O comércio já não basta: Trump e Xi Jinping discutem poder, tecnologia e segurança

Donald Trump estará na China entre dia 13 e 15 de maio, a primeira visita oficial de um presidente americano a Pequim em oito anos. Irão, guerra comercial, terras raras e tecnologia em destaque.

Estavam entre 9º a 12ºC, temperaturas típicas do início do inverno chinês, quando ao fim de tarde de 8 de novembro de 2017, o Air Force One aterrou no Aeroporto Internacional de Pequim. Envergando um sobretudo, o habitual fato e camisa branca, Donald Trump optou por guardar a tradicional gravata vermelha para mais tarde, privilegiando os tons escuros, e, ao lado de Melania Trump, colocou um pé fora do avião para aquela que foi durante oito anos a última visita oficial de um Presidente norte-americano à China. Para esta quarta-feira, dia em que o interregno chega ao fim, espera-se um clima mais apetecível, o que não significa que o ambiente entre o inquilino da Casa Branca e o homólogo Xi Jinping não continue a oscilar entre o quente e o frio.

Chegando a estar previsto para março, o encontro acabou adiado para maio alegadamente devido à guerra no Irão, tema que não é de somenos na relação entre os dois países. No entanto, entre os analistas, a expetativa é que a economia domine a visita, com o controlo das exportações, semicondutores, terras raras, cadeias de abastecimento, sanções e instrumentos de coerção comercial a funcionarem como limites estratégicos de entendimento. Mais do que uma mudança profunda na relação entre as partes, espera-se antes uma estratégia para impor alguma disciplina à rivalidade tarifária, tecnológica e de produção.

A visita do Presidente Trump a Pequim oferece uma oportunidade para recalibrar as relações entre os EUA e a China, mas as alterações concretas poderão ser modestas“, considera Robert Gilhooly, economista sénior para mercados emergentes da Aberdeen Investments,. Para o analista, “quem espera uma redução significativa das tarifas, esclarecimentos sobre a relação comercial ou uma declaração conjunta sobre o conflito no Médio Oriente poderá sair desapontado“.

A visita do Presidente Trump a Pequim oferece uma oportunidade para recalibrar as relações entre os EUA e a China, mas as alterações concretas poderão ser modestas.

Robert Gilhooly

Economista sénior da Aberdeen Investments

Os dois líderes terão uma reunião na quinta-feira, antes de uma visita ao Templo do Céu e da participação num jantar de Estado nessa noite, e na sexta-feira, antes de Donald Trump partir para os Estados Unidos, terá lugar um último almoço de trabalho entre os dois líderes. Um programa muito diferente de quando, em 2017, Xi Jinping recebeu Donald Trump com “um nível de pompa raramente concedido a líderes estrangeiros”: um jantar privado na Cidade Proibida, uma cerimónia na Praça Tiananmen e anúncios de acordos avaliados em 250 mil milhões de dólares, assinala Rush Doshi, do Council on Foreign Relations. “Na altura, a China procurava estabilizar a relação bilateral e evitar uma escalada comercial com a nova administração norte-americana”, destaca o investigador num artigo de análise.

Recentemente a porta-voz adjunta da Casa Branca, Anna Kelly, indicou que agora Trump e Xi Jinping irão discutir acordos nas áreas da aeronáutica, agricultura e energia, tendo também sinalizado que os dois países têm vindo a trabalhar na criação de um Conselho de Comércio para gerir o comércio de produtos não sensíveis. Embora os dois países, tenham vindo a negociar eventuais compras chinesas de aviões da Boeing (cujo CEO fará parte da comitiva de Trump), não são esperados pelos analistas anúncios gerais de investimentos de grande dimensão.

“A visita do Presidente Donald Trump à República Popular da China, marcada para 14 e 15 de maio de 2026, deverá representar um passo relativamente modesto no sentido de uma maior estabilidade e previsibilidade na mais importante relação bilateral do mundo. Tal como aconteceu com todos os presidentes norte-americanos que visitaram Pequim, Trump enfrenta expectativas elevadas num contexto de uma relação muito mais complexa e desafiante“, segundo Edgard D. Kagan, investigador do Center for Estrategic&International Studies, numa análise divulgada esta semana.

Trump e Xi Jinping reúnem-se seis meses depois do anúncio de uma trégua na guerra comercial, existindo sim a expetativa sobre se irão anunciar o seu prolongamento durante o encontro em Pequim ou se ficará para mais tarde. Isto porque, em termos comerciais, a fotografia mais robusta entre ambos é a dos bens. De acordo com o U.S. Census Bureau, o défice comercial dos Estados Unidos com a China caiu de 418,2 mil milhões de dólares em 2018 para 202,1 mil milhões em 2025, num período que tem sido marcado pela guerra comercial (ver cronologia).

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Nos dados mais recentes, observa-se uma nova redução do desequilíbrio. Em 2025, o défice reduziu-se cerca de 32% face ao ano anterior, para 202 mil milhões de dólares, menos de metade do registado em 2018, com as importações a diminuírem mais rapidamente do que as exportações. Parte da diminuição resulta da desaceleração económica chinesa, mas também da estratégia americana de realocação de determinados processos de produção para países aliados, como o México ou a Índia. Ainda assim, os números confirmam que, apesar da crescente tensão geopolítica entre Washington e Pequim, a relação comercial entre as duas maiores economias do mundo continua a ser uma das mais importantes à escala global.

Ainda que se verifique esta evolução, o argumento de Trump sobre a persistência de desequilíbrios setoriais não está esgotado. De acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a tarifa de Nação Mais Favorecida, isto é, a taxa aduaneira normal e não discriminatória que os Estados aplicam às importações provenientes de outros países, garantindo igualdade de tratamento, aplicada pela China em 2024 foi 7,5% no total, 14% na agricultura e 6,5% nos bens não agrícolas, enquanto a dos EUA foi 3,3% no total, 5% na agricultura e 3,1% nos bens não agrícolas. Ademais, para Trump a questão deixou de ser apenas sobre o saldo das trocas comerciais para passar a ser também sobre a dependência estratégica e domínio industrial chinês em setores críticos, como as terras raras.

E será precisamente o controlo da China sobre minerais críticos um dos temas mais sensíveis na agenda. Para Robert Gilhooly, o facto de o país ser não só o maior explorador mundial de terras raras, como deter as maiores reservas “dá-lhe uma carta forte para jogar, o que deverá ajudar a manter a atual detente desconfortável”.

Em 2025, a China deverá ter produzido cerca de 270 mil toneladas de terras raras, o equivalente a aproximadamente 69% da produção mundial, estimada em 390 mil toneladas. Os Estados Unidos surgem muito atrás, com 51 mil toneladas, o que significa que a produção chinesa é mais de cinco vezes superior à americana. A liderança chinesa não se cinge à produção, estendendo-se também às reservas, detendo cerca de 44 milhões de toneladas, o equivalente a ligeiramente mais de metade do total mundial conhecido.

Em 2025, a China deverá ter produzido cerca de 270 mil toneladas de terras raras, o equivalente a aproximadamente 69% da produção mundial estimada em 390 mil toneladas. Os Estados Unidos surgem muito atrás, com 51 mil toneladas.

Deste modo, parte da questão para os Estados Unidos passa por o domínio chinês não resultar apenas da abundância geológica, mas também da capacidade industrial instalada, da refinação e do controlo das cadeias de processamento. Os Estados Unidos têm vindo a aumentar a produção nos últimos anos, mas continuam fortemente dependentes da China para o processamento e refinação destes minerais essenciais para a indústria tecnológica, automóvel, energética e militar, com os famosos ‘chips’ a terem papel de destaque.

O desequilíbrio entre a produção, reservas e capacidade industrial tornou assim as terras raras num dos principais pontos de vulnerabilidade das cadeias de abastecimento ocidentais, o que Donald Trump quer contrariar. Até porque os Estados Unidos continuam a tratar a tecnologia avançada como um tema de segurança nacional. O Departamento de Indústria e Segurança norte-americano apertou em dezembro de 2024 o controlo sobre equipamento de fabrico de semicondutores e software, em janeiro e março de 2025 reforçou as restrições sobre semicondutores avançados e IA, e em janeiro deste ano passou para decisão caso a caso certas licenças para chips avançados destinados à China.

A política norte-americana relativa ao acesso a tecnologia avançada será uma área-chave a acompanhar. O Congresso poderá defender uma linha dura na restrição do acesso a semicondutores avançados, mas não se pode excluir um ligeiro alívio dessas restrições no âmbito de um acordo transacional. São também prováveis declarações de alto nível prometendo maiores compras de produtos norte-americanos, mesmo que os detalhes permaneçam vagos”, assinala Robert Gilhooly.

Para o economista, a competição estratégica relativa à IA e a convicção da administração Trump de que uma regulação mínima é a melhor forma de apoiar as empresas norte-americanas “sugerem que dificilmente haverá consenso sobre a necessidade de criar mecanismos oficiais de salvaguarda em matéria de IA entre os dois países”. Ainda assim, Trump leva na comitiva empresários de tecnológicas, de acordo com a lista divulgada pelo New Yok Times.

Donald Trump deverá levar a Pequim uma das maiores e mais influentes delegações empresariais de uma visita presidencial americana à China nos últimos anos. A comitiva inclui líderes de empresas tecnológicas, financeiras e aeronáuticas, como Elon Musk (CEO da Tesla e da SpaceX), Tim Cook (CEO da Apple), Larry Fink (CEO da BlackRock), Kelly Ortberg (CEO da Boeing) e Sanjay Mehrotra (CEO da Micron Technology), entre outros. Leonor Gonçalves/ECO

Por seu lado, a resposta chinesa tem seguido a mesma lógica de segurança económica, institucionalizando instrumentos legais para retaliar ou condicionar pressões externas. Pequim implementou em março de 2025 um regulamento de execução da lei anti-sanções, em abril de 2026 publicou regras para contrariar medidas extraterritoriais estrangeiras consideradas ilícitas e no mesmo mês aprovou um regulamento sobre segurança das cadeias industriais e de abastecimento com mecanismo de investigação e contra-medidas.

Politicamente, Xi Jinping deverá procurar garantir uma estabilidade mínima para evitar uma nova escalada tarifária e um alívio em alguns estrangulamentos tecnológicos e legais. “Na frente económica, a China procura sinalizar o sucesso da sua abordagem de retaliação proporcional (“tit-for-tat”) na gestão da escalada tarifária da administração Trump, do uso das exportações de terras raras como resposta aos controlos norte-americanos às exportações e da sua disponibilidade para acompanhar qualquer desanuviamento promovido pelos Estados Unidos”, destaca Edgard D. Kagan.

Pequim tem defendido a criação de um Conselho de Investimento para complementar o já proposto Conselho de Comércio e gostaria de alcançar um entendimento sobre a necessidade de reduzir barreiras ao investimento nos Estados Unidos, embora reconheça que esse objetivo provavelmente vai além do que é viável neste momento.

Edgard D. Kagan

Investigador no CSIS

O analista assinala que “Pequim tem defendido a criação de um Conselho de Investimento para complementar o já proposto Conselho de Comércio e gostaria de alcançar um entendimento sobre a necessidade de reduzir barreiras ao investimento nos Estados Unidos, embora reconheça que esse objetivo provavelmente vai além do que é viável neste momento”.

Para Rush Doshi, mesmo que um compromisso de investimento chinês de grande repercussão possa acontecer, este “não será credível a longo prazo”. “O memorando de entendimento de 83,7 mil milhões de dólares com a Virgínia Ocidental, elaborado durante a visita de Trump a Pequim em 2017, excedia todo o PIB daquele Estado e nunca se concretizou”, alerta o investigador.

Até porque o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, minimizou as expectativas de um grande quadro de investimento bilateral, sugerindo que a visita serviria como um “espaço” para discutir “questões pontuais relacionadas com investimentos”.

Presidente dos EUA, Donald J. Trump e o Presidente chinês, Xi Jinping, numa cerimónia de boas-vindas no Grande Salão do Povo em Pequim, China, 2017. EPA/ROMAN PILIPEY

Os analistas acreditam também que Xi Jinping vai tentar obter sinais de moderação americana relativamente a Taiwan, sobretudo após as novas vendas de armas dos Estados Unidos à ilha. Há receio em Taipei de que Trump adote uma abordagem mais “transacional”, trocando uma postura mais suave sobre Taiwan em troca de concessões económicas chinesas.

“Nos seis encontros entre Trump e Xi desde janeiro de 2025, as declarações de Trump concentraram-se em assuntos económicos, enquanto as declarações chinesas se centraram cada vez mais em Taiwan. Académicos chineses sugerem que Pequim vai pressionar no sentido de uma mudança na política declaratória dos EUA — idealmente uma declaração explícita opondo-se à independência de Taiwan, em vez de “não a apoiar” — e por negociações prévias dos EUA sobre a venda de armas, ambas mudanças significativas na política americana. O governo já adiou um importante pacote de armas e Trump admitiu publicamente ter discutido a venda de armas com Xi“, destaca Rush Doshi.

Entendemos que os chineses compreendem a nossa posição sobre esta questão, e nós compreendemos a deles. E acredito que ambos os lados — repito, sem antecipar o que vai acontecer nas negociações — compreendem que não é do interesse de nenhum dos lados que ocorra qualquer acontecimento desestabilizador naquela parte do mundo.

Marco Rubio

Secretário de Estado nort-americano

Na semana passada, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio indicou que Taiwan “será um tema de discussão” no encontro entre Xi e Trump. “Entendemos que os chineses compreendem a nossa posição sobre esta questão, e nós compreendemos a deles. E acredito que ambos os lados — repito, sem antecipar o que vai acontecer nas negociações — compreendem que não é do interesse de nenhum dos lados que ocorra qualquer acontecimento desestabilizador naquela parte do mundo”, disse o responsável americano.

Pequim considera Taiwan, governada autonomamente desde 1949, uma “parte inalienável” do território chinês e não descarta o uso da força para assumir o controlo, uma posição rejeitada pelo Governo taiwanês, que sustenta que só os 23 milhões de habitantes da ilha têm o direito de decidir o seu futuro político.

Guerra no Irão

A guerra no Irão estará igualmente no centro da visita oficial do presidente norte-americano à China. Se por um lado, Donald Trump deverá pressionar Xi Jinping para limitar o apoio da China ao Irão, Pequim deverá manter perfil mais discreto sobre o tema. “Trump vai procurar obter apoio da República Popular da China (RPC) para os seus esforços no sentido de alcançar um acordo aceitável com o Irão que permita pôr fim ao conflito e reabrir o Estreito de Ormuz“, prevê Edgard D. Kagan.

Para o analista, por outro lado, “a China vai procurar evitar dar a imagem de estar a pressionar Teerão de uma forma que possa ser interpretada como apoio aos Estados Unidos, embora incentive o Presidente Donald Trump a alcançar um acordo que permita reabrir o Estreito de Ormuz”.

A China continua a ser o principal comprador do petróleo iraniano, o que dá a Teerão uma fonte crítica de receitas apesar das sanções ocidentais, ao mesmo tempo que o país tem tentado posicionar-se como mediador diplomático. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, pediu um cessar-fogo e negociações, enquanto dirigentes iranianos afirmam confiar no papel chinês para promover uma solução política.

O tema será, contudo, sensível. Washington sancionou, na segunda-feira, 12 indivíduos e entidades ligados ao Irão, acusando-os de facilitarem a venda de petróleo iraniano à China, depois de na última sexta-feira ter sancionado três empresas chinesas de satélites. As sanções incluem o congelamento de quaisquer bens detidos nos Estados Unidos e a proibição de empresas e cidadãos norte-americanos negociarem com os indivíduos ou empresas visados.

Segundo um responsável norte-americano, citado pelo Financial Times (acesso pago), Trump irá retomar discussões anteriores com Xi sobre o apoio chinês ao Irão e à Rússia, incluindo o fornecimento de componentes de dupla utilização e possíveis exportações de armamento. “Espero que essa conversa continue. Penso que já viram algumas medidas — nomeadamente sanções — por parte dos EUA nos últimos dias, e estou certo de que isso fará parte da conversa”, acrescentou a mesma fonte.

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