Paula Rego, porcelana rara, joias únicas e até um faqueiro real. O que ver na LAAF em 2026
A LAAF - Lisbon Art & Antiques Fair regressa à Cordoaria Nacional com 39 expositores, mais de 5.000 peças e a ambição de se afirmar como evento cultural. Antes da abertura, já há vendas fechadas.
É uma azáfama. No interior da Cordoaria Nacional, há pintores a dar uma segunda demão de tinta em tons terra nas paredes da feira, letras a serem coladas com o nome do evento, pessoas de luvas brancas a pousar peças delicadas sobre as suas mesas, aspiradores ligados e um entra e sai de caixas. Junto ao pórtico, à entrada, dois polícias zelam pela segurança. Esta sexta-feira à tarde, tudo deverá estar pronto para a inauguração da 23.ª edição da LAAF — Lisbon Art and Antiques Fair, organizada pela Associação Portuguesa de Antiquários (APA). A feira abre ao público este sábado às 15h00. Há um ano, cerca de 15 mil pessoas passaram por aqui.
Tomás Branquinho da Fonseca, antiquário, membro da direção da APA e da comissão organizadora da LAAF, conduz a visita do ECO Avenida aos 2.000 metros quadrados da feira, que descreve como “um momento importante do ano” para os participantes. Embora não existam dados oficiais sobre o volume global de vendas, os expositores reconhecem a importância comercial da LAAF ao longo dos seus 10 dias de duração.
O negócio pode até começar antes da abertura ao público. “Vendemos os leões”, anuncia Miguel Arruda, dirigindo-se a Tomás Branquinho da Fonseca durante a visita, numa referência a duas esculturas de mármore do século XIX, de grandes dimensões, colocadas em lugar de destaque no seu espaço. “Vamos retirá-las já”, planeava o antiquário, com mais de quatro décadas de experiência.
A APA investe cerca de 300 mil euros na organização deste evento, segundo Tomás Branquinho da Fonseca. Este ano, entre os 39 expositores, há duas presenças inéditas com peso institucional: o Palácio Nacional da Ajuda, com uma tapeçaria e um trono, e o Museu do Chiado, com um conjunto de peças de arte contemporânea. “Queremos que este seja um evento cultural, e não apenas comercial, embora também o seja”, afirma.
Também se estreiam na feira a galeria Arte em Ação, com obras de Vieira da Silva e Manuel Cargaleiro, e a Rosior, que leva à LAAF a sua alta joalharia. “Precisamos de mostrar um bocadinho do trabalho de alta joalharia que se faz em Portugal”, diz José Rosas, responsável pela marca e filho do fundador. “A empresa foi fundada pelo meu falecido pai em 1978, mas a família está neste negócio desde 1890. Somos a quinta geração a trabalhar nisto”, acrescenta. A presença na LAAF funciona, explica, como cartão de apresentação de uma casa mais habituada a mostrar-se fora de portas. “Neste momento fazemos 130 peças únicas de joalharia por ano. Vamos ter aqui uma apresentação de 60.”
Na LAAF encontram-se peças de tempos tão recuados como a cruz do século XIV que Luís Alegria levou do Porto para o seu stand. Aqui, as porcelanas sobressaem e o antiquário chama a atenção para uma taça azul e branca “do período Tianqi, de 1621 a 1624, feitas normalmente na China, mas para o Japão”. O mais interessante? “Tem a caixa original dela, de 1620 e tal. Isto é muito raro a parecer”, diz.
Mesmo em frente, no stand de José Sanina, sobressaem duas portas altas. “São cancelas de saguão, do século XIX”, precisa o antiquário. Entre as suas peças de maior relevo está ainda um retrato de D. João VI assinado por Simplício Rodrigues de Sá, que apresenta como um dos dois exemplares conhecidos do pintor com o monarca. O outro, diz, está na Real Academia do Rio de Janeiro. Simplício Rodrigues de Sá, considerado o melhor retratista do seu tempo, foi discípulo de Jean-Baptiste Debret e integrou o núcleo de alunos associado ao pintor francês.
Ainda na pintura, Tomás Branquinho da Fonseca apresenta, por exemplo, a obra de Paula Rego presente nesta edição da feira: Ilha do Tesouro, de 1972, exposta pela primeira vez em 1974, na Sociedade Nacional de Belas Artes, que integrou várias mostras da artista, incluindo uma retrospetiva na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.
A pintora portuguesa está também representada no stand de Manuela Verde Lírio com o quadro A freira, “uma obra anti-salazarista, datada de 1963, de uma importância histórica extremamente relevante, suportada por vários documentos de época, inclusive um certificado manuscrito pela própria artista Paula Rego”, de acordo com a galerista Manuela Lírio ao ECO Avenida.
Paula Rego pode ser vista também na Aristopassagem. Neste caso, segundo a galeria, a obra “corresponde a um dos figurinos desenhados pela artista Paula Rego na única cooperação que a autora fez com artes de espectáculo, neste caso com a Companhia de Bailado da Gulbenkian”, para o bailado Pra lá e pra cá, de 1998 (e integrou a exposição Pra lá e pra cá na Casa das Histórias de Paula Rego, que reuniu todos os elementos do projecto e encontra-se representada no catálogo da mesma).
Entre as peças que prometem atrair mais atenções está também um “raro faqueiro real em ouro do reinado de D. João V”, apresentado pela Galeria São Roque. A relevância do conjunto é tal que, esta quinta-feira, ainda só tinha reservado o seu lugar numa vitrina do stand, ao lado de um exemplar do livro que lhe é dedicado e que será lançado durante a LAAF, Magnânimo — Um faqueiro de ouro para o rei de Portugal, coordenado por Hugo Miguel Crespo.
Trata-se de um conjunto “composto por talheres em ouro, conservando o seu estojo original em madeira revestido a veludo de seda carmesim e galão em fio de prata”, de acordo com a galeria, em comunicado. “Associado à magnificência da corte joanina, este conjunto constitui um testemunho singular do luxo régio português do século XVIII e da excelência da ourivesaria lisboeta do período”, refere a São Roque.
Tal como as mais de 5.000 peças presentes na feira, também este faqueiro passou pelo comité de peritagem da LAAF, composto por 15 especialistas de várias áreas, que esta semana analisaram e certificaram cada objeto exposto. “Todas as peças foram vistas por uma comissão de peritagem das várias áreas, que garante que o que está escrito e a forma como as peças são descritas correspondem efetivamente ao que elas são”, explica Tomás Branquinho da Fonseca.
A autenticidade e a confiança continuam, aliás, a ser temas centrais num mercado onde a reputação vale tanto como a raridade. “Quanto mais informação existir sobre falsificações, quanto maior for o conhecimento do público e dos compradores, mais se evita que as pessoas possam ser enganadas”, sublinha o antiquário.
Essa preocupação estende-se também ao programa paralelo da feira (que pode ser consultado aqui). Na quinta-feira, dia 14, às 18h00, fala-se de falsificações no mercado da arte no auditório da LAAF. A feira decorre até 17 de maio, na Cordoaria Nacional, em Lisboa, e os bilhetes custam 15 euros na modalidade individual e 25 euros no bilhete duplo com catálogo.
(Notícia atualizada no dia 11 de maio, às 13h10, com informações sobre o quadro A Freira, de Paula Rego. Ao contrário do que a o ECO Avenida escreveu, a pintora também está representada no stand de Manuela Verde Lírio e no da Aristopassagem na LAAF).
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