Otimizar a ‘performance’, o fio que marcou o arranque do Festival ECO e no qual não faltou humor (incluindo ‘azeite ranhoso’)

Cruzar temas é o mote do Festival ECO e a primeira parte não desiludiu. Mas houve um fio condutor - o desempenho - e não faltou humor e dinâmica.

  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação

Desporto, cultura, jornalismo, gastronomia, política, gestão (e até azeite ranhoso, pois num festival não pode faltar humor q.b). Nos primeiros cinco momentos do Festival Eco foram estes alguns dos principais temas que os 12 intervenientes abordaram na sala Luís Freitas Branco do CCB, decorada a rigor para o décimo aniversário do ECO. António Costa, diretor do jornal de economia online, deu logo o mote para as várias conversas: “ajudar a pensar o país e cruzar temáticas”.

Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, salientou logo na abertura que “hoje, os grandes desafios do nosso tempo não podem ser compreendidos de forma isolada”. É impossível discutir economia sem discutir tecnologia, inovação sem educação e conhecimento, desenvolvimento sem sustentabilidade, coesão social, criatividade ou participação cívica, vincou.

E qual foi, então, o fio que cruzou estas temáticas no arranque do evento? O ‘desempenho’, tanto das pessoas como das empresas, sem dúvida, pois foi abordado, de forma direta ou implícita em todas as discussões.

Luís Francisco Ribeiro/ECO

Balseiro Lopes focou na cultura e o seu papel no desempenho da economia nacional. “A cultura não vive à margem da economia, da transformação social, ou como um país se afirma internacionalmente, pela sua criatividade”, salientou. Tem o papel de “reforçar a coesão territorial”, sublinhou a governante, contribui para a “internacionalização da criação artística portuguesa”, e é um ativo “estratégico para projeção externa do país”.

Um Brexit nas competições europeias?

Vindos de desempenhos que resultaram em vitórias recentes – Pedro Duarte nas eleições para a Câmara Municipal do Porto e André Villas-Boas do campeonato nacional de futebol – os dois líderes portuenses falaram dos papéis da emoção e da responsabilidade na liderança de novos ciclos (ambos sucederam a lideres de longo prazo e carismáticos – Rui Moreira e Jorge Nuno Pinto da Costa, respetivamente), mas também do desempenho nas mudanças de ciclo e nas perspetivas futuras.

Villas-Boas explicou que, depois da era Pinto da Costa, o Futebol Clube do Porto “apontou a uma melhor gestão dos seus recursos, de governance, de responsabilidade económica, de gestão dos seus poucos recursos financeiros e de reestruturação da dívida”. Admitiu, no entanto, que voltar a ganhar a Liga dos Campeões é quase impossível, porque os clubes ingleses estão noutro patamar, apelando a uma espécie de Brexit nas competições europeias, de forma a não distorcer a concorrência. Ainda assim apresentou uma novidade no Festival ECO: o Futebol Clube do Porto vai lançar uma equipa de futsal sénior.

O clube começa a crescer ecleticamente e para crescer ecleticamente não podemos desvalorizar a importância da cidade, do presidente da Câmara Municipal e do Município, como veículo de construção de um maior Futebol Clube do Porto

André Villas Boas

Presidente do FC Porto

Para Villas-Boas o futuro desempenho do clube passa por “crescer ecleticamente e para crescer ecleticamente não podemos desvalorizar a importância da cidade, do presidente da Câmara Municipal”.

Pedro Duarte lembrou que o desempenho na gestão das cidades “não é um jogo de soma nula tão evidente como é no desporto”, mas isso “permite-nos ter de facto outro fôlego e principalmente beneficiar de um aspeto de diferenciação que o Porto tem”.

“Nós não temos o arrojo de querer dizer que somos melhores que os outros”, admitiu. “Somos únicos, somos diferentes, somos diferenciados, se quisermos e podemos a partir disso construir um caminho e um projeto para a cidade que se possa afirmar, beneficiando evidentemente as pessoas que beneficiam da cidade, porque lá vivem, lá trabalham, e catapultando a região e o país também, a propósito disso”.

Hugo Amaral/ECO

 

A “consistência do sono”

O painel seguinte foi direto à questão do desempenho, questionando se ‘Os melhores nascem ou treinam-se?.’ A pergunta era quase retórica e o foco da discussão esteve na atividade… do descanso.

Pedro António, administrador executivo do Grupo Ageas, revelou que a seguradora lançou há cerca de sete meses um programa interno para capacitar gestores de topo “como se fossem atletas”. O CEO defendeu a importância de hábitos consistentes de descanso e exercício físico para melhorar a performance dos gestores e garantir maior longevidade profissional. O programa interno da Ageas, inspirado na preparação dos atletas, pretende dar aos profissionais “instrumentos para o dia-a-dia”, permitindo-lhes estar mais presentes e preparados para liderar equipas.

Entre as principais aprendizagens, Pedro António destacou o impacto do sono na capacidade de liderança. “Mais do que as horas que dormimos, é a consistência do sono”, afirmou, sublinhando a importância de manter horários regulares e de garantir qualidade no descanso.

José Soares, professor catedrático e especialista em performance, é um dos rostos envolvidos neste programa de capacitação dos trabalhadores da Ageas e explicou que o conceito de performance surge da necessidade de olhar para todas as pessoas “como se fossem atletas”.

José Soares, professor catedrático de Fisiologia no Porto e especialista em performance e Pedro António, administrador executivo da Ageas

“Não vais sair vivo daqui hoje”

Dois argentinos no palco e, inevitavelmente, a conversa começa com futebol. Com o Mundial de futebol a bater à porta houve espaço para alguma rivalidade com a moderadora do painel, Ana Sofia Cardoso, jornalista da CNN Portugal. Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, recordou que a Argentina levantou por duas vezes o troféu mundial. “Portugal tem grandes chances mas, por enquanto, a Argentina continua a ser campeã”, sublinha.

O chef Chakall não perdeu tempo e, lembrando que ambos estavam entre portugueses, brincou “não vais sair vivo daqui hoje”.

Os portugueses falham na embalagem, falham no marketing

Chakall

Chef

Bola à parte, os dois argentinos tecem elogios a Portugal, mas também deixam algumas críticas, num painel que explorou ‘Que ingredientes encontraram em Portugal?’.

Para Chakall, a “humildade” dos portugueses é algo que valoriza e que o cativou. Mas há um reverso da medalha. “Em Trás-os-Montes faz-se o melhor azeite do mundo, mas não sabem, porque não sabem vender-se.“, lamentou. “Os italianos fazem um azeite ‘ranhoso’, colocam uma etiqueta gira e uma embalagem fantástica” e é um sucesso, exemplifica, para concluir que em Portugal, tanto nas marcas como nas pessoas, “a embalagem muitas vezes falha”.

“Os portugueses falham na embalagem, falham no marketing”, criticou.

Chef Chakall no Festival ECO Hugo Amaral/ECO

Marcelo Nico, que já trabalhou em países como Itália ou Suíça antes de chegar a Lisboa, deixa claro que Portugal está a criar uma geração de talento incrível.

“O talento está aqui, falta investimento”, frisou, considerando que a humildade com que os portugueses se observam a si mesmos não deve ser um entrave ao investimento no país. “Temos de criar condições para que esse talento fique em Portugal”, porque só faltam “ações concretas” para aproveitar o potencial já existente no país.

“Eu resolvo já isso”

“Há alguém na sala que nunca caiu? Levante o braço que eu resolvo já isso”. A ideia de Nuno Delgado, judoca e medalhado olímpico, foi de demonstrar que o caminho para ser campeão passa por deixar de ter medo de tombar, aprender a cair e abandonar o receio de arriscar.

O resto da fórmula de alto desempenho é ter treinadores e seguir rotinas. “O básico. A coisa chata que se tem de fazer todos os dias”. Para o atleta, há que “desmistificar o conceito de talento”, porque “todos aqui na sala nascemos com um direito: ser campeão — e temos de todos os dias provar esse direito”.

Num painel que perguntou ‘O que faz um campeão olímpico?’, Bernardo Maciel, sócio e CEO da consultora estratégica Yunit Consulting, transportou o ideal olímpico para área dos negócios. “O desporto traz ensinamentos importantes”, salientou. “É de continuar a enaltecer. Não temos de nos medir pelas mesmas métricas, mas servem de inspirações”, e deu vários exemplos.

Hugo Amaral/ECO

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