribuídos de forma equitativa”. Ou seja, “serão atribuídos aos países que atuarem rapidamente para escalar competências, especializar-se em segmentos estratégicos e demonstrar capacidade operacional”.
Como poderá então Portugal posicionar-se? “A economia espacial oferece muitas oportunidades, mas tendo em conta a dimensão de Portugal, é essencial concentrar esforços nas áreas onde o país pode competir à escala europeia e global”, refere Carlos Elavai.
“O estudo apresenta uma visão unificada para os domínios civis e de defesa, identificando cinco áreas prioritárias: o desenvolvimento das capacidades de satélites para observação da terra, rentabilização dos dados espaciais; contribuição para as novas gerações de lançadores; promoção do acesso ao espaço e aposta em domínios emergentes”, elenca o managing partner da BCG Portugal.
Em particular, “Portugal dispõe de um ativo estratégico muito relevante – a Constelação do Atlântico, uma das poucas constelações europeias com capacidade para fornecer imagens da terra de muito alta resolução”, destaca.

Assim, para tirar pleno partido do potencial de Portugal para o setor do espaço, é necessário, para a BCG, “escalar a Constelação do Atlântico, colocando mais satélites em órbita, de forma a melhorar as suas capacidades — permitindo observar áreas maiores, obter imagens com maior frequência e combinar diferentes tecnologias adequadas a vários ambientes e missões”.
Mas também “adotar uma abordagem verticalizada a cada uma das cinco áreas prioritárias, partindo dos requisitos da defesa e posterior valorização de capacidades para aplicações civis”, assim como “trabalhar em estreita colaboração com os principais players do setor e com os utilizadores finais no desenvolvimento de plataformas de análise de dados, de forma a transformar dados espaciais em serviços alinhados com necessidades concretas”.
O reforço do contributo de Portugal para a ESA está alinhado com a nossa perspectiva de que Portugal assuma um papel mais relevante no Programa Espacial Europeu. Ao abrigo do princípio de retorno industrial adotado pela ESA, este investimento público traduz-se em mais contratos europeus para as empresas portuguesas, permitindo-lhes ganhar escala, desenvolver competências críticas para competir no mercado global e acumular experiência em áreas estratégicas como Observação da Terra, nova geração de lançadores europeus e infraestrutura de acesso ao espaço.
Para esse posicionamento — e crescimento da economia — contribuiu o aumento de 51% no contributo de Portugal para a ESA, referente ao período 2026-2030. O país vai entrar com 204,8 milhões de euros para o orçamento de 22,3 mil milhões de euros da ESA, uma subida de 51% do contributo português, o maior de sempre.
“O reforço do contributo de Portugal para a ESA está alinhado com a nossa perspetiva de que Portugal assuma um papel mais relevante no Programa Espacial Europeu. Ao abrigo do princípio de retorno industrial adotado pela ESA, este investimento público traduz-se em mais contratos europeus para as empresas portuguesas, permitindo-lhes ganhar escala, desenvolver competências críticas para competir no mercado global e acumular experiência em áreas estratégicas como Observação da Terra, nova geração de lançadores europeus e infraestrutura de acesso ao espaço”, considera Carlos Elavai, managing director da BCG Portugal.
Em particular, “o desenvolvimento do Space Hub de Santa Maria permitirá posicional Portugal como um dos únicos hubs europeus de lançamentos, reentrada e operações espaciais para missões de soberania, potenciando-se ainda, num futuro próximo, uma utilização dual-use a partir de Santa Maria“, destaca. O projeto terá um financiamento de 15 milhões de euros.
“Este reforço na ESA é um primeiro passo estruturante. Quando combinado com as restantes alavancas identificadas no estudo – Governação, Capacidade Industrial, Inovação, Talento e Regulação – poderá gerar cerca de 5 mil milhões de euros de impacto económico até 2030 e 40 mil milhões até 2040.

Ao nível do talento, o país também enfrenta desafios. Embora, nos últimos anos, a formação superior relacionada com o setor espacial tem vindo a “expandir-se significativamente”, com “cerca de 375 novos estudantes de licenciatura a ingressar anualmente em programas especializados em engenharia aeroespacial”, nas principais instituições de ensino do país”, e o emprego na área tenha aumentado mais de 50% desde 2019, “o número total de profissionais continua muito abaixo dos pares europeus”, aponta o estudo.
A dispersão do setor por pastas de intervenção também poderá não estar a dar o contributo mais desejável. “O setor do espaço gera benefícios em várias áreas estratégicas: Ciência, Economia, Defesa e Ambiente, entre outras. Por essa razão, é essencial adotar uma visão integrada e focada, concentrando recursos nas áreas onde o espaço pode gerar maior impacto para o país”, defende o managing partner da BCG.
Por isso, apontam várias recomendações. “Criar um conselho nacional de estratégia nacional, ao mais alto nível, responsável por alinhar prioridades nacionais claras, coordenar os diferentes intervenientes, acompanhar o impacto do investimento público e execução da estratégia”, começa por destacar.
Mas não só. Há que “reforçar e dinamizar o papel das organizações públicas e das privadas que promovem o setor em Portugal e além-fronteiras, conferindo-lhe uma maior capacidade de coordenação, alinhamento interministerial e acompanhamento da implementação da estratégia nacional”, diz.
E ainda, “lançar alianças industriais bilaterais com países parceiros, promovendo parcerias no desenvolvimento de competências em áreas estratégicas como a Observação da Terra e lançadores” e “alinhar as estratégias e os financiamentos regionais com as prioridades nacionais, garantindo coerência, escala e maior impacto económico e territorial”.
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