Perfil “defensivo” torna Galp na petrolífera europeia que menos valorizou com a guerra

Preços do crude deram ganho de 6,81% com a guerra, mas perfil avesso aos benefícios (e custos) da volatidade fez Galp subir menos que pares. Brasil, Namíbia e Moeve ainda são potenciais 'triggers'.

Em 48 dias de guerra no Médio Oriente, pelo menos 13 aumentos (e um solitário corte) nos preços-alvo, um novo recorde da cotação e uma valorização de 6,81%. A Galp não tem exposição direta à disrupção da produção de crude no Golfo Pérsico mas as ações da petrolífera portuguesa têm beneficiado da subida dos preços provocada pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão desde 28 de fevereiro e pelo fecho do crucial Estreito de Ormuz, por onde passava um quinto do comércio mundial de hidrocarbonetos.

“É improvável que o mercado petrolífero volte ao regime que prevalecia antes do recente conflito“, referiram os analistas do Morgan Stanley. “Seja qual for o rumo que os acontecimentos tomem a partir de agora, as últimas semanas alteraram a forma como os investidores devem encarar o Estreito de Ormuz, a capacidade de reserva efetiva e o valor de um abastecimento seguro de petróleo”.

Numa nota de análise com o título ‘Choque Estreito, Impacto Duradouro’, de 26 de março, os analistas do banco de investimento americano recordaram que, durante décadas, o encerramento do Estreito de Ormuz foi considerado um risco extremo: concebível em teoria, mas operacionalmente improvável na prática, e que grandes conflitos ocorreram no Médio Oriente sem perturbar significativamente o fluxo de petróleo através desse canal.

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“O mercado aprendeu agora algo que não pode facilmente esquecer: o fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz pode, de facto, ser interrompido e dado o volume de petróleo envolvido, isso equivale a uma reavaliação estrutural do risco geopolítico nos mercados petrolíferos”, escreveram na nota em que explicaram que vêem agora o setor petrolífero na Europa como ‘Atrativo’, uma melhoria face ao anterior ‘Em Linha”.

Nessa revisão da avaliação do setor, o Morgan Stanley subiu o preço-alvo para as ações da Galp em 14%, para 24 euros cada (face aos anteriores 21 euros e aos atuais 19,46 euros), a segunda melhoria mais alta das 14 casas de investimento que alteraram o price target para os títulos da empresa desde o início da guerra. A grande fatia das revisões foram em alta, numa média de 14,14% para 21,7 euros, e com base em novas previsões para os preços do petróleo Brent – referência para a Europa – para este ano e o próximo. O Morgan Stanley, por exemplo, vê o barril a negociar nos 90 dólares no final de 2026 e nos 80 dólares em dezembro de 2027.

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O banco suíço UBS, que coloca o preço do barril de Brent nos 80 dólares no final do ano, alertou contudo que existe “uma elevada incerteza” em relação às previsões, dependendo da evolução do conflito, das infraestruturas energéticas que forem afetadas e do momento em que os fluxos através do estreito forem retomados. “Uma interrupção prolongada aumentaria o risco de um aumento excessivo dos preços a curto prazo, com o Brent a poder chegar a ser negociado acima dos 150 dólares por barril, ao mesmo tempo que aumentaria a probabilidade de uma queda da procura”, vincou.

A par do benefício da alta dos preços, a Galp deveria, pelo menos em teoria, estar a retirar vantagem pelos seus principais ativos de exploração e produção estarem no Brasil e em África, ou seja, longe da zona de guerra no Golfo. Os analistas do Morgan Stanley calculam que entre as majors europeias de petróleo e gás a maior exposição à disrupção no Médio Oriente – nomeadamente em campos nos Emirados, Qatar, Iraque e Omã – é da francesa TotalEnergies, que produz 24% do seu total nessa região, ligeiramente à frente das britânicas Shell (23%) e BP (19%), enquanto a região representa 4% do output da italiana Eni. Já os analistas do Goldman Sachs sublinharam que a norueguesa Equinor, a espanhola Repsol e a Galp “não têm qualquer exposição a essas geografias”.

Se esses dois aspetos positivos poderão estar a beneficiar a cotação da Galp, que bateu um novo máximo histórico a 19 de março nos 22,16 euros, também podem estar na base no subdesempenho relativo da ação da empresa co-liderada por Maria João Carioca e João Diogo Marques da Silva face aos pares europeus. Desde o fecho de 27 de fevereiro a petrolífera portuguesa avançou 6,81%%, longe dos 12,28% do índice setorial Stoxx Europe 600 Oil and Gas e ainda mais distantes dos disparos de empresas como BP, ENI ou Equinor.

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O que explica esta valorização relativamente menor? O contexto de pricing e o cenário macroeconómico mudou nas últimas oito semanas com a guerra, mas os perfis das petrolíferas não se alteram tão rapidamente e definem como cada uma é afetada. No caso da Galp, o Morgan Stanley, por exemplo vê esse perfil como defensivo.

“Embora continuemos a apreciar certos aspetos da trajetória da Galp (crescimento da produção, resiliência financeira nos próximos anos, reestruturação do setor a jusante), consideramos que a ação é provavelmente demasiado defensiva para o atual contexto“, escreveram os analistas do banco, cortando a recomendação para ‘Equalweight‘, de ‘Overweight‘. Em sentido contrário, promoveu a recomendação para as ações da Repsol para ‘Overweight’, sublinhando que prefere a petrolífera espanhola à portuguesa, porque poderá oferecer uma melhor remuneração aos acionistas e beneficiar de desenvolvimentos na Venezuela.

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Para o Caixa Banco de Investimento (BI), “a avaliação da Galp mantém-se ancorada em pressupostos de preços das matérias-primas a meio do ciclo, o que, por definição, limita a influência da volatilidade de curto prazo – quer ascendente, quer descendente”. Numa nota de 18 de março, a casa de investimento portuguesa até cortou o preço-alvo para a Galp para 18,40 euros de 18,50, esclarecendo que a avaliação inclui apenas os ativos e negócios da empresa e exclui ajustes ligados “a desvios temporários do mercado que se qualificam como valores atípicos num quadro de análise a meio do ciclo”.

No entanto, para efeitos ilustrativos, o Caixa BI adiantou que a incorporação do atual ambiente de preços do petróleo (com o Brent perto de 100 dólares por barril) “implicaria um valor justo de cerca 23 euros por ação – com potencial de valorização adicional caso tenhamos também em conta o aumento contínuo das margens de refinação”.

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A análise do Caixa BI foca no histórico da cotação da Galp nos meses que antecederam o conflito no Médio Oriente e que pode ajudar a perceber o subdesempenho relativo.

” A troca de ativos com a TotalEnergies, em dezembro de 2025, suscitou uma reação negativa do mercado devido à ausência de um pagamento inicial pela participação de 40%
no projeto Mopane, na Namíbia, mas também clarificou o quadro para uma avaliação mais realista”, notou o analista Carlos Jesus. “A subsequente queda no preço das ações da Galp foi parcialmente compensada pelo anúncio da combinação no downstream com a espanhola Moeve“, sublinhou.

A Galp e os acionistas da Moeve — a Mubadala Investment Company e o The Carlyle Group — anunciaram a 8 de janeiro que chegaram a um acordo não vinculativo para avançar com discussões detalhadas sobre a potencial fusão dos seus portefólios de downstream e criar “duas empresas líderes de energia na Península Ibérica: a RetailCo e a IndustrialCo”. A petrolífera portuguesa informou que, havendo acordo, ficará com cerca de 50% da nova plataforma de retalho (a RetailCo) com 3.500 estações de serviço na Ibéria e pelo menos 20% da empresa industrial a ser criada para a refinação e o trading (a IndustrialCo).

Para o Caixa BI, a Galp tem um trio de fontes de criação de valor. A maior é o Brasil, com o arranque do Bacalhau, projeto que começou a produzir em outubro passado e que tem reservas recuperáveis estimadas em mais de mil milhões de barris e deverá contribuir com 40 mil barris diários para a produção da Galp. “O pré-sal continua a apresentar volumes e rentabilidade elevados devido às características dos reservatórios, nomeadamente longos períodos de produção estável e taxas de declínio moderadas”, referiu.

A Namíbia constituirá a segunda fase da maturidade produtiva da Galp, “mais do que compensando o declínio natural dos campos pré-sal, em particular o de Tupi”, escreveu Carlos Jesus, explicando que a produção estimada (líquida para a Galp) no país “é de uma ordem de grandeza semelhante à do Brasil – embora se situe num horizonte temporal mais distante – e com um potencial de crescimento substancial”.

Em relação ao potencial acordo com a Moeve, o Caixa BI acredita que “o valor incremental decorre não só das sinergias operacionais, mas também de um cenário base otimizado que permite a concretização de oportunidades de crescimento mais sólidas”.

Segundo os dados compilados pelo ECO, o potencial de médio de valorização das ações da Galp, tendo em conta o fecho de quinta-feira nos 19,46 euros e a média dos preços-alvo revistos desde o início dos ataques ao Irão é de 11,51%. O atingir desse potencial dependerá também, naturalmente, da apresentação de resultados e, nesse campo, a Galp apresentou recentemente dados promissores.

De acordo com o trading update divulgado esta segunda-feira em antecipação dos resultados referentes ao primeiro trimestre de 2026, que serão tornados públicos a 27 de abril, a margem de refinação mais do que duplicou, entre janeiro e março, face ao período homólogo, passando de 5,6 para 14,8 dólares por barril e superando o consenso dos analistas de entre 10 e 11 dólares por barril.

Já a produção, maioritariamente composta por petróleo (87%), atingiu 129 mil barris por dia, um número que compara com os 105 mil barris diários contabilizados nos primeiros três meses de 2025. Trata-se de um aumento homólogo de 23% e de 14% face ao trimestre anterior.

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