Aliados indicaram em Ancara "apoio inabalável" à Ucrânia e comprometeram-se com 70 mil milhões já este ano. Montenegro garante que Portugal atinge gastos com defesa de 3,1% do PIB este ano.
Contratos no valor de mais de 50 mil milhões de dólares para compra de equipamentos militares “made by NATO”, “apoio inabalável” à Ucrânia com um ‘cheque’ de 70 mil milhões de euros e, por fim, o “compromisso inabalável” com o artigo 5.º, que garante o apoio da aliança atlântica em caso de um ataque a um dos 32 países membros é o resumo de dois dias de cimeira da NATO em Ancara. Trump manteve o tom crítico à aliança numa cimeira onde o conflito com o Irão voltou a incendiar a região do Médio Oriente. Montenegro garante que Portugal atinge os 3,1% do PIB para a Defesa este ano.
Depois de meses de tensão entre os aliados europeus e os EUA — com a Gronelândia e depois o Irão a azedar as relações entre as partes, e com Trump a anunciar saída de tropas e equipamentos como caças e navios alocados à Aliança militar —, em Ancara esperava-se uma definição de águas. Mas a declaração final da cimeira assinada pelos chefes de Estado da NATO parece dar sinais que, quiçá, a organização ganhou uma espécie de trégua. Pelo menos temporária.
Na capital turca, os chefes de Estado da aliança reafirmaram o seu “compromisso inabalável” com o artigo 5.º. “Nós, chefes de Estado e de Governo da Organização do Tratado do Atlântico Norte, juntámo-nos em Ancara para reafirmar o nosso compromisso inabalável com a nossa defesa coletiva ao abrigo do Artigo 5.º do Tratado de Washington.”
O que, parecendo uma mera formalidade, diz muito, já que meses antes, nem foi uma vez, nem duas que a administração Trump ameaçou com a saída da aliança que apelida de “tigre de papel”. Parece que ainda não foi na Turquia que foi dado o primeiro passo para o ‘grande adeus’.
Na declaração final, os chefes de Estado da NATO também reconhecem os passos a serem dados para cumprir com o compromisso, assumido em Haia um ano antes, de aumentar o peso dos gastos em defesa em percentagem do PIB — 5% até 2035 — para fazer face à “ameaça de longo prazo que a Rússia representa para a segurança e a estabilidade euro-atlânticas”.
Chuva de contratos “made by NATO”
Desde a cimeira de Haia, os aliados europeus e o Canadá investiram mais de 139 mil milhões de dólares. “Os nossos investimentos estão a entregar as capacidades que necessitamos, ao mesmo tempo em que fortalecem a nossa base industrial e nossa resiliência. Hoje, em Ancara, anunciamos mais de 50 mil milhões em novas aquisições e comprometemo-nos a ampliar a capacidade de produção conjunta e a trabalhar com a indústria para acelerar a inovação”, pode ler-se.
“Continuaremos a trabalhar para eliminar barreiras ao comércio de defesa entre os aliados e aproveitar as parcerias da NATO para maximizar a profundidade e a cooperação da indústria de defesa”, disseram ainda.
Em certa medida, uma resposta a um dos ‘irritantes” entre os aliados, com Trump a apelidar de “ridículo” a desproporção entre o contributo dos EUA e dos restantes países para a aliança militar. O presidente dos EUA quer passar a responsabilidade para a defesa da região para os aliados que dizem estar a construir uma “aliança modernizada” e uma “Europa mais forte numa NATO mais forte”.
“Os aliados europeus e o Canadá, em trabalho conjunto com os Estados Unidos, estão a assumir mais responsabilidades pela defesa da aliança”, referem, com a dissuasão e defesa da aliança a assentar “numa combinação adequada de capacidades nucleares, convencionais e defesa antimíssil, complementadas por capacidades espaciais e cibernéticas”.
“Estamos empenhados em manter a superioridade em combate”, asseguram.
Essa vontade traduziu-se na Turquia em anúncios sucessivos de contratos de compras de equipamentos militares ou fecho de parcerias entre empresas de defesa dos dois lados do Atlântico. Mark Rutte falou muitas vezes em “made by NATO”. Talvez um piscar de olhos do ‘Trump whisperer‘ a outro dos pontos de fricção entre a Europa e os EUA: a mensagem de Bruxelas que rearmar a região passa igualmente por comprar “made in Europe”.
Em Ancara, Ursula von der Leyen foi clara. Se a Europa está a mobilizar até 800 mil milhões de euros até 2030, através do ReArm Europe, ou o SAFE, programa de empréstimos, está a entregar até 150 mil milhões de euros para a compra de equipamento militar, há que fixar os frutos desse investimento no continente.
“Trata-se de reforçar a base industrial de defesa, porque, com este dinheiro dos contribuintes, queremos, naturalmente, obter um retorno do investimento. Queremos também criar bons empregos na Europa. Queremos que a investigação e o desenvolvimento sejam feitos na Europa. Isso é importante para nós”, disse a presidente da Comissão Europeia, durante a sua intervenção no Fórum Industrial de Defesa, que marcou o primeiro da cimeira na Turquia.
Ao que Rutte ripostou: a prioridade da NATO deve ser garantir que a “base industrial na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos produz mais”.
Dos contratos “made by NATO”, no valor de mais de 50 mil milhões fechados em Ancara, não surge como evidente para que lado do Atlântico pendeu mais a balança. Mas há contratos de mais de 40 mil milhões de dólares para compra de sistemas anti-drone; acordos para a aquisição de aviões de vigilância dos céus de 4,5 mil milhões; mas também de aeronaves, por exemplo, produzidas por companhias de defesa americanas.
E o tema “made in Europe” também gerou alertas da parte do país anfitrião da cimeira. “Gostaria de me dirigir especificamente aos nossos aliados que também são membros da União Europeia (UE): só se pode tirar o máximo benefício dos esforços da união em defesa se se evitarem duplicações desnecessárias com a NATO e a exclusão de aliados que não são membros da UE“, atirou Erdogan, numa referência ao programa SAFE que exige que apenas 35% das compras possam ser feitas fora da Europa e em circunstâncias específicas.
“Qualquer outra abordagem faria com que os recursos limitados fossem desperdiçados e criaria uma divisão artificial na Europa”, disse ainda. “Isso é algo que não desejamos de todo e é evidente que esta atitude não serve os objetivos da base industrial de Defesa transatlântica”, afirmou.
Portugal: investimento em defesa atinge 3,1% do PIB em 2026
O certo é que fruto dos compromissos de Haia, e da guerra às portas da Europa, os aliados estão a abrir os cordões à bolsa e a investir em defesa. A NATO avançou com várias estimativas.
Este ano os gastos militares dos aliados NATO europeus e do Canadá deverão aumentar 11%, para cerca de 555 mil milhões de euros, embora o ritmo de crescimento abrande face a 2025, ano em que aumentou 20%. Até 2026, cinco países já atingiram 5% dos gastos em segurança: Polónia, Lituânia, Letónia, Estónia e Grécia. No ano passado houve apenas três – Polónia, Lituânia e Letónia.
Portugal chegou a Ancara com 2,01% do peso da Defesa no PIB. Mas na capital turca, Luís Montenegro anunciou que esse valor vai subir. E já este ano. “Temos desenhado já para este ano de 2026 o reforço precisamente desse investimento, quer na componente exclusivamente dedicada à defesa, quer na componente de utilização dual, que vai fazer com que, de acordo com a nossa estimativa e expectativa, no final deste ano o agregado destas duas componentes signifique cerca de 3,1 % do nosso PIB já em 2026“, sublinhou o primeiro-ministro português, em conferência de imprensa.
A meta agora anunciada inclui investimentos em outras vertentes, não exclusivamente militares. “Estamos a falar de investimentos em infraestruturas de energia, de comunicações, de várias áreas setoriais do Governo. Investimentos que também são contabilizados para podermos atingir o objetivo que está determinado desde a cimeira de Haia dos 5%. Como sabem, são 3,5% no investimento exclusivo em capacidades militares e 1,5% nas demais”, esclareceu.
Portugal foi igualmente um dos 12 países — juntamente com Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Islândia, Países Baixos, Noruega, Espanha, Suécia e o Reino Unido — a reforçar o seu compromisso de assumir “maior responsabilidade” pela “segurança marítima” no Atlântico Norte, no Mar Báltico e no Ártico, prometendo reforçar as suas capacidades na próxima década.
O que passa por reforçar “o treino, os exercícios e as operações em todo o espetro das operações marítimas na região euro-atlântica”; as “capacidades de comando e controlo marítimos e a dar prioridade a investimentos” que aumentem a sua “consciência situacional em todos os domínios”. Os aliados europeus e o Canadá “estão dispostos e são capazes de assumir uma parte justa dos encargos, reforçando simultaneamente a unidade e a coesão da NATO”.
Luís Montenegro defende que a aliança atlântica deve “colocar no centro das prioridades a segurança marítima”. “Não queremos descurar a ameaça e o risco de todo o trabalho que temos feito no flanco Leste. Nós próprios estamos presentes em varias operações, nomeadamente na Eslováquia, na Roménia e na Lituânia. Mas não podemos ignorar o desafio que na frente sul e na segurança marítima se coloca, e que não é exclusivo, como o caso de Portugal, de países que têm geograficamente essa proximidade [ao mar]”, reiterou aos jornalistas em Ancara.
O primeiro-ministro português reafirmou igualmente o apoio de Portugal à Ucrânia. “Tivemos ocasião de reafirmar o nosso apoio à Ucrânia, cuja luta é absolutamente crucial para a nossa segurança e para a preservação dos nossos valores democráticos. Pude reafirmar o nosso compromisso de reeditarmos em 2026 o apoio militar e financeiro, que realizámos nos dois anos anteriores, a que irá acrescer uma participação no programa PURL num montante que andará a volta dos 50 milhões de euros”, referiu.
Ucrânia com ‘cheque’ de 70 mil milhões de euros e sai com promessa de mísseis Patriot dos EUA
Mas não foi o único. O Canadá já tinha anunciado um apoio de 570 milhões de euros para a Ucrânia e a Coreia do Sul outros 88 milhões para ajudar o país que luta há quatro anos contra a invasão russa. Mas Zelensky — que participou na cimeira, embora não seja país NATO — saiu de Ancara com a inscrição do “apoio inabalável” dos aliados na declaração final da cimeira.
A Ucrânia “contribui para a segurança transatlântica” e os aliados “permanecem unidos no seu apoio inabalável à Ucrânia na defesa de sua liberdade, soberania e integridade territorial”, dizem. “Os aliados europeus e o Canadá financiam, atualmente, a vasta maioria da assistência de segurança à Ucrânia por meio de mecanismos bilaterais e multilaterais. Os aliados ressaltam que esse apoio deve ser equitativo, previsível e sustentável a longo prazo”, referem.
Apoio que vai além de palavras. “Para 2026, os aliados comprometem-se a destinar 70 mil milhões de euros em equipamentos militares, assistência e treino para a Ucrânia e reafirmam seus compromissos soberanos de manter níveis pelo menos equivalentes em 2027. Nesse sentido, saudamos a decisão da União Europeia de fornecer financiamento plurianual à Ucrânia por meio do Empréstimo de Apoio à Ucrânia”, referem.
Zelensky conseguiu também fechar contratos na área de drones com a Dinamarca, a Estónia e os Países Baixos à margem da cimeira, elevando para nove o número de países com os quais tem acordos desta natureza. Mas, talvez mais relevante, obteve uma promessa de Trump: uma licença para a produção de Patriot, mísseis de longo alcance que há muito pedia para garantir a defesa área da Ucrânia dos ataques de Moscovo.
“Vamos dar-vos uma licença para fabricarem Patriot. Desta forma, não se podem queixar de que não vos estamos a dar o suficiente”, afirmou Donald Trump a Zelensky, durante uma conferência de imprensa à margem da cimeira.
Trump no país do “amigo Erdogan” com Irão na mira
Se os anúncios em catadupa de negócios da cimeira e o aumento visível da fatia dos aliados nos gastos da NATO convenceram Trump não é claro. Ainda com o tema Irão bem presente, o presidente norte-americano não poupou críticas aos aliados, insistiu nas farpas a Meloni, atirou-se à Gronelândia, e diz que não fosse a cimeira realizar-se na Ancara do “amigo Erdogan” — ao qual levantou sanções e acenou com a possível reentrada do país no programa dos F-35 — não teria participado.
E o tema Irão voltou a ensombrar a cimeira NATO. O cessar-fogo, para a negociação de um acordo de paz, foi atirado borda fora, com as forças armadas norte-americanas a lançarem uma série de ataques contra alvos iranianos, em retaliação por a República Islâmica ter atingido três navios mercantes em águas próximas de Omã. Os EUA revogaram ainda uma licença que permitia a Teerão vender petróleo.
Trump não hesitou em dar o cessar-fogo como um caso perdido. “Para mim, acho que acabou. Não quero lidar com eles. São escória. São pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes”, afirmou o chefe de Estado norte-americano, quando questionado sobre se o memorando de entendimento entre os dois países tinha chegado ao fim. O presidente norte-americano considerou ainda “uma perda de tempo” negociar com os líderes iranianos. E, no mesmo dia prometeu novos ataques militares a infraestruturas civis do país.
Espanha apanhou igualmente com os estilhaços do conflito com o Irão. Ao discursar na cimeira de líderes, o presidente dos EUA revelou também que tinha ordenado ao seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, que cortasse as relações comerciais com Espanha, referindo-se a Madrid como um “parceiro terrível” no âmbito da Aliança Atlântica.
“A Espanha não concorda com nada, e não devemos dar-lhes apoio”, disse Trump, que falava ao lado do secretário-geral da NATO, Mark Rutte. “Não quero fazer negócios com eles, está bem?”, continuou, voltando-se para Bessent, que respondeu: “Sim, senhor.”
“Toma medidas imediatas. Nem sequer fales com eles. São um caso perdido. São pessoas más. Ganham tanto dinheiro connosco, e vamos fazer com que ganhem muito menos. Não quero ter nada a ver com eles”, disse Trump.
Mas, sinal de que, por vezes, num instante tudo muda, no encontro informal entre Trump e Sánchez ‘no pasa nada‘: “Falamos do Mundial de futebol e golfe”, disse o presidente do governo espanhol aos jornalistas, citado pelo El Español.
Sánchez encara as ameaças de corte de relações comerciais do líder dos EUA — que, de resto, já tinham sido proferidas quando Espanha impediu o uso das bases aéreas por aeronaves americanas a caminho do conflito do Irão — “com calma e paciência, pois as relações com os EUA são muito positivas”.
“As relações entre os dois países são muito positivas; na esfera comercial, registamos um défice na balança comercial com os EUA, e a política comercial é uma política comum da UE”, frisou.
Embora a NATO tenha recusado intervir no conflito do Irão, fruto dos tempos ou timing do reacender do conflito, o país é referido no texto final da cimeira. “Os aliados reiteram que o Irão jamais deve deter uma arma nuclear e pedem ao Irão que respeite plenamente a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”, pode ler-se.
Coincidência, mas muito provavelmente não, o texto dos chefes de Estado termina sem uma única referência à próxima cimeira apontada para realizar-se na Albânia.
Na quarta-feira, a Bloomberg dava conta que a NATO equacionava não realizar o próximo encontro no país para não dar a Trump uma plataforma de ataque aos aliados num país lento no cumprimento dos compromissos de investimento de defesa da NATO. A mesma notícia afirmava que o texto não iria referir a Albânia. Confirmou-se.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
NATO reafirma “compromisso inabalável” com defesa comum e fecha contratos milionários
{{ noCommentsLabel }}