O futuro dos programadores na era da IA: profissão em risco ou reinvenção total?

A inteligência artificial está acelerar processos em várias indústrias e a reduzir tarefas rotineiras. Especialistas acreditam que a programação vai mudar nos próximos anos, mas não será substituída.

É difícil imaginar a inteligência artificial (IA) a apagar um incêndio, a trocar um cano ou a erguer um edifício. O mesmo não se pode dizer de outras profissões mais digitais e intelectuais. Em várias destas áreas, começa a desenhar-se um cenário de transformação profunda que ameaça mesmo dispensar alguns trabalhadores, à medida que sistemas automatizados ganham mais capacidade e até autonomia.

Entre as profissões vistas como mais expostas está a de programador. Numa altura em que ferramentas de geração automática de código — como o poderoso Claude Sonnet 4.5 da Anthropic, ou mesmo o ChatGPT ou o Gemini — evoluem a um ritmo acelerado, impõe-se a questão: estará realmente em risco uma das carreiras mais valorizadas dos últimos anos, ou estaremos, antes, perante uma redefinição do papel destes profissionais no ecossistema tecnológico?

Ao ECO, Patrick Machado, diretor de Tecnologia do Cluster de Soluções Críticas para o Negócio da Critical Software, considera que o papel do programador não está em risco com a inteligência artificial. Na perspetiva deste profissional, a função está a evoluir e não a desaparecer: “A IA não vai substituir. Os programadores passarão a ter outras funções. Vão supervisionar mais do que escrever linhas de código. Mas não sabemos se, daqui a uns anos, não estarão a escrever outras linhas de código, de um código diferente.”

Patrick Machado, diretor de Tecnologia do Cluster de Soluções Críticas para o Negócio da Critical Software

Apesar de admitir que o futuro da programação na era da IA permanece incerto, o responsável enquadra o momento atual como mais uma fase de transformação na indústria tecnológica: “A história tem uma meia dúzia de momentos de viragem na indústria do software e da tecnologia”, afirma, reconhecendo que algumas atividades específicas do desenvolvimento poderão desaparecer completamente, o que pode, sim, implicar a substituição de certas funções.

Todavia, rejeita um cenário de rutura estrutural. “Vejo isto sobretudo como uma mudança de paradigma. A indústria vai adaptar-se.” Para o responsável, mais do que um fim da profissão, a IA representa uma nova etapa de evolução num setor habituado a reinventar-se. “Acho que a indústria de software não vai diminuir. Pelo contrário, vai crescer. Vamos fazer coisas diferentes e estamos já a testemunhar essa transformação”, vaticina.

Questionado se a Critical Software já está a reduzir a força de trabalho, sobretudo ao nível dos programadores, o responsável é perentório: “Não, de todo. Há uma perceção, criada em certos ambientes da indústria, de que a indústria de software vai desaparecer porque os programadores vão ser substituídos por sistemas de IA. Mas estamos muito longe disso”, assegura.

Também Henrique Mourisca, diretor-geral da Softinsa, empresa do grupo IBM, considera que a IA tem um papel de aceleração dos programadores, não de substituição: “Quando uma empresa desenvolve um programa, há um conjunto de passos que vão muito além da programação. É necessário fazer o levantamento de requisitos, desenvolver o código, passar por uma fase de testes que deve contemplar todos os cenários para os quais o programa foi concebido, fazer o deploy em produção, escrever a documentação e assegurar a monitorização em ambiente produtivo. Todas estas tarefas podem ser aceleradas recorrendo à IA, mas não existe até hoje nenhuma substituição de pessoas”, explica.

Acho que a indústria de software não vai diminuir. Pelo contrário, vai crescer. Vamos fazer coisas diferentes e estamos já a testemunhar essa transformação.

Patrick Machado

Diretor de Tecnologia do Cluster de Soluções Críticas para o Negócio da Critical Software

No entanto, o diretor geral da Softinsa admite que algumas funções tradicionais podem evoluir. “Podemos avançar com estes processos de forma mais célebre, mas depois precisamos de validar. Os programadores vão ter que desenvolver outras competências que não tinham até à data, como a arte do prompt”, afirma, referindo-se à elaboração de pedidos mais eficazes aos sistemas de IA, e destacando que o papel do programador está a mudar, mais do que a desaparecer.

O responsável da subsidiária da IBM dá ainda um exemplo prático: “É preciso saber como pedir [informação aos modelos de IA] para obter o resultado que se pretende e, depois, é preciso ter a capacidade de validar que o código está correto. Sem saber programar, não é possível exercer essa validação”, argumenta Henrique Mourisca.

Erros em software com IA devem ser responsabilidade das empresas

A Amazon Web Services (AWS), segundo relatos do Financial Times, registou nos últimos meses duas falhas graves nos serviços devido ao uso de ferramentas de IA. A publicação britânica detalhou que foi afetado um sistema utilizado por clientes para acompanhar despesas relacionadas com serviços na cloud. O mais preocupante é que a falha não teve origem fora da infraestrutura, mas sim no próprio assistente virtual Kiro AI, desenvolvido pela Amazon para apoiar programadores na escrita e gestão de código.

Este é apenas um exemplo de um problema que poderá agravar-se. Se, por um lado, os programadores veem algumas das suas tarefas tradicionais serem substituídas pela IA, sobretudo na escrita de código, por outro, levantam-se novas questões relacionadas com segurança e responsabilidade quando ocorrem erros em softwares utilizados por clientes. Patrick Machado sublinha que, atualmente, a responsabilidade recai sempre sobre a empresa que desenvolve o software, independentemente de ter havido recurso a ferramentas de IA.

“Neste momento, e com o enquadramento atual, a responsabilidade é sempre da empresa que desenvolve o software, o que obriga a um uso responsável e muito ponderado da tecnologia, seja ela IA ou outra qualquer. É por isso que gostamos de estar neste mundo, onde assumimos essa responsabilidade e colocamos no terreno as garantias”, explica diretor de Tecnologia do Cluster de Soluções Críticas para o Negócio da Critical Software.

Henrique Mourisca tem a mesma opinião e defende que, caso existam erros no software, a responsabilidade deve ser atribuída à empresa que o desenvolveu, e não aos modelos de IA utilizados. Para o gestor da Softinsa, essa escolha é determinante para a qualidade do resultado: “Se eu escolher um modelo generalista para escrever código, a probabilidade de o modelo alucinar é muito maior do que se optar por um modelo especialista”, detalha.

Henrique Mourisca, diretor-geral da Softinsa

“Já dispomos de ferramentas capazes de gerar 100% do código em determinados tipos de aplicações”

Para Miguel Mira da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico (IST), é “claro” que a inteligência artificial vai substituir programadores, “mas dizer que não será preciso nenhum programador em lado nenhum do mundo é mentira”. Ao ECO, o docente explica que, sobretudo na componente de escrita de código, essa função já pode ser automatizada atualmente. Ainda assim, ressalva que “existe uma diferença importante entre a tecnologia existir e a sua adoção efetiva pelos profissionais e pelas organizações”.

“Atualmente, já dispomos de ferramentas capazes de gerar 100% do código em determinados tipos de aplicações, sobretudo em contextos mais simples, como aplicações administrativas ou algumas soluções web. Claro que isto não se aplica a todos os tipos de software”, afirma Mira da Silva. O professor admite que os programadores continuam a ser valiosos, e que programar é uma atividade altamente consumidora de tempo e dispendiosa. “É preciso ter conhecimentos específicos que não são fáceis de adquirir. Nem toda a gente consegue aprender a programar”, afirma.

Mira da Silva acrescenta que mesmo em ferramentas low-code não é simples dominar os conceitos fundamentais: “Não é fácil aprender o que é uma variável, o que é um ciclo, ou outros processos básicos de programação.” Além disso, lembra que a aprendizagem pode demorar meses ou até anos. “Estamos a falar de profissionais que são cada vez mais difíceis de encontrar, formar, manter e remunerar. São recursos caros e muitas vezes lentos”, atira.

Com a crescente utilização da IA na programação, levantam-se questões ao nível da segurança e da qualidade do código. Miguel Mira da Silva admite que podem existir riscos nessas dimensões, mas relativiza o problema. “Pode [haver riscos]. Mas também há com o código escrito por pessoas”, afirma.

Miguel Mira da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, em novembro de 2025, no Estúdio ECO

Adicionalmente, o professor sublinha que a ideia de que o software atual, desenvolvido por humanos, é maioritariamente perfeito, não corresponde à realidade. “Há muita gente que pensa que hoje temos código quase impecável e que agora a IA vai introduzir alucinações, erros e falhas de segurança. Isso não é verdade. O código que existe hoje está cheio de erros”, detalha o professor catedrático do IST.

Na perspetiva do académico, o debate deve centrar-se em perceber se o código gerado por IA terá mais, menos ou o mesmo tipo de falhas, algo que poderá variar consoante os contextos. Ainda assim, defende que as próprias ferramentas de IA podem e devem ser utilizadas para testar e corrigir software, eliminando uma parte significativa das vulnerabilidades. O docente acrescenta que as versões mais recentes destas ferramentas já incorporam mecanismos automáticos de verificação e melhoria de código.

Ainda assim, considera que muitos programadores, em Portugal e no resto do mundo, ainda não dominam plenamente estas tecnologias. Na sua leitura, a questão não é apenas a existência das ferramentas, mas a capacidade efetiva de as utilizar de forma competente e estratégica no processo de desenvolvimento.

Os desafios do sistema de ensino e o futuro dos programadores ‘juniores’

A IA está a provocar mudanças do ensino básico ao superior, introduzindo novos desafios. O professor catedrático defende que o sistema de ensino precisa de se adaptar rapidamente à inteligência artificial, mas alerta alerta que os alunos também não podem ficar à espera dessa mudança. Recorda que nenhum estudante sai da universidade preparado para o mercado de trabalho apenas com o que aprendeu no curso, tal como não ficará totalmente preparado apenas com o que vier a aprender nas empresas. “Os alunos podem e devem aprender novos estilos e novas abordagens que, neste momento, as universidades ainda não estão a ensinar e que muitas empresas também ainda não incorporaram”, aconselha o professor.

Questionado sobre se cursos superiores com forte componente de programação, como engenharia informática, poderão vir a perder interesse por parte dos alunos, Miguel Mira da Silva esclarece que a formação de programadores vai muito além da simples escrita de código. “O que se aprende é muito mais do que isso: é o que é uma variável, como se estrutura uma aplicação, qual é a arquitetura tecnológica, que requisitos devem ser considerados, como se realizam testes. Esses conhecimentos são transversais.”

“O facto de surgirem novas ferramentas ou novas tecnologias não deve ser visto como uma ameaça. Claro que, se calhar, aquela linguagem [de programação] Python que eu hoje estou a escrever poderá vir a ser gerada automaticamente por um sistema de inteligência artificial. Mas o que eu aprendi com o Python não foi apenas escrever código”, diz. Para o professor, é precisamente essa base estrutural que garante a relevância dos profissionais no futuro. “Esses conhecimentos podem, e devem, ser utilizados para tirar partido das novas tecnologias. A IA é mais uma ferramenta”, esclarece.

Também questionado sobre se a IA pode afastar alunos dos cursos superiores que formam programadores — ou até substituir as funções tradicionalmente desempenhadas pelos mais jovens numa empresa tecnológica —, Patrick Machado desvaloriza esse cenário. Para o responsável, a evolução tecnológica não elimina a necessidade de dominar as bases. “Quando eu estudei tinha que saber como um microprocessador funcionava, embora não trabalhasse com microprocessadores. Julgo que com a IA seja a mesma a coisa. O facto de trabalharmos um bocadinho mais acima e ajudados por IA não nos liberta de ter que conhecer as bases”, afirma.

A sociedade portuguesa sempre abraçou bem as novas tecnologias e acredito que a IA vai mudar a nossa vida e que nós, enquanto país, seguramente estaremos preparados para essa mudança.

Henrique Mourisca

Diretor-geral da Softinsa

Recorrendo a um paralelismo com o ensino da matemática, reforça que a introdução de novas ferramentas não substitui o conhecimento fundamental. “Quando os nossos alunos passaram a poder usar calculadoras na escola, isso não fez com que eles deixassem de saber matemática. Apenas subiram um bocadinho para cima e começaram a preocupar-se com outras coisas. E, tiveram que aprender a fazer as contas à mão no primeiro e no segundo ano, embora à frente possam usar outras ferramentas mais avançadas”, destaca Patrick Machado.

Na sua perspetiva, o mesmo acontecerá no futuro próximo no caso específico dos programadores. “Eu julgo que na engenharia de software não vamos ver assim tanta diferença. Podemos melhorar os conteúdos, mas as bases, aquela teoria de base de como é que funciona um sistema de software, quais são as peças, como é que é uma arquitetura, não creio que isso vá mudar assim tão significativamente”, sublinha o responsável da Critical Software.

Sobre o futuro dos jovens que agora entram no mercado de trabalho, Henrique Mourisca admite que a transformação tecnológica terá impacto sobretudo nas funções mais básicas e repetitivas e que as empresas vão ser mais exigentes. “Efetivamente, o trabalho mais rotineiro tem tendência a desaparecer. Eu acho que as empresas vão inevitavelmente colocar a fasquia mais alta para os novos profissionais que entrem no mercado de trabalho”, afirma.

Ainda assim, o diretor-geral da Softinsa defende que a resposta a este obstáculo terá de ser coletiva. “Para responder a esse desafio, eu acho que vai ter que ser um conjunto de entidades a remarem para o mesmo lado para encontrarem uma solução. Tem que passar obrigatoriamente pelas universidades, pelas empresas, pelo próprio Estado”.

Apesar das exigências acrescidas, o responsável mostra-se confiante na capacidade de adaptação do país. “A sociedade portuguesa sempre abraçou bem as novas tecnologias e acredito que a IA vai mudar a nossa vida e que nós, enquanto país, seguramente estaremos preparados para essa mudança”, finaliza Henrique Mourisca.

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