Megacentral Sophia encolhe mais de um terço para ‘caber’ nas exigências do território. Conheça o novo desenho

Megacentral que quer estender-se por três localidades beirãs abdicou de um terço dos painéis e promete novos benefícios aos habitantes, à procura de aprovação. Espera estar operacional em 2031.

Aquela que se anunciava como uma das maiores centrais do país apresenta-se agora, a meio caminho do processo de licenciamento, com cerca de dois terços da dimensão inicialmente prevista. A promotora do projeto, a Lightsource bp, diz que os ajustes decorrem de ter ouvido os contributos em relação ao projeto inicial e o CEO em Portugal, Miguel Lobo, mostra-se “confiante” de que a nova versão seja mais bem aceite. Ainda assim, no melhor dos cenários, a central só estará operacional em 2031 e carece ainda da decisão final de investimento.

O projeto Sophia quer estender-se por três concelhos: Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor. A escolha da paisagem beirense para ‘plantar’ a mancha de painéis solares tem uma razão de ser muito prática: é ali que está um ponto de ligação à rede. A Lightsource bp obteve o chamado título de reserva de capacidade, junto da REN, para se ligar à subestação do Fundão, o que “permite injetar a eletricidade ali”, explica o CEO da empresa em Portugal, Miguel Lobo, numa sessão de esclarecimento com jornalistas, em Lisboa.

A instalação deste projeto na Beira Baixa não foi de todo recebida de ânimo leve: a primeira consulta pública, na qual a empresa apresentou o projeto inicial, reuniu 12.693 participações. Na sequência, a empresa dedicou-se a repensar o projeto inicial, à luz dos vários pareceres e do contacto com a população, que garante ter intensificado.

A empresa conta mais de 80 pedidos de informação e opinião junto de organizações da sociedade civil, cerca de 100 reuniões presenciais com entidades representantes de interesses que vão do turismo e agricultura ao ambiente, além de 13 sessões de recolha de opinião nos três municípios, com mais de 120 participantes. “Cocriámos o projeto”, considera Paulo Pinto, responsável pelo envolvimento com as comunidades na Lightsource bp. A empresa espera apresentar o resultado nos três concelhos afetados, no final de setembro e no mês de outubro.

Mas afinal, o que mudou? Depois da reformulação, o Fundão “livrou-se” da mancha de painéis solares que lhe cabia, deixando esse ónus para os restantes dois concelhos. Agora, dentro das suas fronteiras, vai passar apenas a linha de transporte de energia de muito alta tensão que liga a central à subestação, isto é, ao equipamento que serve de entrada ao sistema elétrico nacional.

Os painéis ficam do lado de Idanha-a-Nova e Penamacor. Os 395 hectares que eram cobertos por estes equipamentos reduzem-se a 258 hectares, uma área 35% menor, pelo que a potência cai sensivelmente na mesma medida: reduz-se 34%, de 867 megawatts pico (MWp) para 573 MWp. As duas linhas de muito alta tensão passam a uma única, a qual ficará adjacente a linhas já existentes no território, permitindo concentrar esta infraestrutura num corredor elétrico já estabelecido. São também eliminados os quatro corredores de linhas aéreas de média tensão previstos na configuração inicial.

As maiores diferenças notam-se em Fundão e Penamacor: a área de painéis cai de 80,7 hectares para zero no primeiro e reduz-se em 25%, para 129 hectares, no segundo. Em Idanha, a redução da área ocupada por painéis é apenas de 9%. Pedro Fernandes, diretor de Planeamento Ambiental da Lightsource bp afirma que a versão mais recente do projeto evita que existam largas extensões de painéis sem interrupções: “Nós apenas temos um núcleo com um pouco mais de 50 hectares. Todos os outros estão abaixo”, indica. Por entre os equipamentos, vão ser criados “corredores ecológicos” para permitir a circulação de espécies por entre a infraestrutura.

Um dos receios invocados relativamente a este projeto era o de, além de extenso, não ser o único a ocupar a zona. Em conjugação com outros projetos candidatos a instalarem-se na região, o impacto paisagístico e ambiental poderia tornar-se maior do que os seus próprios limites. A Lightsource bp garante que tem o cuidado de que os seus projetos não contribuam para exceder o limiar de 2% de território ocupado, por município, com projetos energéticos. A partir deste limite, de acordo com a lei, os municípios podem bloquear os projetos.

O CEO confirma ainda que o projeto não se sobrepõe às áreas identificadas no conhecido “Mapa Verde”, o qual define zonas aptas à aceleração de energias renováveis. De qualquer forma, à partida, o programa das zonas de aceleração não serviria a central Sophia, por uma questão de timing: a Lightsource pretende licenciar esta central mais rápido do que conseguiria se esperasse pelos desenvolvimentos que faltam relativamente à nova legislação para a aceleração.

Investimento, rentabilidade e decisão final são incógnitas

“O investimento [na central Sophia] não sabemos de quanto é que vai ser”, assume o CEO da Lightsource bp, recusando-se a avançar uma nova estimativa que compare com a anterior, de cerca de 591 milhões de euros. Assume apenas que o montante deverá ser inferior.

O investimento [na central Sophia] não sabemos de quanto é que vai ser.

Miguel Lobo

CEO da Lightsource bp em Portugal

A justificar a ausência de uma nova estimativa estão os preços da eletricidade e das baterias, que “estão sempre a mudar”. O projeto só deverá ser estruturado financeiramente dentro de três anos, perspetiva o líder da empresa de renováveis. Assim sendo, assume que, para já, não há como garantir que a central vá ter rentabilidade. A favor do projeto está o crescimento que se espera na mobilidade elétrica e na eletrificação da indústria. “Neste momento, com os dados que nós temos, acreditamos que daqui a três anos o projeto terá viabilidade financeira”, remata.

Para todos os efeitos, perante a falta de visibilidade sobre o futuro, a decisão final de investimento “não está tomada”, admite o CEO. Confrontado com as notícias de que a petrolífera BP pretende vender o seu braço de renováveis, a Lightsource bp, Miguel Lobo limita-se a afirmar que esta última empresa tem “um compromisso muito forte com Portugal”.

Acreditamos que daqui a três anos o projeto terá viabilidade financeira.

Miguel Lobo

CEO da Lightsource bp em Portugal

Central operacional só a partir de 2031

A Lightsource vai entregar às entidades licenciadoras o projeto reformulado até 2 de outubro, a data limite para a submissão. O documento deverá ser sujeito a uma consulta pública durante esse mesmo mês, espera a empresa, embora a decisão esteja nas mãos da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Isto significa que “o projeto ainda está em desenvolvimento”, frisa Miguel Lobo. Depois de recolhidas novas participações, está nas mãos das autoridades ambientais emitir uma Declaração de Impacte Ambiental.

A expectativa da Lightsource bp é que a declaração ambiental chegue no primeiro trimestre de 2027 e que dê uma luz verde ao projeto, embora com “inúmeras condicionantes e diretrizes”, que caberá à promotora incorporar. Essa adaptação do projeto deverá ser vertida no chamado RECAPE – Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução, que a Lightsource quer montar durante o segundo trimestre do ano que vem para que, a partir de junho, possa haver nova consulta pública. Só a partir daí é que a empresa poderá receber a decisão de conformidade ambiental – a luz verde ambiental ou o chumbo final. Caso a decisão seja favorável, o projeto estará em condições de receber as licenças de produção e estabelecimento.

Tendo em conta todas estas fases, “se tudo correr bem, apenas em 2029, daqui a três anos, é que vamos iniciar a construção”, afirma Miguel Lobo. Isso significa que a operação irá arrancar, na melhor das hipóteses, no segundo trimestre de 2031.

Sobre se o projeto terá uma componente de armazenamento, Miguel Lobo não tem dúvidas. Já a hibridização do projeto, acrescentando por exemplo com torres eólicas, é algo a considerar numa fase mais adiantada.

Se tudo correr bem, apenas em 2029, daqui a três anos, é que vamos iniciar a construção.

Miguel Lobo

Menos eucalipto, mais árvores plantadas e pastoreio

A população também se mostrou apreensiva com o efeito que esta ocupação extensiva dos solos da região podia ter na agricultura. A Lightsource bp indica que o projeto retira-se “completamente” da zona com potencial de regadio futuro, quando antes ocupava 222,1 hectares com essa característica. “O nosso parque solar vai ficar disponível para pastoreio”, e gratuitamente, indica Paulo Pinto. Ao mesmo tempo, a empresa vai financiar mais de 2000 cabeças de gado, da espécie de ovelha cujo leite dá origem àquele que foi considerado “o melhor queijo do mundo”, e cuja população está atualmente a decrescer.

70% da área coberta por painéis vai ocupar áreas que eram dedicadas à monocultura de eucalipto, que os a Lightsource define como “um solo pobre no que diz respeito à biodiversidade”. A empresa compromete-se agora a substituir eucaliptos por azinheiras numa área de 200 hectares e a plantar 39 mil sobreiros e azinheiras, mais 44% do que previa anteriormente, ultrapassando desta forma a obrigação legal. Em paralelo, promete não abater nenhum sobreiro “de grande porte”, excluindo árvores desta espécie com menos de um metro.

Ainda no que toca à biodiversidade, a empresa aumentou para 4,5 quilómetros a distância à área que geralmente serve de repouso ao abutre negro, em vez de manter os 500 metros iniciais.

População vai ter eletricidade mais barata

Os benefícios da central Sophia vêm em grandes números: vai permitir uma produção anual de mais de um milhão de MWh de eletricidade, o suficiente para iluminar 333 mil habitações por ano, e evita mais de cinco milhões de toneladas equivalentes de CO2 nos 40 anos de operação. Um contributo relevante para atingir metas nacionais como o objetivo de que 93% da eletricidade no país tenha origem renovável até 2030.

Mas uma das questões mais levantadas nos diferentes contactos que a empresa teve com a população, conta Paulo Pinto, foi colocada do ponto de vista dos beirenses: “O que vamos ganhar com isto?”

A Lightsource bp responde a essa questão com outros números: legalmente, a empresa está obrigada a entregar uma contribuição de 630 mil euros, à qual se somam 5,7 milhões de euros suportados pelo Fundo Ambiental. Os proprietários dos 50 terrenos abrangidos pelos projetos passam a ter direito a rendas ao longo de 40 anos.

Fora as obrigações legais, a empresa criou um programa no sentido de tornar a eletricidade mais barata para as comunidades locais. Residentes, pequenos negócios e instituições de cariz social, se quiserem aderir ao tarifário Luz Partilhada, poderão poupar até 45% na fatura da luz.

A Lightsource bp financia com um milhão de euros um projeto de produção descentralizada executado por um parceiro, a Enermatch, já que a empresa dona do Sophia só investe em projetos de grande escala. Com este investimento, a partir do início da construção da central Sophia, os aderentes terão acesso a uma tarifa de seis cêntimos por quilowatt-hora, que representa a tal poupança de 45%.

Contudo, o projeto de autoconsumo coletivo avança desde já, independentemente de a Sophia se tornar realidade ou não. A diferença é que, para já, a poupança permitida é menor do que a prevista para 2029: até lá, os aderentes poupam no máximo 37% face ao custo médio do quilowatt-hora em Portugal. Em paralelo, a Lightsource conta destinar quase um milhão e meio de euros para combater a pobreza energética local.

No final de contas, ao longo dos 40 anos do projeto, a Lightsource bp conta contribuir com cerca de 20 milhões de euros para iniciativas que beneficiem o território e quem lá vive. “Criámos um projeto de benefícios partilhados que eu, sinceramente, nunca vi”, afere Miguel Lobo.

Tânia Carvalho, responsável de Estudos de Ligações à Rede na Lightsource, indica que a central também se afastou fisicamente das populações, contando uma única localidade que se situa a menos de um quilómetro da área ocupada pela mesma: aldeia de Santa Margarida. Apenas 880 metros a separam da área da Sophia. Mas assegura: os painéis não fazem ruído nem contribuem para o aumento da temperatura na região.

Olhando ao trabalho desenvolvido até agora pela empresa, Miguel Lobo destaca uma aprendizagem: “intensificar este processo de escuta ativa com as populações”. Na sequência, acredita que a reformulação do projeto será, agora, mais bem recebida do que a versão inicial. “Eu estou muito confiante. Muito confiante porque o projeto tem muita qualidade”, conclui.

(Notícia atualizada com a correção de que a aldeia mais próxima do projeto não é Mata da rainha mas sim Santa Margarida, após correção por parte da empresa)

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