À frente do braço químico do Grupo José de Mello há décadas, o gestor protagonizou este ano um dos maiores negócios de empresas portuguesas em Espanha, com o controlo da Ercros por 247,5 milhões.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
Foi a 5 de março de 2024 que, num movimento inesperado e “não solicitado”, a química portuguesa Bondalti lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a gigante espanhola Ercros. Teve de esperar mais de dois anos para assistir ao sucesso da aquisição, com o “sim” de investidores com mais de 77% do capital. A operação tinha uma ambição clara: tornar a química do Grupo José de Mello um “campeão ibérico” no setor químico, conforme afirmou por diversas vezes João de Mello, o líder da Bondalti e o principal responsável pelo negócio. Com uma determinação inabalável, o empresário português não se deixou vencer pela lentidão dos reguladores, pela oposição da então gestão da Ercros, nem tremeu quando surgiu uma OPA concorrente da italiana Esseco, com um preço superior.
“A chave do êxito foi ele”, garante ao ECO Luís Eça Pinheiro, diretor de comunicação do Grupo Bondalti, que está no Grupo Mello desde 1995, notando que o gestor “teve muita determinação” ao longo de todo o processo. João de Mello é o CEO da Bondalti desde 2018, quando o Grupo José de Mello decidiu substituir a marca CUF na venda de produtos químicos, mas antes disso já era ele quem liderava há várias décadas o negócio da área química do grupo.

Num setor onde a dimensão conta, o gestor do grupo do universo Mello viu uma oportunidade para se juntar à espanhola Ercros, aumentando a sua presença num mercado onde está desde 2019, com a inauguração da uma unidade fabril em Torrelavega, na região da Cantábria. Mais tarde, em 2021, comprou o grupo Águas Alfaro (AEMA), no segmento de tratamento de águas. Numa operação marcada pela complexidade, perante as dificuldades, João de Mello agigantou-se. Procurou explicar as vantagens do negócio aos investidores, grandes e pequenos, reuniu-se com membros do Executivo de Sánchez, deu entrevistas aos meios de comunicação espanhóis e, sabe-se agora, contou com o apoio de Luís Montenegro, que acompanhou “do ponto de vista diplomático” a operação — e ficou satisfeito com o desfecho favorável à companhia lusa. E, por fim, cantou vitória.
“É com satisfação que verificamos que os acionistas reconheceram o valor da nossa Oferta num contexto de elevada incerteza geopolítica e instabilidade dos mercados”, disse, após serem conhecidos os resultados finais da oferta que envolveu um investimento superior a 247,5 milhões de euros. “Com o sucesso desta operação inicia-se um novo caminho para que a Bondalti e a Ercros, trabalhando de forma conjunta, possam dar origem a um grupo industrial com vocação de liderança a nível europeu, reforçando a sua escala e resiliência“, sustentou, numa mensagem de otimismo e esperança.
Com o sucesso desta operação inicia-se um novo caminho para que a Bondalti e a Ercros, trabalhando de forma conjunta, possam dar origem a um grupo industrial com vocação de liderança a nível europeu, reforçando a sua escala e resiliência (…) orientada para a criação de valor sustentável para todos os stakeholders, contando com a equipa da Ercros, cujo conhecimento e experiência consideramos um ativo essencial e um fator diferenciador da empresa.
Focado no futuro, e num momento em que o setor químico europeu atravessa uma crise profunda devido a vários fatores, o gestor português deixou claro que a sua prioridade — será ele a liderar também a empresa catalã — é “conduzir de forma ordenada o processo de integração e a definição do projeto futuro conjunto, com uma abordagem prudente, construtiva e orientada para a criação de valor sustentável para todos os stakeholders, contando com a equipa da Ercros, cujo conhecimento e experiência consideramos um ativo essencial e um fator diferenciador da empresa. O nosso compromisso com a Ercros e com o setor químico ibérico é firme”.
O português queria ter começado mais cedo, mas não foi possível. “Batemos alguns recordes que infelizmente não deviam ter sido batidos. Isto não pode acontecer“, lamentou em declarações ao Negócios, referindo-se ao tempo recorde, pela negativa, que durou a OPA. “Nestes dois anos, o que aconteceu? Guerras, mercados a cair, preços da energia… há uma alteração brutal das condições de mercado“, acrescentou.
Em Espanha, “foi muito bem recebido”, apresentou-se com “muita vontade de trabalhar“, explica o diretor de comunicação da Bondalti. Além dos 787 profissionais que empregava no final de 2024, a Bondalti vai integrar os 1.344 funcionários da química espanhola, mantendo ainda as 10 unidades da Ercros no país.
“Gestor muito corajoso e amigo dos seus colaboradores”
Apesar de apenas trabalhar diretamente com João de Mello há cerca de cinco anos, Luís Eça Pinheiro conhece bem o líder do braço químico, adiantando que é “bastante excitante” trabalhar com o CEO da Bondalti. “Foi uma excelente surpresa. Tem uma visão de longo prazo, de crescimento e é um gestor muito corajoso e amigo dos seus colaboradores”.

“O João tem uma característica enquanto gestor, é uma pessoa do contacto humano e quer conhecer todas as pessoas que trabalham com ele”, acrescenta. “É um grupo geograficamente muito disperso, mas consegue. É uma prioridade“, afiança Luís Eça Pinheiro.
Definido como um “ser genuíno” e com mais de três décadas de experiência na indústria química, e formação em gestão empresarial e técnicas industriais têxteis, complementada por formação executiva no IMD, na Suíça, João de Mello conta com presença em várias associações empresariais e do setor químico, onde exerceu várias funções, incluindo a APQuímica, COTEC, AIP e CEFIC, a principal associação europeia da indústria química.
Paixão pelo ténis e pela caça
Aos 64 anos, João de Mello, mantém os hobbies de sempre. O ténis “é a paixão dele” e também gosta de caça. “Gosta de paz e do campo“, explica o diretor de comunicação da Bondalti, que junta ainda o ski à lista de atividades eleitas por João de Mello. A família é, contudo, quem está no centro. Os oito netos, a mulher e os três filhos são, segundo Eça Pinheiro, o grande amor da sua vida.
Na vida profissional, o setor químico vai ser, como sempre foi, o centro das suas atenções. Além dos muitos projetos que a Bondalti tem em andamento deste e do outro lado da fronteira, há a reestruturação da Ercros e, no curto prazo, os resultados da nova oferta sobre a Ercros para adquirir os restantes 22,77% do capital que permanecem nas mãos dos acionistas minoritários. Seja qual for o resultado, o controlo da Ercros já pertence a capitais portugueses.
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João de Mello, o gestor determinado que garantiu êxito da compra da Ercros para criar campeão ibérico no setor químico
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