A Liberty Media pegou na Fórmula 1 e fez dela um produto de entretenimento planetário. Agora, o circo da velocidade regressará a Portimão ao fim de seis anos com outra dimensão mediática e financeira.
O anúncio do regresso da Fórmula 1 a Portugal em 2027 e 2028 põe os holofotes numa empresa norte-americana que poucos portugueses conhecem: a Liberty Media. Fundada em 1991 por John Malone, um magnata da indústria dos cabos e media nos EUA, a empresa está sediada em Englewood, no Estado do Colorado nos EUA, e construiu ao longo de três décadas um portefólio diversificado de ativos nos setores dos media, entretenimento e desporto.
A empresa é liderada desde janeiro deste ano por Derek Chang, um veterano executivo com vasta experiência no setor dos media, desporto e entretenimento, que já passou pela NBA China, DirecTV e Scripps. Chang sucedeu a Greg Maffei, que liderou a Liberty Media durante quase 20 anos e foi um dos principais arquitetos da aquisição da Fórmula 1.
Cotada no Nasdaq, a bolsa tecnológica de Nova Iorque, a Liberty Media é um dos maiores players do setor dos media e do entretenimento, apresentando atualmente uma capitalização bolsista de cerca de 20 mil milhões de euros, aproximadamente o dobro do valor de mercado da Galp — a quarta maior empresa da Euronext Lisboa.
A empresa funciona através de uma estrutura complexa de tracking stocks — ações que acompanham o desempenho de divisões específicas da empresa, embora estas não sejam entidades legais separadas –, estando organizada em dois grupos principais: o Formula One Group e o Liberty Live Group. E é no primeiro que reside a joia da coroa: os direitos comerciais da Fórmula 1, adquiridos em 2016 num negócio avaliado em oito mil milhões de dólares (cerca de 11 mil milhões de dólares a preços de hoje).
O negócio que mudou a Fórmula 1
A história da aquisição da Fórmula 1 pela Liberty Media é um caso de estudo em engenharia financeira que arrancou em setembro de 2016, quando a empresa americana anunciou a compra da Delta Topco Limited, a holding que detinha 100% dos direitos comerciais da Fórmula 1.
A Delta Topco era controlada desde 2006 pela CVC Capital Partners, um fundo de private equity britânico que tinha adquirido o negócio ao lendário Bernie Ecclestone, o homem que construiu o império comercial da Fórmula 1 desde os anos da década de 1970.
O valor da transação foi estabelecido em oito mil milhões de dólares em termos de enterprise value — que inclui dívida — e 4,4 mil milhões de dólares em valor de capital próprio. Mas a estrutura do negócio foi engenhosa: a Liberty Media pagou apenas uma fração desse valor em dinheiro da própria empresa.
Num primeiro momento, a 7 de setembro de 2016, a Liberty Media adquiriu 18,7% da Delta Topco por 746 milhões de dólares em numerário. A aquisição dos restantes 81,3% foi concluída em janeiro de 2017, mas utilizando uma combinação criativa de instrumentos financeiros.
Os vendedores, liderados pela CVC Capital Partners, receberam 1,1 mil milhões de dólares em dinheiro, 138 milhões de ações recém-emitidas do tracking stock da Liberty Media (então chamado LMCK, depois renomeado para FWONK) e um instrumento de dívida convertível no valor de 351 milhões de dólares.
Para financiar a componente em dinheiro, a Liberty Media recorreu a empréstimos garantidos por participações que detinha noutras empresas, como a Time Warner e a Live Nation, e vendeu ações a fundos de investimento. No final, a Liberty Media desembolsou apenas cerca de 300 milhões de dólares dos seus próprios cofres para completar uma aquisição de oito mil milhões de dólares, um exemplo de alavancagem financeira que minimizou o uso de capital próprio.
Após a conclusão da aquisição da Delta Topco, a Liberty Media reorganizou-se para criar o Formula One Group, um dos seus tracking stocks que concentra todos os ativos relacionados com o desporto motorizado. Esta estrutura não é uma empresa separada, mas sim uma forma de os investidores poderem investir especificamente no desempenho financeiro dos ativos de Fórmula 1.

O Formula One Group negoceia no Nasdaq sob três símbolos diferentes: FWONA (Série A, com direito de voto), FWONB (Série B, com dez votos por ação) e FWONK (Série C, sem direito de voto). Esta estrutura de múltiplas classes de ações permite aos fundadores e gestores da Liberty Media manter o controlo da empresa, mesmo detendo uma percentagem menor do capital. Atualmente, o Formula One Group inclui quatro subsidiárias principais:
- Formula 1: a empresa que detém os direitos comerciais exclusivos do Campeonato Mundial de Fórmula 1 da FIA
- MotoGP: adquirido em julho deste ano por 4,2 mil milhões de euros, através da compra de 84% da Dorna Sports, que detém os direitos do MotoGP
- Quint: uma empresa de experiências de eventos desportivos e entretenimento
- Outros investimentos minoritários
Para compreender o valor dos direitos comerciais da Fórmula 1 é preciso recuar várias décadas. Durante grande parte da história do campeonato, as equipas organizavam-se de forma descoordenada, negociando individualmente com os promotores de corridas e com a Fédération Internationale de l’Automobile (FIA), o organismo regulador.
Bernie Ecclestone, um antigo chefe de equipa que se tornou num dos maiores empresários do desporto mundial, viu nesta desorganização uma oportunidade. Em 1981 convenceu as equipas a assinar o primeiro “Concorde Agreement”, um contrato que as obrigava a participar em todas as corridas do campeonato. Com esse compromisso garantido, Ecclestone conseguiu vender pacotes de direitos televisivos às cadeias de televisão, que passaram a ter a certeza de uma cobertura consistente.
A empresa de Ecclestone, a Formula One Promotions and Administration (FOPA), negociava esses contratos em nome das equipas, ficando com uma comissão. Mas o grande golpe de génio aconteceu em 1995, quando Ecclestone conseguiu que a FIA lhe transferisse diretamente os direitos comerciais da Fórmula 1 por um período de 14 anos, mediante o pagamento de apenas 10 milhões de dólares anuais à FIA.
Pela primeira vez na história, os direitos deixaram de estar nas mãos das equipas ou da FIA e passaram para o controlo total de Ecclestone. Esse controlo permitiu a Ecclestone criar um império. O valor dos direitos televisivos da Fórmula 1 aumentou 83% entre 2003 e 2011, atingindo quase 490 milhões de dólares.
A estratégia de Ecclestone baseou-se na exclusividade: limitar o acesso a imagens e conteúdos manteve a Fórmula 1 como um produto premium, permitindo cobrar valores elevados às televisões de pagamento.
Em 2006, Ecclestone vendeu a maioria da sua participação no negócio da Fórmula 1 à CVC Capital Partners, que pagou cerca de 2,5 mil milhões de dólares por uma posição maioritária. A CVC manteve Ecclestone como CEO e continuou a explorar o modelo de exclusividade de direitos mediáticos. Quando a Liberty Media entrou em cena, dez anos depois, o valor do negócio tinha mais do que triplicado.
De Nova Iorque a Portimão
A Liberty Media transformou radicalmente a Fórmula 1. Expandiu o calendário para um recorde de 24 corridas, investiu em plataformas digitais como a F1 TV, criou a série documental “Drive to Survive” na Netflix (que atraiu milhões de novos fãs) e modernizou a presença da competição nas redes sociais. Com isso, o valor da Fórmula 1 disparou. Há dois anos, a revista Forbes estimava que o campeonato valia 17,1 mil milhões de dólares, um aumento de quase 400% desde que a Liberty Media assumiu o controlo.
Em bolsa, o desempenho dos títulos da Liberty Media tem sido digno de uma prova da Fórmula 1. Desde 8 de setembro de 2016, data da primeira compra de ações da Delta Topco, as ações da Liberty Media contabilizam uma rendibilidade média anual de 16,5%, que compara, por exemplo, com uma valorização média anual de 20,6% do índice Nasdaq 100 no mesmo período.
Este ano, a Liberty Media acumula uma valorização de apenas 3,7%, refletindo um período de consolidação após os fortes ganhos dos anos anteriores e a complexidade da sua reestruturação empresarial. Na terça-feira, a empresa revelou que concluiu a separação do Liberty Live Group, que inclui a sua participação de 30% na Live Nation Entertainment, a maior promotora de eventos ao vivo do mundo, numa empresa independente cotada.
O anúncio do regresso da Fórmula 1 a Portugal após seis anos de ausência insere-se na estratégia da Liberty Media de rodar os grandes prémios europeus para dar lugar a novos mercados. O Grande Prémio de Portugal em Portimão substituirá o Grande Prémio da Holanda em Zandvoort, que sai do calendário após 2026.
Para a Liberty Media, Portugal representa uma forma de fortalecer a presença da Fórmula 1 no sul da Europa, numa altura em que a empresa procura equilibrar a tradição europeia do campeonato com a expansão para mercados emergentes como o Médio Oriente, Ásia e América Latina.
A Bélgica também será excluída do calendário de 2027 e 2029, numa rotação que permite manter o calendário perto do limite de 24 corridas. “O interesse e a procura para receber um Grande Prémio de Fórmula 1 estão no nível mais alto de sempre”, referiu Stefano Domenicali, CEO da Fórmula 1.
O ministro português da Economia e da Coesão, Castro Almeida, destacou que o evento terá “um impacto direto na atividade económica, gerando oportunidades em toda a cadeia económica — do turismo ao comércio e serviços”.
Para a Liberty Media, Portugal representa não apenas um mercado europeu consolidado, mas também uma forma de fortalecer a presença da Fórmula 1 no sul da Europa, numa altura em que a empresa procura equilibrar a tradição europeia do campeonato com a expansão para mercados emergentes como o Médio Oriente, Ásia e América Latina.
Com uma máquina comercial afinada ao longo de quase uma década sob gestão americana, a Fórmula 1 que regressa a Portugal em 2027 será bem diferente daquela que visitou Portimão em 2020 e 2021, durante a pandemia.
Será uma Fórmula 1 transformada num produto de entretenimento global, com múltiplas fontes de receita — desde patrocínios e direitos televisivos até experiências premium e merchandising — e avaliada em dezenas de milhares de milhões de euros. Uma Fórmula 1 que reflete, em última análise, a visão de negócio da Liberty Media: transformar ativos desportivos em impérios mediáticos lucrativos.
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O império americano que traz a Fórmula 1 a Portimão
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