NATO ruma a Ancara para discutir futuro da Aliança

Foco na indústria de defesa, anúncio de contratos, apoio à Ucrânia e um potencial banco para financiar defesa são temas que deverão marcar a cimeira da NATO em Ancara. Arranca esta terça-feira.

Depois dos compromissos de aumento de gastos em defesa, Ancara poderá ser a cimeira NATO 3.0 onde começa efetivamente a ser construída uma NATO mais ‘europeia’ ou ‘menos americana’. A cimeira, que arranca esta terça-feira na Turquia, é também aquela onde a indústria e o fecho de contratos de defesa de “dezenas de milhares de milhões” está em foco. Ucrânia poderá sair da Turquia com um compromisso de investimento na defesa do país e o Canadá espera sair com um ‘banco de defesa’.

Mark Rutte dá o tom para o encontro dos 32 países da Aliança. “Anunciaremos novos contratos no valor de dezenas de milhares de milhões de dólares que nos fornecerão equipamento essencial para a dissuasão e defesa”, afirmou o secretário-geral da NATO conferência de imprensa realizada na capital turca, onde se realizará, entre 7 e 8 de julho, a cimeira da Aliança Atlântica e que, arranca, precisamente com um Fórum Industrial de Defesa.

No site do Fórum é, de resto, referido que são esperados “anúncios de alto nível sobre acordos, entregas e iniciativas de âmbito nacional, multinacional e liderados pelo setor” e que irão cobrir “uma ampla gama de áreas de capacidade prioritárias da NATO, incluindo: espaço e vigilância; defesa aérea e antimíssil integrada; e capacidades de ataque”.

“Impulsionar a coprodução transatlântica” e melhorar a cooperação prática entre a NATO e a indústria são outros dos temas. Resta saber quem irá retirar o maior benefício desses acordos. A posição americana é clara. A Europa tem de se chegar à frente e aumentar os seus gastos com defesa.

Em Haia foi acordado que, até 2035, os países NATO deverão atingir os 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa. E, efetivamente, tem havido um esforço de reforço orçamental para reduzir a desproporção de investimento entre os EUA e os países aliados na Aliança, que, em vésperas da cimeira de Ancara, Donald Trump em mais uma publicação na Truth Social apelidou de “ridícula”.

Mark Rutte, o “Trump Whisperer”, tem tentado contrariar essa narrativa de que a Aliança é um “tigre de papel” que nada acrescenta aos EUA e demonstrar que os aliados têm reforçado o seu investimento, com benefício também para o Tio Sam. Em visita a Washington no mês passado, Rutte afirmou que os investimentos europeus apoiam 110.000 empregos americanos através de encomendas de armamentos dos EUA no valor de 300 mil milhões de dólares.

Mas os EUA não escondem qual a expectativa que levam para a cimeira nesse campo. Washington “vê com bons olhos os esforços europeus para aumentar a produção de defesa e reduzir regulamentações”, disse Matt Whitaker, o embaixador americano na NATO, aos jornalistas dias antes do Fórum.

“Mas certamente não apoiamos a retórica protecionista que, muitas vezes, tem estado presente em diversas iniciativas europeias de defesa. Esse é um ponto que poderá surgir durante a cimeira e sobre o qual esperamos chegar a um acordo”, disse o responsável, citado pelo Politico.

Nada de novo, portanto. Já em fevereiro a Administração americana tinha criticado o posicionamento europeu de aplicar o investimento no seu rearmamento na indústria de defesa europeia, esperando com isso alimentar a economia da região e criar empregos, ameaçando retaliar contra o que chama de medidas protecionistas.

“A coerência não é o ponto forte da administração dos EUA. Alguns pedem a política de “compre americano”, outros afirmam que a indústria americana se concentrará nas necessidades internas, enquanto há quem defenda a colaboração. Washington precisa gerir as expectativas de forma sensata: se esperam que os europeus façam muito mais, mas têm dificuldade em fornecer o que a Europa precisa, não devem se surpreender se os europeus comprarem mais equipamentos europeus”, atira Camille Grand, secretário-geral da ASD, associação europeia que representa mais de quatro mil empresas, em 21 mercados, do setor da defesa, espaço e aeronáutica, em entrevista ao El País.

Isso significa que os americanos ficarão excluídos do mercado europeu? Não, claro que não; há inúmeros projetos em andamento que terão continuidade. Muitas empresas americanas veem o crescimento do mercado europeu e querem tirar proveito disso — uma iniciativa legítima do ponto de vista comercial. Quero apenas garantir que elas cumpram suas promessas industriais e que não surjam restrições que as impeçam de fazê-lo”, refere o responsável da ASD.

Camille Grand não referiu casos, mas não está muito longe no tempo a suspensão imposta pela Administração Trump à partilha pela Antrophic dos seus modelos de IA mais avançados, Mythos e Fable, levantando questões sobre segurança nacional, cibersegurança e acesso europeu a tecnologia. A suspensão foi entretanto levantada, mas é algo que, dada a sensibilidade do setor de defesa, nada impede que possa se repetir com a Antrophic ou qualquer empresa de defesa americana que forneça o mercado europeu.

Faixas da NATO perto da Mesquita Millet antes da Cimeira da NATO de 2026 em Ancara, Turquia, a 6 de julho de 2026. A cimeira terá lugar nos dias 7 e 8 de julho, com foco no reforço da produção industrial de defesa e na garantia de ajuda militar a longo prazo para a Ucrânia. EPA/FILIP SINGER

NATO 3.0 será mais europeia?

Trump não esconde o seu ceticismo em relação à NATO que, diz, em caso de ataque aos EUA não iria defender o país — uma visão que, aliás, está a disseminar-se nos EUA, como indica um recente inquérito realizado pelo Politico, em que apenas 43% dos inquiridos americanos vs uma média de 57% dos inquiridos de países aliados acredita que a NATO iria em socorro do país — como previsto no Artigo 5.º do Tratado da Aliança. Chama-lhe ‘Tigre de Papel’ e quer reduzir o contributo dos EUA para a organização, tendo já por diversas vezes ameaçado com a saída do país da Aliança.

O movimento não é de agora, mas Trump tem dado sinais claros que cabe à Europa assegurar a sua autonomia de defesa e colocar dinheiro nesse aumento de capacidade. Não têm faltado anúncios de que essa é uma intenção que é para ser considerada a sério como o de retirada de tropas americanas da Alemanha ou a redução de caças F-16 e F-15E de aproximadamente 150 para 100, a diminuição das aeronaves de reconhecimento marítimo de 26 para 15 e a remoção de todos os oito aviões-tanque de reabastecimento aéreo atribuídos para missões na Europa, segundo o relatório visto pelo New York Times.

E Mark Rutte já admitiu que nada garante que em caso de ataque à Europa, o Velho Continente possa contar com o ‘amigo americano’ para ir em seu socorro. A verdade é que depois do ‘irritante’ Gronelândia, o ataque ao Irão e a decisão de a Europa não intervir no conflito, prestando apoio militar a Trump — houve países, como Espanha, que fecharam acesso a bases a voos de aeronaves norte-americanas a caminho do Médio Oriente — foi mais uma acha na fogueira do descontentamento do presidente norte-americano com a organização.

E o tema Irão — em particular as críticas de Trump ao Papa — criou fricções entre antigos aliados, com direito a várias publicações do presidente dos EUA na rede Truth Social. Veja-se o que tem sucedido entre EUA e Itália, ou melhor, entre Trump e Meloni. Em véspera de Ancara, Trump continuava a atirar gasolina nas relações entre os dois países.

Ancara irá também servir — ou pelo menos certamente será essa a intenção — para evidenciar que a Europa e Canadá estão a reforçar o seu peso na Aliança. “Os aliados europeus e o Canadá já representam mais de 40% da despesa principal da defesa da Aliança em relação a 27% em 2014”, referiu Nuno Melo, ministro da Defesa, na sua última audição na Comissão de Defesa no Parlamento.

“Estamos a dias de partir para a Cimeira da Ancara e na bagagem levamos já a certeza de que Portugal finalmente atingiu e até superou um investimento na defesa nacional de 2% do Produto Interno Bruto, na verdade atingimos um valor agora confirmado pela NATO, de 2,01%”, disse ainda.

“E particularmente relevante é a decisão de solicitar às autoridades militares da NATO uma avaliação formal das implicações desta redução do contributo norte-americano, que é um importantíssimo aliado, para a postura de dissuasão e defesa da aliança”, referiu ainda Nuno Melo.

Esta orientação, acrescenta, “confirma a preparação para um cenário em que os aliados têm que assumir mais relativamente àquilo que lhes respeita, [o que] implica obviamente um investimento que seja um investimento continuado, porque disso a dissuasão em defesa não se faz de belos discursos”.

Visada por Trump na rede Truth Social antes da cimeira, a Alemanha reagiu afirmando que o país não tem motivos para se envergonhar no que toca ao investimento nas capacidades de defesa. “A Alemanha vai duplicar o seu orçamento de defesa em quatro anos. Este é o maior esforço que alguma vez fizemos para reforçar as nossas capacidades de defesa. Nesse aspeto, não temos razões para nos envergonhar perante ninguém”, afirmou Merz aos jornalistas, citado pela Reuters, prometendo antecipar as metas NATO.

E em véspera da cimeira, o Financial Times avança que o país vai, até 2030, levantar mais de 800 mil milhões de euros — só no próximo ano, o Executivo tem previsto levantar mais de 200 mil milhões de euros, mais 12,5% do que este ano — para reforçar o seu orçamento de defesa que deverá atingir os 109 mil milhões de euros no próximo ano e 183 mil milhões de euros até 2030. Berlim vai ainda, no próximo ano, prestar ajuda militar à Ucrânia no valor de 11,6 mil milhões de euros.

A NATO diz que apenas um ano após o compromisso assumido pelos Aliados em Haia, os países europeus e o Canadá já investem, em média, cerca de 4% do PIB em defesa e segurança. Aliados europeus e o Canadá aumentaram em quase 20% as despesas com defesa no último ano e que, somando os investimentos adicionais previstos para 2025 e 2026, o reforço ascende a 258 mil milhões de dólares (cerca de 200 mil milhões de euros).

Mas o esforço do investimento não tem sido acompanhado de forma igual por todos os países europeus. Espanha, por exemplo, não assumiu o compromisso de 5% do PIB em defesa, enquanto a Polónia, Lituânia e Estónia – países cuja localização na frente Leste da Europa os coloca com uma perceção direta da ameaça russa – estão a caminho de atingir os objetivos. Só a Polónia direcionou no ano passado 4,3% do seu PIB para a defesa.

Mas outros países enfrentam resistências políticas e fiscais. O Reino Unido anunciou recentemente planos para reforçar em 15 mil milhões de libras o seu orçamento de defesa, mas um terço ainda não tem fonte de financiamento, refere a Reuters.

Meloni deverá aumentar o investimento de defesa para 2,8% em 2028, cerca de 0,71 pontos percentuais acima do ano passado. Já França, em abril apontava aumentar gastos de defesa para de 2% para 2,5% do PIB até ao final da década, uma ambição que terá ainda de passar por eleições presidenciais no próximo ano, aponta a agência noticiosa.

Rutte quer em Ancara os Aliados avancem com planos claros para atingir compromisso de Haia. “Nesta cimeira espero que os países apresentem planos claros, concretos e credíveis para atingir a meta dos 5%”, disse o secretário-geral da NATO antes do arranque da cimeira.

O Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, durante a conferência de imprensa que antecede a cimeira da NATO de 2026 em Ancara, Turquia, a 6 de julho de 2026. A cimeira terá lugar nos dias 7 e 8 de julho, com foco no reforço da produção industrial de defesa e na garantia de ajuda militar a longo prazo para a Ucrânia. EPA/GEORGI LICOVSKI

Canadá quer criar ‘banco de defesa’

Com o tema de como financiar os esforços de defesa dos países na lista de prioridades das nações, o Canadá quer durante a cimeira anunciar um grupo de cerca de dez países fundadores de um novo banco global de defesa, mobilizando até 100 mil milhões de libras (cerca de 117 mil milhões de euros) em financiamento barato para reforçar a segurança dos aliados.

“Definimos a cimeira da NATO como prazo… O que queremos anunciar é a lista dos membros fundadores”, afirmou Isabelle Hudon, principal negociadora do Canadá no lançamento da iniciativa multilateral e CEO do Banco de Desenvolvimento do Canadá, citada pela Reuters.

“O meu primeiro-ministro [Mark Carney] disse que não devemos procurar a perfeição antes de lançar esta iniciativa, que devemos reunir os países que estão prontos para serem chamados de membros fundadores, e então a adesão permanecerá aberta”, referiu Hudon. Até ao momento, apenas o Luxemburgo já deu o seu apoio público à iniciativa.

E a Ucrânia?

No quarto ano de guerra, a Ucrânia deverá ser outro dos temas centrais em Ancara, com o debate a focar-se no apoio militar ao país, na sua indústria de defesa e no que a NATO pode retirar de ensinamentos do conflito às portas da Europa.

A fazer fé das notícias, Zelensky, que marca presença na cimeira, poderá sair de Ancara com um apoio reforçado e que se traduz em dinheiro. Os países europeus da NATO e o Canadá deverão comprometer-se a fornecer 70 mil milhões de euros em ajuda militar à Ucrânia em 2026 e 2027, foi noticiado pela agência de notícias France-Presse (AFP), com base em fontes diplomáticas. O compromisso dos países NATO – com exceção dos EUA – terá sido confirmado durante as últimas reuniões preparatórias para a cimeira.

Os 140 mil milhões de euros, ao longo de dois anos, incluem 60 mil milhões de euros de ajuda militar que a UE se comprometeu a emprestar à Ucrânia em 2026 e 2027, ou seja, 30 mil milhões por ano.

Já o Canadá e os países europeus da NATO, dos quais 23 são também membros da UE, vão contribuir com cerca de 40 mil milhões de euros em 2026 e, pelo menos, o mesmo montante em 2027, indicaram as fontes, citadas pela AFP.

Este valor é idêntico ao que a NATO, incluindo os Estados Unidos, se tinha comprometido a contribuir há dois anos, antes da cimeira de Washington.

E o que ganha a Turquia?

“A aquisição de equipamentos de defesa [e] a legitimação do regime são, provavelmente, os principais objetivos da Turquia”, aponta Max Bergmann, diretor do programa para a Europa, Rússia e Eurásia do think tank americano Center for Strategic and International Studies, citado pela CNBC.

Entre as preocupações da Turquia – que organiza pela segunda vez uma cimeira NATO no país – deverá estar ainda a sua eventual exclusão da compras de defesa europeia, num momento em que a mensagem europeia é ‘comprar na Europa’.

Erdogan pretenderá igualmente manter Ancara como peça pivot na segurança dos países da Aliança. A ver vamos se os EUA irão fazer algum anúncio envolvendo a colaboração entre os dois países: em concreto, no programa F-35.

A Turquia tinha sido excluída do programa de desenvolvimento e aquisição dos caças em 2019, na sequência da compra, por Ancara, do sistema russo de defesa antiaérea S-400, aquisição anunciada em 2017.

O tema foi levantado por Netanyahu. Numa entrevista à cadeia televisiva Fox News, o primeiro-ministro israelita afirmou que não considera que Washington deva fornecer à Turquia os caças F-35 nem os motores destinados a estas aeronaves, porque isso “desequilibraria a balança de poder no Médio Oriente”.

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