Hospitais e clínicas do Porto, Coimbra, Lisboa ou Algarve são alvos de aquisições por fundos internacionais ou grupos privados portugueses. Conheça os novos donos da saúde em Portugal e na Europa.
As mudanças demográficas, a pressão sobre o SNS e consequente procura por cuidados de saúde privados, e o desafio da transformação digital estão a mudar o panorama da saúde em Portugal. Fundos e grupos internacionais lançam-se em aquisições de grande dimensão, como a recente da Luz Saúde, ou clínicas especializadas que não fazem capa de jornal, mas dão sinais sobre os novos donos da saúde em Portugal.
Em setembro, a Fidelidade chegou a acordo com a australiana Macquarie Asset Management para vender uma participação de 40% no capital da Luz Saúde por um preço base de 310 milhões de euros, que avalia a empresa (enterprise value) acima dos 1,1 mil milhões de euros. É, nesta fase do campeonato, a transação do ano na saúde.
Francisco Montenegro, partner da Bain & Company, considera que esta venda por parte da seguradora “é altamente significativa em Portugal e emblemática da atratividade do setor no sul da Europa”, embora seja “mais pequena do que alguns meganegócios pan-europeus”. “As fusões e aquisições na área da saúde na Europa têm sido marcadas por transações seletivas e de elevada qualidade, frequentemente estruturadas como participações minoritárias ou parcerias. O negócio da Luz Saúde reflete a mesma lógica: os investidores procuram ativos resilientes, com escala e marcas locais fortes”, explica.
No cômputo geral, os investidores que entram no capital de prestadores de cuidados de saúde tendem a procurar o crescimento através da expansão da capacidade, do reforço das redes de ambulatório e da aceleração da digitalização, de acordo com o consultor. Ou seja, geralmente, a sua prioridade é melhorar a eficiência, posicionando os alvos para uma “procura sustentável a longo prazo”, sintetiza Francisco Montenegro.
Paulo Soares de Oliveira, sócio da One to One Corporate Finance, corrobora que é uma das maiores transações privadas de saúde em Portugal, que avalia a empresa em 9,5 vezes o EBITDA. “A sua escala estratégica e foco nas infraestruturas tornam-no comparável a outros negócios recentes de grande dimensão em hospitais e plataformas de saúde na região EMEA”, além de refletir uma tendência dos fundos de private equity que olham para “ativos de saúde escaláveis e com tecnologia na Europa para lidar com o envelhecimento da população e a pressão fiscal sobre os sistemas públicos”. E recorda exemplos de investimentos anteriores da Macquarie, entre os quais o Beacon Hospital (Irlanda) e a Viamed Salud (Espanha).
Na sua perspetiva, a Macquarie – que esteve a negociar com a Fidelidade durante meses e dividiu a mesa com mais dois candidatos – pretende apoiar a expansão da Luz Saúde em Portugal, investindo na digitalização, melhorando a experiência do doente e a eficiência operacional da companhia. “A estratégia do grupo passa, normalmente, pela modernização das infraestruturas, pelo recrutamento de profissionais médicos de topo e pela construção de parcerias para reforçar a resiliência a longo prazo. Prevê-se a integração de tecnologias avançadas em saúde e inteligência artificial, em linha com os esforços de transformação digital de todo o setor”, antecipa Paulo Soares de Oliveira, da One to One Corporate Finance.
O ECO contactou a Macquarie sobre os planos para a nova participada, mas a empresa não quis fazer comentários.
Neerlandesa Amethyst entra em Portugal com compra na radioterapia
A mais recente aquisição no mercado português envolve a entrada de um operador estrangeiro especializado em tratamentos para o cancro. Na semana passada, o grupo neerlandês Amethyst Healthcare – também conhecido como Amethyst Radiotherapy – comprou a empresa Júlio Teixeira SA, cuja valência é a radioterapia (oncologia clínica). A portuense Júlio Teixeira juntou Portugal ao conjunto de países onde a Amethyst Healthcare tem clínicas, além de Áustria, França, Itália, Polónia, Roménia e Reino Unido. A operação passou relativamente despercebida, mas entrega a estrutura de governação de uma clínica de 1994 a mais um grupo internacional.
“A aquisição dá acesso às melhores práticas clínicas pan-europeias, desenvolvimento profissional estruturado e investimento de capital direcionado para apoiar a expansão contínua dos seus serviços. A Amethyst contou com o apoio da Finantia (Narciso Melo), da CMS Portugal (Francisco Xavier de Almeida) e da PwC Financial (Luís Boquinhas) e LEK Commercial (Jacqueline Thompson)” para due diligence, segundo a informação divulgada pelos donos da Júlio Teixeira, que tem espaços no Porto e em Lisboa.
Tanto a Luz Saúde com a Júlio Teixeira entram na tabela europeia das 38 operações de M&A na saúde entre setembro e 16 de outubro. Ainda assim, afastam-se do pico transacional que houve em abril quando a Mehiläinen, maior operador de saúde na Finlândia, adquiriu os principais players da Roménia (Regina Maria) e Sérvia (MediGroup) e a suíça Ypsomed vendeu a divisão de diabetes à conterrânea TecMed por 454 milhões de euros.
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O gráfico inclui apenas operações de M&A entre prestadores e serviços de saúde (instalações, serviços e gestão de cuidados de saúde) e não abrange tecnológicas ou investigação científica das farmacêuticas.
Setembro foi também o mês em que a Atena Equity Partners e a 3T Portugal investiram no Hospital da Ordem Terceira do Chiado e entraram na atividade hospitalar em Lisboa.

No investimento espanhol, destaca-se o fundo de private equity MCH com a compra de uma participação minoritária no grupo português Global Health Company – Sanfil Medicina, que tem três hospitais e seis clínicas em Coimbra, Leiria, Alcobaça, Cantanhede, Lousã e Pombal. Esta foi uma estreia dos investidores de Madrid na saúde em Portugal e escolheram a região centro para o fazer, em parceria com o grupo BBT Investimentos, que até então era o único acionista da empresa conimbrigense.
A informação disponibiliza pela Autoridade da Concorrência (AdC) confirma o crescimento: no ano passado recebeu duas notificações de concentração e em 2025, até ao momento, já foram três.

A nível global, os dados da Bain mostram que a atividade de private equity na saúde no primeiro semestre deste ano, cresceu em relação ao ano passado. No entanto, será um desafio ultrapassar a fasquia de 2024, quando o valor das transações atingiu os 125 mil milhões de dólares (107 mil milhões de euros) em todo o mundo — o segundo melhor ano de sempre.
O que explica estes movimentos? “Várias forças estruturais estão a convergir: envelhecimento populacional, pressão sobre os sistemas públicos, aumento das doenças crónicas e rápida inovação nos diagnósticos e na saúde digital. Os investidores também veem a saúde como um ‘crescimento defensivo’: combina resiliência com oportunidades de escala e melhoria da produtividade num setor sob procura constante”, argumenta Francisco Montenegro.
Como todos os propulsores deste dinamismo se mantêm (os problemas demográficos e as necessidades de inovação e eficiência operacional), o sócio da Bain e o fundador da Soares de Oliveira & Associados creem que o segundo semestre se avizinha ‘saudável’ para o M&A, bem como 2026. Ambos preveem que “carve-outs [separação de divisões para venda separada], participações minoritárias e consolidações de plataformas continuem a ser temas centrais”, sobretudo em áreas como oncologia, tecnologia médica, saúde do consumidor e coordenação de cuidados (trabalho de operadores em rede) no próximo ano.
Resta saber se a CUF levará avante a compra do Hospital Particular do Algarve (HPA). A AdC tem em curso, desde o dia 16 de julho, uma investigação aprofundada ao negócio por “considerar que não se pode excluir que a operação de concentração possa criar entraves significativos à concorrência efetiva no mercado nacional ou em parte deste”.
A autoridade liderada por Nuno Cunha Rodrigues diz ao ECO que se encontra “a realizar diligências adicionais de investigação em ordem a poder concluir” se há ou não risco desses entraves.
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Os negócios que estão a mudar a saúde em Portugal
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