Os principais bancos centrais vão manter inalteradas as taxas de juro, mas as reuniões desta semana servirão para sinalizar como veem os impactos da guerra no Médio Oriente.
- Os principais bancos centrais do G7 reúnem-se esta semana, mas espera-se que mantenham as taxas de juro inalteradas devido a incertezas globais.
- Os analistas preveem que a Reserva Federal dos EUA e o Banco de Inglaterra não alterem as taxas, enquanto o Banco do Japão pode rever as suas perspetivas de inflação.
- A situação no Médio Oriente poderá influenciar futuras decisões de política monetária, com riscos de estagflação e pressões inflacionárias a serem monitorizados de perto.
“Esta semana, praticamente todos os principais bancos centrais que podem reunir-se vão fazê-lo“, escreveu Hans-Jörg Naumer, diretor de global capital markets & thematic research da Allianz Global Investors (GI). Para os analistas do Deutsche Bank – a par dos resultados de empresas que representam 44% do capital do índice acionista americano S&P 500, incluindo os das chamadas ‘sete magníficas’ tecnológicas, e das notícias da guerra no Médio Oriente – reuniões dos bancos centrais de todos os países do G7 tornam esta numa semana blockbuster.
O Banco do Japão (BoJ) anunciou as decisões da reunião na madrugada desta terça-feira, a Reserva Federal (Fed) americana no final da tarde de quarta-feira, enquanto o Banco de Inglaterra (BoE) e o Banco Central Europeu (BCE) apresentam à hora de almoço de quinta-feira. Mas quem espera grandes alterações às taxas de juros desengane-se, a tendência é de manutenção.
“Prevê-se que todos mantenham as taxas de juro inalteradas, mas a questão fundamental será saber de que forma a função de reação de cada banco central será influenciada pelo conflito e pelos riscos de estagflação associados”, referiram os analistas do Deutsche.
Na mesma linha, os do britânico Lloyds Bank escreveram que “não se prevê que nenhum dos principais bancos centrais altere as taxas de juro na próxima semana, mas as suas orientações sobre o equilíbrio de riscos para a política futura serão acompanhadas de perto“. Explicaram que os mercados monetários atribuem uma probabilidade de cerca de 10% a subidas das taxas de juro por parte do BoE e do BCE, uma probabilidade ainda menor de uma intervenção por parte do BoJ e nenhuma perspetiva de aperto monetário por parte da Reserva Federal dos EUA .
Até ao final de 2026, os mercados descontam dois aumentos de 0,25 pontos percentuais para o BoE e o BCE, quase dois para o BoJ e cerca de 30% de probabilidade de um corte nas taxas da Reserva Federal.
“Os decisores de política monetária sinalizaram margem para esperar e avaliar como a situação no Médio Oriente evolui e como o conflito se repercute na economia em geral“, sublinharam os analistas do Lloyds. “Uma resolução rápida da guerra e efeitos de inflação de segunda ordem limitados aliviariam a pressão para endurecer a política monetária e redirecionariam a atenção para os riscos de crescimento”.
Por outro lado, uma perturbação prolongada no abastecimento energético global e pressões de preços mais generalizadas aumentariam a probabilidade de uma resposta política, potencialmente já no verão, concluíram.
Leia aqui o que esperar das reuniões dos principais bancos centrais (em ordem cronológica das reuniões):
Banco do Japão
Anúncio: Terça, 28 de abril, 04h00 (de Lisboa)
Taxa de juro atual: 0,75%
Para Hans-Jörg Naumer, da Allianz GI, era provável que o Banco do Japão tivesse a tarefa menos difícil. “A trajetória das suas taxas continua a apontar para um aumento cauteloso; no entanto, a sua abordagem é tão cautelosa que pouco se espera da reunião desta semana”, explicou.
O Banco do Japão não surpreendeu e manteve as taxas de juro inalteradas esta terça-feira, mas três dos nove membros do seu conselho propuseram um aumento dos custos de financiamento, sinalizando as preocupações dos decisores políticos face às pressões inflacionistas decorrentes do conflito no Médio Oriente.
O banco central liderado por Kazuo Ueda também reviu significativamente em alta as suas previsões de preços e salientou a necessidade de vigilância face ao risco de um excesso de inflação, sinalizando uma forte probabilidade de um aumento das taxas nos próximos meses.
“Embora o Banco do Japão tenha mantido as taxas inalteradas, os três votos dissidentes destacam as tensões que os responsáveis monetários enfrentam”, afirmou Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC em Hong Kong, citado pela Reuters, referindo que os choques energéticos estavam a alimentar a inflação e a restringir o crescimento.
“Dadas as elevadas expectativas de inflação no Japão, que aumentaram ainda mais devido à crise energética, o BOJ terá de aumentar as taxas de juro oportunamente para evitar que as pressões sobre os preços continuem a aumentar”, afirmou.
Reserva Federal dos EUA
Anúncio: Quarta, 29 de abril, 19h00 (de Lisboa)
Taxa atual: 3,50% a 3,75% (Federal Funds Rates)
“Não há praticamente nenhuma hipótese de o Federal Reserve alterar as taxas de juro na reunião“, afirmou a Oxford Economics num relatório divulgado a 24 de abril e por isso, a tarefa centrar-se-á em “tentar extrair quaisquer indícios sobre futuros movimentos de política monetária da declaração de política do banco central ou daquela que poderá muito bem ser a última conferência de imprensa pós-reunião do presidente da Fed, Jerome Powell”.
“Iremos procurar qualquer indício de que a avaliação dos riscos para as suas perspetivas, feita pelos responsáveis do Fed, tenha mudado desde a reunião de meados de março», escreveu Nancy Vanden Houte, economista principal para os EUA na Oxford Economics. Nessa reunião, os membros do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) concluíram que os riscos de subida da inflação e os riscos de descida do crescimento tinham aumentado desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.
Matthew Ryan, head of market strategy na Ebury, espera que Powell “adote um tom moderadamente mais agressivo durante a conferência de imprensa, tendo em conta os riscos de subida da inflação decorrentes da guerra“.
Tal como fez em março, provavelmente irá apresentar o choque energético como um fator complicador, em vez de necessariamente um motivo para agir, e espera-se que se concentre fortemente na perspetiva da incerteza, em vez de tentar diretamente quantificar a magnitude do pico de inflação, acrescentou.
“Isto, acreditamos, ajudará Powell a transmitir aos mercados uma disposição para agir caso a inflação persista, ao mesmo tempo que sugere uma linha de base para uma manutenção prolongada, enquanto a Fed avalia o impacto da guerra na economia”, concluiu.
Banco de Inglaterra
Anúncio: Quinta, 30 de abril, 12h00 (de Lisboa)
Taxa de juro atual: 3,75%
O início da guerra no Irão terá, quase certamente, posto fim à tendência inicial do Banco de Inglaterra de proceder a novos cortes na taxa de juro de referência este ano, segundo o Lloyds. “Em vez disso, a intensificação das pressões inflacionistas – impulsionadas principalmente pelos preços mais elevados da energia e pelos custos crescentes dos bens com elevada dependência das importações – obrigou o Comité de Política Monetária (MPC) a adotar uma postura mais defensiva”.
Tendo anteriormente previsto um corte de 25 pontos base na próxima reunião de política monetária de abril, o LLoyds espera agora que o MPC “cerre os dentes” perante a inflação mais elevada este ano e mantenha a taxa de juro de referência inalterada em 3,75%.
De forma mais geral, “a incerteza em torno do desfecho do conflito com o Irão significa que a política monetária deverá permanecer num patamar de estagnação durante um período prolongado, com uma forte probabilidade de as taxas de juro permanecerem inalteradas durante todo o ano de 2026”.
Os analistas do banco neerlandês ING recordaram, contudo, que os mercados financeiros estão novamente a prever pelo menos duas subidas das taxas de juro pelo Banco de Inglaterra este ano. “O governador Andrew Bailey não vai gostar disso, mas, com a crise em curso no Médio Oriente, duvidamos que o banco venha a contrariar significativamente as expectativas do mercado na sua reunião de 30 de abril”, vincaram.
Banco Central Europeu
Anúncio: Quinta, 30 de abril, 13h15 (de Lisboa)
Taxa de juro atual: 2,00% (taxa de facilidade de depósito)
O BCE deu a entender que não tomará medidas na reunião do Conselho de abril, segundo os analistas do Deutsche Bank. “Existe demasiada incerteza, por um lado, quanto à evolução do conflito no Médio Oriente e ao seu impacto nos preços da energia e, por outro, quanto à possibilidade e à forma como o choque nos preços da energia se propagará à inflação”, escreveram, prevendo que o BCE irá aguardar e recolher mais informações antes de decidir, em junho, se deve ou não endurecer a política monetária.
Hans-Jörg Naumer, da Allianz GI, explicou que os mercados continuam divididos quanto ao desfecho do braço de ferro entre as ‘pombas’ e os ‘falcões’, ou seja os que preferem taxas de juro mais baixas e os que as preferem mais altas. “Tal como sugerem os recentes comentários vindos de Frankfurt, a resposta do banco
parece depender do preço do petróleo e, por conseguinte, do desenrolar da guerra no Irão — se o preço do petróleo se mantiver próximo do cenário de base do BCE, a taxa de depósito deverá permanecer inalterada”.
Se evoluir para o cenário de stress, seriam de esperar sinais precoces e ponderados, explicou Naumer. “No caso de um aumento acentuado, seria de esperar uma reação notavelmente mais ‘falcão’ por parte dos decisores políticos europeus”.
(Notícia atualizada às 07h30 com decisão do Banco do Japão)
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Pare, escute e olhe. Bancos centrais obrigados a pausar para avaliar se a guerra passa
{{ noCommentsLabel }}