É o renascimento do modelo de bancassurance em Portugal? Bancos e seguradoras estão a agitar o mercado nacional em negócios que envolvem muitos milhões de euros.
A seguradora Ageas está a avaliar entrar no capital do BCP, onde pode vir a assumir uma participação até 5% do banco português. Se assim for, poderemos estar a falar numa transação superior a 700 milhões de euros. Mas há mais negócios entre bancos e companhias seguradoras que estão a agitar o mercado nacional e com muitos milhões em cima da mesa.
O ECO também avançou em primeira mão que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) poderia reforçar a sua participação na Fidelidade. Atualmente, o banco público detém 15%, mas pode ficar com 30% da maior seguradora do mercado nacional que foi obrigada a vender há mais de uma década por imposição da troika.
É certo que há fatores específicos que ajudam a explicar cada uma das operações que estão no mercado neste momento. Nestes dois casos até há um denominador comum: a Fosun.
Mas há razões de índole regulatória e até da própria complementaridade entre as atividades bancárias e seguradora também estão a fomentar negócios não só em Portugal, mas um pouco por toda Europa, segundo fontes do mercado ouvidas pelo ECO.
‘Danish Compromise’ reforça modelo de bancassurance
Estes movimentos ganharam maior tração com a entrada em vigor da regulação CCR3 no ano passado. Esta reforma sobre os capitais da banca veio solidificar o chamado ‘Danish Compromise’ e muitos anteciparam então um renascimento do modelo banca-seguros. O que é este ‘Compromisso Dinamarquês’?
É uma regra prudencial europeia que dá um tratamento mais favorável ao capital regulatório quando um banco detém participações em seguradoras, potenciando o modelo de bancassurance.
Na prática, em vez de deduzir o investimento numa seguradora no seu capital CET1 (de maior qualidade), o banco aplica uma ponderação de risco (risk weighting) sobre o investimento, preservando os rácios.
A regra foi criada em 2012 de forma temporária, mas no início de 2025 tornou-se permanente com a implementação da CCR3. Bancos como o Monte dei Paschi, por exemplo, e por cá também estão a tentar aproveitar a benesse regulatória.
A exploração do canal bancário já existe. Mesmo que um banco não seja dono de uma companhia de seguros, há acordos de distribuição. Por cá temos estes acordos: a Caixa com a Fidelidade (foi condição da venda), BCP com a Ageas, Santander com a Mapfre, BPI com a Allianz e Novobanco com a GamaLife. Alguns deles estão a terminar em renegociação.
Estes contratos são bons sobretudo para os produtos vida como seguros de vida, PPR, seguros de poupança, muito dos quais são produzidos pelas seguradoras.
Para o setor bancário também é um bom negócio. Canaliza muita poupança e, sobretudo, potencia a atividade cross-selling (vendas cruzadas), representando uma importante fonte de receitas com comissões e muito mais estável em relação aos juros.
“Os bancos portugueses têm uma estrutura de 80-20 entre juros e comissões, mas devia estar mais perto de 50/50, como se passa nos bancos europeus”, explicou fonte do mercado.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Fosun agita BCP e Fidelidade
A agitação do mercado nacional dá-se precisamente neste enquadramento, mas cada operação que está em cima da mesa tem também razões concretas.
Parte disso explica-se com a Fosun. O grupo chinês detém pouco mais de 20% do BCP e é o dono de 85% da Fidelidade, mas encontra-se pressionado por credores e agências de rating para reduzir a dívida que ultrapassa os 30 mil milhões de euros. Estes dois ativos em Portugal poderão representar um encaixe relevante para os cofres chineses.
A Fosun já vendeu uma participação de 10% no BCP há dois anos e está a avaliar as opções para a restante participação no banco, e pode aproveitar o facto de as ações estarem em máximos de mais de uma década para realizar ganhos bastante generosos.

A Ageas sabe que a parceria de longa data para a distribuição de seguros nos canais do BCP está a terminar e que a atual indefinição acionista no banco (com a potencial saída de referência como a Fosun) poderá colocá-lo na mira da concorrência.
Assim, ter uma participação direta no capital do BCP ajudaria a proteger os interesses dos belgas num mercado onde controla 16% de quota, sendo o segundo maior grupo segurador em Portugal.
No caso da Fidelidade, está em curso IPO (oferta pública inicial) que poderia avaliar a seguradora em 4,9 mil milhões de euros. Ou seja, uma transação com a Caixa poderia representar 700 milhões para os chineses.
Paulo Macedo já admitiu que olhará para o IPO (oferta pública inicial). O banco apresenta-se com muita liquidez e procura oportunidades para rentabilizar ainda mais o capital do Estado. “Já dissemos há vários anos que víamos com interesse – e que a Fidelidade também já anunciou que será no ano que vem – que a Fidelidade fosse cotada na bolsa. Nessa altura, logo analisaremos”, assegurou aos jornalistas em fevereiro.
Na altura, o CEO da Caixa também revelou que as duas partes estavam a trabalhar no sentido de reforçar a ligação entre ambas as partes — no âmbito de um acordo de distribuição de longa data que ficou selado quando o banco público vendeu a seguradora em 2014.
“Onde nós estamos mais empenhados é em aumentar a nossa fidelização dos clientes e o aumento de proveitos para ambas as entidades, para nós e para a Fidelidade em termos de seguros”, respondeu.

Franceses miram GamaLife e Lusitania
Os franceses do BPCE também avançam para a compra da GamaLife depois de terem adquirido o Novobanco, num negócio em que o fundo Apax estará a pedir cerca de 600 milhões de euros. De outro modo, não teriam interesse na antiga BES Vida.
A ideia é implementar um modelo de bancassurance no Novobanco, explicou o líder do grupo francês na semana passada.
“O plano para o Novobanco é ter produtos de seguro para vender junto dos clientes bancários”, disse Nicolas Namias em Lisboa, na inauguração do segundo centro de competências do Natixis em Portugal. “Há muitas maneiras de o fazer” e a compra da GamaLife – que tem um acordo para a distribuição de seguros vida em exclusividade até 2039 — é “uma maneira possível”, admitiu o responsável.
Outro grupo francês tem a Lusitania na mira. A seguradora francesa CNP Assurances está a considerar avançar com uma oferta pela Lusitania, detida pela Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG).
O maior grupo mutualista português enfrenta há anos limitações de capital para continuar a investir nos seus negócios, e procura um novo parceiro para desenvolver a atividade seguradora da Lusitania Seguros e Lusitania Vida, avaliadas em cerca de 270 milhões de euros, mas com muitas imparidades associadas.
O presidente da mutualista já tinha admitido a venda do negócio segurador aquando da tomada de posse dos novos órgãos associativos do Montepio, no início do ano. Mas sublinhou Virgílio Lima: “Temos um conjunto de imparidades que vêm do período da crise anterior, que afetou todas as entidades e que estão em recuperação, mas é uma matéria que, uma vez recuperada, poderemos fazer parcerias de desenvolvimento, mantendo, naturalmente, uma posição relevante e importante nas companhias”.
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Negócios entre banca e seguradoras agitam milhões em Portugal
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