Ouro enfrenta resistência para recuperar o brilho do pré-guerra

Castigada pela guerra (e receios da inflação) a cotação do ouro viu curto alívio com o acordo de paz. Retoma de compras por bancos centrais deve ajudar, mas ameaça de juros mais altos é barreira.

ECO Fast
  • A cotação do ouro apresentou uma recuperação temporária após o anúncio de um novo acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão, subindo 2% e 1% nos primeiros dias da semana.
  • O preço do ouro caiu 17% no primeiro mês da guerra, refletindo a mudança nas expectativas dos bancos centrais sobre as taxas de juro, que passaram a prever aumentos.
  • O futuro do ouro permanece incerto, com a política monetária dos EUA a ditar a tendência, enquanto a inflação e o dólar forte pressionam os preços.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Recorde após recorde, a escalada preço do ouro parecia imparável no início do ano. Com vários máximos batidos em janeiro, a cotação registou o fecho recorde nos 5.394,88 dólares por onça no dia 29 desse mês, tendo mesmo tocado um novo máximo intraday de 5.594,82 dólares por onça, impulsionada pela manutenção, na véspera, das taxas de juro pela Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos.

Suportado pelas incertezas criadas pelas tarifas anunciadas por Donald Trump, as preocupações persistentes com a inflação, as esporádicas dúvidas sobre o potencial retorno do investimento global em inteligência artificial, compras por parte dos bancos centrais, expectativas de descidas das taxas de juro e o risco geopolítico (nomeadamente tensões no Médio Oriente) o preço do ouro spot escalou 64,7% em 2025.

Mas foi este último fator – com o ataque dos EUA a Israel ao Irão a 28 de fevereiro – que acabou por inverter a tendência. O fecho do Estreito de Ormuz, por onde passava antes um quinto do comércio mundial de petróleo, provocou um choque energético e impulsionou a inflação, obrigando os bancos centrais a sinalizar que as expectativas passaram de cortes nas taxas de juro para possíveis aumentos, o que diminuiu o apelo do ouro do ponto de vista do rendimento.

A cotação tombou 17% para 4.379 dólares no primeiro mês da guerra, antes de recuperar para 4.840,34 dólares até 14 de abril, beneficiando do otimismo criado pelo primeiro acordo para um cessar-fogo de 60 dias. Foi, contudo, brilho de pouca duração, pois o arrastar das negociações para um segundo acordo pressionaram a cotação para um novo mínimo do ano, nos 4.073,46 dólares a 10 de junho, um recuo de 23% face a ao fecho de 27 de fevereiro.

Agora, com o anúncio por Donald Trump de um novo acordo de cessar-fogo por 60 dias, o preço do ouro deu sinais de recuperação, com subidas de 2% e 1%, nos primeiros dois dias desta semana, respetivamente.

“As primeiras notícias sobre os progressos entre os Estados Unidos e o Irão começaram a impulsionar os preços dos metais preciosos até antes do fim de semana, tendo estes subido ainda mais na segunda-feira, na sequência da conclusão do acordo para pôr fim à guerra”, notou Carsten Menke, head next generation research no banco privado suíço Julius Baer.

Menke explicou que “grande parte desta evolução dos preços reflete provavelmente o encerramento de posições por parte de operadores de curto prazo e especulativos no mercado de futuros“. Normalmente, estes operadores são os que reagem mais rapidamente, tendo alguns deles sido simplesmente apanhados de surpresa e forçados a cortar nas perdas. Por conseguinte, são responsáveis por grande parte da volatilidade de curto prazo, tanto em alta como em baixa, adiantou.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Além do alívio da pressão inflacionista, o acordo poderá trazer outro apoio ao ouro, referiu ao ECO Ricardo Evangelista, CEO da corretora ActivTrades Europe. “As compras por parte dos bancos centrais também poderão desempenhar um papel relevante na recuperação do metal precioso“, apontou. “É sabido que vários países, sobretudo na Ásia, interromperam os seus programas de compra de ouro e alguns até terão vendido reservas, na sequência da guerra e da subida dos preços da energia. Uma retoma da procura por parte dos bancos centrais poderia oferecer um suporte adicional ao preço do ouro”.

Evangelista vincou, no entanto, que depois da recuperação observada inicialmente após o anúncio do acordo, o movimento estabilizou abaixo dos 4.350 dólares. “O preço terá de ultrapassar vários níveis de resistência importantes antes de regressar aos níveis pré-guerra“, vincou.

Carsten Menke, do Julius Baer, referiu que, para os investidores, a questão fundamental é em que medida o panorama de médio a longo prazo nos mercados de metais preciosos se alterou devido à conclusão do acordo. “Na nossa opinião, não muito”, vincou. “A principal mudança que ocorreu desde o início da guerra é que os investidores em ouro e prata passaram de compradores a vendedores e o principal fator impulsionador das compras anteriores eram as expectativas de taxas de juro mais baixas nos EUA e de um dólar americano mais fraco”, vincou, sublinhando que as vendas refletiram, então, uma inversão dessas expectativas.

Olhando para o futuro, o panorama é menos claro. “Atualmente, a economia dos EUA apresenta um crescimento mais elevado e uma inflação mais elevada, o que está apenas parcialmente relacionado com a guerra e por conseguinte, mesmo com o fim da guerra, as perspetivas para a política monetária dos EUA não são as mesmas que eram no início do ano”, sublinhou.

O ouro tende a perder o seu encanto quando as taxas de juro estão elevadas, uma vez que não rende juros.

‘Falcão’ Warsh castiga ouro

Se no início do ano essas perspetivas eram de cortes nas Federal Funds Rates, com a guerra passaram para subidas e nem o acordo de paz entretanto assinado digitalmente, nem a chegada de um novo chair da Reserva Federal (Fed) nomeado por Donald Trump as mudaram.

Esta quarta-feira, a estreia de Kevin Warsh à frente da reunião do Federal Open Market Committee (FOMC, comité de política monetária), foi marcada pela manutenção das taxas de juro no intervalo entre 3,5% e 3,75%, mas também por uma mensagem mais hawkish, ou seja, a sinalizar maior probabilidade de uma subida no custo do dólar.

Nove dos 19 responsáveis pela política monetária do banco central dos EUA consideram que será necessário aumentar a taxa de juro de referência este ano. Isso estaria em linha com a atitude de vários bancos centrais mundiais, que estão a aumentar os custos de financiamento ou a sinalizar medidas para conter a pressão inflacionista provocada pela guerra no Irão.

Na última sexta-feira, os operadores de mercado estimavam uma probabilidade de 89% de um aumento da taxa de juro nos EUA em dezembro, face aos 61% registados antes da decisão da Reserva Federal, de acordo com a ferrmenta CME FedWatch.

Essa perceção levou o dólar a atingir o valor mais alto do último ano, tornando o ouro mais caro para quem detém outras moedas. Esta sexta-feira, o preço do ouro caia, 1,5% para 4.145 dólares por onça, a caminho de fechar a terceira semana seguida em terreno negativo.

“A subida do ouro, impulsionada pelo acordo de paz entre os EUA e o Irão, revelou-se de curta duração“, afirmou Tim Waterer, analista-chefe de mercados da KCM Trade, à Reuters. “O ressurgimento do dólar, impulsionado pelo novo tom mais restritivo da Reserva Federal sob a liderança de Kevin Warsh, roubou as atenções”.

Para Waterer, “a postura firme do novo presidente neutralizou efetivamente o impulso geopolítico, lembrando a todos que a política monetária continua a ditar as regras“.

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