O abismo de talento e de milhões que separa os favoritos do Mundial 2026

França lidera com 1.561 milhões de euros e Marrocos fecha o top 10 dos favoritos com 487 milhões. Entre os dois extremos, um fosso financeiro que vai muito além do que acontece dentro de campo.

A FIFA estima arrecadar cerca de quase 8 mil milhões de euros com o Mundial de 2026, mais de 56% do que gerou no Qatar em 2022. Somente os direitos de transmissão valem cerca de 3,3 mil milhões de euros, um recorde absoluto, e os prémios distribuídos pelas 48 seleções participantes ascendem a 630 milhões de dólares, com o campeão a levar para casa 50 milhões. Em Portugal, a FIFA chegou a exigir 430 mil euros por cada jogo cedido a televisões nacionais, mais do dobro do valor cobrado há quatro anos.

Estes números espelham uma realidade que perdura há vários anos, com o futebol a deixar de ser apenas um desporto mas uma indústria, um mercado global, um ecossistema económico que move centenas de milhões de euros e onde o talento se mede em prémios e receitas.

O Mundial de 2026, que arranca esta quinta-feira nos EUA, Canadá e México é o maior palco de todos, e os números que estão por detrás das dez melhores seleções do ranking da FIFA contam uma história que vai muito além dos golos e das assistências.

Segundo dados do Transfermarkt compilados pelo ECO, os 260 atletas dos plantéis das dez seleções mais bem posicionadas no ranking da FIFA valem cerca de 9.534 milhões de euros, o equivalente ao novo aeroporto de Lisboa e ainda sobram mil milhões de euros. Mas é a distribuição desse valor que melhor revela as assimetrias de um campeonato onde nem todos os países chegam ao mesmo patamar.

França é a seleção com o plantel mais valioso do top 10, avaliado em 1.561 milhões de euros, que se traduz num valor de cerca de 60% acima do valor médio dos plantéis das dez seleções mais bem colocadas para levar até casa a taça em ouro maciço desenhada por Silvio Gazzaniga.

Logo atrás dos Les Bleus e ainda acima da barreira dos 1.000 milhões de euros, surge o plantel de Inglaterra com uma avaliação de 1.373 milhões de euros, Espanha com uma equipa de 1.217 milhões de euros e ainda Portugal que se apresenta com um plantel avaliado em 1.009 milhões de euros.

No extremo oposto do top 10 de seleções do ranking da FIFA está Marrocos, com um plantel avaliado em 487 milhões de euros, três vezes menos que a França e pouco mais de metade da média do grupo.

A atual campeã do mundo chega ao Mundial como a seleção mais experiente do top 10, com 47,7 internacionalizações por jogador e também aquela cujos jogadores chegam ao Mundial com menos desgaste nas pernas, com cada atleta a contabilizar, em média, 2.793 minutos (ou 30 jogos) esta época, 15% abaixo da média das seleções do top 10 da FIFA. EPA/JUAN IGNACIO RONCORONI

O peso da experiência e da “frescura” nas pernas

No topo da hierarquia individual estão três jogadores com avaliações de mercado nos 200 milhões de euros, segundo “preços recolhidos” a 4 de junho no site Transfermarkt: Lamine Yamal, o prodígio espanhol de 18 anos do Barcelona, Kylian Mbappé, o francês de 27 anos que joga no Real Madrid, e ainda Erling Haaland, a estrela maior da Noruega e do Manchester City de 25 anos.

Entre os 260 atletas das dez principais seleções, contam-se 15 jogadores avaliados em mais de 100 milhões de euros, cinco deles são franceses, o que ajuda a explicar por que razão a equipa de Didier Deschamps é a mais valiosa do campeonato.

Portugal marca presença neste lote de elite com dois atletas: João Neves e Vitinha, ambos jogadores do Paris Saint-Germain, avaliados em 140 milhões de euros cada. É um dado que sublinha a aposta do clube parisiense no futebol português, e que coloca a seleção das quinas no quarto lugar em valor de plantel, acima de potências como Alemanha, Brasil e Argentina.

Entre os 260 atletas das seleções do top 10, 14% contabiliza até ao momento mais de 50 jogos ao longo da atual época desportiva, e o atleta com mais minutos jogados esta época é o neerlandês Virgil van Dijk, com 5.781 minutos, equivalentes a 64 jogos.

Há, porém, um dado que revela uma das fragilidades estruturais de algumas das melhores equipas do mundo: a dependência excessiva de um punhado de estrelas.

  • A Argentina, atual campeã do mundo e líder do ranking FIFA, é a seleção que mais depende dos seus cinco jogadores mais valiosos, ao concentrar 51,91% do valor total do plantel argentino. Esta concentração de valor torna-se ainda mais relevante quando se percebe que Lionel Messi, o grande nome da seleção argentina, está avaliado em apenas 15 milhões de euros segundo o Transfermarkt, reflexo da idade e do desgaste de uma carreira sem paralelo.
  • Marrocos vem logo a seguir, com os seus cinco “mais valiosos” a representarem 49,26% do total. Portugal não fica longe, com 47,1%, enquanto na outra ponta estão os Países Baixos com 38,07% e a Inglaterra com 38,96%, os plantéis mais equilibrados em termos de distribuição de valor.

Com 38 anos e 198 internacionalizações, o “La Pulga” é, ainda assim, um dos cinco mais internacionais deste Mundial. Mas o recorde absoluto pertence a Cristiano Ronaldo: o avançado português de 41 anos conta com 227 jogos pela seleção nacional e 143 golos marcados. É o jogador mais velho e mais internacionalizado de todo o campeonato, um dado estatístico que, por si só, diz tudo sobre a singularidade de uma carreira que já pertence aos livros de história.

Entre as seleções do top 10, o Brasil surge como aquela com o plantel “mais velho”, apresentando uma mediana de idades de 29 anos por jogador, bem acima dos 26,7 anos dos restantes plantéis deste grupo. No canto oposto está Marrocos, com o plantel marroquino liderado por Mohamed Ouahbi a apresentar uma mediana de idades de 25,5 anos.

Portugal encontra-se no meio, ao registar uma mediana de idades de 26 anos por atleta, tendo em João Neves o jogador mais novo do plantel (21 anos), em Cristiano Ronaldo o mais velho e apenas sete jogadores com 25 ou menos anos.

Nota: Se está a aceder através da app do ECO ou do smartphone, carregue aqui para abrir a infografia completa.

A Argentina surge também como a seleção do top 10 com maior média de internacionalizações por jogador: 47,7 jogos por atleta, o que inclui o defesa Nicolás Otamendi, até há pouco capitão do Sport Lisboa e Benfica, com 131 internacionalizações.

A seleção argentina apresenta-se com um plantel experiente, mas também aquele com menos desgaste nas pernas dos atletas. Os jogadores argentinos acumularam, em média, apenas 2.793 minutos esta época, o equivalente a cerca de 30 jogos, bem abaixo da média dos 3.203 minutos dos plantéis das seleções do top da FIFA, segundo dados recolhidos através do site Zerozero.

Em contraste, a França é a seleção cujos jogadores chegam ao Mundial com mais minutos nas pernas, com cada francês a jogar, em média, 3.734 minutos, o equivalente a 41 jogos completos, cerca de 27% acima do nível da Argentina. Entre os 260 atletas das seleções do top 10, 14% contabiliza até ao momento mais de 50 jogos ao longo da atual época desportiva.

A seleção portuguesa posiciona-se abaixo da média do top 10 neste indicador, com cada jogador a contabilizar, em média, 3.068 minutos, perto de 34 jogos. Ainda assim, quatro portugueses figuram entre os atletas mais utilizados esta época desportiva, carregando no corpo mais de 50 jogos realizados: Diogo Costa do FC Porto (54 jogos), Francisco Trincão do Sporting CP (53 jogos), Vitinha do PSG (52 jogos) e Rui Silva do Sporting CP (50 jogos).

O atleta com mais minutos jogados esta época entre as 10 seleções favoritas a vencerem a competição é o neerlandês Virgil van Dijk, com 5.781 minutos, equivalente a 64 jogos completos, uma sobrecarga que levanta interrogações sobre as condições físicas com que o capitão do Liverpool chega ao torneio. Logo a seguir surgem dois belgas: Hans Vanaken com 5.418 minutos (60 jogos) e Brandon Mechele com 5.326 (59 jogos).

Cerca de 6% dos 260 jogadores das seleções do top 10 apresentam valores associados a excesso de peso, ao apresentarem um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 25.

A carga de minutos diz algo sobre o desgaste, mas o físico conta-se também noutras unidades. No capítulo da estatura, a Bélgica lidera o top 10 com uma média de 186,35 centímetros de altura por atleta, 1,5% acima da média dos 260 jogadores, fixada nos 183,55 centímetros. Portugal é a segunda seleção mais baixa deste grupo, com uma estatura média de 182,08 centímetros, apenas à frente da Argentina, cujos jogadores medem, em média, 179,42 centímetros.

O atleta mais alto de todos é o defesa central inglês Dan Burn, com 201 centímetros, empatado praticamente com os guarda-redes belgas Mike Penders e Thibaut Courtois, que atingem os dois metros certos. No lado oposto está o francês N’Golo Kanté e o alemão Lennart Karl, que partilham a “cota mínima” dos 168 centímetros.

Um dado curioso e que desafia a imagem de atletas em permanente peak físico é que 6% dos 260 jogadores das seleções do top 10 apresentam valores associados a excesso de peso, ao apresentarem um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 25.

O caso mais evidente é o do belga Romelu Lukaku, com 181 centímetros e 96 quilogramas, que resulta num IMC de 26,3. O francês Dayot Upamecano, com 186 centímetros e 90 quilogramas, apresenta um IMC de 26. A grande maioria, 94%, enquadra-se na categoria de peso normal, mas a exceção existe e não é residual.

De Cristiano Ronaldo a Lamine Yamal, o mais valioso do mundo. Jorge Mendes e a Gestifute representam 27 jogadores em seis das dez melhores seleções do Mundial, com uma presença na seleção portuguesa sem paralelo em nenhum outro país do mundo. EPA/Alejandro Garcia

Mas quando os holofotes se apagam e as câmaras se focam nos relvados da América do Norte, quem detém o poder nos bastidores do futebol mundial é, em grande medida, Jorge Mendes. A Gestifute, a agência fundada pelo empresário de 60 anos natural de Lisboa, é o grupo de representação com maior presença nos plantéis do top 10 deste Mundial, com 27 atletas distribuídos por seis seleções.

É na seleção portuguesa que a influência de Jorge Mendes atinge a sua máxima expressão: 19 dos 27 atletas do plantel nacional estão representados pela Gestifute, o que corresponde a cerca de 70% do plantel. Nomes como Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, Rúben Dias, João Neves, Vitinha, Pedro Neto, Rafael Leão, Gonçalo Ramos e João Félix têm o mesmo agente — um nível de concentração que não tem paralelo em nenhuma outra seleção do mundo.

Além da influência em Portugal, a Gestifute marca presença em mais cinco seleções: Brasil, Argentina, França, Bélgica e Espanha, sendo Lamine Yamal, o jogador mais valioso do mundo a par de Mbappé, um dos mais mediáticos nomes na carteira de Jorge Mendes fora de Portugal.

Em segundo lugar, ainda longe da Gestifute, surge o grupo CAA Sports, que opera através de duas agências — a CAA Base Ltd, de Leon Angel e Frank Trimboli, e a CAA Stellar, de Jonathan Barnett e David Manasseh –, que conta com 14 atletas nos plantéis do top 10, oito deles na seleção inglesa, quase um terço do plantel dos Three Lions.

O poder de influência da Premier League

A influência dos agentes segue o dinheiro, e o dinheiro, no futebol europeu, concentra-se em Inglaterra. A Premier League é a liga que mais jogadores coloca nos plantéis das dez melhores seleções do mundo: 87 atletas, quase um terço do total de convocados.

Seguem-se a Liga espanhola com 42 atletas, a Ligue 1 francesa com 31, a Bundesliga alemã com 29 e a Serie A italiana com 20. No total, estas cinco ligas europeias são responsáveis por 80% dos atletas do top 10, ou seja, por cada dez jogadores das seleções do top 10 da FIFA, oito atuam numa destas competições.

Esta concentração reflete-se também nos clubes: o Arsenal lidera com 13 atletas nos plantéis do top 10, seguido do Barcelona, do Manchester City e do PSG, cada um com 12 representantes. É uma fotografia que mostra como o futebol de elite orbita em torno de meia dúzia de instituições com recursos financeiros desproporcionais face ao resto do mercado.

No plano da internacionalização dos próprios plantéis, Inglaterra é a seleção com maior número de jogadores a atuar na liga doméstica — 22 dos 26 convocados jogam na Premier League. A Alemanha apresenta um número também expressivo, com 19 dos 26 atletas a jogar na Bundesliga.

No polo oposto estão Argentina, Marrocos e Países Baixos, cada um com apenas dois atletas a competir nas respetivas ligas nacionais. Portugal surge com cinco jogadores a jogar em clubes portugueses — três do Sporting CP e um do FC Porto e um do Benfica –, com os restantes espalhados pelas ligas francesa e inglesa, onde atuam 11 dos 27 convocados de Roberto Martínez.

O Mundial de 2026 começa, portanto, como os grandes eventos económicos: com hierarquias estabelecidas, com poder concentrado nas mãos de poucos e com um conjunto de métricas que revelam muito mais do que o resultado final.

Nos 104 jogos que se seguem até à grande final de 19 de julho no Metlife Stadium em Nova Jérsia, nos EUA, o que estará verdadeiramente em jogo é uma combinação de talento, desgaste físico, estratégia e, claro, de dinheiro, muito dinheiro.

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