Kevin Warsh estreia-se na presidência da Fed sem mexer nas taxas de juro

A Fed resistirá à pressão de Trump e manterá, sem surpresas, as Fed Funds inalteradas. O que ninguém consegue prever é até onde Kevin Warsh está disposto a ir para mudar a forma como a Fed fala e age.

Poucas vezes um novo presidente da Reserva Federal dos EUA (Fed) chegou à primeira conferência de imprensa com tanto por explicar e tão pouco comprometido a dizer.

Quando esta quarta-feira à tarde Kevin Warsh enfrentar os jornalistas para responder a questões sobre a decisão tomada pelo banco central em matéria de política monetária, vai fazê-lo num contexto em que a guerra com o Irão empurrou os preços da energia para cima, a inflação continua bem acima dos 2%, o mercado de trabalho não dá sinais de arrefecer e o próprio Presidente dos EUA, Donald Trump, continua a pressionar publicamente a Fed a baixar os juros.

Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para substituir Jerome Powell, preside pela primeira vez a uma reunião do Comité de Política Monetária da Fed (FOMC) com uma agenda que, na superfície, parece simples — nada vai mudar nas taxas –, mas que, nos bastidores, está a ser escrutinada com uma atenção minuciosa.

A mudança de liderança da Fed para Kevin Warsh vai ter um impacto maior na comunicação do banco central do que na sua política monetária.

David Kohl

Economista-chefe do Julius Baer

O consenso do mercado é inequívoco: de acordo com a ferramenta FedWatch do CME Group, mais de 99% dos traders de taxa de juro apontam para a manutenção das Fed Funds no intervalo de 3,5% a 3,75%. A confirmar-se, será a quarta reunião do FOMC sem qualquer alteração no preço do dólar norte-americano. Há um mês, essa percentagem era de 98,7%.

A esmagadora dos analistas e economistas não esperam qualquer surpresa em matéria de taxas de juros. No entanto, isso não significa que será uma reunião sem história, dado que é muita a expectativa em redor das palavras que Kevin Warsh escolher, ou não escolher, pronunciar depois da reunião.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

O novo presidente da Fed tem 48 anos, foi governador da Fed durante a crise financeira de 2008-2009 e saiu da instituição em 2011 em desacordo com a política de compra de ativos em larga escala lançada por Ben Bernanke. Nos anos seguintes, construiu uma reputação de crítico da verbosidade do banco central americano.

Esta posição, que durante anos foi tratada como uma curiosidade intelectual, torna-se esta quarta-feira tema central ou, pelo menos, é o que o mercado vai tentar perceber. Assim, a questão que domina a antecipação desta reunião não é monetária, mas comunicacional.

A Fed produz, após cada reunião, um comunicado oficial, projeções económicas trimestrais, incluindo o chamado “dot plot”, onde cada um dos 19 membros do FOMC assinala onde pensa que devem estar as taxas de juro nos próximos anos, além da tradicional conferência de imprensa do presidente. É esta máquina comunicacional que Kevin Warsh quer rever, com maior ou menor velocidade.

A mudança de liderança da Fed para Kevin Warsh vai ter um impacto maior na comunicação do banco central do que na sua política monetária”, refere David Kohl, economista-chefe do Julius Baer, num comunicado enviado aos clientes do banco suíço na terça-feira, a que o ECO teve acesso.

“Em linha com as preferências do novo presidente, espera-se que a orientação relativa à direção da política monetária seja reduzida no comunicado do FOMC“, destaca ainda o responsável do Julius Baer, notando que “o grau em que as previsões de inflação do SEP [Sumário das Projeções Económicas] forem revistas em alta vai determinar a probabilidade de subidas de taxas serem o próximo passo da Fed”.

A análise de Nicholas Kennedy, estratega de câmbios do Lloyds Banking Group, vai na mesma direção. “Kevin Warsh terá de equilibrar o seu desejo de mudança com a necessidade de estabelecer credibilidade na sua primeira reunião como presidente da Fed“, escreveu o analista do banco britânico numa nota de 15 de junho.

“A menor clareza serve bem as condições atuais, permitindo-lhe oferecer suficiente cor com suficiente ambiguidade para agradar a todos”, destaca ainda Nicholas Kennedy, sublinhando que Kevin Warsh favorece uma filosofia de “regresso ao aborrecido”, isto é, uma Fed que fala menos e que se mantém deliberadamente opaca sobre a trajetória futura dos juros.

O FOMC que Kevin Warsh herda é mais inclinado para subidas de taxas do que era há três meses. Em março, apenas um membro do comité tinha inscrito uma subida de juros nas suas projeções, e ainda assim era para 2027.

O instrumento mais concreto desta mudança é o “dot plot”. Kevin Warsh criticou-o durante anos. “Se não és particularmente bom em algo, deves fazê-lo menos”, disse o agora presidente da Fed numa conferência da State Street, citado pelo The Wall Street Journal. “Estas previsões têm sido terríveis. Os meus pontos também não seriam perfeitos, por isso não os daria.”

A pergunta mais concreta que paira sobre esta reunião é também a mais inesperada: será que Kevin Warsh se recusa simplesmente a preencher o seu próprio “dot”, o ponto que cada membro do FOMC coloca no gráfico para indicar onde pensa que as taxas de juro devem estar nos próximos anos?

Richard Moody, economista-chefe do Regions Bank, colocou essa hipótese em cima da mesa, notando, numa nota enviada aos clientes há uma semana, que o novo presidente da Fed pode optar por não participar neste exercício, precisamente como forma de mostrar que não acredita nele.

Os economistas do TD Securities partilham desta leitura e acrescentam que a ausência do “dot” de Kevin Warsh seria também uma maneira de evitar que as projeções de junho transmitam ao mercado uma mensagem mais restritiva do que aquela que o presidente da Fed pretende enviar.

Nem toda a gente concorda com este cenário. “Esperamos que Warsh submeta as suas próprias projeções”, refere Michael Feroli, economista-chefe para os EUA do JPMorgan, à Reuters. “Não o fazer pareceria uma dissidência rancorosa contra o seu próprio comité.” Vincent Reinhart, que dirigiu a divisão de assuntos monetários da Fed sob Greenspan e é hoje economista-chefe da BNY Investments, enquadrou o dilema de forma direta, referindo que “se não acreditas no projeto, fazer a submissão é falso”.

Kevin Warsh, o novo presidente da Reserva Federal dos EUA, que tomou posse a 22 de maio, preside pela primeira vez ao comité que decide os juros americanos, carregando às costas uma Fed dividida entre inflação persistente, um mercado de trabalho forte e a pressão da Casa Branca para baixar os juros. Lusa

O fantasma da inflação e os ‘falcões’ dentro do FOMC

Por trás de toda a discussão sobre comunicação da “nova” Fed há um problema real e abrangente de política monetária que não desapareceu que abrange a pressão dos preços, o mercado laboral e o motor da economia.

  • A inflação homóloga nos EUA subiu para 4,2% em maio, impulsionada em grande medida pelo choque nos preços do petróleo decorrente do conflito com o Irão.
  • O mercado de trabalho criou 172 mil postos de trabalho em maio, acima das previsões, com a taxa de desemprego estável nos 4,3%.
  • E o núcleo do deflator do consumo privado (PCE), o indicador preferido da Fed, fixou-se em 3,8% em termos anuais em abril, que deverá superar os 4% em maio, segundo as estimativas dos economistas.

Neste contexto, o FOMC que Kevin Warsh herda é mais inclinado para subidas de taxas do que era há três meses. Em março, apenas um membro do comité tinha inscrito uma subida de juros nas suas projeções, e ainda assim era para 2027.

Esta quarta-feira, espera-se uma deriva ascendente generalizada no “dot plot”. “Enquanto Warsh é geralmente visto como dovish [pomba], vai herdar um comité que se tornou notavelmente mais hawkish [falcão]”, considera Gregory Daco, economista-chefe da EY.

“Vários decisores políticos têm recentemente argumentado que as subidas de taxas devem permanecer uma opção se a inflação se mantiver acima do objetivo, e as preocupações com as pressões inflacionistas ligadas à energia só reforçaram esse enviesamento”, refere o especialista da EY à CNBC.

Para os economistas do BNP Paribas, numa nota de research publicada há uma semana, “a discussão dentro do FOMC é agora sobre se uma pausa prolongada na política seria suficiente para estabilizar a inflação, ou se, em vez disso, seria necessário subir as taxas”. Bem diferente é a abordagem dos analistas do Citibank, que chegam inclusive a antecipar três cortes das Fed Funds para apoiar um mercado de trabalho que acreditam estar a fragilizar-se, com o argumento de que os preços do petróleo estão já a ceder com o progresso das negociações de paz com o Irão.

A reunião desta quarta-feira do FOMC não vai, segundo tudo indica, alterar nenhuma taxa. Mas vai revelar quem é Kevin Warsh enquanto presidente da Fed e para onde quer levar o banco central.

David Kohl, do Julius Baer, nota que, “em contraste com o BCE, que reviu para cima as suas previsões de inflação na semana passada e para o qual uma nova subida em julho se tornou altamente provável, esperamos que a Fed veja o pico de inflação como transitório”.

Nicholas Kennedy, do Lloyds, sublinha que uma postura de menor clareza “encaixa perfeitamente com os requisitos atuais da política e com a visão do próprio Warsh de que o mercado deve ter de fazer as suas próprias apostas”, e antecipa que a Fed “se mantenha em pausa até ao final deste ano”.

Kevin Warsh chega assim à cadeira de presidente da Fed e do FOMC numa posição estruturalmente delicada. Nomeado por um presidente que durante mais de um ano pressionou publicamente a Fed para descer os juros, está sob a sombra permanente da suspeita de que foi colocado no cargo para fazer o que a Casa Branca quer.

A última reunião do FOMC sob Powell registou quatro dissidências — Stephen Miran queria um corte, três presidentes regionais estavam preocupados com a inflação –, revelando um comité já preparado para defender a independência da instituição. A reunião desta quarta-feira não vai, segundo tudo indica, alterar nenhuma taxa. Mas vai revelar quem é Kevin Warsh enquanto presidente da Fed e para onde quer levar a instituição mais poderosa do mundo em matéria de política monetária.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Kevin Warsh estreia-se na presidência da Fed sem mexer nas taxas de juro

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião