João Bento destaca ao ECO o 'turnaround' em Espanha e a parceria com a DHL como momentos positivos na liderança dos CTT. O mais difícil? "A jornada intensa com João Cadete de Matos, da Anacom".
Entre 13 de maio de 2019 e 29 de abril de 2026, nos 2.544 dias em que João Bento foi CEO dos CTT, a maior subida diária nas ações da empresa (de 11,59%) registou-se a 17 de março de 2020. Um dia antes da primeira declaração de estado de emergência nacional devido à pandemia de covid-19 e dois antes do início do confinamento geral. No meio de um período de tremenda volatilidade nos mercados, a perceção de que quem estava ligado ao negócio do comércio eletrónico poderia beneficiar do novo paradigma levou a uma recuperação dos títulos da cotada.
Fast forward para abril de 2026 e João Bento, que vai deixar a liderança da empresa esta quinta-feira, continua a olhar para o passado, presente e futuro dos CTT através da lente de transformação digital que a pandemia acelerou.

“Havia muitas incertezas, dado o contexto macroeconómico, mas felizmente com o processo de transformação da vida humana e do modo como nos relacionamos, que decorre da digitalização da vida em geral, que fez o correio declinar o que já declinou, é também aquilo que faz as pessoas mudar a forma como compram e, portanto, esta tendência de comércio eletrónico vai continuar“, Bento explica ao ECO.
Sublinha que essa tendência é independente dos níveis de fragmentação que a economia global vai sofrendo, ainda hoje. “Nesse mundo em que as compras vão ser cada ver mais online, nós, CTT, nos posicionámos muito bem em toda a cadeia de valor, melhor do que todos os nossos concorrentes na Ibéria, temos também a melhor margem EBIT do setor, somos uma empresa muitíssimo preparada para essa fase”.
Tivemos dois ciclos, duas fases nesta jornada. Uma de procurar assegurar que havia futuro e depois uma outra já de crescimento e de afirmação e, portanto, estamos hoje justamente nessa fase
Deixando o futuro à parte, a conversa é sobre o balanço dos anos na liderança dos correios e João Bento fala precisamente em fases. “Tivemos dois ciclos, duas fases nesta jornada”, refere. “Uma de procurar assegurar que havia futuro e depois uma outra já de crescimento e de afirmação e, portanto, estamos hoje justamente nessa fase”.
João Bento, que já era membro não executivo do conselho de administração da empresa de correios, chegou ao cargo de CEO dias depois da demissão de Francisco Lacerda ainda antes do final do mandato e num período de grande incerteza para os CTT e de desenvolvimento de um plano estratégico que passava por uma racionalização da rede para responder à queda do tráfego postal.
Numa apresentação sobre o balanço do mandato, a empresa destaca a evolução a partir de uma forte dependência de um negócio em declínio acelerado (correio) para um portefólio equilibrado e diversificado, com foco estratégico na logística de e-commerce.
Em 2019, o correio representava cerca de dois terços das receitas e no terceiro trimestre de 2025 representava apenas um terço, sublinham os CTT, vincando que a transformação é ainda mais visível nos resultados operacionais.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
“Aspirações de serem um líder faz sentido”, diz analista
Para António Seladas, fundador da AS Independent Research, “em geral o desempenho do CEO foi muito forte“.
“Pela positiva, sem dúvida o empenho do CEO na divisão de encomendas e o desempenho desta no mercado Ibérico, as aspirações de serem um líder faz sentido“, explica Seladas ao ECO. “Trata-se de uma área com uma dinâmica muito forte, com um negócio muito volátil ao longo do ano e com diferentes dinâmicas conjunturais, por conseguinte extrair valor desta área é difícil”.
Em sentido contrário, pela negativa Seladas destaca “talvez, a incompreensão do negócio do Banco CTT, com um brand fortíssimo, o Banco CTT deveria almejar conquistar um lugar relevante depois dos cinco principais nomes na banca portuguesa“.
Admite, no entanto, que para “fazer crescer um banco, num ritmo relativamente acelerado, são necessárias injeções de capital, que não aconteceram, pelo menos ao ritmo necessário”.
O analista acrescenta ainda “a necessidade de se reestruturar a unidade tradicional de correio, que julgo que o ritmo terá sido lento, apesar de reconhecer que deverão existir diversas pressões nesta área, mas o payback é curtíssimo”.
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“David controla e Golias deixa-se controlar”
Nenhum balanço fica completo sem definir alguns momentos altos e baixos e, apesar de alguma dificuldade inicial, João Bento partilha alguns com o ECO.
“Dois dos melhores momentos? Sei lá, foram tantos”, diz o gestor antes de avançar. “Talvez o primeiro, o momento em que ficou claro que tínhamos conseguido fazer o turnaround em Espanha, e até um bocadinho antes do tempo, nós tínhamos definido objetivos, limites de capex, por um tempo seguimos acompanhando e dando nota ao mercado, se estivesse a convergir continuávamos, se estivesse a divergir voltávamos ao assunto, e ficou bem antes do tempo”.
Bento realça a importância de perceber que havia uma oportunidade em Espanha, que os CTT tinham mercado e dimensão suficiente “para substituir o que o Correio nos ia fazer perder em Portugal pela quebra dos volumes”.
O segundo momento, explica, “foi em que fechámos a parceria com a DHL, porque é verdadeiramente transformador, na medida em que nós compramos a DHL eCommerce Solutions, a divisão que mais cresce do maior operador do mundo, em Portugal, e cruzamos participações em Espanha”
“Nós ficamos com a parte do B2C, que é a que mais cresce, eles a B2B, porque é isso que cada um de nós faz melhor”, salienta. “E não é muito vulgar, estou a dizer, uma parceria em que David controla e Golias deixa-se controlar”.
“Jornada intensa de gestão” com Anacom
É toda uma jornada intensa de gestão de um presidente da Anacom, que mostrou ser uma pessoa pouco preparada para as funções que desempenhou, muito irracional, colocando as suas preferências políticas pessoais acima daquilo que eram os seus deveres enquanto regulador
Questionado sobre o momento mais difícil dos seis anos, João Bento não hesita e fala sobre a relação com João Cadete de Matos. “Bem, não há um momento, é toda uma jornada intensa de gestão de um presidente da Anacom que mostrou ser uma pessoa pouco preparada para as funções que desempenhou, muito irracional, colocando as suas preferências políticas pessoais acima daquilo que eram os seus deveres enquanto regulador”.
“Nós gerimos, no nosso caso, com bastante sobriedade, e mantendo uma relação pessoal sempre de cordialidade”, revela. “Mas o que nos fez aí é difícil”, desabafa.
“Há um exemplo que eu gosto muito de dar. No ano de covid, os volumes de correio caíram 16,5% e a Anacom permite-nos um aumento de 1,1%”, recorda. “Está tudo dito. Difícil lutar contra isso? Não foi difícil, mas tivemos que lutar”.
“Acionista ferrenho”
Em jeito de conclusão, João Bento não deixa de elogiar “a equipa de liderança importante, muito forte” e da qual fez parte Guy Pacheco, o CFO que o vai suceder como CEO esta quinta-feira.
“Isso é também um aspeto que ainda me deixa particularmente tranquilo, e é por isso que aliás eu pretendo manter-me um acionista ferrenho dos CTT”.
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Parceria com ‘Golias’ DHL e a ‘jornada’ com Cadete. Os momentos altos e baixos nos CTT, segundo João Bento
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